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3 de março de 2012

A FONTE DA TEMPERANÇA




À destra cristalina fonte murmureja,
numa clareira margeada de gramíneas.
Aqui a deusa sempre descansa da caça
e banha os membros virginais em água límpida.
Quando na gruta entrou, deu a uma das Ninfas
o escudo, o dardo, a aljava e o arco distendido;
outra nos braços recolheu a sua roupa;
duas lhe descalçaram os pés; a mais sábia,
a ismênide Crócale ata-lhe os cabelos ,
antes à nuca, embora ela os seus soltasse.
Néfele, Ránis, Híale, Fíale e Pseca
apanham água e vertem-na com grandes ânforas.

Ovídio | Metamorfoses, Livro III.

La saletta di Diana e Atteone | Parmigianino, século XV.



O tarô vai muito além daquilo que mostra e ainda mais longe daquilo que esconde. Para se ter ideia do poder da metáfora, um trunfo pode sugerir muito mais relações iconográficas do que uma leitura de imagens pode imaginar alcançar. Uma operação alquímica se estabelece entre fontes pictóricas de várias naturezas e possibilidades. A arte das cartas é, por excelência, a arte da combinação.

Tenho visto há alguns anos um trunfo curioso em diversos fóruns e publicações importadas. Ele faz parte do dito tarocchi de Alessandro Sforza, do século XV, preservado na coleção do Museo Castello Ursino em Catania, na Sicília. Debruçando-se sobre a lâmina a partir de um olhar simbólico, pode-se perceber que a figura feminina está bem acomodada sobre um cervo. Em suas mãos, prováveis ânforas tendo seus conteúdos misturados. TEMPERANZA, como bem se conhece. A dinâmica dos braços confirma o protótipo do décimo-quarto Arcano Maior.


La Temperanza | Tarocchi di Alessandro Sforza di Maestro Ferrarese (1450-1480). Museo di Castello Ursino, Catania.



Existem certos códigos aparentemente inacessíveis nestas pranchas antigas. Por ora deixo Sophrosyne (o conceito de moderação para os gregos), assim como os elefantes de Cesare Ripa e Etteilla. Somente um banho de pesquisa pode desencadear certa coerência de significado. Ou no mínimo um encantamento visual: pode-se configurar de tudo nestas cartas. Ater-se à mulher nua como uma representação de uma deusa é um mergulho no rito combinatório de atributos e sentidos. Um Olimpo pode ser escavado nos arcanos, mas com a necessária distância para não conjurar o caos simbólico. Assim o caráter divino dessas figuras nômades toma forma e complementa o esboço histórico.

Temperantia | Cesare Ripa, 1603.
La Temperance
| Grand Etteilla II, 1838.



Esta mulher sobre o gamo é Diana, a inspiradora deusa da caça. A virgem donzela que corre no Nemi. Embora não haja resquícios do crescente lunar sobre sua testa, a analogia é absoluta e perdura.
Diana sorpresa al bagno da Atteone | Cavalier D'Arpino, século XVI.




Acteon era um excelente caçador que se aventurava pelas florestas. Filho de Aristeu e neto de Cadmo, teve um destino nada invejável: ao cometer a indiscrição de admirar Diana se banhando junto ao seu cortejo de ninfas, pagou caro pela ira da grande deusa, que o transformou em um cervo. Logo em seguida, seus cinquenta cães não o reconheceram e o devoraram. Eternizada nas Metamorfoses de Ovídio, a fábula serve quase de atalho para o conceito que hoje se atribui ao décimo-quarto Arcano Maior. Em Camões também se dá o caso, o que tonifica o poder do mito indo além das Belas Artes.

Enquanto aí, à linfa, se lava a Titânide,
eis que o neto de Cadmo, deixando o trabalho
e errando em bosque ignoto com incertos passos,
chega ao recanto sacro; assim quis o destino.
Tão logo entrou na gruta úmida de fontes,
as ninfas nuas, vendo o homem, tal como estavam,
os peitos batem, e de súbito alarido
enchem o bosque, e rodearam a Diana,
cobrindo-a com seus corpos. Porém, é mais alta
a deusa que elas e ultrapassa-as, colo acima.
A cor, que sói tingir as nuvens quando o sol
as fere pela frente ou a da aurora púrpura,
foi a do vulto visto sem véu de Diana.
E ainda que o seu séqüito a rodeasse,
ela mostrou-se oblíqua e virou a cabeça
para trás; desejando ter à mão as setas,
a água que havia asperge no rosto do homem.
Molha os cabelos dele com água ultriz,
e lhe anuncia assim a iminente ruína:
“Agora, conta que me viste sem a veste,
se puderes.” Sem mais ameaças, espalha
na úmida testa chifres de cervo longevo,
estica-lhe o pescoço e aguça-lhe as orelhas,
muda em patas as mãos, e os seus braços em pernas
longas e com manchado pelo o corpo cobre-lhe;
e lhe põe medo. Foge o herói autonoéide
e admira-se de ser tão veloz na corrida.
Quando deveras vê o rosto e os chifres n’água,
“Infeliz de mim” quis dizer, e a voz não veio;
gemeu, e a voz foi isso; e em face alheia lágrimas
fluíram. Só sobrou-lhe a primitiva mente.


Acteon e Diana | Detalhes do afresco de Parmigianino.



Ainda sobre o arcano de Alessandro Sforza, Diana verte o cálice sobre o seu próprio sexo, coberto bela mão esquerda. Essa passagem serviria de ensinamento devido à práxis da época, quando se pretendia basear-se na mitologia para aplicar uma filosofia moral. A imagem mostra que o conceito da virtude vai além de domar a sensualidade e os prazeres carnais. Essa concepção iconográfica tonifica o conceito do rito de Anados, quando a deusa emerge anualmente e enaltece a própria virgindade banhando-se em uma fonte sagrada. O gesto talvez esteja longe de ser uma tentativa de controlar os ardores do sexo, mas sim a expressão clara da renovação da sua pureza virginal ao ligar os líquidos da terra com os seus próprios fluidos. Água e Água.



