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7 de agosto de 2020

RESENHA • TAROT - THE LIBRARY OF ESOTERICA [TASCHEN, 2020]

 


TASCHEN, maior editora de livros de arte do mundo, só atira se for para acertar. Com a THE LIBRARY OF ESOTERICA, tende a ficar difícil resistir às obras temáticas em relação aos assuntos que amamos. E o que mais amamos é justamente o primeiro lançamento do selo: “TAROT”, escrito por Jessica Hundley com ensaios de Penny Slinger, Marcella Kroll e Johannes Fiebig, com citações de pensadores, criadores de baralhos e milhares de imagens.



 


O livro, de 520 páginas coloridas e em capa dura, é dividido em quatro partes. A primeira é uma introdução ao oráculo partindo de verbetes breves sobre sua história e fechando com uma linha do tempo centrada na produção intelectual do hemisfério norte. A segunda percorre a simbologia dos 78 arcanos com centenas de pinturas e cartas conhecidas ou não do grande público, provando a pluralidade de interpretações de cada arcano. A terceira cobre os artistas, literatos e esotéricos partindo de 1700, com Gébelin e Etteilla até Dalí, Calvino, Andy Warhol e chegando a 2020 com Jodorowsky e Patti Smith. A quarta e última parte, como não poderia deixar de ser, põe as cartas na mesa: o Tarot enquanto ferramenta do destino, linguagem visual e a criação de significado no sacro ofício de leitura dos arcanos.


 


Mas vale lembrar que este é um livro de arte, não um manual. Ele mapeia o Tarot nos principais e nos mais inusitados museus e bibliotecas do planeta, resultando em uma espécie de enciclopédia de cores, formas e filosofias ancorados na estrutura clássica do baralho filosófico. Um livro não definitivo — o único livro perfeito de Tarot é ele próprio —, mas um compêndio necessário. Ele passa o filminho dos 600 anos de vida do Tarot para validá-lo, sem dúvida ou receio, como tradição. Templo de expressão artística universal. Patrimônio espiritual da humanidade. Maquinário vivo da linguagem simbólica.


Tarot, presente. E com um futuro brilhante, por sinal.




© Leo Chioda • @cafetarot




Review: Leo Chioda • @cafetarot

Translation: Edoardo Valmobida


TAROT • THE LIBRARY OF ESOTERICA • A REVIEW



TASCHENthe biggest artbook editor of the world, only shoots to hit the bullseye. With THE LIBRARY OF ESOTERICA it tends to be hard to resist to the thematic works related to the subjects hold dearto our hearts. And that which we really love is exactly the first release of the label: “TAROT”, written by Jessica Hundley, with essays by Penny Slinger, Marcella Kroll and Johannes Fiebigfull of quotes by thinkers, deck creators and millions of images.


 


The book, with 520 pages in color and hardback, is divided in four sections. The first, an introduction to the oracle, from short entries about its history finishing with a timeline centered around the intellectual production of the northern hemisphere on the subject matter. The second follows the symbology of the 78 Arcana with hundreds of paintings and illustrations of the cards, popular or not to the general public, thus proving the plurality of interpretations of each card. The third part of the book covers the artists, writers and esoterics from 1700’s Gébelin and Etteilla, to Dalí, Calvino, Andy Warhol, up to 2020 with Jodorowsky and Patti Smith. The fourth and last section, as it could none the less be, lays the cards on the table: the Tarot as a tool, the visual language and the creation of meaning in the sacred craft of reading the Arcana.


 


But bear in mind that this is still an art book, not a handbook. It maps the Tarot in the main and the more unexpected museums and libraries of the planet, resulting in a species of encyclopedia of colors, shapes and philosophies anchored in the classical structure of the philosophical deck. Not a definitive book – the only perfect book about Tarot is the Tarot itself  but a much needed compendium. The book presents the movie of 600 years of life of the Tarot to validate it, without doubt or fear, as a tradition. Temple of universal artistic expression. A spiritual heritage of humankind. Living machinery of symbolical language.

 

Tarot, present. And with a brilliant future, by the way.




Review: Leo Chioda • @cafetarot

Translation: Eduardo Valmobida


13 de julho de 2018

LIVROS DE TAROT



Madame Oráculo
Viaduto do Chá | São Paulo
Foto de Leo Chioda


Bibliotecas. Sebos. Livrarias. Nada me deixa tão instigado quanto esses palácios de sabedoria às traças. Templos de letra e poeira. Quem me conhece sabe que um dos meus ofícios constantes é perambular feito O Louco pelos sebos aqui de São Paulo. Em meio a tantas opções, sempre passo ao lado do cigano da Sé, companheiro das garotas que batem ponto em frente ao José de Alencar, embaralhando seu Tarô Mitológico aos transeuntes com pressa. O mercado de livros usados pode ser enigmático ou entediante aos olhos de um turista, mas também um verdadeiro reduto de preciosidades a quem se dedica a determinado assunto. De vinis antiquíssimos a filmes em Blu-Ray, as situações e surpresas que um sebo oferece são várias — a maioria delas prazerosa. E quem vos diz, com total convicção, é alguém que já encontrou um Tarot Universal Dalí absolutamente novo dando sopa numa prateleira. 

Começo dizendo tudo isso porque nem sempre as livrarias convencionais fornecem aquilo que realmente importa a um estudioso ou colecionador. E sigo afirmando que nem sempre o que está nas lojas é o que realmente interessa, ainda mais quando o assunto é Tarô.



