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22 de março de 2016

#SOMOSTODOSCARTOMANTES


Há alguns dias, fiz uma chamada para discutir um artigo enviado por uma leitora do Café Tarot. O tema era a questão de gênero nas cartas, tão interessante quanto polêmico. Eis o enunciado:

Você lê Tarô? Que tipo de abordagem faz das mulheres e dos homens nas cartas? Enfim um artigo que pode gerar muita discussão — e deve, porque é bom discutir. É necessário. Para que haja menos retrocessos ambulantes [cartomantes] e mais reflexões sobre questões urgentes. Todos ganham. E até o esoterismo agradece.

Me perguntaram agora o que eu quis dizer com 'retrocessos ambulantes [cartomantes]'. Em meio a tantos afazeres, pensei por um momento se deveria discorrer sobre a construção de um enunciado em que questiono especificamente profissionais de caráter rígido ou ultrapassado afiliados à Cartomancia, seja ela clássica, moderna ou contemporânea. O tópico me pareceu instigante e pertinente, então escrevi rapidamente algumas considerações. 
Existe um artifício linguístico, empregado especialmente na Arte Poética, chamado "rima". Quem tiver dicionário em casa — todos, presumo, principalmente os que se dão à leitura de imagens — sugiro consultar não só 'rima' mas também outros termos ligados à construção textual, às figuras de linguagem, às intervenções publicitárias como 'adjetivo'. Talvez eu não precise explicar que uma adjetivação foi empregada com o termo 'cartomantes', mesmo sabendo da flexão 'cartomânticos', da qual não gosto e que soaria estranha se tivesse empregado no meu enunciado. Construir um texto se assemelha à leitura do Tarô: em ambos os casos nos valemos do processo narrativo, cada um com suas idiossincrasias. Construir um período também pressupõe algum domínio de escrita. Porém, como sempre, os perigos de qualquer construção estão no entendimento, na reação que ele causa. E aqui, 'retrocessos ambulantes [cartomantes]', com este jogo de palavras rimadas, para algumas pessoas parece ter soado como menosprezo tanto pelo termo 'cartomante' quanto pela classe de cartomantes. Não e não.
Comecemos pelo retrocesso. Usei 'retrocessos ambulantes' do referido enunciado, em rima rápida com 'cartomantes' para me referir às personalidades cujas verdades inabaláveis provém de suas religiões, de suas posições políticas [geralmente fascistas] ou até de seus sistemas esotéricos rígidos e absurdos — aqueles que influenciam seus consulentes e mesmo seus alunos a seguirem uma cartilha específica de credos, de medos e de idiotices. 'Retrocesso', no grande Dicionário Larousse [Nova Cultural, 1999], é o 'ato de ou efeito de retroceder; o retorno à posição ou ao estado anterior; reversão, recuo. O termo vem do latim 'retrocessus' que, no Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (Lexicon, 2010), se dá como 'movimento para trás'. É bom, inclusive, que o cartomante tenha mais de um dicionário. Mais de dois. Em casa e na vida: dicionário de símbolos, dicionário de termos filosóficos, dicionário analógico, dicionários de tudo. A partir daí, a visão de mundo [e de texto] se amplia consideravelmente. Sim, reconheço que numa primeira leitura os 'retrocessos ambulantes', rimados com 'cartomantes' entre colchetes, parece especificar os cartomantes como retrocessos. Muitos são, que seja dita a verdade, mas a compreensão da minha construção vai paralela ao aproveitamento de uma leitura que fazemos das cartas: o consulente a compreende como bem quer ou consegue. Logo, o leitor da minha chamada compreende como quer ou como pode. Por mais que se esforce em uma interpretação simbólica — que é, ressalto, uma construção tão elaborada quanto a textual — o aproveitamento será de inteira responsabilidade dos clientes consulentes [outra rima!]. Sendo assim, o sentido de um simples enunciado pode ser deturpado por quem não conhece determinados mecanismos textuais ou por quem não se esforça em tentar desdobrar a interpretação do que se lê, coisa tão recorrente numa consulta às cartas. Ah, e o inegável: a discussão proposta sobre o artigo foi longe, como bem quisemos. Sem qualquer interpretação ofendida [pelo menos não declarada] dos tais 'cartomantes retrocessos'. Ressalto, então, que a chamada para o artigo foi construída sem qualquer conotação negativa direcionada a uma classe na qual me incluo com absoluto orgulho — eu, Leonardo Chioda, cartomante e escritor.
Quem se diz 'tarólogo', 'tarotista', 'leitor de sorte' ou mesmo 'fortune-teller', sabe-se cartomante. É um fato, não é uma escolha. É a nossa natureza. Profissão aprendida — ou condição herdada, de acordo com alguns. Mas quem deturpa um enunciado sem entendê-lo de verdade, julgando a partir de uma primeira leitura sem considerar a ironia ou os jogos de palavras empregados, pode ser um exemplo de retrocesso. A quem não conhece nada de comunicação poética, achando que se trata apenas da parte bela e inútil das bibliotecas e dos cursos de Letras, creio que seja auspicioso saber que o Tarô floresce na literatura italiana com destaque em passagens fabulosas de Petrarca e de outros poetas de tamanho indiscutível. As cartas são linguagem. Quem se dói por uma construção desse tipo, de rima proposital, deveria rever ou aprender alguns conceitos. Que vá ler Décio Pignatari, Alberto Manguel, talvez Borges e também Barthes para aprender algo sobre fruição e o que é erigir um texto, por menor que ele seja. Aposto, também, que as leituras oraculares serão tonificadas consideravelmente. Porque ser cartomante é, entre tantos verbetes, estruturar o intelecto, compreender as emoções e desenvolver a intuição. Cartomante, filho de Fortuna. Cartomante [estudante]. Duvido que o leitor de cartas exista para alimentar qualquer ignorância, ainda mais a respeito de leitura. Embora exista, tranquilamente, o cartomante petulante, se debatendo no inferno da própria rima.
Aliás, existe palavra mais linda, neste nosso recorte léxico, que 'cartomante'? E existe palavra mais temida entre tarólogos? É bom que digamos a verdade. Mesmo havendo frequentes avanços na história do Tarô brasileiro, com esforços consideráveis de desmistificação da profissão e da prática da Cartomancia, ainda ressoa o mistério, o fascínio, o encantamento da personagem de Machado de Assis. E há ainda, infelizmente, o preconceito entre os próprios cartomantes que tentam fugir do termo devido à associação com pessoas que valem de processos intuitivos ou religiosos para ver o futuro, aquelas que 'olham as cartas' e aquelas de profissionalismo duvidoso com seus feitiços, amarrações e o slogan 'não diga nada que revelo tudo'. Para refutar qualquer ranço, valorizemos o termo pela via da etimologia: o sufixo ‘mante’, que nos veio pelo grego ‘mantike’ e ‘manteía’, estão ambos relacionados à tecnologia ['techné'] da profecia, à adivinhação e ao oráculo, segundo Junito Brandão no Dicionário Mítico-Etimológico [Vozes, 1992]. Cartomante, independente das roupagens e dos mal entendidos, é um mecânico do acaso. Um adjetivo e tanto.
Talvez coubesse aqui me desculpar pela interpretação equivocada por parte de quem não se debruça devidamente sobre o que lê. Ou dar de ombros, porque escrever é muito mais do que uma conversa — é uma engenharia que se aprende com tempo, humildade, revisão e leitura. Dedicação verdadeira, sobretudo. Assim como a Cartomancia e o seu funcionamento. Então prefiro os ombros, que já suportam bastante, a ter que me responsabilizar pelo nível de leitura aparentemente raso de alguns. Que fique o registro sobre um termo pouco usado mas muito amado por mim — que aplico com toda a licença [poética, com certeza], sempre honrando minha profissão e minha condição de cartomante. Que fique livre esta palavra, minha e sua, repleta de signos tão antigos quanto o ato de 'intuir à maneira dos deuses'. Contra os retrocessos.
Porque cartomantes somos todos, Atlas da combinatória, dicionários vivos. 
Ambulantes. [Cartomantes].

