7 de agosto de 2021

O CINCO DE OUROS



A fome é que é obscena.

José Saramago



Eu nunca me demorei no Cinco de Ouros. Nos idos de 2000, quando comecei meus estudos oraculares, este era o arcano em que pensava compreender o suficiente essa cena absoluta de penúria — a maior, a mais triste e dura fonte de pobreza de todo o Tarot. Ledo engano meu. E sempre soube desse engano, atraído pela imagem criada por Pamela Colman Smith a pedido de A. E. Waite, que prenuncia “problemas materiais, acima de tudo”. Uma imagem que merecia — e sempre merece — um estudo debruçado. 


Cinco de Ouros não só enquadra a arquitetura da miséria, com suas diversas particularidades e suas devidas profundezas, como ensina a ver a realidade com a devida atenção e a necessária postura firme diante dessa verdadeira obscenidade. Cinco (mil gatilhos) de Ouros.





FIVE OF PENTACLES 
Smith-Waite Tarot 
U.S. Games, 1971



Impossível não pensar, ao menos por cinco minutos, em Pamela Colman Smith erigindo o muro escuro de uma catedral como uma crítica à Igreja em relação aos mais necessitados. Se me volto ao Sola Busca, até aceito que Smith possa ter se baseado no Cinque di Denari deste que é um dos maços de Tarot mais enigmáticos e importantes da História para compor o seu Five of Pentacles.

 





I Tarocchi Sola Busca (Veneza, 1491) 
Pinacoteca di Brera


E se falo em catedral, penso em Fulcanelli. O lendário alquimista francês afirma que “a catedral é o refúgio hospitaleiro de todos os infortúnios”, onde os doentes imploravam a Deus o alívio dos seus sofrimentos, permanecendo nela até sua completa cura. Isso ocorria em Notre-Dame de Paris em que aflitos, convalescentes e debilitados eram recebidos por médicos na entrada da basílica, ao lado da pia de água benta, e várias noites. É, portanto, “o asilo inviolável das pessoas perseguidas e o sepulcro dos mortos ilustres", servindo a todos, sem olhar a quem. Além do paredão gelado de uma catedral, este pode ser o muro qualquer outro templo. Então penso em José Santa-Bárbara, um dos maiores leitores de Saramago e grande ilustrador d’O Memorial do Convento. E daqui em diante também posso ver, no Cinco de Ouros, Baltasar e Blimunda bem rentes ao santuário de Mafra.




Sete-Sóis e Sete-Luas 

José Santa-Bárbara, 2001



Os dois retirantes concebidos por Smith têm iconografia própria. Pouco importa, nesta altura da humanidade, a fonte exata em que ela bebeu para compor uma das cartas mais difíceis do Tarot. Dois mendigos são emblemáticos na história das artes gráficas, infelizmente. Na carta de Smith não vemos a entrada, apenas a ostentação colorida de um vitral que remete à farta saúde de uma instituição religiosa milenar. 


Dois andarilhos, pessoas visivelmente debilitadas, seguem seus destinos pela neve. Deram de cara com as portas fechadas, sumariamente impedidos de se abrigar no templo? Ou estariam quase chegando à entrada, alimentando esperanças a passos dolorosos, de serem recebidos na Casa de Deus? Seja como for, o drama estático — a cena pausada que a carta mostra — é que prevalece na teoria e na interpretação. O Cinco de Ouros abarca as mazelas do caminho sem floreios. 




Gravura de Cornelis Massijs (1538) . 
Acervo do British Museum



Não há flores na rua da amargura. Não há perdão para quem se esforça na glamourização da pobreza com a tal da 'resiliência', palavra da moda dentre os mais ingênuos da onda holística e do coaching. É esperado que quem enfrenta o frio cortante da miséria se torne mais forte e resistente aos percalços, mas nunca é garantido. A vida adoece. O frio mata. E o Cinco de Ouros continua sendo um quilômetro infrutífero de uma terra vasta de oportunidades. A pé. Sem choro nem piedade. 


Uma das profundezas dessa carta se revela a partir da clara noção de que não temos noção clara a respeito do gênero dos dois caminhantes. Podem ser dois homens ou, como tem se mostrado frequente na maioria dos baralhos derivados do imaginário Smith-Waite, um casal heterossexual: a mulher, mais alta, e o homem, mais debilitado, valendo-se das muletas e ostentando o sino, sinal de que os leprosos, distanciados por todos, se aproximam do vilarejo. 





