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7 de agosto de 2020

RESENHA • TAROT - THE LIBRARY OF ESOTERICA [TASCHEN, 2020]

 


TASCHEN, maior editora de livros de arte do mundo, só atira se for para acertar. Com a THE LIBRARY OF ESOTERICA, tende a ficar difícil resistir às obras temáticas em relação aos assuntos que amamos. E o que mais amamos é justamente o primeiro lançamento do selo: “TAROT”, escrito por Jessica Hundley com ensaios de Penny Slinger, Marcella Kroll e Johannes Fiebig, com citações de pensadores, criadores de baralhos e milhares de imagens.



 


O livro, de 520 páginas coloridas e em capa dura, é dividido em quatro partes. A primeira é uma introdução ao oráculo partindo de verbetes breves sobre sua história e fechando com uma linha do tempo centrada na produção intelectual do hemisfério norte. A segunda percorre a simbologia dos 78 arcanos com centenas de pinturas e cartas conhecidas ou não do grande público, provando a pluralidade de interpretações de cada arcano. A terceira cobre os artistas, literatos e esotéricos partindo de 1700, com Gébelin e Etteilla até Dalí, Calvino, Andy Warhol e chegando a 2020 com Jodorowsky e Patti Smith. A quarta e última parte, como não poderia deixar de ser, põe as cartas na mesa: o Tarot enquanto ferramenta do destino, linguagem visual e a criação de significado no sacro ofício de leitura dos arcanos.


 


Mas vale lembrar que este é um livro de arte, não um manual. Ele mapeia o Tarot nos principais e nos mais inusitados museus e bibliotecas do planeta, resultando em uma espécie de enciclopédia de cores, formas e filosofias ancorados na estrutura clássica do baralho filosófico. Um livro não definitivo — o único livro perfeito de Tarot é ele próprio —, mas um compêndio necessário. Ele passa o filminho dos 600 anos de vida do Tarot para validá-lo, sem dúvida ou receio, como tradição. Templo de expressão artística universal. Patrimônio espiritual da humanidade. Maquinário vivo da linguagem simbólica.


Tarot, presente. E com um futuro brilhante, por sinal.




© Leo Chioda • @cafetarot




Review: Leo Chioda • @cafetarot

Translation: Edoardo Valmobida


14 de fevereiro de 2016

CARTAS DE AMOR

CONIUNCTIO 
capa do álbum New Skin for fhe Old Ceremony
Leonard Cohen, 1974




















Uma carta de amor nunca é inocente. Com essa verdade o escritor argentino Alberto Manguel fundamenta um ensaio homônimo, sugerindo encarar a correspondência amorosa como gênero literário nunca dantes navegado. É preciso estipular suas regras, seus labirintos de rosas regadas a tinta esferográfica e, mais que nunca, suas revelações — de quem lê e de quem é lido. Porque cartas de amor descortinam identidades ao longo do mundo. Semblantes floreados de loucura, de desejo, de tristeza e de pertencimento. Sim. Sendo amantes, gozamos todos da faculdade de nos apaixonarmos. Homo amans por natureza. 

The Love Letter
Carl Spitzweg

Cartas de amor. Por toda a história da leitura há cartas de amor. Entre os primeiros vestígios de escrita estão relatórios contábeis e, claro, correspondências amorosas. Não à toa. De procedimentos mágicos a fórmulas químicas, o homem até tenta reduzir atração física e afetiva a cálculos, produtos e problemas cada vez mais insolúveis. 

Desde a Antiguidade é frequente o apelo aos meandros da superstição para trazer a pessoa amada ou mesmo para afastar quem não é do agrado. Ovídio já se indagava a respeito dos conjuros de amor. Palavras seguidas de diversos protocolos sombrios. As defixionum tabellae, ou 'maldições romanas'Teria sido algum veneno tessálico que tornou assim fraco aquele homem? Ou alguma feiticeira teria gravado seu nome em tábuas de cera vermelha e cravado agulhas no desenho cordiforme? Desde o sempre dos tempos existe a relação entre a magia e a poesia. Faz parte dos privilégios humanos tentar manipular elementos mais inusitados para rearranjar a Harmonia Macrocosmica a seu favor. Dentre os mais óbvios, estão as palavras. Palavras são flechas que se pode lançar, certeiras.  Dardos cupidos que ferem ou afagam. 

A escrita é feitiçaria. 


De Frida Kahlo para Diego Rivera



Escrevi pra ela, mas não sei se leu. Não me respondeu. 
Ela vai voltar pra mim? 

