24 de junho de 2016

SANGUE E LEITE

ALKAMA
(Alquimia)

Frederic Fontenoy


É impossível ter todos os baralhos e todos os livros já escritos sobre Tarô. São vários séculos de evolução simbólica. Séculos de perdas e acréscimos. Mas o vínculo entre as pessoas dadas às cartas e o conhecimento assimilado são suficientes para proporcionar novos encontros, fazer associações cada vez mais ricas e revisitar certas práticas refutadas ao longo do tempo. Porque com poucos títulos e breves encontros vislumbra-se a Grande Obra. 


PEDRA FILOSOFAL
Harmonie Chymique

David Lagneau, 1636

Grata surpresa foi a presença do artista Robert M Place em São Paulo. O responsável por diversos baralhos como o Alchemical Tarot, o Tarô dos Santos e o Burning Serpent Oracle esteve em São Paulo para a segunda edição do Cartomancia, um  dos maiores e melhores eventos de Tarô no Brasil. Mesmo havendo alguns de seus livros em minha biblioteca tarológica, ver Place aplicando seus métodos de leitura foi inspirador. Assistir à sua aula de Alquimia e Tarô foi como voltar para casa depois de uma longa viagem. Talvez porque um baralho alquímico reforça a metáfora sobre os processos humanos; porque restaura, como quer James Hillman, pai da Psicologia Arquetípica, o modo alquímico de imaginar. Ele considera cada tiragem, composta de três cartas, no mínimo, como uma única cena. São respeitadas as direções para onde olham as personagens e para onde se voltam os objetos das cartas sorteadas. É uma forma de revitalizar a leitura oracular ao resgatar a linguagem corporal dos arcanos — uma prática não mais adotada pela maioria dos profissionais, não ensinada em cursos e quase nunca citada em workshops de Tarô. Lembro, aqui, de um axioma presente no Amphitheatrum Sapientiae, de Heinrich Krunrath (1602): “Para quê tochas, luzes e óculos se as pessoas não vêem?” 


Nos apegamos aos conceitos e às posições das cartas e damos de ombros à inclinação da cabeça d’O Louco ou ao olhar d’O Mago. Nem nos perguntamos mais se A Justiça nos olha ou se é cega, de fato — comumente desenhada encarando o leitor e o consulente. Uma análise de relacionamento feita por Place pode ser extremamente auspiciosa ao colocar uma ponte entre as duas pessoas envolvidas: o que as une, o que elas têm em comum. E a tríade arcana pode sugerir, ainda, uma história linear ou um relacionamento fadado ao fracasso. Tudo depende do posicionamento e do valor simbólico das imagens. Estamos de volta à cartomancia dos livros herméticos de Paris, das sibilas em seus salões e dos imagiers de Wirth. 

É instigante aprender com um artista cuja argumentação, bastante sólida, se aplica de modo sensato à bagagem de um praticante. Ele sabe que, como a Alquimia dos antigos, a sua arte é uma experiência de transmutação. E o Tarô é essa ferramenta de transformar o elemento básico em metal valioso — de tornar o cifrado em algo óbvio e útil. Pensar e agir por meio de imagens. Exemplo é o contexto simbólico do uso das três cartas, tratado com respeito a partir do seu significado arquetípico. Para os pitagóricos, três eram os pontos necessários para fazer a primeira forma geométrica e assim começar a criação. A existência em si, para eles, era governada por três deuses: Zeus, Possêidon e Hades. Já os alquimistas acreditavam que toda matéria é composta de uma trindade de essências. O mesmo ocorre em qualquer sentença, como bem sabemos: uma frase completa pressupõe um sujeito e um predicado. E ainda é preciso uma terceira parte: o objeto. Assim como uma história, com o seu começo, o seu meio e o seu fim, pode-se sortear três cartas e compor uma narrativa. 