Gravura de Adriaen Matham & Adriaen van de Venne (1630-1650). 

Acervo do British Museum



Com este instrumento, tão discreto que passa silencioso pelos cartomantes desatentos, se vê que a Igreja torce o seu nariz de ouro para ajudar a quem realmente precisa. Ainda assim, Chevalier e Gheerbrant alegam, em seu utilíssimo Dicionário de Símbolos, que “o sino evoca a posição de tudo o que está suspenso entre o Céu e a terra, e, por isso mesmo, estabelece uma comunicação entre os dois. Mas também tem o poder de entrar em relação com o mundo subterrâneo”. O subterrâneo liga-se ao que está longe das vistas embora bem embaixo do nariz da sociedade: o dito submundo dos viadutos, as ruas fechadas pelas drogas, os doentes terrenos descampados e os becos dos viciados em que virtude alguma parece ter vez. 





People scrambling to get away from a leper ringing a bell 
Pintura de Richard Tennant Cooper (1912).
Wellcome Collection




Com essa deixa vamos nos aprofundando na paisagem impossível do Cinco de Ouros, que fala claramente a língua dos homens e clama pelo socorro dos anjos. Outra interpretação, também com frequência trazida ao Tarot, é a de que se trata de uma mãe com seu filho. A partir do baralho de Bill Greer e Lloyd Morgan, uma das imagens católicas mais poderosas é aventada neste arcano:






Five of Pentacles - Morgan-Greer Tarot (U.S. Games, 1979)

La Pietà - Michelangelo (Vaticano, 1499)



Só quem vive numa bolha nunca viu uma mãe pedindo esmola com um filho a tiracolo. E só quem vive mesmo numa bolha, bem turva de tanto positivismo tóxico, não vê que este arcano dá voz aos fracos e oprimidos, aos abandonados e apagados pela sociedade. A nevasca torna invisível que passa. Nos baralhos em que o Cinco de Ouros centraliza a mater dolorosa, o protagonista deixa de ser o infortúnio na nevasca para se tornar o calor espiritual, que reconforta aqueles que sofrem dificuldades físicas e financeiras. Não à toa, o triângulo de Michelangelo se repete com os vitrais — mãe, filho e Espírito Santo, que roga por nós. 






O vitral da imagem Smith-Waite é um enigma que causaria grande apetite nos decodificadores de imagens se não fosse tão óbvia em seus segredos. Trata-se de uma árvore florida, frondosa e forte o bastante para representar o espírito sobre a matéria: quatro tentáculos abaixo — demarcando as firmes estruturas materiais, morais e sociais  — e um acima, o espírito, ostentado como se fosse Deus acima de todos. Balela eclesiástica, argumento plausível para a santa mamata dos vendilhões que gozam do lado de dentro dessa janela tão próspera. 






Em outras versões, como a de Frieda Harris, considera-se o pentáculo invertido sempre como uma “um símbolo de alguma tendência sinistra”, segundo o próprio Crowley — “o triunfo da Matéria sobre o Espírito”, que gera séria instabilidade nas fundações de tudo o que é palpável. O mesmo ocorre com o Cinco de Espadas com as suásticas, devido aos ataques nazistas a Londres em novembro de 1939, mesmo período em que Lady Harris concluía, numa capital literalmente assombrada pela guerra, os Arcanos Menores. Coincidência ou não, os bombardeios de Hitler também tonificam a desgraça anunciada do Cinco de Ouros: nas palavras do próprio Crowley, “seu efeito é aquele de um terremoto”, com os mesmos estragos possíveis. 