É esperado que o apaixonado escreva. Quando não aventura a pena pelas páginas, todas promissoras diante da grandeza incabida no peito, ele deseja saber de algum modo dos sentimentos de sua paixão — aquele ser vivente que arde aos seus olhos, carne amadíssima, o doce mais delicado, um anjo enquadrado para sempre. Especula-se a recíproca. Apaixonados são especuladores vivazes que recorrem aos conhecedores do destino. E tem-se o tema clássico de toda a vastidão da Cartomancia, o favorito e mais rentável entre os adeptos. O amor que escrevo. Amor que faz querer saber de cada passo dado. Interesse abrupto. Mil perguntas aos leitores de símbolos. Afinal, estamos sob a mesma abóbada conceitual da combinatória quando falamos dos extensos bilhetes deixados no meio caderno, no chão da garagem ou na caixa de correio e quando tratamos dos arcanos. A analogia funciona com o Tarô: são cartas de amor. Seja por sonetos arquitetados na madrugada ou por imagens arquetípicas embaralhadas à luz de velas, o apaixonado busca os dois lados do mesmo ouro: dizer o indizível; saber do palpável. 


The Chelsea Lenormand
MALPERTUIS

O que nos revela, então, uma carta de amor? Indagação preciosa a todo e qualquer oráculo que se preza à verdade. A voz de quem lê revela a voz de quem se espera. Mais que isso, uma carta de amor fortifica a terceira pessoa, a pessoa amada na qual se transforma o amante. O conúbio alquímico de substâncias desiguais. CONIUNCTIO — a união de opostos, a geradora de um novo membro. Da alma e do corpo ao papel. E o Grande Senhor d'OS ENAMORADOS que a tudo preside.


ALCHIMIE
Nicolas Flamel

É a Copa o receptáculo da substância primordial por excelência. Água. Em várias civilizações e cosmogonia, precede a própria criação — o primeiro componente. Fonte geradora da matéria. Liga-se ao naipe de Copas pela fluidez: inspira e também respeita as curvas do vaso sagrado. Mãe da Estética. Regente do potencial criativo. Senhora absoluta das emoções. E se cabe um breve tratado etimológico do naipe, 'copa' vem do latim cupa. Precisamente 'vasilha grande'. Estamos diante do Cálice, o recipiente passado de mão em mão quando se bebe e se brinda. Símbolo da amizade e sugestão de solidariedade. Il Sangue di Cristo. Ambivalente por remeter tanto à ira quanto à alegria, na Bíblia. Taças diversas para expressar os humores de Deus. Os nossos.





Estamos, pois, na plataforma dos líquidos. Sangue, saliva, sêmen, lágrima. Tinta com que se escreve. O recinto do mênstruo. E como nada é à toa no Tarô, em Copas se celebra o Grande Rito. E Copas é coração, por sua vez. The Suit of Hearts. A redoma, o centro de onde irradia a ação do indivíduo. Centro para onde convergem as informações recolhidas dos órgãos dos sentidos. Não à toa, os egípcios embalsavam os mortos mantendo o coração em seu devido lugar. A sobrevivência no Além era impensável sem o coração.



Love Letters in Hakone
Tamiko Braun

Se as Copas aludem aos fluidos subterrâneos — àquilo que se brota, viceja e se prolifera nos recônditos — na estrutura do Tarô elas descrevem e enaltece nosso universo interior: alma, desejo, fantasia, aspiração. Os planos de vôo passam pelo delírio e são por ele consentidos. Tudo o que envolve o âmbito sentimental está em Copas, inclusive aquilo que não conseguimos mensurar em atos prudentes ou mesmo expressar em palavras. O gozo, a saudade, a satisfação da pele. Frente à necessária postura prática para realizar aquilo que tanto se quer, os valores pessoais se suplantam. Inabalável a busca pela felicidade verdadeira. É a casta sirênica. Estrada Real de toda a Lírica. Justifica-se como o naipe dos poetas. 


L'amante nel'amato si transforma

Uma carta de amor nunca é inocente. Tanto que é copiada de modo ininterrupto ao longo dos tempos. Eis o princípio da imitação, também caro à literatura clássica. Molde que se transmuta aos poucos. Alguns dos mais belos versos da língua portuguesa, por exemplo, obedecem ao mesmíssimo princípio. Camões que bebe de Petrarca. Embora se mantenha algum racionalismo. Quem se escreve não se abandona totalmente ao fluxo emocional. Mesmo que uma seja escrita sob a égide do coração inflamado, a Razão parece sondar cada parágrafo. Tal processo também ocorre no Tarô: um baralho novo em folha pode trazer roupagens diversas de um mesmo arcano. Acontecem várias deformações simbólicas, mas aos olhos atentos de estudantes e colecionadores, essas novas visões das cartas tendem a acrescentar algo ao arcabouço de experiências. 