E as rimas ficam.

29 de julho de 2012

CARTA ABERTA A QUEM NOS LÊ





De um e-mail:
Quem é o melhor mestre de Tarot para me ensinar? 
O que devo fazer e comprar? Quanto custa aprender tudo sobre Tarô?




Saudações, queridos leitores. 
Estamos de costas pra vocês, nos desculpem. É que somos muitos. E muitas vozes. Assim, omitidas as nossas roupagens e identidades, no caos do embaralhamento, podemos falar com liberdade, basta perceber. Instrumento de linguagem, gozamos do privilégio das figuras. Somos máquinas de metáfora, sem deixar de lado a concisão. Sabemos ir e levar direto ao ponto. Somos todos um. Somos um maço. Talvez seja complicado pensar em nós como uma voz uníssona, mas é assim que funciona: um conjunto, uma galeria. E o recado é sobre pretensos mestres de nós. É, dizem que existe sacerdócios de nossa sabedoria, senhores absolutos de nossos segredos, nuances e combinações. Não, queridos. Acreditem: não há mestres. Não há nem intuição que nos baste, se querem mesmo saber. Mas há aqueles desprovidos de generosidade e, não raro, de humanidade. Impostores e ingênuos negam a nossa própria humanidade em nome de um poder imbatível que acreditam encerrarmos em nossos traços e cores. Pois é, mas de fato não há milagre nenhum diluído em nossa composição. Nós somos 78 e, ainda assim, apenas um. Um só espelho. Não há sequer uma gota de maestria em quem vai contra a gentileza, a honestidade e a coerência simbólica. Somos parte daqueles que prezam pela amizade, pelo aprendizado, pela harmonia. O diálogo conosco deve ser franco. Somos abismos mudos: se não percebemos a quê as pessoas surgem, permanecemos calados, feito estátuas de mistério. Nos entreolhamos no calor da ironia, tirando a paciência de todo e qualquer apressado. O trabalho conosco é árduo. Leva anos para andar sobre nós com relativa segurança. Somos um guia, não uma ponte à fama a qualquer custo ou ao sucesso comprado. Isso é contra a nossa configuração [tantas vezes considerada] divina. Aliás, nossa estrutura transcende toda e qualquer fome de vingança e também carências mascaradas em arrogância e maledicência. Não temos mestres justamente porque não faz parte da nossa natureza. Formar ou acreditar em mestres de nós é o mesmo que subestimar nosso poder. Se perguntássemos qual é o primeiro de nós no topo de qualquer maço devidamente embaralhado, um desses ilustres senhores acertaria a resposta ao se proclamarem mestres? Nossa condição é arcana, mas a vida é que nos forma, percebem? A magia é essa: narrativa. Não se conquista nada por meio de títulos ou passos maiores que as pernas. Somos um aglomerado de memórias, de impressões e experiências. Somos o imaginário e a realidade em pleno casamento. A síntese dos tempos, lentes do ontem, do hoje e do amanhã. Por isso ensinamos a vida a quem tem olhos livres e coração aberto para caminhar sobre ela com coragem e sinceridade. Com humanidade. Quando nos abrem em leque e escolhem uma, várias ou todas de nós, a responsabilidade de vocês é grande. Sempre. Transformamos vidas, rachamos ilusões, condenamos sentenças, impedimos erros, incentivamos a felicidade e até freamos atitudes. Por isso a clareza deve ser o ponto de partida, e isso não nega o encanto entre cada lâmina que nos forma. Permitimos a vocês, caros, que nos leiam em tantas tonalidades e formas, não é mesmo? Somos metamorfose: arte e destino dançando no começo e no recomeço do mundo. O mínimo que desejamos em troca, merecidamente, é respeito, pesquisa, cuidado. Bem-aventurados aqueles que  lêem, questionam, indagam, criam e duvidam. Mas quando nos associam a algum credo ou sistema filosófico, agradecemos por se tratarem de possibilidades, e não de verdades indiscutíveis sobre nosso funcionamento [e, mesmo assim, é bem sabido que não mentimos jamais]. Que haja consideração pela nossa cultura, pela nossa história e pelo nosso poder. E também pelo que não podemos fazer, e muitas das pretensões florescem daquilo que nunca fizemos e nunca faremos. Temos uma vasta literatura a ser consultada e revirada de cabo a rabo: erros e acertos se aprendem observando o que tem sido feito e escrito ao longo dos séculos. Aliás, o cuidado com projeções deve ser prioritário justamente por refletirmos pessoas e circunstâncias. É fácil errar conosco, mesmo humildemente aceitando nossa perfeição. A nossa natureza. Sem estudo e prática, não se caminha bem ao nosso lado, nem dentro de nós. Quando há simplicidade aliada ao bom gosto e à precisão com as palavras [já que é feita de imagem a nossa carne e de palavra os nossos ossos], trabalhamos dignamente. Com beleza e criatividade. Retribuímos com o paraíso quando a leitura de nós é honesta. Assim temos profissionais, formadores de opinião e facilitadores dos incontáveis nossos atalhos. Nunca mestres, por mais que se divulguem o termo ou as promessas para a obtenção de títulos semelhantes. Não há mérito [genuíno] sem esforço [autêntico]. Nada foge aos nossos olhos. Não à toa, a Justiça se mantém entre nós. Temos sido imortais graças a vozes e textos. Nossa fortuna crítica vem de vocês. Por isso sabemos que todos devem começar pelos seus próprios valores. Afinal, o respeito a nós começa em cada um. Então, vida longa a todos. Cada vez mais. Somos muitos. E de costas ou não, inspiramos qualquer um que nos espreita com verdadeira dedicação a se encarar de verdade, a avaliar os desejos e as intenções. Ah, e mestres de nós somos nós! Ainda assim, temos muito a aprender com vocês. E muito, mas muito a lhes ensinar. 