Harris-Crowley Thoth Tarot

Five of Swords — Five of Disks

AGMuller, 1986



Não entremos no mérito de muitas discussões a respeito do cinco, o profano número sagrado que sempre extrapola os espaços possíveis. Basta dizer que a vida é o sopro passando pelos dedos de uma só mão: 1. concepção, 2. nascimento, 3. crescimento, 4. maturidade e 5. morte. Nem falemos "amém" a Crowley, porque é preciso fazer justiça às suas úteis interpretações e aplicações invertidas. Mesmo tanto e tão associado a práticas de magia negra, na religião Wicca, por exemplo, o pentagrama com a ponta superior posicionada para baixo é um símbolo do Segundo Grau (o último e o mais alto é o Terceiro), assegurando que o iniciado segue em processo de desenvolvimento. Cinco é o número do espírito e da matéria combinados no corpo e no universo — vide o Homem Vitruviano de da Vinci —, mas nos Arcanos Menores ele também rege os conflitos naturais da própria interação entre as forças e as formas. Em Paus, Copas, Espadas e aqui, o Cinco é número e arcano de transformações reais e radicais. E continuamos bem longe de qualquer sensacionalismo satanista e suas teorias hediondas. Demoníaca é a miséria, a desigualdade e a política do abandono. 




FIVE OF COINS
The Alchemical Tarot (2015) & Tarot of the Sevenfold Mystery (2012)
Robert M. Place - Hermes Publications



Há teóricos que preconizam o Cinco de Ouros como o ponto crítico de um relacionamento afetivo, como se um período de provação chegasse aos compromissados. Não à toa, os atributos mais frequentes em diversos manuais franceses e italianos prenunciam o surgimento de uma ou um amante, abalando as estruturas de um casamento — nada mais catastrófico para a moral e os bons costumes, já que “não separa o homem o que Deus uniu”. Mas se pensarmos em sombras e luzes, a contraparte tão luminosa estaria em outro naipe, bem no arcano das alianças firmadas e do brinde tão celebrado: o Dois de Copas seria o mar de rosas e o Cinco de Ouros o seu contrário. Acaba sendo obrigatória, de tão óbvia, a associação dessa dupla com os versos mais célebres do Rito do Matrimônio católico, proferidos no instante da União das Mãos e do Consentimento: "prometo estar contigo na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, amando-te, respeitando-te e sendo-te fiel em todos os dias de minha vida, até que a morte nos separe."




Na alegria e na tristeza

Na saúde e na doença

Na riqueza e na pobreza



Não sendo (nunca) homogênea a massa de significados para esta carta em toda a literatura tarológica, aumenta a sua brecha interpretativa. De amor e amantes em Etteilla e em Papus a perdas e dificuldades, nos dias de hoje, o Cinco de Ouros culmina em um arcano transitório em relação ao desamparo e ao desespero. Como se não houvesse, de acordo com o provérbio português, mal que dure para sempre. Talvez eu fique com a frase bíblica que Sofia di Vincenzo, em seu livro sobre o Sola Busca, aplica ao nosso arcano: “post tenebre espero lucem”. Quem, vendo e vivendo a treva, não espera a luz? Eu espero calor a esses dois em dificuldade escancarada, no sentido térmico e humano. Porque o Cinco de Ouros é uma carta difícil, pesada. Como bem é o inverno numa cidade de pedra. 






São Paulo, julho de 2021. A temperatura chega a menos de 5ºC. Várias igrejas passam a alojar, nessas noites de frio que mata, diversos moradores de rua. Grande exemplo é o incansável padre Júlio Lancelotti, à frente da comissão de acolhimento aos desabrigados, que já deixou de ser um simples pároco da Mooca para se tornar um dos mais influentes religiosos do país nas redes sociais. Seu ofício cativa os que se importam e choca demagogos, hipócritas e falsos cristãos. Mas o que realmente deveria chocar — e infelizmente não choca, dado o Brasil de hoje —  são os comentários em suas postagens: “aquele cara de jaqueta e essa mulher de cabelo tingido?! Isso não é gente de rua nem aqui nem na China!”, como se as pessoas em situação de rua tivesse a obrigação de serem irreconhecíveis enquanto seres humanos, como bem manda o imaginário de certas ditas pessoas de bem. 



Instagram: @padrejulio.lancellotti



Não. O próprio Tarot ilustrado por Pamela Colman Smith assegura esta verdade, com seus rostos aleatórios que podem, certamente, ser os rostos de quaisquer outros personagens dos outros arcanos. Eu vejo as feições da mendiga na madame do Nove de Ouros e nas águas claras da Rainha de Copas. Eu vejo o mendigo de muletas na firmeza do Nove de Paus e, sobretudo, no rosto soberano do Rei de Espadas. Sendo assim, fica o óbvio: quem está agora no Cinco de Ouros pode ter estado e poderá estar em qualquer outra posição de qualquer outro arcano. Quem julga pessoas — eu disse “pessoas” — em situações deploráveis não ajuda em nada. Eu disse “nada”. Quem critica aqueles que ajudam de verdade perpetua as mazelas. As próprias e as dos outros.