Ace of Vessels
The Alchemical Tarot

ROTEIRO AUSPICIOSO pelas cartas de amor

Estamos em Copas. Se é este o jardim encantado de Eros, podemos nos servir das cartas para inspirar os períodos mais significativos. Guiados pelas suas mãos de flechas, é quase certo chegar a grandiosas investidas na comunicação escrita.  Debrucemo-nos sobre o protótipo a seguir, um básico-clássico-anônimo:


Amor,

Te escrevo para demonstrar o quanto você é importante para mim. Eu te amo e quero estar com você. Casar, ter nossa família, nossa vida juntos. Quero estar cada minuto da minha vida ao seu lado, celebrando tudo o que a vida oferece. Quero estar com você para o que der e vier.Assim como quero dar conta das situações que se mostram todos os dias, sem deixar passar nada, porque só penso em estar bem com você. Sei que talvez seus sentimentos já não sejam os mesmos de antes, por tudo o que tem acontecido entre nós. Mas sei de uma coisa: quero que tudo volte ao que era, pois não há nada mais puro do que meu sentimento por você. Quero, de verdade, que sejamos o casal que desde o começo fomos destinados a ser. Sair conhecendo o mundo, vivendo intensamente nossas emoções, nossos desejos. Sem olhar para trás. Deixando todos os erros no passado. Esperando o melhor, dando o melhor para você e para nós. Você é minha felicidade. E eu só quero te fazer feliz. Quero ficar com você até o fim dos tempos. Você é a minha vida. 

Te amo para sempre.


As cartas numeradas de cada naipe do Tarô representam uma série de processos. Agora pode-se fazer uma incisão no texto, de acordo com cada arcano. Tem-se assim vários atributos das respectivas cartas na sua ordem numérica crescente. Duvida? Siga o acróstico.


The Tarot of Prague
Baba Studio

Ás. Te escrevo para demonstrar o quanto você é importante para mim. 

2. Eu te amo e quero estar com você. Casar, ter nossa família, nossa vida juntos.

3. Quero estar cada minuto da minha existência ao seu lado, 
celebrando tudo o que a vida oferece. Quero estar com você para o que der e vier.

4. Assim como quero dar conta das situações que se mostram todos os dias,
sem deixar passar nada, porque só penso em estar bem com você.

5. Sei que talvez seus sentimentos já não sejam os mesmos de antes, 
por tudo o que tem acontecido entre nós.

6. Mas torço para que tudo volte ao que era, 
pois nada na minha vida é mais puro do que meu sentimento por você.

7. Quero, de verdade, que sejamos o casal que desde o começo fomos destinados a ser. 
Sair conhecendo o mundo, vivendo intensamente nossas emoções, nossos desejos.

8. Sem olhar para trás. 
Deixando todos os erros no passado.

9. Esperando o melhor, dando o melhor para você e para nós. 
Você é minha felicidade. E eu só quero te fazer feliz.

10. Quero ficar com você até o fim dos tempos.
Você é a minha vida. Te amo para sempre.


Pois é. Nada à toa.
Quem disse que as Copas não são didáticas? Não, elas não se resumem a uma receita única, pronta. Escrever uma carta de amor é como uma leitura oracular: tem-se os símbolos à disposição; os contextos, as medidas e a performance são variáveis. Infinitas possibilidades. Se do Ás ao Dez temos cada etapa do processo da paixão — o rompante, a delícia, a quebra de expectativas, o desejo de consertar as coisas e ainda o ressurgimento da harmonia no coração —, as quatro figuras da corte é que de fato encenam o arrebatamento erótico. Toda destreza de uma performance querubínica. É a família de Copas que nos interessa e nos revela. As cartas numeradas estipulam sucessivos itinerários do sonho, mas são eles os regentes do Amor. Quatro vetores, quatro emissários. A realeza do âmago. O grande poder que insufla a Musa camoniana.













Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.




Pajem é aquele que anuncia. 
O primeiro, o mais novo, aquele que se entrega às emoções. Sincero, prestativo, delicado, passional. Se não é quem escreve, é quem entrega. Modelo de pombo-correio. Tem em si todos os sentimentos do mundo, ainda em gestação. O portador da mensagem. 












Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está ligada.



Cavaleiro é aquele que leva. 
O caminhante determinado a vivenciar o trajeto — aquele que alça vôo no próprio desejo. Sincero galante a galope, transmuta a vontade em performance. Leva a mensagem mas pode fazer-se remetente para enfeitiçar algum destinatário que lhe avassale o sexo e o peito.












Mas esta linda e pura semidéia,
que, como um acidente em seu sujeito,
assim como a alma minha se conforma,



Rainha é quem recebe. 
Imagem arquetípica da bruxa que ostenta seus filtros. É Circe, quase deusa.  E é Penélope — a que espera a mensagem, a que retém os segredos. Flana descalça pela praia, absorta no próprio amor. Ela faz um brinde aos mistérios. Senhora dos fluidos. 












está no pensamento como idéia:
[e] o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.




Rei é quem manda. 
Quem escreve e ordena que a mensagem chegue ao objeto amado. E, transformado nele, é a estrutura dos próprios sentimentos. Senhor e vassalo do coração devastado, do prazer definido, do romantismo administrado na carne. Embriaga-se, investe e demonstra.


Ainda entre os egípcios, acreditava-se que aconselhando, tonificando ou mesmo censurando o coração, ele se torna um ser independente, como se a essência divina aflorasse — o deus que habita em cada ser humano. E é em Copas que damos por esse caminho iniciático. 




