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10 de setembro de 2013

LUGARES SÃO DEUSES






ABRINDO OS PORTÕES DA SERENDIPIDADE

É do acaso que nós, tarotistas e cartomantes, fazemos o centro do nosso ofício. Ler as cartas é um exercício que exige certo grau de refinamento – nao só estético, mas visual. Há de se ler os lugares com alguma destreza e até mesmo argúcia. Fazer dos olhos um máquina de captar os sinais deste centro – o acaso – e atribuir os necessários sentidos ao que vemos. E são as diferentes roupagens que o Tarô assume que aquecem os músculos da analogia. Nossa musa, nossa prática diária.

Não lembro qual foi a primeira vez em que cheguei até o Tyldwick Tarot. Pelo facebook temos a chance de perceber esse acaso  - ou destino, fado, sina – de modo até mais nítido se colocarmos sentido. E aí a magia acontece, pois as imagens necessárias nos chegam. Sei que foi há algumas semanas, quando visitei o site Malpertuis, vendedor oficial do baralho, e explorei os Arcanos Maiores e Menores. Foi identificação imediata com os universos que designer Neil Lovell conseguiu expressar em 78 cômodos-objetos-lugares. Nestas cartas pode-se ver o poder de síntese e até mesmo de infinitude que cada trunfo do Tarot traz e suscita. 


DUAS QUESTÕES PARA COMEÇAR

Abri o deck, passei os olhos por cada carta e dispus todas elas sobre minha mesa de mármore. Embaralhei todas elas e, como quem entra num palácio pela primeira vez — costume que celebro a cada deck adquirido — fiz duas perguntas iniciais para me apresentar ao baralho e saber aonde realmente eu estava entrando. 

Quem sou eu em você? 
Então ele veio: O Papa com o o Dez de Espadas. Um sacerdote de lâminas, fonte de inteligência e palavras acuradas. Sibila antecipando universos. 






O que você pode fazer por mim? 

O Mago seguido da Rainha de Copas. O baralho Tyldwick é uma  máquina de poemas. 
O corpo da Musa que encanta seus leitores.



Fico feliz por encontrar este trabalho porque lugares são deuses. Isso é um fato para poetas e escritores que dançam pelas imagens nas paredes. E isso não é apenas uma metáfora, é um feeling porque nós escrevemos nossa visão de mundo com as cartas. Com o Tyldwick Tarot, é possível [re]criar não apenas as histórias dos consulentes, mas também os lugares e as situações de modo ainda mais rico, já que devidamente ambientadas  à natureza de cada arcano. 


ORNAMENTOS ASSOMBRADOS POR BÊNÇÃOS

Como colecionador e leitor de tarôs, tenho o costume de avaliar a impressão e o acabamento dos baralhos que adquiro. Exatamente como um corrector de imóveis, passo os olhos e as mãos sobre esse maço com a satisfação de estar entre um dos melhores itens já comprados. O Tyldwick Tarot é um primor. Começa com a caixa estilizada, passando pelas bordas douradas – o que faz deste baralho uma verdadeira barra de ouro – e terminando pela abertura fácil de um leque de cartas que deslizam perfeitamente sobre qualquer superfície digna. 





O espaço habitado transcende o espaço geométrico. Sei disso. Vivencio esse fato todos os dias e escrevo — constatação poética. Sendo assim, as imagens do Tyldwick Tarot são mais que lembretes dos corpos aparentemente ausentes – destaque para O Diabo, por exemplo, que nos intimida num espelho negro – por fazer com que mergulhemos de cabeça na simbologia de um castelo magicamente construído a partir dos quatro elementos. Nunca um Tarô suscitou, pelo silêncio e ao mesmo tempo pelas dimensões que inaugura e reflete, uma variedade de significados e divindades tão consistente e até mesmo um tanto preocupada com a estrutura tradicional das cartas. A beleza das composições gráficas de Lovell são assombros e bênçãos frequentes.  E o acaso, que nos acompanha a cada leitura, faz deste baralho um oportunidade de revisitar os próprios conceitos dos arcanos sem fugir do que já conhecemos e aplicamos.  