O Cigano
Praça da Sé | São Paulo
Foto de Leo Chioda

UMA LISTA [OU UM GUIA] 
NADA CONVENCIONAL

É antiga a ideia e a necessidade de se escrever um verdadeiro compêndio de leituras sugeridas, desde as obrigatórias até as mais ofensivas, sejam elas nacionais ou importadas. Quem pesquisa, penso eu, tem o direito e até mesmo o dever de avaliar aquilo que se lê. Enquanto blogueiro — logo, formador de opinião — tenho a intenção de criar uma lista de indicações e boas maneiras diante de publicações a respeito das cartas. Em vez de atribuir  estrelas, me limito a pouquíssimas linhas sobre cada livro em três listas de peso. Espero que sirva tanto a leigos no assunto [que SEMPRE me procuram pedindo socorro] quanto aos já familiarizados com os símbolos que nos rodeiam. A lista se restringe aos títulos com tradução em português, justamente por tornar mais fácil a aquisição por meio de livrarias ou pela Estante Virtual, por exemplo.



LEITURAS INDISPENSÁVEIS 

PARA LEITURAS EXCELENTES




Quando o livro é bom, eu falo. Mas pra falar, eu leio. Leio e releio. Risco, grifo, transcrevo. E é assim que uma leitura pode suscitar outras ainda mais apuradas: a partir da verdadeira leitura. Fico bobo de ver o quanto as pessoas fazem questão de marcar presença em lançamentos e sessões de autógrafo mas não leem aquilo que compram. Especialmente quando o tema é esse. Percebo o quanto se repete o mesmo discurso, as mesmas bobagens acerca de tópicos já derrubados como o tarô que veio do Egito, o baralho que não tem 78 arcanos mas que é tarot, ou ainda o oráculo cigano que se chama Tarot. Pois falta leitura e sobram livros bons, acredite. Mas não, não basta dizer que um livro é bom. O bom é que você leia e questione o que está lendo. Questione até essas indicações. É aliando essas sugestões à prática de leitura[s] que você poderá falar por si quando lhe pedirem algum parecer a respeito de publicações especializadas. 



TARÔ: A JORNADA DO HERÓI | Hajo Banzhaf 
Editora Pensamento

Hajo Banzhaf, neste clássico, oferece uma viagem pela mitologia de cada um a partir dos 22 Arcanos Maiores. No estilo Joseph Campbell de conduzir uma trajetória, este livro acaba sendo uma jóia em qualquer biblioteca de tarô. Anote suas impressões a cada capítulo e componha sua saga em busca do Graal dentro de você.


78 GRAUS DA SABEDORIA | Rachel Pollack 
Nova Fronteira

Embora Pollack se valha do baralho de Waite e Pamela Colman Smith para narrar um dos trajetos mais consistentes da literatura esotérica, este é um título indispensável por oferecer um verdadeiro diálogo com o leitor e com as leituras que fazemos das cartas, independente do tarô escolhido.



TARÔ E INDIVIDUAÇÃO | Irene Gad
Editora Mandarim

Alquimia e Cabala tão bem casados numa publicação realmente rara hoje em dia. É o que a junguiana Irene Gad propõe num livro bem recheado de iconografia e conceitos esotéricos em torno das lâminas. Um tratado sobre os símbolos à luz dos conceitos de Oswald Wirth e outros teóricos indispensáveis. Se encontrar este livro por aí dando sopa, aproveite. É a sua chance. E provavelmente a única.




ESTUDOS COMPLETOS DO TARÔ | Nei Naiff 
Vol. 1  TARÔ, SIMBOLOGIA E OCULTISMO
Vol. 2 TARÔ, VIDA E DESTINO
Vol. 3 TARÔ, ORÁCULO E MÉTODOS
Best Seller

Quem nega a clareza e a higiene ideológica de Nei Naiff no universo do Tarô é justamente quem não leu ou quem tem medo de Nei Naiff. Ele oferece um caminho seguro e coerente a iniciantes e uma reciclagem incisiva a veteranos. Obras de inegável influência para a nova geração de tarólogos, estes três livros são tesouros que merecem lugar de destaque em toda mesa de trabalho que se preze.



DICIONÁRIO DE SÍMBOLOS | Jean Chevalier & Alain Gheerbranty

José Olympio

Amplamente usado na área acadêmica, eis um dicionário próprio para tarólogos, Apesar de existirem alguns outros tantos atualizados, este continua um clássico. Maçonaria, alquimia, mitologia e tarologia num lugar só. Ideal para consultas rápidas e não menos profundas.


O LIVRO DOS SÍMBOLOS | Vários Autores

Taschen

A nova era dos dicionários de símbolos começa com esta verdadeira bíblia. Lançada pela incrível Taschen portuguesa, esta pérola de mais de 800 páginas oferece conceitos nunca antes catalogados em livros similares sobre imagens arquetípicas. Ideal para qualquer ser humano. Indiscutivelmente.




MANUAL DO TARÔ | Hajo Banzhaf

Editora Pensamento

Sendo esse um dos meus livros preferidos e e também indicados para leigos que desejam se enveredar pelas cartas, o livro amarelo de Banzhaf continua sendo bem vendido e bem aceito nos dias de hoje. Não se deixe enganar pelo seu aspecto humilde. É, sem dúvida, um manual ímpar no mercado. Traz os conceitos do tarô de Waite sem se esquecer da simbologia tradicional através de listas, exercícios de significado e um caderno de métodos bastante útil. Assim como o livro azul e o livro vermelho do Hajo, este é um marco em toda pilha de livros importantes.



TARÔ OU A MÁQUINA DE IMAGINAR | Alberto Cousté 

Editora Ground


Outro dos meus favoritos, traduzidos pela poeta Ana Cristina César, a obra de Cousté é um pequeno tesouro também. Disponível em todo e qualquer sebo de qualidade, este antigo título é um guia necessário pelos estudos de Oswald Wirth, já que sua sobre Tarô não está disponível em português. O conceito das vias Úmida e Seca, por exemplo, é um dos destaques. Frequentemente subestimado, esse livro logo se tornará uma relíquia. 