Temperantia | Gravura de Hans Collaert, 1557.



O final trágico de Acteon dialoga com a ideia da deturpação da virgindade de uma deusa por um mortal. E sendo o cervo a personificação do “esposo divino” sempre em busca de pretensas esposas e da fonte em que possa matar a sua sede, a transfiguração do homem em animal tem sua razão poética. Entende-se que foi uma atitude coerente a de Diana, dada a ousadia do caçador em profanar seu rito de purificação partilhado apenas entre as ninfas. A face cristalina da deusa se impõe.


Diana e Atteone | Matteo Balducci, século XVI.


Circundam-no e enfiam-lhe o focinho ao corpo,
dilacerando-o sob falsa imagem de cervo,
até que por feridas mil morrendo, dizem,
a ira de Diana Arqueira saciou-se.
A opinião se dividiu: a uns a deusa
pareceu mais cruel que o justo; a outros, digna
de austera virgindade. A razão tem dois lados.


O valor moral do episódio denuncia, portanto, uma postura temperante necessária: o homem deve domar os próprios instintos para atingir as águas da moderação. O cervo também assume a suavidade animal, que prefere a solidão aos tumultos da floresta. Serenidade, parcimônia e medo, outro atributo do temperante – o exagero é indigno. E a ira da deusa não pode ser confundida com perservidade tal como foi encarada por artistas e poetas desde a época de Parmigianino. A cada um aquilo que lhe cabe, simples e justo assim. Diana, mesmo em plena delicadeza prateada, é a regente do selvagem. Depois, preterida essa possível ligação da deusa para as futuras representações pictóricas da virtude cardeal (ao lado da Força, Justiça e Prudência), a Temperança assume o anonimato da alegoria, ainda que feminino. É todas elas, então.




Afresco encontrado na Hungria nos anos 2000, atribuído a Botticelli.



Diana, a caçadora. Diana, a deusa lunar. A de muitos seios, conforme define a antiquíssima fonte italiana baseada na escultura encontrada em Éfeso. Por vezes a alegoria surge com um peito à mostra: a castidade dando lugar à abundância. E assim, com as mamas à mostra, Frieda Harris concebe uma das lâminas mais lindas e enigmáticas do Tarô de Thoth idealizado por Aleister Crowley, que por sua vez conecta à Sagitário a deusa alquimista: o Centauro lança um sorriso a Ártemis. Logo abaixo de suas faces, recebe uma flecha perfurando o arco(-íris) de seus ombros. A referência garante a presença da deusa na modernidade do Tarô. Uma homenagem da Besta às gerações futuras. A Senhora da Arte prevalece, definitivamente.


Fontana di Diana Efesina a Tivoli, Villa D'Este | Itália, século XVI.
Art | Crowley-Harris Thoth Tarot. AGMüller, 1986.




A Temperança é um ritual. Opera alchimica. A fonte de cura das atitudes, a oportunidade de administrar a vida de acordo com um código intuitivo de conduta, visualizando as reações para toda e cada empreitada. Só a intenção de misturar os fluidos já requer habilidade. E implica a contenção sobre os resultados. Mesmo que em algumas representações seja possível ver Diana em pose sexual com o caçador-cervo, definindo-o como o seu consorte, na maior parte das versões ele se contém. Consente o erro pela tentação ao assumir sua condição de animal.


Diana and Actaeon | Balthus, 1954.




Mas o tarô é humano, assim como os deuses em suas emoções e fervores. Vieram de nós na mesma medida que os Trunfos vieram da poesia. Esse aparente resgate da fonte divina das lâminas vale tanto para ressaltar sua força simbólica quanto para exigir respeito ao que foi e continua sendo sagrado. Em cada enigma de tinta embaralhado a esmo. Em cada um que o lê. Vida longa às referências históricas e literárias. Elas são fontes de analogias para embebedar o homo ludens sedento por velhos novos saberes.

Aliás, fechando com Crowley, essa fonte de sabedoria pode ser vislumbrada pelo aforisma Visita Interiora Terrae Rectificando Invenies Occultum Lapidem: visitar o interior da terra é a metáfora possível para o cerne de si mesmo. Retificar o controle absoluto dos próprios verbos, das próprias ações. Combinações da própria história. Mesmo que a narrativa se perca com o tempo e só um fragmento possa vir a sugerir suas relações mitológicas. A pedra filosofal é cristalina na justa medida dos jarros. Tanto quanto a face da deusa.





BIBLIOGRAFIA CONSULTADA


CROWLEY, Aleister. The Book of Thoth. Weiser Books, 1996.

FRAZER, Sir James George. O Ramo de Ouro. Círculo do Livro, 1986.

GRAVES, Robert. A Deusa Branca. Bertrand Brasil, 2003.

GRIMASSI, Raven. Italian Witchcraft. Llewellyn, 2000.

RIPA, Cesare. Iconologia. TEA, 2008.
REFERÊNCIAS | internetIl Parmigianino a Fontanellato: La favola di Diana e Atteone | Primo Casalini
http://www.arengario.net/momenti/momenti25.html
La saletta di Diana e Atteone nel Castello di Fontanellato | Raffaela Terribile
http://rebstein.wordpress.com/2011/02/28/diana-e-atteone/

'Metamorfoses' em tradução | Raimundo Nonato Barbosa e Carvalho
http://www.usp.br/verve/coordenadores/raimundocarvalho/rascunhos/metamorfosesovidio-raimundocarvalho.pdf

21 de novembro de 2009

OS 100 ANOS DE RIDER-WAITE E AS JÓIAS DE PAMELA SMITH


Stuart Kaplan conseguiu. Depois de anos de dedicação à obra de Waite e fixação pela artista que concebeu o seu baralho, o dono da U.S. Games acabou de lançar uma caixa de jóias contendo o original do tarô mais copiado que existe. E não é pra menos, pois foi feito um estojo de luxo recheado de raridades para os colecionadores e fãs dessas cartas tão difundidas em todo o mundo, com direito a postais, retratos e livros.