Carta-puzzle de John Keats para Fanny Brawne
em
Brilho de uma Paixão, filme de 2009


Todas as cartas de amor são ridículas. Mas são tão sérias a ponto de revelar quem somos, o que desejamos e como vivenciamos o melhor da vida. Por isso mesmo não se deve subestimar as cartas de amor. Jamais. As primeiras que recebi ainda guardo, a seis chaves, no baú das correspondências mais puras. Talvez porque cada pedaço de afeto sobrevive no papel com mais destreza que na catedral da memória. E existindo nela, o coração se descobre mais forte, fazendo jus a si próprio. 


Uma carta de amor é o próprio Graal. 
A busca primeira, a magna condição da saga humana. Um poema condenado. O papel fundamental. 
O nácar da alma.





Nada é à toa nos braços do Amor. 
Nem no Tarô.










BIBLIOGRAFIA apaixonada


CENTENO, Yvette K. A Alquimia do Amor. A Regra do Jogo, 1982.
KING, Francis X. The Encyclopedia of Fortune-Telling. Gallery Books, 1988.
MAHONY, Karen. The Tarot of Prague. Xymbio, 2003.
MANGUEL, Alberto. História da Leitura. Companhia das Letras, 1997.
OVÍDIO. Amores & Arte de Amar. Penguin Companhia, 2011.
ROOB, Alexander. O Museu Hermético. Taschen, 2006.


31 de outubro de 2015

NOVE DE ESPADAS: O SEU PIOR PESADELO


NOVESPADAS • Leonardo Chioda
Colagem virtual a partir da imagem
'Königin der Schwerter, de Margarete Petersen 

Margarete Petersen Tarot • Königs Furt, 2002.


Mr. Sandman, bring me a dream 
Make him the cutest that I've ever seen 
Give him two lips like roses and clover
Then tell him that his lonesome nights are over.

Sandman, I'm so alone
Don't have nobody to call my own
Please turn on your magic beam
Mr. Sandman, bring me a dream.

The Chordettes, 1953.


Keri Tate é a diretora de um colégio particular em Summer Glen, bem afastado do agito californiano. De noite, ela sonha com seu gabinete. Sobre a mesa, um porta-retrato de seu filho John. Meia-noite em ponto no relógio: 31 de outubro. A câmera se aproxima do armário no outro extremo da sala. Ali, Keri vê uma garota desesperada tentando se esconder de um homem vestido de preto. Ele não fala. Seu único som é o da respiração por trás da máscara pálida e inexpressiva. Em sua mão esquerda, uma enorme faca de cozinha. Destruindo a porta de madeira do armário, a luz de fora revela o pavor da garota e o monstro dos olhos profundos tentando, alcançá-la com a lâmina. Seu nome é Laurie Strode, uma garota que trabalha de babá nas noites frias de outono. Uma faca aparece cravada no porta-retrato. Keri grita, forte e alto como faz há vinte anos, desde que a criatura silenciosa de rosto branco e olhos negros tentou matá-la pela primeira vez. Keri é a própria Laurie Strode, que forjou a própria morte e mudou de nome por medo de ser encontrada pela sombra, que não morre. Por saber que essa sombra é seu irmão, Michael Myers. 



Keri Tate/Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) confronta seu pesadelo depois de 20 anos. 

Essa é uma das cenas iniciais do filme Halloween H20: Vinte Anos Depois, lançado em 1998 para comemorar o vigésimo aniversário do Halloween original, filme de John Carpenter. Jamie Lee Curtis retoma a personagem que lhe rendeu a fama [inclusive de Rainha do Grito] e possibilitou a longa franquia estrelada por um dos serial killers mais assustadores do cinema. Laurie (agora Keri Tate) demora a despertar do sonho tão real que a leva ao encontro do seu irmão assassino. Aquele dos olhos do mal. É essa a atmosfera aterradora do passado e do porvir que o Nove de Espadas simboliza.

De longe o Arcano Menor mais temido de todo e qualquer Tarô [mais ainda que o Dez de Espadas, convenhamos], a cena concebida por Pamela Colman Smith é um convite a uma análise simbólica aprofundada, mesmo sendo frequentemente mal interpretada, como várias outras deste tão nefasto naipe. Não pela literatura esotérica séria, que até tem frequentado os conceitos tradicionais com relativa organização e respeito nos últimos anos, mas pelo achismo e até mesmo pelo medo que a imagem proporciona ao observador desatento. É comum detestar uma das imagens mais tristes do baralho, mas seu confronto é inevitável, cedo ou tarde. Até porque o Tarot pressupõe o contato visceral do leitor com seu objeto de leitura, que é a imagem. Definir limita, mas sugerir, com o devido cuidado, amplia as possibilidades de análise de todo e qualquer Arcano. Ainda mais quando se trata de Espadas. De nove espadas.


NOVE DE ESPADAS concebido por Pamela Colman Smith
Rider-Waite Tarot, U.S. Games, 1971.