PEÇAS BEM VINDAS 
A TODA E QUALQUER ESTANTE




E quando o livro acaba sendo quase intocável por ser pouco consultado? São exatamente os livros que você sabe que podem acrescentar alguma coisa em determinado momento da vida, tendo o papel de desencadear analogias e fazer com que você relembre conceitos sobre os arcanos ou refresque na mente algum método de tiragem. Tão importantes que não se restringem ao tema, mas deslancham em simbologia e mitologia por ser óbvia a necessidade. Se você quiser entender, apreender e transitar pela estrutura do oráculo, vá por mim: ficar só nos livros que trazem a palavra Tarô na capa não vai adiantar muita coisa. Sua bibliografia tem de ser de ser plural, assim como sua visão de mundo. E os escolhidos, rapidamente, são:


JUNG E O TARÔ | Sallie Nichols
Editora Pensamento

A autora, estudiosa da obra de Jung, nos presenteia com um verdadeiro livro de significados e exercícios que todo leitor de imagens tem de devorar alguma vez na vida. Vale a pena frisar que é um livro baseado nos estudos de Jung, não de Jung especificamente. Falar em tarô sob a ótica de Jung requer a leitura da obra de Jung, específica e obviamente. Enquanto você não se debruça sobre os livros de psicologia arquetípica, fique com os argumentos de bons estudiosos. E saiba filtrar, mesmo assim.


TARÔ -  ESPELHO DA ALMA | Gerd Ziegler
Editora Jorge Zahar

Mesmo que o alemão Gerd Ziegler tenha estrruturado sua obra-prima em torno do baralho de Aleister Crowley e Frieda Harris, ele foi muito feliz por trazer conceitos que servem para todo e qualquer tarô [como todo bom livro de tarô possibilita]. Por isso é que os conceitos de afirmação positiva e uma visão mágica das lâminas pode ser uma viagem crucial para quem se dedica à leitura visceral do tarô: pelos olhos da alma.


O CASTELO DOS DESTINOS CRUZADOS | Italo Calvino
Companhia das Letras 

Da literatura à prática de leitura. A magia do Tarô é a narrativa. Não são histórias que deitamos à mesa, diante de alguém? Sim. E é por aí que se envereda um dos maiores escritores italianos. Várias personagens são criadas a partir da disposição das lâminas. Um livro absoluto no que diz respeito ao poder de analogia, que é a musa de todo e qualquer cartomante.


INICIAÇÃO AO TARÔ | Pedro Camargo
Editora Nova Era

A tendência da vida é dar certo. Com uma sentença dessas, o livro de Pedro Camargo não poderia ser mais que um clássico brasileiro. Lançado numa renomada coleção, este pocket merece releituras e mais releituras. Camargo repassa os mestres cabalistas, os simbologistas e magistas que ajudaram a formar o pensamento tarológico do século passado, sendo um compêndio rápido de significados e noções básicas para qualquer tipo de público, desde o leigo até o avançado.


O LIVRO DE THOTH | Aleister Crowley 
Editora Madras | Anúbis

Aleister Crowley pintou e bordou. E fez isso com tanta maestria que hoje temos uma realidade em torno do Tarô que muito deve ao magista mais polêmico de que temos notícia. É indiscutível que suas teorias condensadas no baralho concebido por Lady Harris sejam necessárias à compreensão de vários tarôs modernos, inclusive. Importantíssimo ter este título na estante. A edição brasileira é uma raridade, por diversos motivos [também polêmicos] em torno da tradução e da publicação.




O TAROT DE THOTH | Johann Heyss
Editora Nova Era

Um dos livros que definiram minha trajetória oracular foi este. Foram decisivos os tempos de dedicação ao baralho de Crowley. Johann é direto e reto na explicação das atribuições e nas definições cabalísticas em torno da obra prima do grande mago inglês. Uma das premissas do livro é uma das minhas preferidas: tarot é para brincar. Pode ser facilmente encontrado em sebos, embora a nova edição [do autor, via Amazon, revista e ampliada] seja ainda melhor. Considero o melhor livro já escrito sobre o Tarô de Thoth em língua portuguesa. Imperdível.


TARÔ - DICIONÁRIO E COMPÊNDIO | Jana Riley
Editora Jorge Zahar

Vários autores, vários baralhos, vários conceitos. Foi pensando na diversidade ideológica que nutre o Tarô que a autora reuniu grandes pensadores para compor um verdadeiro tratado acerca das 78 cartas. Um item forte para consultas e ideias a partir de visões de autoridades oraculares nos Estados Unidos e na Inglaterra. A obra de Riley supre a carência de traduções de autores consagrados para a língua portuguesa.


MÃE PAZ | Vicki Noble
Editora Nova Era

O livro criado para o Motherpeace Tarot foi lançado no Brasil há vários anos e, apesar de ser voltado para o baralho homônimo, serve perfeitamente a quem se preocupa em vivenciar as cartas de modo integral. Possibilita a inclusão do Tarô em um sistema de crenças voltado às divindades primordiais e ao universo pagão. Uma visão diferenciada e bastante urgente para a nossa realidade.



CURSO DE TAROT TERAPÊUTICO | Veet Pramad
Editora Madras

Um sistema voltado especificamente aos meandros do consulente. Preocupado com a essência humana, o autor foi no cerne dos símbolos e escreveu um verdadeiro tratado sobre os arcanos à luz de vários baralhos e de conceitos esotéricos diversos.



AFRONTAS E RELÍQUIAS
DE INVESTIMENTO PURAMENTE ARBITRÁRIO






Sério, eu poderia inaugurar o Movimento Passe Longe devido a vários títulos dispensáveis, mas fico com os menos péssimos do que pensamos se os olhos forem livres e a triagem de informações prevalecer. Há relevância em toda ignorância, mas a dosagem é que é o perigo. Se você tem alguma dessas publicações por perto, leia e releia de modo crítico. E espero que para isso você tenha se debruçado, de verdade, sobre os títulos das duas listas anteriores. Vá, mas vá com cuidado.