Bachelard, na Poética do Espaço, diz que “a casa adquire as energias físicas e morais de um corpo humano”. É como se cada protagonista desse lugar ao piso, aos muros e aos ornamentos que definem o mistério primordial do Tarô. Este é um baralho para poetas, arquitetos, fotógrafos, magistas e apaixonados – por lugares, pela natureza, pelo desconhecido e, sobretudo, pelo Tarot. No centro do destino, na rota do infinito. 

Rezemos um banquete à Musa. 
Serendipidade.




Para saber mais sobre o Tyldwick Tarot 
e também para comprar o baralho, acesse 
www.malpertuis.co.uk




E clique aqui para ler a resenha completa [em inglês].


18 de março de 2007

A CASA DO TARÔ

OU A ARTE DE MORAR PELAS CARTAS


Ficar em casa é uma tentação – o silêncio e a umidade da varanda, o ar bucólico que respiro ao curtir a rede, o som no ipod, e as páginas de um livro. E claro, um café passado na hora completa essa minha Arcádia.

Um dia desses, com uma revista de bons fluidos nas mãos, várias idéias brotaram. Absurdas, de imediato. Analogias entre o tarô e a arquitetura, que vão da planta da casa até o alicerce, dos tijolos até a pintura. Uma amistosa articulação dos naipes.


Nos Maiores, é nítida a ligação entre O Mago e o arquiteto.
Riscos, rabiscos, colocações necessárias e outras não, além dos vários palpites que vão pro papel. Muito depende do gosto do cliente, o casal arcano Imperador e Imperatriz. Sem ela não há vida na obra, o feeling dos cômodos e o futuro aconchego da morada. O Imperador constrói. Arrisca-se como mestre de obras, o engenheiro que supervisiona o empreendimento.

Claro, A SACERDOTISA, a primeira figura feminina, tem papel importante também. Atua na decoração, no combinar das paredes e dos tecidos que serão utilizados. Cortinas e adornos – pilares, por exemplo – que dependem de estudo e intuição para a perfeita colocação. Sem os dois, nada flui.



A magia de morar passa pela sexta lâmina, O Enamorado – escolhas, indecisões, opinião de terceiros, referências. Não dá pra curtir um espaço sem os sentimentos, que dão acesso direto ao patamar de Copas. Viver a casa difere (e muito) de apenas morar dentro dela. É sentir o perfume familiar assim que se chega da rua, perceber aquele algo mais impregnado a cada batente. Ah, as lembranças.

Fontes derivam do Ás de Copas, no prazer de fluir com o som da água. Relaxante, inspirador e romântico para muitos, já que também fazem alusão às estátuas úmidas e lodosas. Aqui cabe a Estrela.



O dois deixa explícito o amor pela estrutura, a relação apaixonada, o típico desejo de estarem a sós. Dois, em qualquer cômodo.



Quando deixo de sair, sinto os detalhes – plantas, cadeiras, rede, sofás, gramado, canteiros e bancos. Sempre que posso, driblo programas nada atraentes que solicitam minha presença só pra curtir o entorno. As paredes do refúgio sustentam minha preguiça e me dá inspiração para agregar conhecidos, parentes e paixões. Seriam os tais guás do Feng Shui? Esta é a área dos Amigos, com certeza.



“Um verdadeiro lar se constrói sem pressa”, ouvi dizer. Justo. Perde-se a conta das tantas vezes que o alicerce e as primeiras paredes são visitadas. Planos e novas idéias que brotam só de olhar pro chão. A promessa do aconchego.
Bases do 4 de Ouros.




Outra parte importante é a limpeza, claro. Às vezes dando espaço ao novo, o passado caindo por terra e todo aquele papo de alquimia interior: terreno limpo é oportunidade, um sinônimo para liberdade.