Uma carta mal lida é como um sonho mal interpretado. Mensagens importantes podem passar despercebidas. Pensei nisso quando me deparei com o Arcano à espreita sobre a mesa. Sabe-se que nas artes plásticas a aproximação de elementos inesperados não é necessariamente satisfatória ou perturbadora, mas o incômodo desse cenário, em praticamente todos os Tarôs, é indiscutível. O exame atento da concepção artística de Smith causa dor aos olhos. Além das grades arranjadas pelas nove armas na parede escura e de uma espécie de écfrase na cena mitológica do estrado da cama — que sugere luta e derrota possivelmente injusta e cruel —, o que chama atenção é a colcha de retalhos, bem mais sugestiva do que aparenta. Em meio aos signos astrológicos bordados, indicando que os sintomas da carta são inerentes aos mortais de todos os signos [logo, a todos os mortais], flores vermelhas como sangue alegram o enxoval do quarto assombrado. Numa leitura feita de relance, qualquer um diria que são rosas, regentes milenares da paixão. Mas, com todo o respeito às opiniões divergentes em várias publicações, não temos rosas no Nove de Espadas do baralho Waite-SmithTemos papoulas.

Dorothy Gale vive em uma fazenda no Kansas com seus velhos tios e o cãozinho Totó. Sua ida a Oz ocorre quando a garotinha cai desacordada devido a um tornado que devasta a propriedade. Na terra mágica ela conhece grandes amigos como o Espantalho, o Homem de Lata e o Leão Covarde, logo companheiros de viagem até Cidade de Esmeralda. E é a Bruxa Má do Oeste que tenta impedir Dorothy e seus amigos de chegarem até lá para falarem com o grande Mágico. Um de seus perversos artifícios é o lindo campo de papoulas que encobre a Estrada de Tijolos Amarelos. Eis o plano maléfico: fazer com que a fragrância das flores encarnadas envolva Dorothy num sono eterno. Simples coincidência com o patchwork de símbolos de Waite/Smith? 


A colcha do Nove de Espadas e o (Mundo) MÁGICO DE OZ, clássico de 1938. Dorothy (Judy Garland) dormindo para todo o sempre no Campo de Papoulas Mortíferas. E a ilustração de W. W. Denslow, de 1902.

Oneiros em technicolor. Papoulas são muito mais auspiciosas do que aparentam. Não só obscuras por estarem ligadas ao ópio e à morfina, mas lendárias porque suas raízes mágicas se perdem no tempo. Papaver Rhoeas, flores dos sonhos. Hypnos, deus grego do sono, vinha representado com uma coroa delas, assim como Thanatos e Nyx. Sono, Morte e Noite, os três pilares de Morpheus, senhor dos sonhos, também ornado de papoulas. Tão associado a ele quanto a Ceres, que aceitou uma bebida feita da planta na tentativa de  se acalmar diante do rapto de Prosérpina, sua filha. Na linguagem das flores, simboliza o orgulho adormecido. Daí um vislumbre dos significados tradicionais do Arcano: culpa, arrependimento, tentativa de redenção e até mesmo aborto  um dos poderes dessa flor de sangue é o de impedir a vida. Uma bela maldição. 

Somewhere over the Darkness. Falando em Prosérpina, Dorothy descansa no Hades. Sem entrar no mérito das estranhas teorias conspiratórias envolvendo o filme que levou Judy Garland ao estrelato [apologia à cocaína, à magia negra e a outras maldades típicas], as flores inocentes de Pamela Smith confirmam: este é o portal da escuridão. Mental, porque Espadas. Catábase.

Culpa. Receio. Arrependimento que mata. Soluços de tristeza. Tudo no silêncio afiado da madrugada. Tirar as mãos do rosto e abrir os olhos pode ser mais assustador que os monstros internos. A realidade oprime, basta que algo saia dos conformes. Só o pesadelo se mantém. Surge de todos os lados. Prevalecem, então, outros atributos tradicionais da carta maldita: autoflagelação, aprisionamento e até possessão. Todas as aberrações sobre uma cama estão regidas pelo Nove de Espadas. Haveria lugar mais propício ao sobrenatural?


NOVE DE ESPADAS do sensacional Tarot of the New Vision | LoScarabeo, 2003.
Regan (Linda Blair), ícone do terror. O EXORCISTA | Warner, 1973.

Pesadelo é uma das palavras-chave mais comuns às nove lâminas. Etimologicamente, temos a sensação de "pesado", um sonho esmagador, mesmo que o termo pesadilla, do espanhol, chegue a parecer mais leve e menos perigoso. No grego moderno tem-se efialtes, também o nome de um importante político ateniense. Significa 'pesadelo' porque os aristocratas da cidade contavam que o líder democrata aparecia constantemente em seus sonhos. O incubus  latino é o demônio que oprime aquele que dorme, inspirando o pesadelo. No alemão é Alp que remete aos elfos, seres pequeninos acomodados sobre o peito do sonhador, suscitando os terrores. Já nightmare, tão famosa e apelativa, tem suas razões: night mare, égua da noite. Mas a raíz vai mais fundo e longe, bem de encontro ao escandinavo: niht mare ou niht maere, o demônio da noite. A ideia da origem diabólica para o pesadelo é dominante, percebe-se. A didática está toda presente na famosa tela de Henry Fuseli, The Nightmare. Só faltam as nove Espadas.