TARÔ DE MARSELHA | Carlos Godo 
Editora Pensamento

De longe um dos títulos mais vendidos no Brasil, este é o que chamamos de 'básico'. Sendo um dos primeiros livros que caíram nas minhas mãos, sua relevância se restringe às noções básicas de simbologia, sobretudo à linguagem corporal das imagens e das cores que compõem as cartas. Um item que pode servir para eventuais consultas, mas nada que lhe fará falta. 


O TARÔ DOS BOÊMIOS | Papus
Editora Ícone

Papus é literatura tarológica. Há quem se dedique às suas teorias e até quem extraia informações e práticas relevantes de seus escritos, mas ainda assim vejo o livro como uma oportunidade de conhecer o pensamento arcano das escolas de mistério dos séculos passados. Um clássico, mas não tão útil às leituras contemporâneas como pode parecer.

OS ARCANOS MAIORES DO TARÔ 
OS ARCANOS MENORES DO TARÔ | G. O. Mebes 
Editora Pensamento 

Estas publicações também deveriam ser encaradas com cuidado, num primeiro momento, diante de tantas outras maravilhosas que estão ao alcance de todos. Me limito a dizer que Cabala é uma coisa e Tarô é outra. Servindo a outros propósitos que não à leitura de Tarot que você conhece, estes volumes se voltam às noções de magia ligadas a escolas esotéricas. Se a intenção for mergulhar no cerne do oráculo, podem não ser tão úteis.



O TARÔ MITOLÓGICO | Liz Greene & Juliet Sharman-Burke 
Madras

Sim, este livro é bom. Apesar de olhar um pouco torto para o baralho, sei da coerência que Greene e Sharman-Burke conseguiram imprimir nestas páginas. É um livro útil, principalmente quando se sabe adaptar as referências míticas sem acabar contaminando a simbologia dos tarôs tradicionais. Digo que vale a pena ter na estante.



TARÔ DOS ANJOS | Monica Buonfiglio
Editora Monica Buonfiglio

Incluo este livro devido à sua onipresença nas livrarias do país, há tantos anos. Este é um oráculo angelical de 42 cartas. Se o interesse é o Tarô clássico, diria que não é prudente se dedicar a um maço de estrutura adaptada. Este baralho não corresponde à quantidade de cartas de um tradicional [78 lâminas: 22 Arcanos Maiores e 56 Menores]. Ele destoa por ter um sistema próprio: 22 Maiores e 20 Menores. Caso queira adquirir pela temática ou pela relevância da autora — que foi, é e sempre será importante para o Esoterismo brasileiro devido às suas inúmeras contribuições —, considere esses detalhes.



O TARÔ CABALÍSTICO | Robert Wang 
Editora Pensamento

Tarô é Tarô e Cabala é Cabala. Mas se é pra juntar uma coisa com outra de modo minimamente coerente, que seja com livros aparentemente coerentes. Considero este um exemplo de concisão e elasticidade teórica quando o assunto é Tarô E Cabala. Vale uma folheada atenta para saber ainda mais a respeito dessa correlação tão frequente. Também vale por ser um clássico traduzido há algumas décadas e atualmente um tanto difícil de ser encontrado.


O TARÔ DE MARSELHA | Paul Marteau 
Editora Objetiva

Outro clássico que geralmente dá sopa por aí nos sebos, o livro de Marteau é uma introdução clássica ao baralho marselhês. Recomendo para quem, ainda hoje, deseja se enveredar por este tarô e estar por dentro da simbologia tradicional das cartas. Lembrando que, como todos os outros, é um título digno de ser filtrado pelo seu bom senso. 



TARÔ - A SORTE PELAS CARTAS | Arthur E. Waite 
Ediouro

A teoria de Waite acerca do baralho que concebeu com Pamela C. Smith pode parecer absurda devido a algumas alterações estruturais e conceitos que nada têm a ver com os Arcanos Menores ilustrados. Mesmo assim, este é um clássico lançado em formato cartilha pela Coleção Astral e ainda pode ser encontrado por aí. Se der sorte, pode haver o encarte com as 78 mini-lâminas para recortar e colocar na bolsa, por exemplo. Assim como Crowley, Waite igualmente merece lugar de destaque em toda e qualquer biblioteca de pesquisa. Indispensável.



NOTA DE RODAPÉ | um recado final

MEA CULPA, claro, por deixar de fora tantos outros livros, no calor de cada uma das listas. Alguns até excelentes para figurarem aqui, eu sei. Mas reitero: esta lista trata apenas dos principais títulos publicados no Brasil. Aqueles que estavam [ou ainda estão] por toda a parte e que merecem atenção. Aliás, aproveito para pedir que ENCARE TODOS ESSES TÍTULOS, assim como todos os outros que caírem em suas mãos, COMO LITERATURA TAROLÓGICA, E NÃO COMO VERDADES INCONTESTÁVEIS. Este é apenas um guia de sugestões — antes, durante e depois de qualquer coisa. Sugestões seguidas de opiniões. Minhas. Rápidas justamente para não viciar seu percurso pelos livros de Tarô. Assim como o destino muda assim que você olha pra ele, posso mudar a impressão que tenho sobre determinadas obras. E você também, a partir de leituras cada vez mais pontuais, pode definir sua trajetória pelo Tarô por meio de poucos e bons livros. Leve em consideração os autores, o que publicam, o como e quanto discutem suas ideias. 

Mais interessante que sair devorando tudo o que se encontra pela frente é digerir informações com a cabeça no lugar, isenta de todo e qualquer esquizoterismo que possa deturpar sua visão de mundo e de oráculo. Aproveite essas indicações, mas não pare por aqui. Aliás, siga pelos corredores dos sebos como se fosse o seu habitat natural. Quem sabe os Arcanos não esbarram em você?

Boas leituras. 
Sempre.


L.