Toda a nossa gratidão. Por tudo, por sempre. 
Com Amor,

Tarô

19 de julho de 2011

UMA ODISSÉIA MEDITERRÂNEA

Para ler ouvindo Loreena Mckennitt - A Mediterranean Odyssey.
Clique nas imagens para vê-las no tamanho original.



O Tarô é uma grande e longa viagem. Quem desconhece essa afirmação desconhece a própria natureza dos arcanos, que num vislumbre rápido pode sugerir o galope dos cavalos d´O Carro, por exemplo. Ou do próprio Louco, andarilho por excelência, aquele que desfruta dos caminhos como se fossem pêssegos suculentos num dia quente entre o sol e a sombra de uma árvore sábia. Estou há quinze dias na Europa e me dei conta do quão o itinerário traçado é exótico. Mediterrâneo.

Valete de Ouros do Scopa, jogo tradicional italiano, em Siracusa.
Il Sole, loja arcana na Taormina.


Houve a Andaluzia, onde
 João Cabral de Melo Neto me cantou os poemas da Sevilha e me vi bêbado com a magia flamenca dos azulejos coloridos. Na Itália a eterna Roma e depois a Umbria e a Calábria, até provar os perfumes de Sorrento em cada limão, sorvete e prato típico. Já foi a vez da Sicília, em que Taormina recebe os turistas com seus arcanos em riste, tal como é a cidade. Falo dos arcanos porque em cada ponto dessa viagem eles aparecem. Foi lá que avistei o bar IL RE DI BASTONI, onde do lado de fora havia uma placa toda estilizada e, dentro, uma camiseta vermelha com o arcano em destaque. Pirei na hora. Era a última sendo vendida e veio parar nas minhas mãos.




Il Re di Bastone, um pub na Taormina, com direito a camiseta.

De lá, uma boa história pra contar pros sobrinhos-netos: mais uma peregrinação até a boca de um vulcão. Desta vez o Etna, o maior do continente. Caminhar sobre as pedras frias de lava e dar-se conta da atmosfera marciana do ambiente, é possível ir aos limites do que se pensa enquanto viajante. Enquanto arcano vivo. O Louco ali.



O Etna que explode a todo instante e faz o coração vibrar.

Depois de visitar os templos de Jupiter, Zeus e Hércules em Agrigento, onde colhi pedras e azeitonas para uso mágico posterior, foi a vez da caótica cidade de Catania me surpreender. Na entrada do Caffè Pepe, encontro um arcano no chão: LA GIUSTIZIA. Um estado de serenidade logo tomou conta de mim naquele calor de 38 graus. Ofício e caminho validados pela portadora da balança.


Arcano VIII do 'Tarocco Indovino' (Dal Negro)

aparentemente lançado pelo jornal italiano La Repubblica.

Uma
strega me disse que quando uma imagem se repete, o espírito do que ela representa se perpetua. É, tem sido assim. Trunfos em cada lugar que visito. Aliás, as cidades são mensageiras. Aonde quer que você esteja, sinta o lugar. Nem sempre pode ser agradável, mas a experiência é que faz a diferença. O tarólogo, assumindo o seu papel de Andarilho, tem o poder de (re)conhecer os arcanos em uma manifestação folclórica, na decoração de um ambiente e também na estrutura social e no modo como as pessoas se comportam. As figuras das quatro Cortes condensados em cada um de nós.


Nos jardins do Real Alcázar, em Sevilha.

Sigo com meus arcanos de viagem.
Aliás, quais são os seus?


L.