O box comemora o centenário do tarô idealizado por Arthur Edward Waite e desenhado por Pamela Smith que aqui é rebatizado, com justeza, de Smith-Waite. A versão que consta é a mais antiga, com suas cores originais. Um livro de arte foi criado para registrar as contribuições de Smith ao mundo das artes gráficas por meio de revistas, cartazes, telas e pôsteres coletados ao longo de décadas. Sua notícia biográfica, também garimpada com esforço por Kaplan, assume o interesse de Smith pelo ocultismo, pelo folclore e pelas evoluções artísticas do seu tempo.

O dedicado colecionador também reserva espaço suficiente para o Waite relançando o seu dispensável The Pictorial Key to the Tarot, uma edição bem fiel à original. Um tarô e dois livros numa caixa de luxo. Uau!


Mas não, ainda não acabou. Se um livro de arte exclusivo de Lady Smith não é suficiente, há também seis cartões postais de suas magníficas pinturas, muitas delas para divulgar peças inspiradas em Shakespeare; três cartões maiores com outras telas, um retrato emoldurado da foto mais famosa que se conhece de Smith e um encarte com três métodos de leitura tradicionais.

O que mais me atraiu na "nova" versão do deck, no entanto, foi o aspecto de sujo ou manuseado por muitos, que deixa nítidos os verdadeiros traços da artista sem cores muito chamativas. O cinza, o amarelo e o verde que predominam em todos os naipes e o tom de azul que se destaca n'O Eremita lembram as composições de velhos gibis, como destacou muito bem a taróloga Solandia do Aeclectic Tarot em sua resenha. O verso das cartas traz esse azul antigo tão gradável aos olhos, a assinatura de Smith nas extremidades e a rosa que A Morte carrega em sua bandeira negra. Ah, ainda um outro presente: um saco de organdi na cor azul clara combinando com o verso do baralho que, finalmente, a editora considerou digno para um projeto desse porte.


Eu diria que é um belo presente para quem gosta de tarô ou de arte ou de ambos.
Na minha avaliação, nota 10. Vale a pena adquirir um registro tão importante e tão bem feito. Aliás, como sempre digo, tarô é arte.
E vice-versa, né?

5 de outubro de 2009

MATISSE,TAROT E FOTOGRAFIA EM SÃO PAULO


Matisse desenhando uma odalisca
, 1928.
Museé départemental Matisse, Le Cateau-Cambrésis.

Domingo é sempre dia de descanso, de passeio, de sol. Nessa onda de fotointerpretações se destacando em Salvador, arrisquei um novo poema. Acordei meio artista [e sei que isso não passa] e me programei pra visitar a Pinacoteca da estação da Luz. Matisse Hoje, mais uma exposição do convênio Ano da França no Brasil, vem ilustrar a programação artística do nosso país. Perfeito.

Um dos meus favoritos, ao lado de Van Gogh e Frida Kahlo, Matisse encanta fácil. Nessa mais que merecida mostra individual, que traz inúmeros de seus trabalhos, destaca-se Jazz. É nesse livro de recortes e colagens animados com guache que Matisse traduz os jogos de sons ritmos desse estilo musical. Completo por experimentar as artes visuais e plásticas em vários formatos e modalidades, Matisse se destaca por beber de fontes importantes como Cézanne e por adotar o Fauvismo como chave e motivo da sua riqueza de detalhes e cores. Chega a oferecer influências para a decoração e a inspirar os amantes do espaço harmonizado por móveis, plantas e tecidos.


Capa do livro Jazz, de Matisse.

Disponível para apreciação na Pinacoteca.

Por falar em inspiração, é impossível deixar passar batido o meu apreço por suas pinturas e também pelas fotografias de sua casa e de suas oficinas. Acabei lendo as imagens e associando-as à minha galeria interior, onde estão expostas grandes painéis de arcanos e suas mil combinações. E eis que na internet, fui assegurar que uma imaginação é realidade: um tarot de Matisse.


Matisse Tarot, de Jason Long. Tiragem limitadíssima.

Mas descendo as escadas da mansão , dou de cara com as exposições permanentes. Entre as fotografias de German Lorca, encontro as do português Fernando Lemos. É aí que o tarot se materializa depois de meus passeios pelos bosques de tinta e papéis combinados.


Auto-Retrato, 1949-1952

Um retrato do Pendurado, uma mesa com café e cadernos de desenho, lapidações de Brecheret e a imponência arquitetônica e artística de dois séculos: perfeito para um domingo perfeito. Olhos abertos, livres e repletos de matizes.

Leo






MATISSE hoje | aujourd´hui
Pinacoteca do Estado de São Paulo De 5/09 a 1/11
Aberta de terça a domingo das 10h às 17h30 | permanência até as 18h.
Ingressos: R$6,00 e R$3,00 (meia). Grátis aos sábados.

www.pinacoteca.gov.br

20 de setembro de 2009

O PENSAMENTO TAROLÓGICO de Alejandro Jodorowsky


Jodorowsky com as cartas de Marilyn Manson na mesa.


Meus longos anos de contato com o tarô me ensinaram novas formas de captar o mundo e o outro, permitindo que a intuição dance com a razão, amalgamando-se no que é chamado de “Pensamento Tarológico”. Os arcanos têm múltiplos significados que vão do particular ao geral, do evidente ao incomum. É necessário conceber cada arcano como um conjunto de significados. Estes significados adquirem maior ou menor importância de acordo com o sistema cultural de quem as interpreta.



Na realidade, cada ser humano é um arcano. Por mais que vivamos junto a alguém durante toda a vida, não podemos afirmar que o conhecemos muito bem ou por inteiro.