The Nightmare ( 1781) , de Henry Fuseli. 
Goethe Museum, Frankfurt.

A pessoa apavorada sobre a cama acorda DE UM ou EM UM pesadelo? Aí começa o jogo possível que o Tarot [sempre] proporciona. De forma crescente no naipe, vemos a pessoa ferida mortalmente e acordando no sonho. Ou do sonho da morte. Ou, decrescendo, talvez esteja no Inferno, pois o Oito de Espadas poderia bem esboçar os requintes típicos de algum círculo dantesco. Tortura psicológica. Alguns segundos se tornam momentos intermináveis de assombro. É densa a atmosfera dos sonhos obscuros. O lodo, a bruma e o azul cinzento das lâminas. 


OITO, NOVE E DEZ DE ESPADAS, por Pamela Colman Smith.
Rider Waiter Tarot, U.S. Games, 1971.

É possível [tudo em sonhos é possível] imaginar dois Arcanos Maiores convidados para a orquestra do medo: O Diabo e A Morte regendo respectivamente o Oito e o Dez de Espadas. O primeiro atormenta e o segundo aniquila. No meio o pesadelo, propriamente. Talvez esteja n'A Torre assombrada a pessoa em lágrimas sufocadas. Aleister Crowley, em seu clássico Book of Thoth, afirma que o ferrugem ensanguentado de suas nove lâminas é regido pelo Senhor do Desespero e da Crueldade. Esta última designação vem até estampada na pintura de Frieda Harris. O batismo se repete por todos os baralhos derivados da Golden Dawn. O que poderia haver entre a Interferência (Oito) e a Ruína (Dez)? 


NOVE DE ESPADAS pintado por Frieda Harris.
Aleister Crowley's Thoth Tarot | AG Müller, 1986.

Agony of Mind. Terror. Rasgos constantes na carne sedosa dos sonhos. Veneno que goteja. Dor. Um temporal de vermes e gritos se aproximando. Mesmo sendo os pesadelos da mesmíssima matéria dos sonhos, os encostos que impedem ou assombram a visita de Hypnos são sinais de condenação. Forças ocultas frequentemente mal dignificadas. Imersão em preocupações, em arrependimentos, em confusões, em castigos. Luta improdutiva contra algo muito mais forte, como bem sugere a cena do estrado da cama. Inevitável. Quem não dorme? O mal.

Samara, uma das maldições prediletas do cinema contemporâneo. O CHAMADO, Dreamworks, 2002. 
O visitante noturno que fez sucesso no mundo todo. ATIVIDADE PARANORMAL,  Playarte, 2007.


ENTER SANDMAN 
Com um punhado de areia eu lhes mostrarei o terror. 

É com essa frase de A Terra Devastada que o poeta T. S. Elliot inspira o escritor inglês Neil Gaiman a trazer ao mundo sua obra prima: The Sandman é uma das mais geniais histórias em quadrinhos que existem. Publicada pelo selo VERTIGO da DC Comics entre 1989 e 1996, até hoje enfeitiça pessoas de todas as idades, raças, credos e humores. A publicação reconta mitos e outras histórias fantásticas tendo como protagonista Morpheus, um dos muitos nomes de Sonho (Dream) ou Sandman, aparição folclórica que joga a areia nos olhos daqueles que custam a dormir, permitindo que acessem seu reino, o Sonhar. Com seus outros seis irmãos forma a família dos Perpétuos, entidades mais antigas e poderosas que todos os deuses: Desejo, Delírio, Destruição, DestinoMorte e Desespero. Mais que entidades, são essências. Não são bons nem maus, apenas são. Bem longe de maniqueísmos. Engrenagens exercendo suas respectivas funções. 


Arte de Dave Mckean para THE SANDMAN #50: RAMADAN, [Neil Gaiman e P. Craig Russell | DC Comics, 1993],   
uma das narrativas de Morpheus mais aclamadas e premiadas. DC Comics, 1993. E '
Sandman', pintura de Mike Dringenberg.

Desespero, a outra denominação do Nove de Espadas sugerida por Crowley, é bem sugestiva. Ainda que estejamos desde o início sob os domínios de Morpheus, o de muitos nomes, vale uma visita à sua irmã. De aparência mórbida e modos taciturnos, Desespero toma a forma monstruosa de uma mulher solitária e profundamente melancólica. É a regente dos suicidas, dos arrependidos, dos aflitos. Sendo gêmea de Desejo, é a musa dos sadomasoquistas e a que inspira os psicóticos a (v)irem além. Sua voz é um bezoar de sussurros, daqueles que desencadeiam arrepios: unhas dançando lentamente pelo quadro-negro ou a ponta da faca cravada embaixo delas. O som de uma seringa perfurando um olho. Ou ainda um osso se arrebentando no concreto. Senhora de todo arrepio.