O Cinco de Ouros tem sido um arcano invisível. Ele revela a nossa vulnerabilidade enquanto seres humanos, falhos e propensos a toda sorte de quedas. Pouco se fala dele a não ser em releituras que se distanciam de toda a tradição simbólica. Há mil casos e exemplos. Tal como são muitas pessoas em situação de extrema pobreza; tal e qual a pessoa que perde tudo e tem questionados os seus valores. Eu nunca havia me debruçado sobre o Cinco de Ouros e o motivo, agora vejo, é porque sempre considerei inadmissível normalizar pessoas em miséria extrema, em perpétuo risco de morte, em sofrimento por questões de primeira, segunda e terceira necessidades. É comum fechar os olhos a essas questões, mas não é humano perpetuá-las. O Cinco de Ouros é retrato (obsceno) universal do descaso, do nojo e da omissão dos grandes.


E continua em mente a cena arquitetada pela genial Pamela C. Smith. Ela é a base da adversidade, atributo já clássico deste arcano. O Cinco de Ouros não só contrasta a riqueza do templo com a pobreza de fora como escancara a imponência do que se cria — o templo — com a insignificância de quem criou — os dois andantes excluídos, os dois obreiros mal remunerados pelo Estado? —, mostrando que é mais fácil perceber o que podemos fazer do que quem podemos nos tornar. Glória da indiferença. Essa perspectiva, na atual conjuntura, dá margem a uma possibilidade necessária: essa que tida como uma das piores carta do Tarot, é uma carta de resistência. Ela ensina a dizer com mais frequência uma das palavras que preferidas de Saramago: “não”, convencido de que é preciso dizê-la mais e mais, “mesmo que seja uma voz pregando no deserto”. Ou no frio cortante. 




FIVE OF PENTACLES
Before Tarot - Eon & Simona Rossi
Lo Scarabeo, 2018 



Porque é importante dizer não ao acúmulo desenfreado de riquezas por umas poucas pessoas enquanto outras milhões passam fome, por exemplo. Porque é importante, agora vejo, depois de dois dias imerso nas analogias possíveis, notar o quanto é necessário, a quem o observa, sorteia e interpreta essa carta, não se esquecer jamais dos seus privilégios. E ajudar sempre — da forma como é possível e pelo tempo que for necessário — a diminuir a dor de animais e pessoas em condições cruéis. Esta é uma lâmina que machuca. Este é um arcano que ensina. 


O Cinco de Ouros clama pela noção sincera de que há dores piores que as suas. 

O Cinco de Ouros exige olhos e mãos para quem está lá fora, sem saber se haverá amanhã.

O Cinco de Ouros pede para se colocar no lugar de quem tem fome, frio e sede.

O Cinco de Ouros implora por justiça e misericórdia a quem desiste de si.

O Cinco de Ouros mede e revela a sua, a minha e a nossa humanidade. 







 





















P.S. Por mais cristão que pareça este ensaio (e mesmo não o sendo o seu autor), nada impede de abraçar a causa de um padre e de ajudar a quem precisa. Pelo contrário. Pouco interessa a religião; o que importa é ajudar. Quem critica e maldiz as atitudes de uma paróquia, uma entidade social ou um grupo beneficente alegando ideologias políticas e impondo convicções religiosas, também precisa de muita ajuda. Aliás, tem algo muito estranho e muito errado em quem lê Tarô e estuda Esoterismo, por exemplo, e não se volta a questões sempre urgentes como pessoas e animais em situação de fome, frio e maus tratos. Quem trabalha a favor da espiritualidade trabalha a favor da ajuda, da justiça e da vida. É uma missão. Assim como é interpretar os símbolos, esses seres — vivos e bem visíveis — ao nosso redor.





BREVE BIBLIOGRAFIA DE APOIO


CHANG, T. Susan & MELEEN, M. M. Tarot Deciphered. Llewellyn, 2021.