Estamos habituados aos seus pensamentos, sentimentos, desejos, gestos e atividades rotineiras, mas basta qualquer acontecimento extraordinário (uma enfermidade, uma catástrofe, um fracasso, um êxito) para que vejamos nesta pessoa os aspectos inabituais que nos surpreendem de forma positiva ou dolorosa. Parte da realidade é o que pensamos que é a realidade. Parte da personalidade do outro é o que projetamos nele. Os defeitos ou qualidades que vemos nele são também nossos. Estes inesperados comportamentos com que o mundo e o outro nos surpreendem causam reações que dependem totalmente do nosso nível de consciência. Num nível de consciência pouco desenvolvido, toda mudança nos assusta, nos fazem desconfiar, fugir, paralisar, enraivecer ou mesmo atacar. Uma consciência desenvolvida aceita a mudança contínua e avança confiante, sem metas, gozando da existência presente, construindo passo-a-passo a ponte que atravessa o abismo. O primeiro obstáculo que tive de vencer para oferecer leituras de tarô que fossem legíveis foram as antipatias e as simpatias. Cada habitante do nosso mundo representa um ponto de vista distinto, novo, que não existia antes de seu nascimento. Algo original, único. Quando morre alguém que amamos, sentimos que o universo inteiro se esvazia. Seja quem for o consulente, ele merece que o respeitemos como uma obra divina que nunca mais voltará a se repetir, com a possibilidade de deixar no mundo a sua marca, a semente de um bem desconhecido.



Não existe tarólogo impessoal. Todo tarólogo está marcado por uma época, um território, um idioma, uma família, uma sociedade, uma cultura.



Assim como na literatura o romance deixou de ser narrado por um escritor-testemunha – considerado um deus, que deixa acontecer sem intervir e nem ser afetado – para chegar a ser contado por um personagem intimamente ligado aos acontecimentos, um ator a mais na trama. Na leitura do tarô, tive de dar o mesmo passo: de nenhuma maneira suportei a idéia de me colocar na posição de vidente que conhece o passado, o presente e o futuro do consulente, observando-o de uma altura mágica, impessoal, emprestando minha voz a entidades de outro mundo. Sendo os arcanos telas de projeção, era necessário que eu desse conta de que tudo o que via nas cartas estava impregnado da minha personalidade. Não podendo me livrar de mim mesmo, perguntei: “quem sou eu quando leio o tarô? Meu pensamento é masculino? É latino-americano? É europeu? É adolescente? É maduro? Minha moral é judaico-cristã? Sou crente, ateu, comunista, servidor do regime estabelecido? Dou-me conta das características da minha época?”



Foto publicada no livro "Castelli di Carte", pela editora italiana Feltrinelli.


Para chegar a uma leitura útil, me dei conta de que, não podendo desprender-me da minha personalidade, teria de “trabalhá-la”, lapidá-la até chegar à essência. Prometi que não iria ceder aos modismos e não cair nas ciladas de nenhuma tradição e de nenhum folclore. Observei com atenção minha visão do mundo e, com todas as minhas forças, tratei de mudar minha mente masculina aceitando a feminina para então fundi-las até chegar ao pensamento andrógino. Nasci no Chile, me formei no México e na França e, interiormente, deixei de ter nacionalidade, chegando a me sentir cidadão do cosmos. Isso me ajudou a perceber os meus limites enquanto ser humano. Minha consciência não era mais prisioneira de um corpo mineral, vegetal ou animal; era a essência do universo inteiro, o qual permitiu me colocar no lugar não só das outras pessoas, mas também dos objetos. O que sente meu gato, esta árvore, o relógio que trago no pulso, o sol, os transeuntes por onde ando, meus órgãos, vísceras etc.?

Neste trabalho de desprendimento e refinamento, perdi não só a nacionalidade mas também a idade, o nome, os rótulos de “escritor, cineasta, terapeuta, místico” e tantos outros. Deixei de me definir: nem gordo, nem magro; nem bom, nem mal; nem generoso, nem egoísta; nem bom, nem mau pai; nem isto, nem aquilo. Também deixei de pretender realizar metas ideais: nem campeão, nem herói; nem gênio, nem santo. Tratei de ser, com todas as minhas forças, o que eu sou. Deixei de me ater apenas a um idioma e desenvolvi um amor e um respeito por todas as línguas, ao mesmo tempo em que me dei conta de que as palavras que não chegam à poesia se convertem em problemas. Acredito que a raiz de toda doença psicossomática é um conjunto de palavras ordenadas em forma de proibição. Impor uma visão é proibir outras.

O universo não tem limites e funciona com um conjunto de leis que são diferentes, às vezes contraditórias, em cada distinta dimensão. Quanto mais expandia meus limites, mais via os limites dos outros. Hoje em dia, quando leio o tarô, quase me converto em “tu” – me sento frente ao consulente como um céu azul que recebe a passagem de uma nuvem. Na verdade, não lemos o tarô para compreender o outro. O dia em que o compreendermos por inteiro, desapareceremos. Creio que, na realidade, o nosso verdadeiro consulente é a morte. Tratamos de entendê-la, pois quando morrermos, ou seja, quando formos ela própria, nos dissolveremos, por fim, na Verdade.



Nenhum tarólogo pode dizer a verdade. Pode apenas dizer sua interpretação da verdade. Quando se lê o tarô, nada se sabe.



Ele lê para compreender, por isso deve continuar lendo mesmo que não compreenda o que vê. Como toda interpretação é fragmentada, a abundância de interpretações faz com que o consulente chegue ao conhecimento de si próprio. Não existem perguntas insignificantes. As perguntas superficiais ou as profundas, as inteligentes ou as simples têm igual importância: posto que as interpretações de cada arcano sejam infinitas, o valor da pergunta dependerá não de sua qualidade, mas da qualidade da resposta do tarólogo. Dei-me conta de que compreender o que eu via era uma ilusão. Para compreender algo, na verdade eu teria de decifrar o que é o universo. Sem considerar o todo, é impossível saber com certeza o que é cada uma de suas partes. O consulente não é um indivíduo isolado. Para saber quem ele é, o tarólogo deveria conhecer sua vida desde o momento em que nasceu, a vida de seus irmãos, pais, tios, avós e, se possível, de seus bisavós. Além disso, saber qual educação recebeu, conhecer os problemas da sociedade em que viveu, os arquétipos e a cultura que formaram sua mente.