12 de fevereiro de 2011

A ARTE DE MANEJAR COLUNAS E LEÕES


The Force - Waite-Smith Tarot

Não existe arcano melhor ou pior, nem mais fraco ou mais forte. Existe o poder de cada um que nos toca de acordo com a nossa leitura de mundo. Com a nossa poesia pessoal. Tenho descoberto n´A Força uma grande aliada para solucionar problemas, sabe? Uma espécie de feiticeira que coloco em prática mentalmente. Dependendo do humor do leão, o olhar dela furta toda a atenção e joga o encantamento. Aí está feito. As mãos hábeis na mandíbula, as pupilas no alvo. Eis o controle. Coragem, palavra de ordem aqui.
La Force - Gringonneur
Outro dia, ao telefone com meu amigo Nei Naiff, conversamos sobre o que há de obrigatório para se ver sobre Tarot em Paris, já me programando pra viagem. Anotadas as dicas, me peguei questionando qual era mesmo aquele baralho em que O Louco é gigante e faz malabares e que a Força não tem leão, mas uma coluna – representação de uma das Virtudes cardeais, sempre presentes. Aquele que a LoScarabeo lançou com o nome de Tarot of the Renaissance, com bordas douradas e frufrus. Charles VI, outro nome famoso dele. “É o Gringonneur!”, bradou o Nei, “é o que chamam de Gringonneur”, e tudo me veio à mente. Passada a amnésia, fiquei com a A Força na cabeça. A coluna havia se quebrado há alguns dias, mais precisamente na minha resistência, quando passei por umas experiências nada agradáveis com mudança de casa e trâmites de fim de contrato. O arcano da vez, saquei, era mesmo A Força, exigindo de mim uma posição física e mental voltada totalmente para a ação. Mesmo com a gripe [a exemplar reação ao medo da mudança, segundo os metafísicos da saúde] mais forte que já peguei, temperada com nervosismo e uma longa viagem até a cidade em que eu estudo, comecei a mudança de casa e a mentalização da carta – plasmando na minha mente o sorriso indiferente da dama diante dos meros detalhes do cotidiano e assimilando toda a destreza necessária para concluir os compromissos sem tanta alterações de humor – e de saúde, né? Mimetizar o esforço da domadora, curvar-se para arrastar móveis e carregar livros a coluna da vez – para tomar consciência do meu corpo e do meu estado mental diante dos problemas e também das novidades. Uau, espelhar as lâminas é uma técnica mágica. O feitiço possível da imagem.
Tarocchi di Mantgna - FORTEZA XXXVI
Hoje, uma semana depois, sarei dos olhos vermelhos e da coriza: aceitei a minha vulnerabilidade. Percebi, compreendi e imitei internamente a serenidade que existe nos olhos daquela feiticeira de leões; a firmeza dos olhos tranqüilos daquela dama de véu negro, ciente de que o peso do pilar depende do quanto ela acredita que pode agüentar. Entendi que acreditar somente no que desejamos ou tememos não é muito saudável. O que vale é penetrar no caos e mostrar as garras. Assim resolvi todas as burrocracias junto de pessoas queridas e já não penso “ah, tá louco, não quero nunca mais passar por isso”, mas sim “ótimo, eu consegui. Agora extraio sabedoria dessa situação para enfrentá-la com toda a coragem se algo parecido ou pior me acontecer”. Aprendi a ter segurança diante da incerteza e do improvável. Enaltecer sincera e coerentemente a magia pessoal é opção e responsabilidade cada um. Por isso o trabalho com o arcano felino já faço há anos, mas sob a égide da virtude começo agora. Em mãos o meu Tarocchi di Mantegna.

Um beijo corajoso aí,
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L.
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P.S.: Nei, vi o link do Renaissance da Lo Scarabeo que você mandou, mas eu queria mesmo é uma réplica do original. Nada bobo eu, né?
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IMAGENS | galerias do Clube do Tarô. Aliás, clique aqui e saiba mais sobre o Gringonneur que não é o Gringonneur.

18 de junho de 2010

Fecha-se o caderno.



Para ti, saberás, não há descanso,
A paz não é contigo nem fortuna:
O signo assim ordena.
Pagam-te os astros bem por essa guerra:
Por mais curta que a vida for contada,
Não a terás pequena.

SIGNO DE ESCORPIÃO | José Saramago
(1922 - 2010)
in Os Poemas Possíveis
Editorial Caminho, Lisboa, 1982.


Foi um susto.
Anteontem descobri os poemas dele.
Vasculhei a internet e soube que Os Poemas Possíveis e Provavelmente Alegria, os dois volumes de poesia, não estão nas prateleiras do Brasil. Pela Einaudi, casa de livros italiana, saiu o Le Poesie, reunião dos dois títulos que trazem ainda os originais em português. Minha chance. Ontem fui correndo até a livraria antes que fechasse. Voltei feliz pra começar a entranhar os escritos hoje. Hoje, justo o dia em que Ela foi visitá-lo.


É, são as intermitências.
Por que as coincidências, tsc tsc, não acredito nelas.


L.



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O ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA NO TARÔ
CLIQUE AQUI

29 de março de 2010

UNA BELLA DOMENICA



Estou morando em Perugia, na Itália. Aqui a vida é do jeito que eu gosto, com seus horários, tempos vagos pra preencher com caminhadas, estudos e trabalho no conforto que me é concedido. Vim também com a intenção de pesquisar e garimpar material sobre tarô pra acrescentar uns temperos a mais no que se anda produzindo no Brasil.

Confesso que os meus compromissos e também a fotografia consomem tempo demais pra me dedicar especificamente a essas ideias. Mas existe a fúria. E existem os acasos e as surpresas, que me fazem ainda mais feliz nesta terra tão capricorniana já enraizada no meu peito.



Outro dia tive um sonho: viajava até San Marino, onde existe a loja física da Alida Store pra comprar um Minchiate Fiorentine, um dos tarôs mais cobiçados pela minha pessoa. Dias se passaram e eu pensei em como usaria o baralho quando o tivesse mesmo em mãos, levando em conta que são 97 arcanos.

Ontem, passeando pela feira de antiguidades no centro histórico, parei pra ver os livros velhos numa bancada. Claro que o primeiro título que me veio à cabeça foi o procuradíssiimo I Trionfi de Petrarca, um documento precioso pra quem estuda o tarô. Me assustei quando vi uma caixa dourada do Visconti Sforza. Uma edição bonita e bem manuseada, do jeito que o meu signo gosta. Mas fiquei arrepiado quando vi uma outra ao lado, toda vermelha. Sim, caros. Era um Minchiate! Quase soltei um "cazzo!" em voz alta, mas me contive. Peguei e pedi pra me deixar ver as cartas. Todas inteiras, maço completo.



"Quanto viene? 12?" - perguntei, cuidadoso, por não entender o preço na etiqueta.
"No, 10 euro!" disse o vendedor, um verdadeiro sózia de Salvador Dalí.