31 de outubro de 2015

NOVE DE ESPADAS: O SEU PIOR PESADELO


NOVESPADAS • Leonardo Chioda
Colagem virtual a partir da imagem
'Königin der Schwerter, de Margarete Petersen 

Margarete Petersen Tarot • Königs Furt, 2002.


Mr. Sandman, bring me a dream 
Make him the cutest that I've ever seen 
Give him two lips like roses and clover
Then tell him that his lonesome nights are over.

Sandman, I'm so alone
Don't have nobody to call my own
Please turn on your magic beam
Mr. Sandman, bring me a dream.

The Chordettes, 1953.


Keri Tate é a diretora de um colégio particular em Summer Glen, bem afastado do agito californiano. De noite, ela sonha com seu gabinete. Sobre a mesa, um porta-retrato de seu filho John. Meia-noite em ponto no relógio: 31 de outubro. A câmera se aproxima do armário no outro extremo da sala. Ali, Keri vê uma garota desesperada tentando se esconder de um homem vestido de preto. Ele não fala. Seu único som é o da respiração por trás da máscara pálida e inexpressiva. Em sua mão esquerda, uma enorme faca de cozinha. Destruindo a porta de madeira do armário, a luz de fora revela o pavor da garota e o monstro dos olhos profundos tentando, alcançá-la com a lâmina. Seu nome é Laurie Strode, uma garota que trabalha de babá nas noites frias de outono. Uma faca aparece cravada no porta-retrato. Keri grita, forte e alto como faz há vinte anos, desde que a criatura silenciosa de rosto branco e olhos negros tentou matá-la pela primeira vez. Keri é a própria Laurie Strode, que forjou a própria morte e mudou de nome por medo de ser encontrada pela sombra, que não morre. Por saber que essa sombra é seu irmão, Michael Myers. 



Keri Tate/Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) confronta seu pesadelo depois de 20 anos. 

Essa é uma das cenas iniciais do filme Halloween H20: Vinte Anos Depois, lançado em 1998 para comemorar o vigésimo aniversário do Halloween original, filme de John Carpenter. Jamie Lee Curtis retoma a personagem que lhe rendeu a fama [inclusive de Rainha do Grito] e possibilitou a longa franquia estrelada por um dos serial killers mais assustadores do cinema. Laurie (agora Keri Tate) demora a despertar do sonho tão real que a leva ao encontro do seu irmão assassino. Aquele dos olhos do mal. É essa a atmosfera aterradora do passado e do porvir que o Nove de Espadas simboliza.

De longe o Arcano Menor mais temido de todo e qualquer Tarô [mais ainda que o Dez de Espadas, convenhamos], a cena concebida por Pamela Colman Smith é um convite a uma análise simbólica aprofundada, mesmo sendo frequentemente mal interpretada, como várias outras deste tão nefasto naipe. Não pela literatura esotérica séria, que até tem frequentado os conceitos tradicionais com relativa organização e respeito nos últimos anos, mas pelo achismo e até mesmo pelo medo que a imagem proporciona ao observador desatento. É comum detestar uma das imagens mais tristes do baralho, mas seu confronto é inevitável, cedo ou tarde. Até porque o Tarot pressupõe o contato visceral do leitor com seu objeto de leitura, que é a imagem. Definir limita, mas sugerir, com o devido cuidado, amplia as possibilidades de análise de todo e qualquer Arcano. Ainda mais quando se trata de Espadas. De nove espadas.


NOVE DE ESPADAS concebido por Pamela Colman Smith
Rider-Waite Tarot, U.S. Games, 1971.

Uma carta mal lida é como um sonho mal interpretado. Mensagens importantes podem passar despercebidas. Pensei nisso quando me deparei com o Arcano à espreita sobre a mesa. Sabe-se que nas artes plásticas a aproximação de elementos inesperados não é necessariamente satisfatória ou perturbadora, mas o incômodo desse cenário, em praticamente todos os Tarôs, é indiscutível. O exame atento da concepção artística de Smith causa dor aos olhos. Além das grades arranjadas pelas nove armas na parede escura e de uma espécie de écfrase na cena mitológica do estrado da cama — que sugere luta e derrota possivelmente injusta e cruel —, o que chama atenção é a colcha de retalhos, bem mais sugestiva do que aparenta. Em meio aos signos astrológicos bordados, indicando que os sintomas da carta são inerentes aos mortais de todos os signos [logo, a todos os mortais], flores vermelhas como sangue alegram o enxoval do quarto assombrado. Numa leitura feita de relance, qualquer um diria que são rosas, regentes milenares da paixão. Mas, com todo o respeito às opiniões divergentes em várias publicações, não temos rosas no Nove de Espadas do baralho Waite-SmithTemos papoulas.

Dorothy Gale vive em uma fazenda no Kansas com seus velhos tios e o cãozinho Totó. Sua ida a Oz ocorre quando a garotinha cai desacordada devido a um tornado que devasta a propriedade. Na terra mágica ela conhece grandes amigos como o Espantalho, o Homem de Lata e o Leão Covarde, logo companheiros de viagem até Cidade de Esmeralda. E é a Bruxa Má do Oeste que tenta impedir Dorothy e seus amigos de chegarem até lá para falarem com o grande Mágico. Um de seus perversos artifícios é o lindo campo de papoulas que encobre a Estrada de Tijolos Amarelos. Eis o plano maléfico: fazer com que a fragrância das flores encarnadas envolva Dorothy num sono eterno. Simples coincidência com o patchwork de símbolos de Waite/Smith? 


A colcha do Nove de Espadas e o (Mundo) MÁGICO DE OZ, clássico de 1938. Dorothy (Judy Garland) dormindo para todo o sempre no Campo de Papoulas Mortíferas. E a ilustração de W. W. Denslow, de 1902.