CROWLEY, Aleister. The Book of Thoth. Lancer Books, 1969.

DI VINCENZO, Sofia. Sola Busca Tarot. U.S. Games, 1998.

FARRAR, Janet & Stewart. A Bíblia das Bruxas. Alfabeto, 2017.

FULCANELLI. O Mistério das Catedrais. Edições 70, 1986.

CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. José Olympio, 2020.

LOUIS, Anthony. O Livro Completo do Tarô. Pensamento, 2020.

SARAMAGO, José. Memorial do Convento. Companhia das Letras, 2019.

WAITE, Arthur Edward. The Key to the Tarot. Rider Books, 1999.


20 de maio de 2021

A SALAMANDRA


Palazzo Grimani 

Veneza, 2021


    
Quando me perguntam porque Veneza é a minha cidade (mítica, biográfica, permanente), pensam que é sobre as gôndolas, os sinos, os barcos, as águas, as luzes. Mas todo o fascínio vai além da ancestralidade rastreável. Ou talvez venha dela, propriamente. Porque é também sobre os segredos e os detalhes, muitos deles talhados e encerrados em pedra. Tenho um exemplo: por trás de uma parede da Sala de Psiquê do Palazzo Grimani — um dos grandes museus da Itália, escondido no labirinto do bairro Castello e só avistado em toda a sua glória pelo Canal Grande ou rio San Severo —, acabam de descobrir um painel em pedra de uma Salamandra, símbolo alquímico e regente elemental do fogo, provavelmente de 1530. Em chamas. Intacta.



Palazzo Grimani 

Veneza, 2021


Pensando nos tantos séculos reluzindo no escuro, em perfeito estado, lembrei de Borges citando Santo Agostinho, talvez n'O Livro de seres imaginários, sobre corpos que podem ser perpétuos no fogo. Me faço imaginar o estudo de alguns documentos antigos das alas leste e norte, plantas e cartas e gravuras bem conservadas na Biblioteca Marciana que alegassem a presença remota de afrescos ou incisões, e arquitetos atentos ao que não se vê senão o branco gelado de um pavilhão nada medieval, perscrutando o que (ou quem) descansaria (ou não) rente aos tijolos impassíveis. Melhor: avento o susto dos museólogos e dos guias descansados com a sensação térmica alterada na muralha ao sul, o perigo de ferver os jardins suspensos de Camillo Mantovano, abrasar os mármores claros da Sala do Doge ou mesmo ameaçar a abóbada de Ganimedes, suspenso com Zeus feito águia em seu silêncio. 




ATALANTA FUGIENS
Michael Maier & Matthäus Merian
1617


Risco de incêndio há sempre, e qualquer fagulha no santuário do Mar Tirreno é ofensa e piada a essas estruturas de milênios, com seus tecidos e troncos e vidros sustentando a maior maravilha do mundo. Ainda assim se evita, e lá se vão as tantas análises, os termômetros gritantes e seus motivos desconhecidos. Só uma alternativa drástica abrandaria a tal quentura: quebrar a parede, passar tudo à prefeitura como exigência da restauração e ver, por entre marretas e sujeira histórica, quais seriam as razões do mistério, porque elas existem. E persistem, como se vê. 



   


Palazzo Grimani 

Veneza, 2021



Faz calor em Veneza, e agora se vê um motivo. O fogo, certa vez ocultado, insiste em queimar. Faz sua hora. E esse é um exemplo. Intacto. Agora eu respondo: é sobre as gôndolas, os sinos, os barcos, as águas. Mas é sobre essa cidade, que liberta salamandras e revela mais dela mesma — e mais de mim, por sagrada consequência. E é, sobretudo, pelo fogo. Que não e nunca se apaga.




Leonardo Chioda





ÁS DE PAUS
The Alchemical Tarot

Robert M. Place



15 de janeiro de 2021

DESCOBRINDO (AINDA MAIS) O TARÔ DE MARSELHA

RESENHA por Leo Chioda


Nunca o Tarô de Marselha foi tão bem articulado em um livro repleto de informações úteis a leigos, intermediários e veteranos

 

Tarô de Marselha: a jornada do autoconhecimento – guia do usuário para tiragens e interpretações, é o primeiro livro de Florian Parisse, renomado tarólogo francês, lançado pela Editora Pensamento (confira a apresentação e o link para compra logo abaixo).