Fiquei mais eufórico ainda! Não, não foi nada surreal, foi um momento de conquista. Anos e anos de procura que acabaram ali, em três minutos de contagem das lâminas, de pagamento e de 'Grazie a te'. Continuei passeando em busca da famigerada criação de Petrarca, tomando o melhor sorvete do planeta e muito grato pela surpresa que a Itália me fez. A vida é bela. Mais ainda com esses pequenos detalhes.

Abbraccio,

Leo

2 de janeiro de 2010

QUANDO A MULHER É O DIABO

15


(...) Mas eu não sei o motivo, não sei porquê ela fez isso comigo. Eu achava que ela me amava. Desde sempre. Mas quando começou a falar em filho, em trabalho melhor e em religião da terra, fiquei com medo. Muito medo. É isso que eu proporciono pra ela? Dinheiro, esperma, fé? Eu, hein. Fico aqui mesmo, deixa ela se foder do jeito que achar melhor. Sei que não tem outro na jogada, o lance é comigo. O problema sou eu. Mas ela é que é o inferno em pessoa. Colocava as botas, saia curtinha e vestido - tudo preto, tudo novo. Me dava um beijo de língua, me empurrava e falava pra fazer miojo na janta. Eu fazia. Esperava ela voltar enquanto o maço ia esvaziando. Nunca notei nada. Mas sei que a mulher é o diabo. E mais underground que a minha, impossível.


Leonardo Chioda
QUANDO A MULHER É O DIABO, conto inédito.

Imagem do blog Hail Satin!
encontrada no Kaliyuga Blues, blog do escritor Daniel Pelizzari.

6 de abril de 2009

E A CARTA DO DIA É...


Geralmente é esta frase que eu pronuncio antes de mais um dia de trabalho e estudo. Não que eu seja dependente da cafeína, mas é porque sou chegado numa xícara cheia. Costume. Gosto. Eu sei, vício talvez. Perguntei ao tarô sobre as possíveis gastrites que seriam tão adequadas a um paladar marrom como o meu. Ele me reservou esta fulana aqui:



Equilíbrio, né? OK, só uma caneca pequena por dia, nada mais que isso.
Vamos evitar o pior: a indigestão de não seguir um conselho arcano.

Vai café aí?
Eu já tomei hoje. Bem pouco.
Mesmo.


Leo

21 de julho de 2008

CARTAS DO AMOR

Um enigma de ouro, sangue e paixão
Detalhe de “La Primavera” de Botticelli, 1482.




"Il vous aime, c'est secret, lui dites pas que j'vous l'ai dit..."
Carla Bruni

Domingo é dia de Café Tarot. Pra mim é todo dia, principalmente durante as tardes ensolaradas do interior paulista onde me permito longa folga, aproveitando o jardim e a cortina de heras próxima à mesa com xícara, arcanos e livros bem distribuídos. Após uma leitura com um cliente antigo, levo meu café até a boca, ergo uma carta do Visconti-Sforza, próximo da fumaça: Os Enamorados. “Um banho de sangue”, penso alto assim que termino o gole.


O momento dos amantes – Tarô Visconti-Sforza Pierpont Morgan-Bergamo.
Eis a cena do enlace entre Francesco Sforza e Bianca Maria Visconti – sugestão de Stuart Kaplan no primeiro volume de sua Enciclopédia do Tarô. Seria essa ligação de sangue o motivo do vermelho vivo? As casas, praças e palácios milaneses, lavados pelo fluido da vida numa mistura de duques, nobres e governantes. Mas talvez o que se nota é que se torna inadiável, interessante e importante a ser comentado. O Cupido, acima do casal, tem asas rubras. A esfera direita do seu cérebro parece exposto. Do órgão genital, a vermelhidão sugere sangue expelido. Ou vinho, o próprio sangue dos deuses, embriagando os prometidos quando mostro o Ás de Copas transbordando na minha imaginação. Ele não voa; prostra-se sobre um pedestal quase imperceptível. Fico sabendo, posteriormente, que seria uma fonte. Aquela tal da Eterna Juventude, ainda mais na cidade plena das mil e uma construções. Suas asas, então, encharcadas. Penso nesses ornamentos. Dedico-lhes certo tempo enquanto os leio, ouvindo o canto de Safo.

Francesco Sforza e Bianca Maria Viscont - pinturas atribuídas a Bonifácio Bembo, 1460.
Não dá para atribuí-los apenas à deterioração natural do trunfo. Kaplan explica que o revestimento de fundo poderia ser de um ouro inferior ao dos demais arcanos. Sei que tudo faz sentido nas páginas do tarô. Muita, muita atenção.

O anjinho vendado segura uma flecha em cada mão. “Pois bem”, eu me pergunto, “cadê o arco, Cupido?”. “Está com ela”, me responde assim que desviro, por impulso do acaso, a lâmina mais próxima – A Morte. Tânatos que acompanha Eros, óbvio. Se eu tenho o esqueleto junto à primeira carta, percebo que têm sido equivocadas as noções do amor ao pensar que ele permanece (ou que deveria permanecer a qualquer custo) igual para todo o sempre. Mas o amor só é autêntico quando dá liberdade, já que tudo é uma constante transformação - ainda mais quando ele vem de repente, sem qualquer esforço, como um presente natural. Se verdadeiro, não morre; transforma-se. Noção básica da ciência. E do coração, claro.



A Morte (Pierpont Morgan-Bergamo) e Os Enamorados (Cary-Yale).
Aqui o pano que antes cobria a visão do garoto-amor está preso à testa do crânio. A Inominável conhece seus alvos. Cada um tem sua hora e ela não perde a mira. Parei. Brinco de quebra-cabeça com os dois arcanos – um antes, o outro antes do primeiro – experimentando uma seqüência para possíveis epifanias arquetípicas. Sempre possíveis, sabemos todos.