TRÊS CARTAS
The Alchemical Tarot Renewed: 4th Edition

Hermes Publications, 2015

Penetrar na Alquimia. Enquanto reconsiderava em mil variações a tão saturada leitura de Passado-Presente-Futuro, minha atenção se prendeu à imagem d'A Estrela, uma das minhas cartas favoritas no Alchemical Tarot. Uma imagem arquetípica, embora se apresente repleta de significado, não é uma simples revelação. Daí o termo 'arcano' ainda tão bem aplicado. O significado deve ser elaborado, também de acordo com Hillman, através do 'trabalho com a imagem'. Place transforma a donzela nua dos baralhos tradicionais na Sereia dos Filósofos e funde os astros na aurora com a  Escada dos Planetas, ambas as pranchas provenientes do L'Azoth des Philosophes, texto alquímico de Basil Valentin. Esta figura mítica, tão rica em significados quanto misteriosa, personifica a grandeza e a profundidade do mar. Vem nas ondas de todos os panteões como a dona dos segredos da água. Em termos alquímicos, é a representação da Anima Mundi.


A SEREIA DOS FILÓSOFOS
Azoth des Philosophes

Basil Valentin, 1659



O propósito da obra é a proposição em si. Aliás, a própria Anima Mundi foi quem exigiu que o Alchemical Tarot fosse publicado, afirma Place. Ela é quem fala através das cartas, não eu.  No lugar das duas ânforas d'A Estrela clássica, a sereia pinça seus seios. Ela verte sangue e leite — os líquidos opostos que, combinados com a água salgada, formam a Tria Prima: Sulfúreo, Mercúrio e Sal, três tesouros para compor a Pedra Filosofal. O jorro vermelho é o masculino, relacionado ao sofrimento, à morte e ao medo. Já o branco é o feminino: o alimento, a vida e a esperança. 


O corpo da sereia simboliza, literalmente, a fonte da existência. É dela o estado de calma que vai além das emoções e dos anseios: a tranquilidade necessária para subir os degraus planetários. A estrela de sete pontas, marcada com outro símbolo da Anima Mundi, remete aos portões do Paraíso. Assim, Place compõe este arcano como uma guia ao mais alto estágio de consciência. A mestra, a portadora do equilíbrio e do bem estar. É a Mãe Serena. Afrodite, ela mesma, conforme a presença da pomba ao seu lado esquerdo. Stella Maris. A própria Deusa Branca de Robert Graves. Sophia nas próprias águas.


A LEITURA DOS FLUÍDOS

ALCHIMIA
Collectanea 
Chymica
Morley & Muskens, 1693

Repenetrar no Tarô. Não se pode ter tudo, mas tem-se o que é necessário. Contrariando toda e qualquer cobiça, a excelência é atingida com o que se tem e por quem  se é. Aproveito as lições da aula de Place para experimentar alguns métodos de interpretação [porque com três cartas se tem um presságio, uma diretriz, uma revelação; porque do improviso, que nada tem de mundano, se chega à Magnum Opus]. O laboratório tem o teto estrelado. Eles está em mim e em você.

The Rider-Smith-Waite Tarot — US Games, 1971
Tarot de Marseille — Camoin & Jodorowsky, 1997

The Tarot of Prague — Baba Studio, 2003

Tanto os seios da sereia quanto os seios da donzela nua de todo e qualquer Tarô representam a fonte. Seios são símbolos de provisão. Estão ligados simbolicamente ao mar e à mãe. As mamas, a figura materna e as coordenadas marítimas convergem para a assunção e a proliferação da vida. O fluxo é profuso. Peças fundamentais da Alma do Mundo. Nos procedimentos alquímicos, os seios são tanto criativos quanto destrutivos. Deles vêm o elixir e o veneno. Segundo alguns psicoterapeutas como Melanie Klein, há o seio que fornece e o seio que retém. Um é o Sol; o outro é a Lua. Place, para a alegria dos bons estudiosos, concebeu sua Estrela de acordo com todos esses princípios. O mesmo acontece com o verso da quarta edição do Alchemical Tarot, que é a releitura de uma antiga personificação da Alquimia: seus cabelos são o Fogo; seus olhos são o Sol e Lua; em seus braços estão os animais fixos e voláteis; sua respiração é o Ar; seu vestido sustenta os sete metais e de seus seios brota a Água da Vida. 