 

O livro foi estruturado em dois grandes capítulos bem divididos: o primeiro é o Retrato dos 22 Arcanos Maiores e o segundo é A Tiragem em Cruz: Manual de Instruções, método que se tornou a especialidade do autor. As quase 200 páginas do primeiro discorrem sobre a simbologia dos Arcanos Maiores em determinadas áreas da vida que servem para interpretar a  Tiragem em Cruz, um arranjo tradicional da Cartomancia que aqui é exposto e ensinado com as várias adaptações e particularidades testadas e assinadas por Parisse. 

 

Um dos pontos altos (e bastante úteis) deste livro é a maneira como o autor disseca os Arcanos Maiores: cada carta é tomada nas mãos como um ser vivo, com suas características peculiares e sempre distintas dos demais, sempre dignas da dedicada atenção do leitor. Ao contrário de muitos autores que tratam as cartas como meras peças mortas de um jogo, que são simplesmente combinadas para resultar em significados bem frios, Parisse ressalta, na breve e importante introdução ao livro, que “cada arcano vive, existe e exprime sua quintessência por meio de seu grafismo". Quintessência, em outras palavras, é o que há de melhor, de mais apurado e importante dos arcanos. E ela está nas próprias imagens, considerada pelo autor como a obra prima de um mestre da pintura. 

 

O autor não só acredita na natureza viva do Tarô de Marselha como comprova a onisciência das cartas logo nas primeiras páginas. Começando pelo arcano O Mago, adentramos o recinto — o qual o autor chama de “retrato” — dos Arcanos Maiores, discorridos em seções bem detalhadas que vão das forças e fraquezas de cada carta até o modo como funcionam nas áreas profissional, financeiro, afetivo e na de saúde, sempre detalhando os bons e os maus aspectos desses contextos. 

 

Ao longo do capítulo sobre a Tiragem em Cruz, com revelações de aplicação do autor em seus atendimentos na França, destaca-se "A Caixa de Ferramentas e os Casos Práticos", as duas últimas seções do livro. A primeira delas oferece particularidades de leitura desse método, cuja versão extensamente discutida neste livro (com exemplos de leitura e interpretações completas de jogos) resulta na opus magnum de Florian Parisse, já que devidamente arranjada com ferramentas importantes para se fazer previsões como a temporalidade, a noção de arcanos estáticos e móveis, e até o exercício de propor datas específicas para acontecimentos previstos.

 

Há que possa tecer críticas (provavelmente infundadas) ao fato de Parisse se utilizar apenas dos 22 Arcanos Maiores. Porém, é preciso compreender essa medida como um traço do estilo profissional do autor em vez de considerar a ausência dos 56 Arcanos Menores como uma falha de sua prática. Ainda que seja inegável e completamente endossada a utilização de todos os 78, não se pode discriminar quem se utiliza apenas dos 22 Arcanos Maiores. Além de serem o cartão de visitas e a porta de entrada do Tarô, é importante reparar que muitos profissionais franceses frequentemente se valem apenas dos Maiores em consultas, palestras e cursos, na maioria das vezes com absoluta dedicação e eficácia


Pela primeira vez em língua portuguesa, eis um livro de origem francesa que expõe a prática adivinhatória com naturalidade e segurança, já que é fruto de um profissional em atividade e em constante experimentação daquilo que aplica. Mesmo para quem não usa ou não gosta do Tarô de Marselha, o livro é adaptável a todo e qualquer Tarô que siga a estrutura clássica dos Arcanos Maiores marselheses.* Para quem não conhece o oráculo e deseja começar com um estudo sério e profundo, Tarô de Marselha: a jornada do autoconhecimento é um título interessante por mostrar a nós, leitores brasileiros, o oráculo enquanto sistema — vivo e que passa muito bem, por sinal — de símbolos que refletem a nossa vida no presente e, também, o passado e o futuro. 


Por fim, o leitor deve estar ciente de que tem mãos uma obra em progresso, isto é, que não se encerra neste volume. Ele é o primeiro de uma série de livros que se valem do Tarô de Marselha para realizar consultas oraculares, fazendo jus à tradição francesa, popularizada por Oswald Wirth, de encarar o Tarô como uma máquina de imaginar, isto é, de conseguir ver nos 22 Arcanos Maiores, de modo assombrosamente detalhado e sempre genial, tanto o micro quanto o macrocosmo. 