Sendo impossível captar a totalidade do outro, é impossível também julgá-lo.
A positividade ou a negatividade de um acontecimento não pertencem ao fato; são apenas interpretações subjetivas. Em respeito ao consulente, é preferível buscar sempre a interpretação positiva. Um tarólogo não deve comparar seu consulente com outras pessoas que se parecem física ou emocionalmente com ele. Comparar, com uma maneira de definir, é uma falta de respeito às diferenças essenciais de cada ser.
O consulente pode não conhecer a si mesmo e na maior parte das vezes ignorar as influências que recebeu de sua árvore genealógica. Se conhece um só idioma, se não viaja a países longínquos, se não estuda outras culturas, se nunca imobilizou seu corpo para meditar, se entre fazer e não fazer prefere não fazer, refugiando-se pelo medo do fracasso em experiências novas, seu inconsciente se apresenta não como ele é – um aliado –, mas como um mistério inquietante, um inimigo. Nunca saberá qual é a base real do que pensa, sente, deseja ou faz. E durante a leitura que suas perguntas, por mais superficiais que possam parecer, ocultarão processos psicológicos profundos. “Devo ir ao salão de beleza cortar o cabelo ou mudar de penteado?” Pergunta muito simples, aparentemente frívola, que sem dúvida pode render uma resposta profunda.

Se fosse apenas o que dizem as palavras, que necessidade teria a pessoa de ser aconselhada pelo tarô? Bastaria discutir com ela uma decisão a respeito. Mas também se poderia saber que com este corte ou troca de penteado, a consulente estaria expressando seu desejo de mudar de vida, abandonar a solidão ou, pelo contrário, terminar uma relação. Poderia também, sob outro aspecto, iniciar novas experiências, buscar reconhecimento, indicando que há insatisfação consigo mesma ou o descobrimento de novos valores que a obrigam a se desvencilhar de uma antiga personalidade.
O tarô nos ensina a respeitar todas as perguntas: cada uma delas significa uma



oportunidade de aprofundar o conhecimento de nós mesmos para vivermos plenamente como uma pedra preciosa nesta jóia que é o tempo presente. A maioria dos consulentes não se sente como algo ou alguém que “é”, mas como algo ou alguém que “será”. Toda generalização é ilusória. Os acontecimentos não são nunca similares. Quando se põe um frente ao outro, como exemplo, aquele que o cita emite uma concepção pessoal.

Para cada indivíduo, o outro é diferente. O outro, sendo parte de um todo infinito, por mais impossível de definir ao ser captado e interpretado por nós, recebe os limites que correspondem ao nosso nível de consciência. Este outro é uma mescla do que ele aparenta e do que lhe conferimos ao convertê-lo em nosso próprio reflexo. As qualidades que vemos nele, assim como seus defeitos, são parte das nossas próprias qualidades e defeitos. Ao julgar, ao medir os demais, ao colocarmos rótulos – bom, mau, belo, feio, egoísta, generoso, inteligente, idiota, etc. – estamos mentindo a nós mesmos.
A realidade não é boa nem má em si; nem bela nem horrível e nenhuma outra qualidade. A unidade divina não pode ter qualidades e nem ser definida por um tarólogo que não a compreende por não poder contê-la. O todo é todas as partes, mas todas as partes não são o todo. Em nenhum momento o tarólogo pode erguer-se em juízo de seu consulente e aceitar como reais e justas as visões que o consulente tem de seus familiares ou seres que invoca na leitura. No mundo, não se pode afirmar “tudo é assim”. O correto é dizer que “quase tudo é assim”. Se noventa e nove por cento é considerado negativo, não se pode excluir a positividade contida em um por cento. Esse um por cento é mais digno de definir a totalidade do que o restante negativo. Essa pequena positividade é capaz de redimir a grande negatividade. Por isso não se deve afirmar que o mundo é violento. Pode-se aceitar que há violência no mundo, demasiada violência, mas não defini-lo por esse fato. O mundo é tão perfeito quanto o cosmo. Igual é o ser humano. Não é conveniente afirmar que se está doente. O corpo humano é um organismo complexo, misterioso, que possui saúde. Estar vivo é estar são, física e mentalmente. Podemos ter enfermidades e atitudes psicóticas, mas por mais graves que sejam, não se convertem em um “doente” ou em um “louco”; não definem nosso ser senão nosso estado presente. O espírito humano, infinito, não suporta rótulos.
O tarólogo, mais que mostrar os muitos defeitos, deve tratar de captar as qualidades do consulente, pois mesmo que sejam poucas, o ajudarão a ser quem ele é de verdade. Não se deve definir o consulente por suas atitudes, mas sim definir as ações que o consulente tem feito. Ele não é “um tolo”, mas “fez tolices”. Não é “um ladrão”, mas “se apoderou de bens alheios”. Se o consulente é definido por suas atitudes, ele acaba sendo separado da realidade.



O valor de um leitura depende do nível de consciência do tarólogo. Se ele for sábio, pode obter valiosas mensagens por mais absurdos que possam ser os arcanos escolhidos pelo consulente.



A consciência do tarólogo confere sabedoria ou necessidade à sua leitura, mas os arcanos em si não são sábios nem tolos: eles não têm qualidades. As qualidades são de quem os interpreta. As leituras, apesar de sua importância, são sempre interpretações pessoais do tarólogo e por isso mesmo não deve obter validade de prova única ou absoluta. Nenhum leitura pode constituir a prova de um fato, por mais assertiva que seja. A exatidão e a precisão, em uma realidade em constante mudança, são dois obstáculos à compreensão. O desejo de perfeição, de exatidão, de precisão e de repetição do conhecido e estabelecido são manifestações de uma mente rígida que teme a mudança, o diferente, o erro, a permanente impermanência do cosmos. Esta atitude puramente irracional se opõe ao pensamento tarológico, que se assemelha ao poético. É como se escutássemos o poeta Edmond Jabés dizer: “Ser é interrogar no labirinto de uma pergunta que não contém nenhuma resposta”.