Oneiros em technicolor. Papoulas são muito mais auspiciosas do que aparentam. Não só obscuras por estarem ligadas ao ópio e à morfina, mas lendárias porque suas raízes mágicas se perdem no tempo. Papaver Rhoeas, flores dos sonhos. Hypnos, deus grego do sono, vinha representado com uma coroa delas, assim como Thanatos e Nyx. Sono, Morte e Noite, os três pilares de Morpheus, senhor dos sonhos, também ornado de papoulas. Tão associado a ele quanto a Ceres, que aceitou uma bebida feita da planta na tentativa de  se acalmar diante do rapto de Prosérpina, sua filha. Na linguagem das flores, simboliza o orgulho adormecido. Daí um vislumbre dos significados tradicionais do Arcano: culpa, arrependimento, tentativa de redenção e até mesmo aborto  um dos poderes dessa flor de sangue é o de impedir a vida. Uma bela maldição. 

Somewhere over the Darkness. Falando em Prosérpina, Dorothy descansa no Hades. Sem entrar no mérito das estranhas teorias conspiratórias envolvendo o filme que levou Judy Garland ao estrelato [apologia à cocaína, à magia negra e a outras maldades típicas], as flores inocentes de Pamela Smith confirmam: este é o portal da escuridão. Mental, porque Espadas. Catábase.

Culpa. Receio. Arrependimento que mata. Soluços de tristeza. Tudo no silêncio afiado da madrugada. Tirar as mãos do rosto e abrir os olhos pode ser mais assustador que os monstros internos. A realidade oprime, basta que algo saia dos conformes. Só o pesadelo se mantém. Surge de todos os lados. Prevalecem, então, outros atributos tradicionais da carta maldita: autoflagelação, aprisionamento e até possessão. Todas as aberrações sobre uma cama estão regidas pelo Nove de Espadas. Haveria lugar mais propício ao sobrenatural?


NOVE DE ESPADAS do sensacional Tarot of the New Vision | LoScarabeo, 2003.
Regan (Linda Blair), ícone do terror. O EXORCISTA | Warner, 1973.

Pesadelo é uma das palavras-chave mais comuns às nove lâminas. Etimologicamente, temos a sensação de "pesado", um sonho esmagador, mesmo que o termo pesadilla, do espanhol, chegue a parecer mais leve e menos perigoso. No grego moderno tem-se efialtes, também o nome de um importante político ateniense. Significa 'pesadelo' porque os aristocratas da cidade contavam que o líder democrata aparecia constantemente em seus sonhos. O incubus  latino é o demônio que oprime aquele que dorme, inspirando o pesadelo. No alemão é Alp que remete aos elfos, seres pequeninos acomodados sobre o peito do sonhador, suscitando os terrores. Já nightmare, tão famosa e apelativa, tem suas razões: night mare, égua da noite. Mas a raíz vai mais fundo e longe, bem de encontro ao escandinavo: niht mare ou niht maere, o demônio da noite. A ideia da origem diabólica para o pesadelo é dominante, percebe-se. A didática está toda presente na famosa tela de Henry Fuseli, The Nightmare. Só faltam as nove Espadas.


The Nightmare ( 1781) , de Henry Fuseli. 
Goethe Museum, Frankfurt.

A pessoa apavorada sobre a cama acorda DE UM ou EM UM pesadelo? Aí começa o jogo possível que o Tarot [sempre] proporciona. De forma crescente no naipe, vemos a pessoa ferida mortalmente e acordando no sonho. Ou do sonho da morte. Ou, decrescendo, talvez esteja no Inferno, pois o Oito de Espadas poderia bem esboçar os requintes típicos de algum círculo dantesco. Tortura psicológica. Alguns segundos se tornam momentos intermináveis de assombro. É densa a atmosfera dos sonhos obscuros. O lodo, a bruma e o azul cinzento das lâminas. 


OITO, NOVE E DEZ DE ESPADAS, por Pamela Colman Smith.
Rider Waiter Tarot, U.S. Games, 1971.

É possível [tudo em sonhos é possível] imaginar dois Arcanos Maiores convidados para a orquestra do medo: O Diabo e A Morte regendo respectivamente o Oito e o Dez de Espadas. O primeiro atormenta e o segundo aniquila. No meio o pesadelo, propriamente. Talvez esteja n'A Torre assombrada a pessoa em lágrimas sufocadas. Aleister Crowley, em seu clássico Book of Thoth, afirma que o ferrugem ensanguentado de suas nove lâminas é regido pelo Senhor do Desespero e da Crueldade. Esta última designação vem até estampada na pintura de Frieda Harris. O batismo se repete por todos os baralhos derivados da Golden Dawn. O que poderia haver entre a Interferência (Oito) e a Ruína (Dez)? 


NOVE DE ESPADAS pintado por Frieda Harris.
Aleister Crowley's Thoth Tarot | AG Müller, 1986.

Agony of Mind. Terror. Rasgos constantes na carne sedosa dos sonhos. Veneno que goteja. Dor. Um temporal de vermes e gritos se aproximando. Mesmo sendo os pesadelos da mesmíssima matéria dos sonhos, os encostos que impedem ou assombram a visita de Hypnos são sinais de condenação. Forças ocultas frequentemente mal dignificadas. Imersão em preocupações, em arrependimentos, em confusões, em castigos. Luta improdutiva contra algo muito mais forte, como bem sugere a cena do estrado da cama. Inevitável. Quem não dorme? O mal.

Samara, uma das maldições prediletas do cinema contemporâneo. O CHAMADO, Dreamworks, 2002. 
O visitante noturno que fez sucesso no mundo todo. ATIVIDADE PARANORMAL,  Playarte, 2007.


ENTER SANDMAN 
Com um punhado de areia eu lhes mostrarei o terror. 