Durante meus estudos recentes, passei a aplicar uma sugestão do próprio Place quando emerge A Estrela em uma leitura: colocar uma carta à sua esquerda e outra à sua direita. Quando olha para os seus próprios seios, ela sabe que o esquerdo é o feminino e o direito é o masculino. O esquerdo é o lado branco, do inconsciente. A poção da imortalidade. O direito, que expele sangue, está ligado à consciência, à ação. Em outros termos, o branco merece discernimento e o vermelho exige atitude.  Dois dutos, dois Phármaka. 



O arranjo é rápido e significativo. A carta posicionada à esquerda d'A Estrela, no lado associado ao jorro vermelho, representa os temores do momento ou diante da questão trazida ao oráculo. Já a carta da direita, ao lado do jorro leitoso, representa as esperanças. Uma outra experiência é assumir o arranjo simbólico d’A Estrela como modelo para a leitura de três cartas. O assunto a ser tratado é simbolizado pela carta central. O arcano à esquerda sugere a reflexão necessária sobre os percalços ou os limites. À direita, por fim, o conselho a ser acatado e a postura a ser fortalecida. Esta etapa, na Alquimia, é o batismo, a purificação do negro mais negro. Marie-Louis Von Franz, em conferência transcrita no livro Alquimia [Cultrix, 1993], cita uma parte do Aurora Consurgens, um dos manuscritos mais emblemáticos e enigmáticos da historia da Alquimia: depois de distribuir e atribuir estes sete [metais] através das sete estrelas, e as tiver limpado nove vezes até que pareçam pérolas, este é o estado de brancura”. N'A Estrela, o primeiro corpo celeste em destaque nos Arcanos Maiores, se alcança a claridade. Albedo.




UM EXEMPLO DE LEITURA

Porque exemplos tonificam a prática. O consulente veio a uma consulta para saber quais rumos tomarão a sua empresa, aberto ao que cartas poderiam sugerir, confirmar ou exigir. Sorteou, então, O Hierofante, O Eremita e A Imperatriz.


Se começo lendo como uma narrativa linear — um dos sete padrões descritos por Robert Place para a disposição em três cartas — os arcanos sugerem uma postura resoluta e aparentemente impecável em relação ao próprio trabalho, aplicando com maestria seus princípios à demanda comercial. A carta central, considerada a mais importante por Place, sugere o seguir à risca as ordens de uma autoridade ou mesmo uma ideologia. Dentre as delícias visuais do Alchemical Tarot estão as pegadas à frente do velho sábio. Elas são os rastros da própria Anima Mundi — um exemplo a ser seguido, literalmente — que levam à mulher coroada, senhora da razão e digna da visão. A imagem, presente na obra Atalanta Fugiens, do médico rosacruz Michael Maier, publicada em 1618, também se encontra no Musaeum Hermeticum, de 1625. Foi reimpressa em 1687 com o título Secretioris Naturae Secretorum Scrutinium Chymicum [Investigação Alquímica dos Mais Ocultos Segredos da Natureza]. Em um desses epigramas, referentes à imagem do eremita-alquimista, o conselho é explícito: “Deixai que a Natureza seja o vosso líder, e por este meio sereis prazerosamente o servo da natureza; caminhais a esmo, a menos que a própria Natureza seja a companheira da nossa vida. Dai à razão a força do cajado; a razão intensifica a luz que pode distinguir aquilo que está muito distante. Deixai que a leitura com uma lâmpada transforme as trevas em luz, de modo que possais prever e vos proteger contra muitas coisas e palavras.”