Móveis, tintas, cores. Acomodar cada objeto, pensar em diferentes possibilidades – há, então, uma pontada de Espadas. É bom saber combinar. Não só aludindo à Temperança (que também se encontra na cozinha), mas como numa leitura de cartas: a beleza das estampas sugerindo diferentes presságios. Auspiciosa comparação.

Por vezes a Justiça traduz-se em um ambiente mais clean – o tal Minimalismo que já foi e ainda é moda entre os sensatos – com poucos móveis e mais espaço livre. O justo e o necessário que contribuem para o equilíbrio da morada e do espírito. Na cozinha, Copas e Ouros se misturam. Aqui sim o anjo das ânforas comanda, como na pintura barroca.



A vida fica mais gostosa com a comida caseira. Não que o fast-food da correria seja ruim, mas utilizar a cozinha evita a monotonia e faz vibrar a energia da casa, sem jamais se comparar ao ritual dos elementos, às panelas próximas borbulhando, ao vapor e à mesa posta. Moderadas combinações. Há quem diga que cozinhar dá trabalho. Deve dar, mas se for com vontade, não cansa muito e nem faz tanta sujeira. O que vale é a intenção, como nas vezes que alguém decide dar uma geral no jardim.

A manutenção não se resume aos móveis internos, mas também aos vasos, à poda dos arbustos e mesmo ao barulho infernal do cortador de grama. Há ainda sentimentos e lembranças de infância, como descobrir o contato com a terra. Ouros vem aí.



O naipe de terra evoca paisagens, plantações, fachadas. Reuniões.
Ele exige a projeção das sensações em toda a estrutura, caso contrário ela fica dura, sem vida. Não cumpre a função de “lar, doce lar”. É a posse da propriedade, como no quarto arcano prenunciado pelas fundações, mas antes o coração da família. Copas, ainda.



É também nítido o conceito artesanal que as cartas proporcionam – a confecção, a customização, o ateliê em casa, os deveres domésticos – que exige os detalhes e a criatividade, naturais dos naipes de Copas e de Espadas.



Mas que fique claro: nada dentro de uma casa funciona se não houver presença de espírito fluindo a cada porta e corredor. É característica de Paus a energia do ambiente, o fogo que aquece os corações e as relações de moradores e hóspedes. Em cada cantinho um tipo de lembrança, as conversas de outros anos e a paisagem que transmite bem-estar, como um terraço. Só é melhor se for de frente pro mar, com a vista do Pão-de-Açúcar.



Posses. O senhor das Moedas se alegra com posses. Já foi falado sobre a manutenção – sem dinheiro, sem casa. Por isso ele controla tudo de bom grado. É generoso. O “paizão” do naipe telúrico tem os pés no chão (ou esticados numa confortável espreguiçadeira), e não consegue deixar os investimentos em segundo plano. Inquilino, mas antes dono. O proprietário. Rei.



Já a esposa permanece nos fundos. Água de Terra, a Rainha é lama, a que deixa os filhos se sujarem –“por que se sujar faz bem”, já diz anúncio. Nada como curtir a varanda ou a estufa. Amor de Mãe (-Terra), que cuida e mantém a beleza do verde.



A construção e a harmonização dos ambientes nascem da observação da natureza, claro. Assim como os chineses da Escola da Forma, o entendimento do tarô também é uma questão de visão – das cartas, das pessoas, das casas. Imaginação e flexibilidade, pura sintonia com a geografia do imaginário, a cenografia do cotidiano sempre mudando. Construindo conceitos e ampliando resultados, um trabalho que não cabe a quem já caiu da Torre, por exemplo - aquele arquiteto eu dispenso. Enquanto lhes escrevo, tomo café na minha rede, perto das heras. Ah, e vejo que cai uma folha bem próxima à cara do Louco.



Voltem sempre. Vocês já são de casa.


L.


FONTES VISUAIS:
Google Imagens
Taroteca