O amor, a morte, AMORte, escolhas, morrer, escolher morrer... ESCOLHER MORRER?! “Amar é deixar-se matar”. Pronto, consegui. As duas divindades gregas desabrocham em conceito prático. Atuar com o arco é uma função nobre, um exercício de espírito. É a arte do cavalheiro, que garante a caça, envolve a pretendente. Sempre carregando um sentido masculino, a flecha penetra e fecunda o veneno, agindo como um raio – modifica aquilo que toca. Ouço sempre dizer no duplo caráter do querubim dos casais. Seria, o outro lado, uma força perniciosa que conduz à ruína, já que exerce poder sobre os homens, sobre a constituição e o curso do Mundo.

Lanças e flechas sem saber em quem – ofício do nosso Eros – é antecipar mentalmente a conquista de um bem fora do alcance. Arriscar, brincar com/no acaso. E quem sabe se ele não espia lá do alto, por uma brechinha do tecido? Ele é quem transtorna, desequilibra e invade o mortal. É a morte súbita, fulmina a vítima. Tanto as do Amor como a da Morte, as flechas atingem o alvo bem no meio. São certeiras, apesar de tudo. Com Ovídio aprendi sobre elas: “se forem de ouro, elas inflamarão o pretendente”. É assim no Visconti-Sforza. O arqueiro do amor e o arqueiro da morte guardam este segredo. Conversam e competem, será?

Cena do casamento em 1441 na Igreja de San Sigismondo, em Cremona.
Pertencente ao “
Codice de Donazione”, 1464.

Não meço o tempo e puxo outra carta. Agora é o Luminoso que se mostra. Apollo, o deus arqueiro. Os relatos míticos garantem que suas flechas são do mais puro fluido da beleza, temperadas docemente em seu coração. Mas Apollo é também aquele que entrega a peste: para vingar honra de Crises, seu sacerdote, semeou a Morte no acampamento grego nas praias de Tróia. No Pierpont Morgan-Bergamo, temos o jovem sobre uma nuvem carregada, segurando o sol acima de seu corpo. É o rosto de Febo que reluz no tom ígneo. Do fogo, do sangue, da vida. E se for uma máscara? É uma possibilidade. O pequeno Eros, já que tem asas, faz o papel do deus. A encenação greco-romana dos sentimentos que rondam a cidade, lá embaixo. E então tomemos distância das banalizações sobre o Deus-Luz que o reduzem à figura de um belo rapaz eternizado em desgraças amorosas, ou então a uma simples oposição nietszcheana de Dioniso – nada de superficialidades agora. Apollo irradia vitória, domínio e entusiasmo pela vida. Casa a paixão e a razão: ilumina, conscientiza e transcende expectativas e desafios.

Posições semelhantes: Apollo arqueiro de 460 a.C. no Museu do Louvre e o Sol.
A moral desse enigma só pode ser esta: diante das escolhas ou mesmo das decisões do destino, morremos individualmente, já que o amor é encontro de vida e morte. Os amantes se deparam com o desejo de dissolver o “eu” e o “você” em uma unidade. Estão separados da própria origem e então caminham de volta para o todo. O desejo de voltar para casa, o próprio coração.

O Sol, portanto, chega para clarear a realidade e as necessidades afetivas. É a maturidade, a confiança, a nitidez, a entrega enquadrada e pintada no dourado. E qualquer um que tenha a audácia de afirmar que domina o baralho deve ao menos respeitar seus segredos e esforçar-se para traduzi-los sem pretensões. Deve deixar-se dominar por ele, como seus sucessores, clássicos e modernos. Deixar-se dominar pelo amor, no entanto, é uma conseqüência. Esteja o casal pronto ou não, ele morre, renascendo em união que ultrapassa os tempos. Concreto, lívido, presente. Como teria sido com o casal italiano. Em juramentos de sangue, em vinho, em ouro.


P.S.: AMOR que se mostra ao espelho: ROMA.
Embarco logo.


Leo



FONTES

Enciclopédia do Tarot - volumes I e II, de Stuart Kaplan.

Imagens: Google e Taroteca

16 de julho de 2008

180 ANOS DE JABOTICABAL


Amanhecendo velha, firme e forte.

Não, eu não nasci em São Paulo. Nem na Itália, mesmo que meus antigos tenham vindo lá dos arredores de Cremona. Sou jaboticabalense, conterrâneo da Piovani e de alguns outros que aparecem por aí. Confesso que foi morando fora, de uns tempos pra cá, que comecei a sentir essa cidade. Sentir falta, sentir prazer em voltar pro seio dela e sentir saudade, até. Sou ligado em raízes. Ingrato aquele que maldiz seu berço geográfico, por pior que seja. Se não fosse por ele, não haveria graça em buscar os sonhos longe, na metrópole ou no estrangeiro. As distâncias diminuem e o coração vaga, sem medo de ir embora depois que chega. E eu dou um rumo à cidade, mesmo que particular. Nas minhas andanças imagéticas. Pelas minhas cartas de tarô.
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O método é simples. Abro o leque e ponho cinco arcanos sobre o mapa da cidade. A força simbólica da carta terrestre é a mesma que a das lâminas: se tenho as ruas, avenidas e pontos principais de um município, fica fácil fazer o trajeto de análise. Ou, literalmente, uma rota de leitura, como diria minha amiga Zoe de Camaris. Cada posição corresponde ao monumento ou localização a que me refiro, de modo que se monte uma espécie de mandala.

A seguir, um resumo simples da leitura-homenagem.


CARTA-CHAVE: 10 DE OUROS
Ano de eleição, ano de mudanças. É assim que este arcano rege o jogo: alertando para as finanças, os projetos, a família, as riquezas da nossa terra.


POLÍTICA: 7, O CARROA carta do ano para Jaboticabal, pela soma tradicional da data de nascimento, é o sexto dos maiores, Os Amantes. Antecedendo a carta do Carro, ilustra as relações sociais, as decisões políticas e, sobretudo, as escolhas da população. É a mensagem de que o progresso chegará de vez à cidade. Cautela na hora de votar.

DESENVOLVIMENTO: 9 DE PAUS
Suado, muito suado. É com esforço que se chega lá, não? Será assim durante mais um ano. Novos estabelecimentos, planos em prática e defesa de interesses será grande. É bom descansar bastante quando se pode, pois o bicho pega e o batente espera, como sempre.