Sendo O Eremita o arcano central e também o meu consulente, a leitura do arranjo visual incita um deslocamento. Ele segue os passos, então, d’A Imperatriz, o arcano final. Apoiado no vaticínio extraído dai interpretação PASSADO-PRESENTE-FUTURO, o papai-mamãe da Cartomancia, prenunciei a influência direta de uma mulher repleta de ideias e potenciais exigindo parte do controle sobre os negócios. O empresário não deixará valores e convicções de lado, mas passará a acatar as sugestões de quem olha para frente, de quem pensa aqui e agora para longe e mais além — sair do seu templo [Hierofante] e experimentar a caminhada [Eremita] até o horizonte vislumbrado pela sua soberana [Imperatriz]. De fato, meu consulente consentiu a respeito do comando de boa parte dos investimentos por parte da esposa, tanto pelos ideais de expansão do negócio e de uma aposentadoria tranquila quanto à carreira do filho, que pretende entrar para o mesmo ramo — aliás, ele próprio presente na carta (!) aos pés da mãe. Sucesso a caminho. Em família. 

O valor da leitura aumenta com as noções de Sangue e Leite. O consulente deve sacrificar [carta à esquerda] a irredutibilidade d’O Hierofante. Achar que a esposa não sabe ou não pode dirigir os negócios da família é uma postura típica de alguém soterrado pelas próprias convicções e pelo senso de moralidade que beira o machismo. À direita, a carta assegura o que deve ser alimentado: o respeito e os esforços d’A Imperatriz em querer administrar os caminhos profissionais, com sensatez, assertividade e previdência. Dar razão à esposa. Um panorama, uma sentença, um prognóstico. Um recorte do mundo em três cartas.

Virtuoso é perseguir a Quintessência, outro nome alquímico para o advento máximo — a Anima Mundi, tão estimada. No âmbito tarológico, alguns dão esse nome à soma da numeração das cartas presentes uma leitura. No caso desta, os arcanos 5, 9 e 3 resultam em 17, A Estrela. Providencial, não? 



O EREMITA SEGUINDO OS PASSOS DA NATUREZA
Musaeum Hermeticum

1625

O objetivo do estudo da Alquimia aliado ao Tarô é congruência, a adaptação mútua. Não se trata de uma linguagem rebuscada de imagens antigas em cima de imagens também antigas. É fazer e estar em contato. Receber mensagens. Tenho repassado alguns conceitos dos livros e baralhos criados por Place. Sua tese é repaginada a cada publicação, com adendos e revisões sistemáticas dos métodos de leitura e da teoria dos símbolos. Mergulhar em temas como o Neoplatonismo e a Cabala, por exemplo, tem sido seguro porque o escritor oferece caminhos bem neutros através das próprias ilustrações, sem preconceitos nem fatalismo. Os sistemas adotados ou desenvolvidos em vários de seus trabalhos convergem na figura d'O Mundo, que é a Grande Obra alcançada. O trunfo XXI é a Quintessência, o processo completo da Alquimia — a Anima Mundi absolutamente exposta. Recompensa. Coroamento. A Pedra Filosofal.

Tarot of the Saints — Llewellyn, 2001
Alchemical Tarot — Hermes Publications, 2007

The Tarot of the Sevenfold Mystery — Hermes Publications, 2012

O número 21 reduzido a três [2+1=3], conforme pontua Place, evoca a Senhora do Mundo Terreno — A Imperatriz. Três são faces da Grande Mãe. Três é o conceito que une o par e supera a polaridade. Três são os hieróglifos da alma sobre a mesa. Três cartas. Retomar conceitos práticos [e simples!] da linguagem simbólica é uma postura saudável diante de tantos verdades disponíveis e tantas ditaduras em relação aos significados e ao funcionamento do Tarô. Precisa-se de pouco para haver uma revolução simbólica. Com poucos recursos e muitos esforços se atinge a meta. Assumir uma postura disciplinada em relação ao que já existe na estante é o mesmo que descobrir aqui e agora o tesouro mais cobiçado de uma terra longínqua. E reaprender a olhar as imagens é tão desafiador e fascinante quanto mergulhar nas águas da Grande Imagem Primordial. É como voltar para casa e fazer uma lição esquecida, esperando por correção. E ter nos baralhos e nos livros um mestre generoso, iluminado pela eloqüência. Talvez Place tenha acatado à pérola de Pietro Bonus, alquimista italiano do século XIV:

Qual a utilidade, para o mundo, de diamantes escondidos ou de tesouros secretos? Qual a utilidade de uma vela acesa quando escondida? É o inato egoísmo do coração humano que faz essas pessoas buscarem um pretexto pio para manter esse conhecimento longe da humanidade. 