DESESPERO | Arte de Jill Thompson, Vince Locke, Danny Vozzo e Todd Kleim.
THE SANDMAN: Brief Lives. DC Comics, 1994. E 'Despair', pintura de Jill Karla Schwarz.

Seu símbolo máximo é um anel-anzol que ilustra perfeitamente a sensação de ser fisgado pelos seus domínios e entrar em choque. Acordar com o coração disparado depois de um sonho ruim. Quem nunca? Dizem que em seu reino, mantido apenas por ratos e brumas, há uma infinidade de janelas flutuando no vazio. Eles são, na verdade, diversos cenários equivalentes aos espelhos. Ao fitarmos nossas projeções, saibamos que os olhos de Desespero nos assistem enquanto rasga seu próprio corpo e se diverte com a dor. E vou um pouco além: qualquer superfície fria e pesada que reflita nossa imagem de meros mortais serve para acessar o antro de Desespero. Exatamente como nove lâminas cuidadosamente arquitetadas sobre o leito. Tilintam no escuro e desfiguram a paz. 

Hora de sonhar, meu anjo.

Freddy Krueger é nome ilustre do bestiário onírico. Rei de Pesadelos.
Cartaz tailandês do filme A Nightmare on Elm Street 3: Dream Warriors (1987).


As lâminas podem muito bem inspirar um majestoso filme de terror, já é óbvio. Roteiro digno de Tobe Hooper ou mesmo Clive Barker. Olhar pro escuro por determinado tempo é dar forma a ele. A penumbra tem grande potencial criativo, assim como as imagens de um oráculo. Busca-se sentido a tudo e sempre haverá algum. É curioso que a literatura tarológica confira ora à A Lua ora ao velho e 'bom' Nove de Espadas a epígrafe de noite escura da alma. Tudo bem, tudo bom. Mas aqui é a própria treva. A essência do breu. O pesadelo, claro, se mantém.


Tarot de Marseille, de Jodorowsky e Camoin | The VertigoTarot, de Dave Mckean
Tarot of the Sidhe, de Emily Carding  | 

O Tarot, enquanto uma pinacoteca nômade, não poderia oferecer maior desgraça. Mesmo que em determinados contextos narrativos este Arcano se mostre positivo, desejado e até necessário. Mas prevalece o medo porque ilustra com incômoda clareza a incapacidade de dar conta do próprio mundo. A câimbra num mergulho em alto mar às três da manhã.  Justamente porque o pesadelo é um processo, às vezes é difícil acordar logo de cara. E a sensação é que, quanto mais se tenta abrir os olhos, menos as pálpebras correspondem, como se houvesse alguma coisa no ambiente que não devesse ser vista de forma alguma. Mãos sobre o rosto! O clímax do Nove de Espadas. Um tributo ao macabro.

Pesadelos povoam a literatura americana de horror no melhor estilo Nove de Espadas.
toomuchhorrorfiction.blogspot.com

Falando em macabro, a arquitetura do pesadelo tal qual a contemplamos na literatura e nos filmes se deve a alguns gênios por toda a escuridão que semearam no mundo dos vivos. Hoffmann, grande nome da literatura fantástica, contribuiu com seu próprio Homem de Areia: Der Sandmann é um dos contos de horror mais significativos. H. P. Lovecraft também merece atenções, já que seu Necronomicon é tão infinito em histórias quanto o Tarô  histórias infinitamente ramificadas. Mas quem se destaca antes e depois de todos é Edgar Allan Poe, mestre absoluto dos piores sonhos. Em A Queda da Casa de Usher, o pai do conto policial recorre às artes plásticas para ilustrar as descrições de sua personagem diante dos assombros ao longo da narrativa: o já conhecido Pesadelo de Fuseli. Uma segunda tela de mesmo nome repete as alusões à lâmina. Comparações com a anterior são desnecessárias. Égua e elfo marcam presença.


The Nightmare (1802) , de Henry Fuseli. 
Museu Goethe, Frankfurt.

O expressionista Murnau inaugura a imagética vampiresca nas telas a partir de Conde Orlok, o vampiro de Nosferatu (1922), clássico do cinema mudo. Também adaptando o romance de Bram Stoker aos Arcanos em seu estranho Vampire Tarot, o tarotista e escritor Robert M. Place acaba bebendo das fontes visuais do diretor alemão para compor seu Nove de Facas. Vampiros são seres de pesadelo também. Um quarto escuro, uma cama, uma donzela indefesa. Elementos indispensáveis à composição das melhores cenas de terror. 


NINE OF KNIVES | Vampire Tarot, de Robert M. Place (2009).
Cartaz moderno do filme Nosferatu: Eine Symphonie des Grauens, de F. W. Murnau (1922).