Depois que um arcano é interpretado de certa forma, é possível modificar, em outro momento, a interpretação. As interpretações não são os arcanos, eles não mudam, mas o tarólogo sim, enquanto ser que se transforma.



Nunca mudar de interpretação é teimosia. Toda a mensagem obtida pela leitura de algumas cartas pode ser contradita por uma segunda leitura dessas mesmas cartas. As mensagens não são extraídas das cartas sem as interpretações que são dadas a elas. Responder “não” a uma afirmação é um erro. Nada pode ser negado em sua totalidade. É melhor dizer “é possível, mas de outro ponto de vista se pode concluir o contrário”. A doença é essencialmente separação, ou seja, crença de se estar separado. A chave mágica que permite tanto ao consulente quanto ao tarólogo organizar positivamente sua passagem pelo mundo é a pergunta “a vida me faz feliz? Essas pessoas, esse país, essa casa, esses móveis, me fazem feliz nesta vida?” Se não me alegram a vida, significa que não me correspondem como companhia, ambiente, território, atividade - o que me convida a não me envolver com eles. Todo conceito tem um valor duplo, composto da palavra enunciada e uma contrária não proferida. Afirmar algo é também afirmar a existência de seu contrário. Por exemplo: feito (em relação a algo bonito), pequeno (em relação a algo grande), defeito (em relação a qualidade), etc. Fora dessa relação, o conceito não tem sentido. Sem se comparar, o consulente não pode saber quem ele é. A personalidade adquirida, não a essencial, se forma baseando-se em comparação.



Foto também publicada no livro "Castelli di Carte", que acompanha um dvd com palestra e entrevista exclusiva.


O tarólogo deve começar sua leitura ciente de que se dirige a alguém que é o que sua família, sua sociedade e sua cultura quiseram que ele fosse, pelo qual acredita ter metas que não são as suas, com obstáculos superficiais e problemas disfarçados de soluções.
O tarô poderá indicar-lhe sua natureza, suas metas, obstáculos e verdadeiras soluções fazendo-o ver a região silenciosa de sua existência. O que não sabe e o que sabe são partes da vida do consulente. O que não fez é tão importante quanto o que fez. O que não pode um dia fazer faz parte do que já está fazendo. O que ele foi e o que não foi, o que é, o que não é e o que será e o que não será constituem por igual o seu mundo.
Alguns consulentes, por medo de perderem aquilo que acreditam ser sua individualidade, não querem ser tratados e nem curados. Em vez de obterem soluções, desejam apenas ser escutados, amparados.
O tarô não cura; ele serve para detectar a chamada “enfermidade”. Cada um dos arcanos pertence ao mesmo tarô. Por isso, duas cartas

observadas juntas, ainda que pareçam ter significados absolutamente diferentes, possuem detalhes em comum. Diante de qualquer conjunto de cartas deve-se buscar entre elas o maior número possível de detalhes em comum.

Todos os seres humanos pertencem a uma espécie em comum e vivem no mesmo território, o planeta Terra. Por isso, duas pessoas juntas, apesar de serem de raça, cultura, posição social e nível de consciência diferentes, possuem características em comum. O tarólogo, abandonando toda a vaidade de sentir-se superior, deve captar essas semelhanças e concentrar sua leitura primeiramente nas experiências eu o unem ao consulente. Nada melhor que um “ex-doente” para curar um enfermo.



O mau tarólogo, que confunde “pensar” com “crer”, faz interpretações para então buscar nos arcanos os símbolos que podem confirmar suas conclusões.



A verdade para ele é a priori, seguida a posteriori pela busca da verdade. Toda conclusão é provisória e se amplia somente a um momento da vida do consulente, porque foi extraída de interpretações que, por serem pontos de vista do tarólogo, são limitadas. Dar conselhos ao consulente como “você deve fazer isso; não deve fazer aquilo”, é um abuso de poder. O tarólogo deve oferecer possibilidades de ação, deixando que o consulente decida ou escolha por si próprio. Tampouco o tarólogo deve ameaçar (“se não fizer isso, vai acontecer aquilo”), pois o que é feito de forma obrigada, mesmo que pareça positivo, atua como uma maldição. Se o leitor é antes de mais nada “eu”, sendo incapaz de converter-se em um espelho que reflita o outro, na verdade está usando o consulente para curar a si mesmo. Em vez de ver, se vê. No lugar de compreender, impõe sua visão de mundo. Ao invés de despertar os valores do consulente, o submete a um encantamento onde o tarólogo é um adulto e ele uma criança.

O tarólogo não é a porta, e sim a campainha; não é o caminho, mas sim o pano que limpa o barro dos sapatos, não é a luz, e sim o interruptor. O tarólogo não deve fazer promessas e nem bajulações (“Você tem uma alma nobre”, “é uma boa pessoa”, “tudo sairá bem”, “Deus lhe presenteará”, etc.), palavras vazias e inúteis que impedem a tomada de consciência. Para curar-se, o consulente não deve fugir do sofrimento e sim vê-lo de frente, assumi-lo para logo mais libertar-se dele. Um sofrimento conhecido é mais útil que mil elogios.Quando meu filho Teo morreu num repentino acidente aos 24 anos, uma dor indescritível desintegrou meu espírito. Eu assisti à sua cremação e, quando não acreditava ser possível encontrar consolo, vi meu filho Brontis aproximar-se do cadáver e colocar em sua mão um tarô de Marselha. Teo foi cremado e eu recebi em uma urna as cinzas desses seres sagrados. Para sempre, até o final da minha existência, os arcanos abraçados ao meu filho ocuparão um trono em minha memória. Aquilo em que verdadeiramente acreditamos e o que verdadeiramente amamos são a mesma coisa. A imensa dor da perda de um ente querido nos destroça a imagem que temos de nós mesmos. Se tivermos a coragem de nos reconstruir, seremos mais fortes e cada vez mais compreensivos com a dor dos outros.