É com essa frase de A Terra Devastada que o poeta T. S. Elliot inspira o escritor inglês Neil Gaiman a trazer ao mundo sua obra prima: The Sandman é uma das mais geniais histórias em quadrinhos que existem. Publicada pelo selo VERTIGO da DC Comics entre 1989 e 1996, até hoje enfeitiça pessoas de todas as idades, raças, credos e humores. A publicação reconta mitos e outras histórias fantásticas tendo como protagonista Morpheus, um dos muitos nomes de Sonho (Dream) ou Sandman, aparição folclórica que joga a areia nos olhos daqueles que custam a dormir, permitindo que acessem seu reino, o Sonhar. Com seus outros seis irmãos forma a família dos Perpétuos, entidades mais antigas e poderosas que todos os deuses: Desejo, Delírio, Destruição, DestinoMorte e Desespero. Mais que entidades, são essências. Não são bons nem maus, apenas são. Bem longe de maniqueísmos. Engrenagens exercendo suas respectivas funções. 


Arte de Dave Mckean para THE SANDMAN #50: RAMADAN, [Neil Gaiman e P. Craig Russell | DC Comics, 1993],   
uma das narrativas de Morpheus mais aclamadas e premiadas. DC Comics, 1993. E '
Sandman', pintura de Mike Dringenberg.

Desespero, a outra denominação do Nove de Espadas sugerida por Crowley, é bem sugestiva. Ainda que estejamos desde o início sob os domínios de Morpheus, o de muitos nomes, vale uma visita à sua irmã. De aparência mórbida e modos taciturnos, Desespero toma a forma monstruosa de uma mulher solitária e profundamente melancólica. É a regente dos suicidas, dos arrependidos, dos aflitos. Sendo gêmea de Desejo, é a musa dos sadomasoquistas e a que inspira os psicóticos a (v)irem além. Sua voz é um bezoar de sussurros, daqueles que desencadeiam arrepios: unhas dançando lentamente pelo quadro-negro ou a ponta da faca cravada embaixo delas. O som de uma seringa perfurando um olho. Ou ainda um osso se arrebentando no concreto. Senhora de todo arrepio.


DESESPERO | Arte de Jill Thompson, Vince Locke, Danny Vozzo e Todd Kleim.
THE SANDMAN: Brief Lives. DC Comics, 1994. E 'Despair', pintura de Jill Karla Schwarz.

Seu símbolo máximo é um anel-anzol que ilustra perfeitamente a sensação de ser fisgado pelos seus domínios e entrar em choque. Acordar com o coração disparado depois de um sonho ruim. Quem nunca? Dizem que em seu reino, mantido apenas por ratos e brumas, há uma infinidade de janelas flutuando no vazio. Eles são, na verdade, diversos cenários equivalentes aos espelhos. Ao fitarmos nossas projeções, saibamos que os olhos de Desespero nos assistem enquanto rasga seu próprio corpo e se diverte com a dor. E vou um pouco além: qualquer superfície fria e pesada que reflita nossa imagem de meros mortais serve para acessar o antro de Desespero. Exatamente como nove lâminas cuidadosamente arquitetadas sobre o leito. Tilintam no escuro e desfiguram a paz. 

Hora de sonhar, meu anjo.

Freddy Krueger é nome ilustre do bestiário onírico. Rei de Pesadelos.
Cartaz tailandês do filme A Nightmare on Elm Street 3: Dream Warriors (1987).


As lâminas podem muito bem inspirar um majestoso filme de terror, já é óbvio. Roteiro digno de Tobe Hooper ou mesmo Clive Barker. Olhar pro escuro por determinado tempo é dar forma a ele. A penumbra tem grande potencial criativo, assim como as imagens de um oráculo. Busca-se sentido a tudo e sempre haverá algum. É curioso que a literatura tarológica confira ora à A Lua ora ao velho e 'bom' Nove de Espadas a epígrafe de noite escura da alma. Tudo bem, tudo bom. Mas aqui é a própria treva. A essência do breu. O pesadelo, claro, se mantém.


Tarot de Marseille, de Jodorowsky e Camoin | The VertigoTarot, de Dave Mckean
Tarot of the Sidhe, de Emily Carding  | 

O Tarot, enquanto uma pinacoteca nômade, não poderia oferecer maior desgraça. Mesmo que em determinados contextos narrativos este Arcano se mostre positivo, desejado e até necessário. Mas prevalece o medo porque ilustra com incômoda clareza a incapacidade de dar conta do próprio mundo. A câimbra num mergulho em alto mar às três da manhã.  Justamente porque o pesadelo é um processo, às vezes é difícil acordar logo de cara. E a sensação é que, quanto mais se tenta abrir os olhos, menos as pálpebras correspondem, como se houvesse alguma coisa no ambiente que não devesse ser vista de forma alguma. Mãos sobre o rosto! O clímax do Nove de Espadas. Um tributo ao macabro.

Pesadelos povoam a literatura americana de horror no melhor estilo Nove de Espadas.
toomuchhorrorfiction.blogspot.com

Falando em macabro, a arquitetura do pesadelo tal qual a contemplamos na literatura e nos filmes se deve a alguns gênios por toda a escuridão que semearam no mundo dos vivos. Hoffmann, grande nome da literatura fantástica, contribuiu com seu próprio Homem de Areia: Der Sandmann é um dos contos de horror mais significativos. H. P. Lovecraft também merece atenções, já que seu Necronomicon é tão infinito em histórias quanto o Tarô  histórias infinitamente ramificadas. Mas quem se destaca antes e depois de todos é Edgar Allan Poe, mestre absoluto dos piores sonhos. Em A Queda da Casa de Usher, o pai do conto policial recorre às artes plásticas para ilustrar as descrições de sua personagem diante dos assombros ao longo da narrativa: o já conhecido Pesadelo de Fuseli. Uma segunda tela de mesmo nome repete as alusões à lâmina. Comparações com a anterior são desnecessárias. Égua e elfo marcam presença.


The Nightmare (1802) , de Henry Fuseli. 
Museu Goethe, Frankfurt.