Borges | Lisl Steiner
Talvez porque garotinhas sejam símbolos de pureza. A virgindade entre os lençóis é alvo fácil para demônios famintos que transitam entre os sonhos. E o mesmo Poe uma vez escreveu que tudo o que vemos ou parecemos não passa de um sonho dentro de um sonho. É essa a deixa para evocar Jorge Luis Borges, grande escritor argentino nas horas vagas e deus dos labirintos da linguagem em tempo integral. Ele diria que os sonhos são, em síntese, uma obra estética. Talvez a mais antiga expressão visual, já que somos o teatro, o espectador, os atores e a própria fábula. Mas o horror do pesadelo vem da fonte criativa da nossa vigília — o estado de consciência em que certas atividades sensoriais e motoras acontecem, durante o sono. Mais uma vez a imagem talhada ao pé da cama de Pamela Smith. 

Despertar no escuro
Espadas. 

Sabemos que a realidade oprime, mas o assombro produzido por maus sonhos é peculiar. Voltando à etimologia, Borges assusta ao tomar qualquer uma das traduções — incubus, efialtes ou mesmo nightmare — e deixar claro que todos sugerem o obscuro. E se os pesadelos fossem frestas do inferno? E se nos pesadelos estivéssemos literalmente no Inferno? 


E por que não? 


Um dos pesadelos de maior sucesso dos videogames para as telas.
SILENT HILL | Columbia TriStar, 2006. 

Rose da Silva percebe que algo está errado com sua filha adotiva Sharon quando o sonambulismo chega ao ápice do perigo. A garotinha sonha frequentemente com um lugar chamado Silent Hill., uma cidade esquecida pelo mundo. Decidida a encontrar respostas a tantas perguntas, Rose a leva até o local dos sonhos insistentes. Mas um acidente acontece durante o trajeto, pouco antes de chegarem ao destino. Rose acorda. 

Aonde está Sharon?  

A mãe aflita caminha à procura de sua criança por entre as ruas da cidade. Mas caminha em sonho ou em realidade? Descobrir as verdades sobre a origem da filha entre brumas, cinzas e trevas é também uma jornada pelo Arcano maldito. Ao toque da sirene    que arrepia até aquele que ri com filmes de horror , as paredes descascam como papel queimado. Arames farpados substituem as paredes e seres desfigurados em plena podridão perseguem a mulher. Uma travessia pelo vale das sombras. 


Welcome to the nightmare.




Que tal? 

Se você enfrenta seus sustos e chegou até aqui, perceba o quanto é necessário olhar para o Tarot com mais cuidado. O preconceito fere e as crenças infundadas talham a visão de mundo. Decorar significados é o mesmo que se perder nas trevas da ignorância. Os cenários do Tarot só funcionam como portas se houver coragem de chegar até elas e abri-las. Mas não sem algum preparo prévio.


DYLAN DOG, minha HQ italiana de terror preferida. 
Baralho produzido pela LoScarabeo, 2001.
ENCARE SEUS PIORES MEDOS

Esse grande clichê do universo da autoajuda tem seus méritos. Uma postura destemida vale muito diante dos pesadelos. Agarrá-los, aliás, pode ser a chave para uma nova plataforma mental. É assim que os terrores noturnos acabam sendo estímulos à manutenção coerente das ideias, dos sentimentos e das atitudes. Sonhos, enquanto símbolos, pressupõem alguma reação. Espadas são sempre convites. Dormir é preciso. E, acordar, tanto quanto. 

As delícias e as desgraças por trás do véu onírico se contraem e se expandem de acordo com o comportamento interno diante do jogo de formas e significados. De imaginação e realidade. Reinos que bifurcam os sentidos nas veredas do oráculo. Quando se trata de imagens tudo é possível, bem sabemos. Assim como nas cartas. Atenção aos espelhos.

O mesmo Borges, enxergando a eternidade, diz também que os poetas, assim como os cegos, conseguem ver no escuro. Assim deve ser o tarotista, o tarólogo, o leigo, o humano. Só uma aproximação educada e também destemida ao Tarô pode promover o verdadeiro autoconhecimento. Sustos são inevitáveis, que fique 'claro'. Olhos abertos para cultivar o campo rubro [e perfumado] de analogias sem deturpar a estrutura das imagens. Afinal, 'um sonho não interpretado é como uma carta não lida'. Ou mal lida, talvez. Essas cenas, sejam belas ou grotescas à luz das combinatórias, são sempre elas mesmas. Feitas de sangue e corpo do imaginário. Sempre suscitando o pior e o melhor de nós.


Então apague as luzes. 
E que você tenha bons sonhos. 

Mesmo.





Bibliografia CONSULTADA e INDICADA

BORGES, Jorge Luis. Ficções. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
CATTABIANI, Alfredo. Florario: Miti, leggende e simboli di fiori e piante. Mondadori, 2010.
CROWLEY, Aleister. The Book of Thoth. Weiser Books, 1996.
ELLIOT, T. S. Poesia. Nova Fronteira, 1981.
GAIMAN, Neil. The Absolute Sandman Volume 3. DC Comics, 2008.
ILLES, Judika. Encyclopedia of 5000 Spells. HarperOne, 2011.
POLLACK, Rachel. Tarot Wisdom: Spiritual Teachings and Deeper Meanings. Llewellyn, 2008.