SAÚDE: 16, A TORRE
A Torre quando sai para uma cidade – principalmente quando pousada sobre seu mapa – sugere desastres, demolições, implosões ou mesmo “desconstruções”. Nesta posição, indica a ruptura de atendimentos ou a não-melhora dos serviços públicos referentes à saúde. Um toque muito importante aos candidatos.


COMÉRCIO: 20, O JULGAMENTOO comércio revoluciona este ano, é só parar e prestar atenção. Várias estabelecimentos sendo abertos – bares, lojas, espaços culturais – e também reformados, reestruturados para manter a beleza dos antigos. Renovação.


CONSELHO: PRÍNCIPE DE PAUSO conselho à população é ter garra! Pode parecer clichê, mas é a ordem é ir atrás daquilo que almeja sem esmorecer. Afinal, não existe mérito autêntico sem esforço, seja ele qual for. Ousadia, perseverança e bola pra frente. A cidade, o coração e a vida agradecem.
E eu agradeço. Pela passado, pela estrutura, pela liberdade.
Parabéns, Jaboticabal.

Te amo.


Leo

29 de fevereiro de 2008

BAHIA DE TODOS OS ARCANOS


Saudade, saudade.

“Você já foi à Bahia?”, perguntava o Zé Carioca em Los Tres Caballeros. “Eu já”, respondia pra mim mesmo, enquanto explorava cada viela do Pelourinho, bebendo cores de telas, fachadas e portões coloniais ao som do Olodum tocando na outra ponta. Arte, arte por todos os lados. Do Balé Folclórico aos rochedos próximos do Forte, senti cada um dos ritmos. Nítidas heranças. Falas e gestos de um povo sempre de férias que faz da vida uma festa. Fortíssima a luz do Salvador, o próprio arcano 19 banhando cada praia e prédio da cidade.
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O mochileiro resgatando suas cartas._
A Bahia, aliás, é de todos os santos, de todos os orixás, de todos os arcanos. Impossível passar despercebida qualquer carta do baralho, seja nos azulejos da Igreja da Ordem 3ª, seja nos monumentos das praças e nas baianas com seus tabuleiros - de iguarias, claro. O jogo é de som, cheiro e sabor. Capoeira, dendê e camarão. Céu azul, mar azul. A água é cristalina e são quentes os tons pintam o meu crepúsculo no Farol da Barra.
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O descanso do Arcano 19.
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Foram muitos dias pelo Nordeste – no meio da magia de Campina Grande, nos céus de João Pessoa e nas águas verdes de Recife. Só que não me considerei turista em nenhum momento. Sou viajante, escuto os lugares. Minha emoção é silenciosa, ninguém percebe. Vejo cada movimento e os guardo naturalmente, como se me contassem uma história em voz alta, repleta de detalhes. Por isso não são necessárias muitas fotografias – o baralho é sempre o meu álbum de viagens. Ele se abre assim que desembarco e cada arcano me foge enquanto espero a bagagem. Durante os passeios as capturo uma a uma. Não tem erro: os olhos testemunham e a memória registra. Envio direto pra caixa aqui do peito.
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Todas as cores do Pelourinho.
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Então chega o momento de me despedir dos mares. Foi incrível o contato com eles nestes dois últimos meses. Mais que nunca foi grande a vivência do naipe de Copas. Ele todo fazendo a festa. Aproximações sentidas na pele, transformações ocorridas no dia-a-dia. E uma nova consciência sempre se moldando, é claro.

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Quero mais, Brasil. Me leva que eu vou!

Muito, muito obrigado.

Axé, agora e sempre.

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Leo

31 de janeiro de 2008

NOSSA NOVA CONSCIÊNCIA



Transformar emoções e experiências em notas e crônicas pode, muitas vezes, ser um árduo trabalho. Acabo tecendo comentários, descrevendo lugares, associando imagens e realidades, que é vivenciar os momentos e depositá-los na sagrada caixa de memórias que temos dentro do coração. Comigo é assim, principalmente quando saio de casa e sabendo que vou encontrar novos significados, novos destinos.


Desembarcando em João Pessoa, como Marcelo, Alexsander e Gian.
O primeiro deles foi a Paraíba. É lá, na terra do “Maior São João do Mundo”, que também acontece o maior encontro de crenças, de artes, de cores e de conhecimentos. O Encontro para a Nova Consciência é um grande reduto de cultura e comunhão de ideais que conta com figuras místicas e agnósticas, representantes de instituições científicas, pesquisadores, músicos, cantores e abordagens de temas atuais, como o aquecimento global e a intolerância religiosa.


Depois da caminhada, a magia foi compartilhada.

Toda essa mistura acontece durante dias de Carnaval na saudosa Campina Grande, pertinho de João Pessoa. Acredito que a energia humana, que pulsa mais forte no período das folias, abastece cada pedaço do país – influência positiva regada à música, à alegria, à descarga de preocupações e às danças típicas. “Somos abençoados”, me pego pensando no dia da abertura, ao som celestial que Marsicano oferece. “Nos abençoamos”. E já que estamos todos interconectados, é uma sorte podermos rumar até o extremo do nosso mapa e fazer parte de uma caminha macro-ecumênica, de receber leves toques na mente sobre nossas atitudes e ainda tomar certeza de que somos irmãos uns dos outros, em meio a palmas, orações, cânticos, mantras, tambores, chocalhos, incensos e abraços.


Danças e vozes, de todos para todos.
Essa dádiva, que ocorre há 17 anos, tem sido uma missão. Senti na pele esta verdade – a correria da equipe de produção, pessoas solícitas, simpáticas, verdadeiras e de sorriso aberto, prontas a lhe ajudar; a comodidade dos transportes que nos levavam até nossos locais de palestras, o atendimento e a solução rápida de pequenos atrasos e desencontros ocasionais; gente preocupada com horários, gente por trás das cortinas que providenciava o funcionamento do som e imagem e até mesmo gente com pressa para não perder nenhum dos temas e oficinas que foram oferecidas. Quando me entrevistaram, creio que consegui deixar nítida minha grande satisfação em fazer parte desta família, mesmo dizendo que ainda não me situei – pois é, ainda não caiu a ficha de que vivi tantos momentos legais com tantas pessoas interessantes.