O expressionista Murnau inaugura a imagética vampiresca nas telas a partir de Conde Orlok, o vampiro de Nosferatu (1922), clássico do cinema mudo. Também adaptando o romance de Bram Stoker aos Arcanos em seu estranho Vampire Tarot, o tarotista e escritor Robert M. Place acaba bebendo das fontes visuais do diretor alemão para compor seu Nove de Facas. Vampiros são seres de pesadelo também. Um quarto escuro, uma cama, uma donzela indefesa. Elementos indispensáveis à composição das melhores cenas de terror. 


NINE OF KNIVES | Vampire Tarot, de Robert M. Place (2009).
Cartaz moderno do filme Nosferatu: Eine Symphonie des Grauens, de F. W. Murnau (1922).


Borges | Lisl Steiner
Talvez porque garotinhas sejam símbolos de pureza. A virgindade entre os lençóis é alvo fácil para demônios famintos que transitam entre os sonhos. E o mesmo Poe uma vez escreveu que tudo o que vemos ou parecemos não passa de um sonho dentro de um sonho. É essa a deixa para evocar Jorge Luis Borges, grande escritor argentino nas horas vagas e deus dos labirintos da linguagem em tempo integral. Ele diria que os sonhos são, em síntese, uma obra estética. Talvez a mais antiga expressão visual, já que somos o teatro, o espectador, os atores e a própria fábula. Mas o horror do pesadelo vem da fonte criativa da nossa vigília — o estado de consciência em que certas atividades sensoriais e motoras acontecem, durante o sono. Mais uma vez a imagem talhada ao pé da cama de Pamela Smith. 

Despertar no escuro
Espadas. 

Sabemos que a realidade oprime, mas o assombro produzido por maus sonhos é peculiar. Voltando à etimologia, Borges assusta ao tomar qualquer uma das traduções — incubus, efialtes ou mesmo nightmare — e deixar claro que todos sugerem o obscuro. E se os pesadelos fossem frestas do inferno? E se nos pesadelos estivéssemos literalmente no Inferno? 


E por que não? 


Um dos pesadelos de maior sucesso dos videogames para as telas.
SILENT HILL | Columbia TriStar, 2006. 

Rose da Silva percebe que algo está errado com sua filha adotiva Sharon quando o sonambulismo chega ao ápice do perigo. A garotinha sonha frequentemente com um lugar chamado Silent Hill., uma cidade esquecida pelo mundo. Decidida a encontrar respostas a tantas perguntas, Rose a leva até o local dos sonhos insistentes. Mas um acidente acontece durante o trajeto, pouco antes de chegarem ao destino. Rose acorda. 

Aonde está Sharon?  

A mãe aflita caminha à procura de sua criança por entre as ruas da cidade. Mas caminha em sonho ou em realidade? Descobrir as verdades sobre a origem da filha entre brumas, cinzas e trevas é também uma jornada pelo Arcano maldito. Ao toque da sirene    que arrepia até aquele que ri com filmes de horror , as paredes descascam como papel queimado. Arames farpados substituem as paredes e seres desfigurados em plena podridão perseguem a mulher. Uma travessia pelo vale das sombras. 


Welcome to the nightmare.




Que tal? 

Se você enfrenta seus sustos e chegou até aqui, perceba o quanto é necessário olhar para o Tarot com mais cuidado. O preconceito fere e as crenças infundadas talham a visão de mundo. Decorar significados é o mesmo que se perder nas trevas da ignorância. Os cenários do Tarot só funcionam como portas se houver coragem de chegar até elas e abri-las. Mas não sem algum preparo prévio.


DYLAN DOG, minha HQ italiana de terror preferida. 
Baralho produzido pela LoScarabeo, 2001.
ENCARE SEUS PIORES MEDOS

Esse grande clichê do universo da autoajuda tem seus méritos. Uma postura destemida vale muito diante dos pesadelos. Agarrá-los, aliás, pode ser a chave para uma nova plataforma mental. É assim que os terrores noturnos acabam sendo estímulos à manutenção coerente das ideias, dos sentimentos e das atitudes. Sonhos, enquanto símbolos, pressupõem alguma reação. Espadas são sempre convites. Dormir é preciso. E, acordar, tanto quanto. 

As delícias e as desgraças por trás do véu onírico se contraem e se expandem de acordo com o comportamento interno diante do jogo de formas e significados. De imaginação e realidade. Reinos que bifurcam os sentidos nas veredas do oráculo. Quando se trata de imagens tudo é possível, bem sabemos. Assim como nas cartas. Atenção aos espelhos.

O mesmo Borges, enxergando a eternidade, diz também que os poetas, assim como os cegos, conseguem ver no escuro. Assim deve ser o tarotista, o tarólogo, o leigo, o humano. Só uma aproximação educada e também destemida ao Tarô pode promover o verdadeiro autoconhecimento. Sustos são inevitáveis, que fique 'claro'. Olhos abertos para cultivar o campo rubro [e perfumado] de analogias sem deturpar a estrutura das imagens. Afinal, 'um sonho não interpretado é como uma carta não lida'. Ou mal lida, talvez. Essas cenas, sejam belas ou grotescas à luz das combinatórias, são sempre elas mesmas. Feitas de sangue e corpo do imaginário. Sempre suscitando o pior e o melhor de nós.


Então apague as luzes. 
E que você tenha bons sonhos. 

Mesmo.





Bibliografia CONSULTADA e INDICADA

BORGES, Jorge Luis. Ficções. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
CATTABIANI, Alfredo. Florario: Miti, leggende e simboli di fiori e piante. Mondadori, 2010.
CROWLEY, Aleister. The Book of Thoth. Weiser Books, 1996.
ELLIOT, T. S. Poesia. Nova Fronteira, 1981.
GAIMAN, Neil. The Absolute Sandman Volume 3. DC Comics, 2008.
ILLES, Judika. Encyclopedia of 5000 Spells. HarperOne, 2011.
POLLACK, Rachel. Tarot Wisdom: Spiritual Teachings and Deeper Meanings. Llewellyn, 2008.