 


 

* Essa estrutura diz respeito ao número de cartas e à numeração delas, a saber: 22 cartas, sendo que O Louco é grafado como 0 (zero), O Mago é o arcano 1 e assim sucessivamente até O Mundo (21). Uma sugestão para quem deseja conhecer, começar a estudar o Tarô de Marselha e aplicar os ensinamentos de Florian Parisse, é o kit (livro e baralho) O Tarô de Marselha, de Carlos Godo, inteiramente revisto e atualizado pela Editora Pensamento. 



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FICHA TÉCNICA


Livro • Tarô de Marselha: A Jornada do Autoconhecimento - Guia do Usuário para Tiragens e Interpretações
Autor • Florian Parisse
Tradução • Karina Jannini
Ano de lançamento • 2020
ISBN •  9786587236117
Encadernação • Brochura
Páginas • 328
Release • Neste estudo surpreendentemente didático, Florian Parisse, vidente e tarólogo francês de renome, apresenta-nos um manual prático para tiragens e interpretação, destinado a todos os usuários do Tarô de Marselha. O livro nos traz uma descrição minuciosa dos 22 Arcanos Maiores sob a forma de fichas, reunindo dados bastante completos e originais, que permitem aos iniciantes compreender todas as nuances desse belo instrumento divinatório. Para cada tema abordado nesta obra (trabalho, finanças, amor, saúde), Parisse apresenta exemplos de relatos de casos e conversas particulares que manteve em seu consultório, acompanhados de respostas e experiência dos próprios interessados. Por fim, uma verdadeira caixa de ferramentas é colocada à disposição do leitor e estudante do tarô, fornecendo todas as chaves necessárias para uma boa leitura do Tarô de Marselha, que tornam este oráculo secular um instrumento de autoconhecimento e expansão da consciência.



7 de agosto de 2020

RESENHA • TAROT - THE LIBRARY OF ESOTERICA [TASCHEN, 2020]

 


TASCHEN, maior editora de livros de arte do mundo, só atira se for para acertar. Com a THE LIBRARY OF ESOTERICA, tende a ficar difícil resistir às obras temáticas em relação aos assuntos que amamos. E o que mais amamos é justamente o primeiro lançamento do selo: “TAROT”, escrito por Jessica Hundley com ensaios de Penny Slinger, Marcella Kroll e Johannes Fiebig, com citações de pensadores, criadores de baralhos e milhares de imagens.



 


O livro, de 520 páginas coloridas e em capa dura, é dividido em quatro partes. A primeira é uma introdução ao oráculo partindo de verbetes breves sobre sua história e fechando com uma linha do tempo centrada na produção intelectual do hemisfério norte. A segunda percorre a simbologia dos 78 arcanos com centenas de pinturas e cartas conhecidas ou não do grande público, provando a pluralidade de interpretações de cada arcano. A terceira cobre os artistas, literatos e esotéricos partindo de 1700, com Gébelin e Etteilla até Dalí, Calvino, Andy Warhol e chegando a 2020 com Jodorowsky e Patti Smith. A quarta e última parte, como não poderia deixar de ser, põe as cartas na mesa: o Tarot enquanto ferramenta do destino, linguagem visual e a criação de significado no sacro ofício de leitura dos arcanos.


 


Mas vale lembrar que este é um livro de arte, não um manual. Ele mapeia o Tarot nos principais e nos mais inusitados museus e bibliotecas do planeta, resultando em uma espécie de enciclopédia de cores, formas e filosofias ancorados na estrutura clássica do baralho filosófico. Um livro não definitivo — o único livro perfeito de Tarot é ele próprio —, mas um compêndio necessário. Ele passa o filminho dos 600 anos de vida do Tarot para validá-lo, sem dúvida ou receio, como tradição. Templo de expressão artística universal. Patrimônio espiritual da humanidade. Maquinário vivo da linguagem simbólica.


Tarot, presente. E com um futuro brilhante, por sinal.




© Leo Chioda • @cafetarot




Review: Leo Chioda • @cafetarot

Translation: Edoardo Valmobida