Traduzido do italiano a partir da quinta edição do livro La Via dei Tarocchi, de Alejandro Jodorowsky e Marianne Costa, publicado em fevereiro de 2008 pela Giangiacomo Feltrinelli Editore de Milão. Publicado originalmente no Clube do Tarô: www.clubedotaro.com.br .

24 de dezembro de 2008

ARCANOS NA PINTURA MUNDIAL II

Continuo agora com as associações entre os arcanos maiores e as mais importantes telas da história da Arte eleitas pela revista BRAVO! Especial 100 Obras da Pintura Mundial, publicada pela editora Abril. Se você chegou agora no Café Tarot e não viu a primeira parte da galeria, desça até a postagem anterior. No final desta, lanço os devidos créditos bibliográficos. Então, mãos à(s) obra(s).
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O PESADELO Henry Fuseli
O PENDURADO
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Aclamada e considerada por Goethe a obra que motivou a consagração artística do pintor e literato suíco Henry Fuseli, O Pesadelo esbanja obscuridade e traduz, pelo macabro, a atmosfera conflituosa e complexa da psique humana - a imaginação, o sonho, a visão turva da realidade pelo inconsciente. Eis a expressão quase corporal do arcano 12, O Pendurado. Se assemelham pela postura desconfortável de um aprisionamento, seja ele onírico ou real.
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O TRIUNFO DA MORTE Pieter Brueghel
A MORTE
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Tendo por inspiração a "dança da morte", manifestações dramáticas que tratavam dos castigos do mundo como a peste negra na Europa, por exemplo, a tela de Brueghel ilustra os episódios de uma chacina causada por esqueletos que, além de plebeus, esquartejam e judiam de reis, nobres e cristãos. Metáfora mais que nítida do "arcano sem nome" do fim garantido para todos os homens, independente de sua classe ou função social. Penso até que a carta pode ser um quadro resumido que sugere toda a coreografia e devastação da inominável. Se na obra temos os tons rubros evocando os campos infernais, a sangria usada pelo ilustrador espanhol Luis Royo no Labyrinth Tarot também dá essa idéia. Não só em tons mas em significado as pinturas dialogam. Osso por osso.
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NO SALÃO DA RUE DES MOULINS Toulouse-Lautrec
A TEMPERANÇA
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As analogias aqui parecem absurdas num primeiro momento. Porém, analisando mais de perto a expressão boêmia do francês Lautrec em retratar prostitutas afeta os atributos da Temperança no que diz respeito ao tédio, à rotina e aos movimentos ensaiados de braços e pernas, todas as madrugadas. A alquimia do arcano 14 se dá na mistura de cores e impressões móveis da obra, que transcende o marasmo dos bordéis. Rosa la Rouge, a ruiva ao centro da pintura, seria a mulher que verte os jarros da decadência parisiense que consumiu o pintor - em um deles, o álcool e no outro a sífilis, fluidos letais ao seu talento. A temperança é a Arte, em todos os sentidos, tons e cheiros. A justa medida entre o belo e promíscuo: Lautrec no tarô.
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O SABÁ DAS BRUXAS Francisco de Goya
O DIABO
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Os que conhecem a Bruxaria sabem o que estão vendo. E quem não domina as Artes Negras como as feiticeiras da pintura, podem ver o harém diabólico de prazeres deturpados e oferendas de rebentos ao deus do gozo. "Aquelarre", o prado do bode, ilustra o imaginário do povo espanhol que testemunhou durante tempos a perseguição inquisitorial de bruxas e sacerdotisas do Diabo. Mais que um desejo de obter poderes sobrenaturais, Goya pincelou os ignorantes apelando aos rituais para acabar com a miséria. A pintura do Thoth Tarot é o deus dos prazeres, aquele da malícia e do poder da vontade sobre o mundo. Mais real que se pensa, os bodes conversam entre si e com seus "escravos". Maior fracasso é não acreditar neles.
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TORRE EIFFEL Robert Delaunay
A TORRE
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A Torre Eiffel, símbolo máximo de Paris, é destruída por Delaunay. A palavra de ordem aqui, clara tanto na obra quanto no baralho Morgan-Greer, é fragmentação. As estruturas metálicas se desintegram pelo sol assim como o fogo, os raios e as bravas ondas tratam de corroer o esquema interno da construção. O pintor francês é considerado o criador do "cubismo órfico", tendência que agrega uma faceta lírica às exatidões do movimento tradicional.
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A EXPULSÃO DE ADÃO E EVA DO PARAÍSO Tommaso Masaccio
A TORRE
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Não podia deixar de mostrar essa outra obra devido à semelhança gritante com os antigos baralhos minchiate. O portão do paraíso é curiosamente parecido à saída lateral das antigas lâminas da Torre. Os raios acima do casal da pintura, representação clássica da voz do Criador e o Gabriel empunhando a espada dão lugar, respectivamente, às chamas internas e ao fogo que vem do alto - representado em outros baralhos pelo tradicional raio de fogo que destrói a cúpula do edifício. O termo A Casa Deus, portanto, tem uma provavél comprovação devido ao afresco italiano de 1425.
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O NASCIMENTO DE VÊNUS Sandro Botticelli
A ESTRELA
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Êxtase pode ser, com certo exagero, a palavra que descreve a reação ao observar a mais famosa tela de Botticelli na Galleria degli Uffizi, em Florença. Falo por mim, é claro, mas não há como discordar que toda a delicadeza da tela abençoa o arcano 17, A Estrela, com o que os artistas e poetas há séculos chamam de Beleza. Se a deusa mitológica nasce das espumas do mar, o arcano, por sua vez, verte suas ânforas na água. Ambas dialogam de forma sublime pela total dependência do elemento para que possam florescer ao mundo. A carta do tarô suspira renovações, criatividade e esperança. Acaba-se o tédio da Temperança e os líquidos são despejados, assim como as vestes. Se Vênus cobre suas intimidades, Estrela despreocupa-se com elas: é como ver a verdade em sua mais pura existência. Puro êxtase.