No saguão do Titão, com Lu Ynaiah, Sandra Ayana, Alex e Marcelo.
Seria injusto, por outro lado, se eu não citasse os grandes amigos que fiz e os que reencontrei por lá. Bom, quando você coloca o lenormando Alexsander Lepletier e o mestre sem cerimônias Pedro Camargo numa mesa, eu garanto: não tem como permanecer sério. É risada na certa! Aliás, foram ótimos nossos jantares, ainda mais com Alexey Dodsworth e Luis Pellegrini, editor da eterna revista Planeta, até depois do expediente no restaurante italiano.


O suquinho do Pedro no Carne & Massa.

Me encontrei com o Gian Schmid na feira de artesanato, visitei a sala do Mahikari, conversei com os hindus, passei do lado das rezadeiras e até tomei um super café na sala-camarim. Depois troquei uma idéias com o Mob, abracei bem forte a Íris e selei contato com as meninas da van. Pensei até num tarô de cordel com o Marcelo Bueno, depois de rirmos várias vezes com a Sandra Ayana. Tudo isso regado à energia do grande Biliu e outros ícones da música popular nordestina, com palmas de todos os lados.


2º Encontro de Tarólogos, lá no Teatro Municipal Severino Cabral. 


Isso tudo, porém, não é um relato sobre o evento. É apenas uma parte das minhas lembranças que guardei na caixa de memórias aqui do peito. Uma Nova Consciência, que nos pede para derramar as águas do passado e reciclar conceitos e atitudes. E claro, meus mais sinceros agradecimentos e meus parabéns, com muitos anos de vida para todos nós e para o Encontro. Para o reencontro conosco.



E que a Estrela brilhe cada vez mais, hoje e sempre!


Forte abraço em cada um,




Leo



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12 de novembro de 2006

SORTE OU PURO ACASO

Mesmo diante de todas as vertentes e temas esotéricos que fizeram minha cabeça na pré-adolescência – o arsenal wicca, os livros trocados entre amigos, os grimórios confeccionados, as pesquisas em bibliotecas, as histórias de alguns conhecidos e o vasto cardápio de textos repetidos da internet – os oráculos me fascinavam há mais tempo. A cartomancia, especialmente. Talvez pelas tardes em que uma senhora abria um baralho em leque sobre a mesa da cozinha e montava pirâmides com as lâminas enquanto minha avó ouvia atenta. Eu não tinha idade, diziam as mulheres da casa, para escutar o que a cartomante revelava - mas curiosidade o suficiente para assistir de longe às posições que Reis e Rainhas assumiam.

Até então via o tarô como um instrumento secreto, exclusivamente mágico – adjetivo que sempre me deixou com cara de origami – que jamais poderia aprender a ler, decifrar e conversar com aquelas figuras tão estranhas se eu não fizesse parte de alguma "panela mística". Tempos depois, e com todas as sincronicidades à parte, a bibliografia tarológica começou a surgir em minhas mãos. Aprendi sozinho. Estudos, analogias, sensações e muita dedicação.

Na varanda eu passava horas olhando cada trunfo, o que talvez instigava os mais chegados a perguntarem como funcionava. Fácil nos primeiros tempos foi poder experimentar os jogos, com a sorte de ter "cobaias" de cabeça aberta e sem medo dessas coisas. E lá foi o meu "garoto", várias vezes colocando Torres, Julgamentos e Carros pra quem quisesse ver e ouvir. Adoravam. Já meus pais não entendiam muito bem, pensando que eu não era como os outros garotos da turma. Qual o problema? Gostos e aptidões não eram e continuam não sendo discutíveis. Não os meus, pelo menos.
É interessante comentar que nunca achei que tarô fosse “coisa de mulher”, como uma consulente arriscou. Bobagem pouca, já que depois de alguns séculos borbulhando no caldeirão de várias escolas iniciáticas, esse oráculo finalmente se vê livre de tais distinções – os sexos se encontram nos arcanos, assim como entre os leigos e profissionais. Democrático, eu diria. Outro grande barato – ou caro, para alguns – é o exercício da imaginação, já comentado pelo oculista Oswald Wirth: mergulhar no simbolismo e emergir no inconsciente, de mãos dadas com o desenvolvimento intuitivo – ofícios do adivinho.

A cada dia aprendo a ouvir suas histórias, tendo-o como um sistema que responde por si próprio. Cada arcano um mundo, um baú de palavras, uma página, um retalho. Com o tarô evoluindo artística e conceitualmente, seguem os eternos estudantes e buscadores a partir da história, da poesia, dos filmes, dos jogos, das crenças e das pessoas. Através desse espelho cultural de infinitos reflexos, as formas e os significados florescem. E claro, continuam me surpreendendo.
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Leonardo Chioda

14 de setembro de 2006

A N A C R Ô N I C A

Certa vez, fui solicitado para deitar as cartas em uma festa que contava com mesa e tenda apropriadas para a leitura. Mesmo que o barulho ao longe atrapalhasse um pouco, estava ali disponível aos convidados. Às convidadas, eu diria.


A primeira consulente, me lembro bem, perguntou se realmente eu consultava o tarô, pois isso era "coisa de mulher". Franzi a testa e disse um "não, nada a ver!" indignado enquanto embaralhava. Em minutos, a amiga do lado de fora já lhe gritava: "Vai demorar muito ainda?"

"A situação não tá muito boa", revelou após apagar a bituca do penúltimo Marlboro. Plano emocional e físico abalados, comprovaram as lâminas.


No final, depois de atentar sobre sua postura diante da bebida, da doença da mãe e do rompimento conjugal, confessou-me que nenhuma pessoa "sensitiva" havia sido tão sincera quanto eu, um mero rapaz que, como recompensa ou agradecimento, acabou ganhando um cigarro, uma lata de Smirnoff e um "muito obrigada" em lágrimas.


Primavera de 2006