ABRINDO OS PORTÕES DA SERENDIPIDADE
É do acaso que nós, tarotistas e cartomantes, fazemos o centro do nosso ofício. Ler as cartas é um exercício que exige certo grau de refinamento – nao só estético, mas visual. Há de se ler os lugares com alguma destreza e até mesmo argúcia. Fazer dos olhos um máquina de captar os sinais deste centro – o acaso – e atribuir os necessários sentidos ao que vemos. E são as diferentes roupagens que o Tarô assume que aquecem os músculos da analogia. Nossa musa, nossa prática diária.
Não lembro qual foi a primeira vez em que cheguei até o Tyldwick Tarot. Pelo facebook temos a chance de perceber esse acaso - ou destino, fado, sina – de modo até mais nítido se colocarmos sentido. E aí a magia acontece, pois as imagens necessárias nos chegam. Sei que foi há algumas semanas, quando visitei o site Malpertuis, vendedor oficial do baralho, e explorei os Arcanos Maiores e Menores. Foi identificação imediata com os universos que designer Neil Lovell conseguiu expressar em 78 cômodos-objetos-lugares. Nestas cartas pode-se ver o poder de síntese e até mesmo de infinitude que cada trunfo do Tarot traz e suscita.
DUAS QUESTÕES PARA COMEÇAR
Abri o deck, passei os olhos por cada carta e dispus todas elas sobre minha mesa de mármore. Embaralhei todas elas e, como quem entra num palácio pela primeira vez — costume que celebro a cada deck adquirido — fiz duas perguntas iniciais para me apresentar ao baralho e saber aonde realmente eu estava entrando.
Quem sou eu em você?
Então ele veio: O Papa com o o Dez de Espadas. Um sacerdote de lâminas, fonte de inteligência e palavras acuradas. Sibila antecipando universos.
Então ele veio: O Papa com o o Dez de Espadas. Um sacerdote de lâminas, fonte de inteligência e palavras acuradas. Sibila antecipando universos.
O que você pode fazer por mim?
O Mago seguido da Rainha de Copas. O baralho Tyldwick é uma máquina de poemas.
O corpo da Musa que encanta seus leitores.
Fico feliz por encontrar este trabalho porque lugares são deuses. Isso é um fato para poetas e escritores que dançam pelas imagens nas paredes. E isso não é apenas uma metáfora, é um feeling porque nós escrevemos nossa visão de mundo com as cartas. Com o Tyldwick Tarot, é possível [re]criar não apenas as histórias dos consulentes, mas também os lugares e as situações de modo ainda mais rico, já que devidamente ambientadas à natureza de cada arcano.
ORNAMENTOS ASSOMBRADOS POR BÊNÇÃOS
Como colecionador e leitor de tarôs, tenho o costume de avaliar a impressão e o acabamento dos baralhos que adquiro. Exatamente como um corrector de imóveis, passo os olhos e as mãos sobre esse maço com a satisfação de estar entre um dos melhores itens já comprados. O Tyldwick Tarot é um primor. Começa com a caixa estilizada, passando pelas bordas douradas – o que faz deste baralho uma verdadeira barra de ouro – e terminando pela abertura fácil de um leque de cartas que deslizam perfeitamente sobre qualquer superfície digna.
O espaço habitado transcende o espaço geométrico. Sei disso. Vivencio esse fato todos os dias e escrevo — constatação poética. Sendo assim, as imagens do Tyldwick Tarot são mais que lembretes dos corpos aparentemente ausentes – destaque para O Diabo, por exemplo, que nos intimida num espelho negro – por fazer com que mergulhemos de cabeça na simbologia de um castelo magicamente construído a partir dos quatro elementos. Nunca um Tarô suscitou, pelo silêncio e ao mesmo tempo pelas dimensões que inaugura e reflete, uma variedade de significados e divindades tão consistente e até mesmo um tanto preocupada com a estrutura tradicional das cartas. A beleza das composições gráficas de Lovell são assombros e bênçãos frequentes. E o acaso, que nos acompanha a cada leitura, faz deste baralho um oportunidade de revisitar os próprios conceitos dos arcanos sem fugir do que já conhecemos e aplicamos.
Bachelard, na Poética do Espaço, diz que “a casa adquire as energias físicas e morais de um corpo humano”. É como se cada protagonista desse lugar ao piso, aos muros e aos ornamentos que definem o mistério primordial do Tarô. Este é um baralho para poetas, arquitetos, fotógrafos, magistas e apaixonados – por lugares, pela natureza, pelo desconhecido e, sobretudo, pelo Tarot. No centro do destino, na rota do infinito.
Rezemos um banquete à Musa.
Serendipidade.
Para saber mais sobre o Tyldwick Tarot
e também para comprar o baralho, acesse
www.malpertuis.co.uk
E clique aqui para ler a resenha completa [em inglês].




