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A NOITE ESTRELADA Vincent van Gogh
A LUA
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Van Gogh, o lunático, marca presença na galeria arcana com a cena noturna mais bela que a França já viu. O incrível é que ele teve uma relação íntima com a noite desde que se mudou para Arles, cenário que serviu de inspiração para as mais belas obras de seu acervo. Mas foi essa que semeou os traços do Expressionismo devido à sua mente perturbada - atributo da Lua do tarô, óbvio. Pintou-a durante o dia, apenas com a lembrança da noite em que passeava com o enfermeiro após ter sido internado no sanatório de Saint-Paul-de Mausole. O ambiente do arcano tonifica as semelhanças com a tela: as torres da figura tradicional do tarô, como na do Ancient Italian, dialogam diretamente com o alto cipreste da esquerda e a torre pontiaguda da igreja lá embaixo na cidade. Alguém que observava os céus e dizia "Assim como tomamos um trem para Rouen, tomamos uma estrela para chegar à morte", só pode ter influência do arcano da madrugada. Loucura. Melancolia. Lua.
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OS GIRASSÓIS Vincent van Gogh
O SOL
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Se antes era perturbadoramente noturno, agora vê a luz do arcano 19 e pinta o vaso de flores mais famoso da história da arte. A tristeza é subtraída e a luminosidade é adicionada, criando uma verdadeira alegoria da vida e da morte em miríade amarelada de metáforas. Respeitando o ciclo da natureza, a essência da tela está na necessidade da existência irradiar beleza, fazendo com que o maquinário da vida não prevaleça sobre o ser humano. E é de relações humanas que trata o arcano 19 ao mostrar duas figuras se encontrando com os olhos e se tocando em sinal de reconciliação e acordo, como no Morgan-Greer. Em ambos a vitalidade explode. As cores se combinam em harmônica efusão. Como se fosse um jardim aberto. Um campo ensolarado de girassóis movimentando a vida.
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O ENTERRO DO CONDE ORGAZ El Greco
O JULGAMENTO
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Eu sei bem que O Julgamento encena um novo começo, uma nova realidade de uma outra era, com o momento de acertar as contas, independente de quem você é. Por isso que, limitado ao que a revista me oferece, associo O Enterro ao arcano 20. Um dos argumentos mais visivelmente comprovados na comparação é que ambos retratam o terreno e o celeste. O conde se desprende do corpo físico e ascende aos céus revendo toda a sua vida pelas esvoaçantes nuvens do tempo. Nessa "sinfonia fúnebre" que é o arcano do Juízo, vemos até mesmo os santos Estêvão e Agostinho virem buscar o maior nome da cidade espanhola de Toledo, assentuando sua importância em receber o julgamento. Não se pode esquecer que o cenário tradicional da carta é um cemitério, várias vezes concebido com vários túmulos abertos para o momento crucial da existência, que eu sei (e que você também sabe) qual é.
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A DANÇA Henri Matisse
O MUNDO
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Assim que bati os olhos em Matisse, vi O Mundo. Sua tela mais famosa encerra com maestria a associação das cartas numeradas às obras de arte. Nesta, em especial, o artista engloba toda a expressão humana em uma celebração artística da poesia, da pintura, da música e da dança - as próprias verdades do tarô e o resumo conceitual do arcano 21 do tarô Rider Waite, que mostra a dançarina provida dos quatro elementos que viabilizam a existência. O solo é o horizonte da Terra, o azul a profundidade do espaço sideral e, as figuras em festa, o elo definitivo entre o chão e o céu - efetivando a relação terreno-celeste da lâmina anterior. O quadro "é a síntese de símbolo e realidade corpórea", segundo o Giulio Carlo Argan, crítico de arte. Eis a realidade cósmica de uma carta de tarô e uma tela pintada a óleo. Eis o mundo.
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O FILHO DO HOMEM René Magritte
O LOUCO
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Para alguns, O Louco é tudo no tarô. Para outros, é um mero arcano sem número e, por isso, sem lugar e importância nos jogos e nos estudos. Ainda bem que essa segunda turma é bem pequena, pois mesmo sendo o arcano sem número definido, ele é o mais enigmático símbolo em meio a tantas páginas soltas desse livro da vida. De tão louco, pelo sutil ele chega a ser surreal. Daí a deixa importantíssima para Magritte marcar presença. "O Filho do Homem", obra famosa por ser uma verdadeira incógnita, é a única tela da publicação que faz o bufão rir e espelhar semelhanças. O mais incrível é que não há nenhum significado metafórico para a maçã verde cobrir seu rosto ou estar contra um muro baixo que o separa das águas. Ele evoca o mistério, segundo a explicação do pintor. E o mistério, assim como a identidade do Louco, é irreconhecível. Basta nos atermos à imagem do Thoth Tarot, por exemplo, é cercar algum traço de racionalidade. Mesmo se houver, para quê serve? Ele é questionado, mas sempre questiona quem o observa. Sutilmente.
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No fim, cada arcano acabou tendo uma pintura que corresponde à sua natureza em algum momento. Não que sejam as únicas a espelharem o tarô, muito pelo contrário. Elas são apenas sugestões do que pode ser visto através das figuras mais misteriosas do mundo. Futilidade para alguns, a disciplina "Arte e Tarô" merece respeito e reconhecimento. É um caminho de identificação; um ingresso definitivo para desvendar as semelhanças e segredos do museu arcano. Viva a liberdade visual. É ela que amplia - caso respeitemos a estrutura simbólica do baralho - a nossa capacidade de ler o mundo. Pés no chão. Olhos em tudo.
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Novidades a caminho.
Um super Natal,
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Leo
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CRÉDITOS
Pinturas - Google Imagens www.google.com.br
Tarôs - Taroteca www.taroteca.multiply.com