Retificar, pela Alquimia, a linguagem dos símbolos. Compartilhar o conhecimento. Se essa arte é uma experiência de transmutação, como bem sabe Robert Place, o Tarô é o instrumento mais adequado às mãos do buscador. Através das cartas, revela-se. Tudo tem alma, dos metais elementais aos Arcanos Menores. Porque é bem assim: quem lê as cartas pode não ter tudo o que quer, mas tem tudo o que precisa — tanto para suscitar a sua própria evolução quanto para operar a transmutação nas pessoas. 

O Universo nas mãos. 





 Para conhecer e encomendar os títulos de Robert M Place, acesse o blog Tarot & Divination.
✦ Para leituras com o Alchemical Tarot, confira horários e condições AQUI.

11 de junho de 2016

AS CARTAS DE ANA CRISTINA CÉSAR


Quando a poesia encontra o oráculo, o mundo se abre. É um reflexo. A partir de 1975, a poeta carioca se dedicou a diversas traduções. Dentre elas está o livro do poeta, ensaísta e editor Alberto Cousté, publicado pela Editora Ground em 1977. Tarô ou a Máquina de Imaginar é um manual sobre a leitura de imagens baseado nas obras de importantes ocultistas franceses como como René Guénon, Paul Marteau e Éliphas Lévi. Escrito com clareza apaixonada sobre as imagens 'deste livro que pode ser todos os livros' o volume tem como mote a frase do também francês Oswald Wirth, proeminente divulgador do Tarô: "Adivinhar é imaginar com justeza". A partir dela Cousté especifica três abordagens de e para um estudioso dos arcanos: a mágica, a esotérica e, por fim, a poética. O símbolo é uma engrenagem do verso.

O Tarô conta a história de alguém que está procurando escrever a história do que não sabe. Obra-prima do pensamento analógico, a leitura dessa história é interminável: não só por seu caráter perpetuamente referencial, mas também porque cada leitura a transforma em outro livro cada que a consulta.

"As cartas/ não mentem/ jamais", como bem sabe a poeta no seu Pour Mémoire, de 1982: o livro de Cousté, que passa batido nas estantes dos sebos, já é um clássico. Tanto pela importância do autor quanto da tradutora, que fecha o livro com a sua versão impecável d'O Poema do Tarô, na íntegra a seguir.  Cada verso corresponde à essência de cada um dos 22 Arcanos Maiores.


1 Tudo anuncia uma causa de inteligência ativa
2 Afirma o número que é a unidade viva
3 Por que nada limita o que tudo contém

4 Antes ainda do princípio Solitário
está presente em toda parte
5 É o mestre único, o único adorável
6 Que revela aos limpos de coração o dogma puro, sim-
                                                                 [ples e verídico
7 E nomeia o único chefe que fará cumprir a sua obra
8 Pois não temos outro altar
nem há outra lei além desta para todos os homens
9 não mudará o Eterno seu pedestal jamais
10 Ele regula seus dias e a mudança dos tempos e os
tempos e o dia que nos toca
11 Rico em misericórdia, potente no castigo
12 Um rei ao seu povo dará no porvir

13 A tumba é a passagem para a terra nova
só a morte morre a vida é imortal

14 Este é o anjo bom que acalma e concilia.
15 O mau é este espírito de cólera e de orgulho
16 Mas Ele comanda o raio e faz brotar o fogo
17 A estrela matutina e a água obedecem a ele

18 Como um mudo vigia anda em nossos caminhos a
                                                       [lua que Ele coloca

19 e seu sol é a fonte onde tudo renasce
20 O sopro da sua boca germina entre as tumbas
0 ou 21 Onde habita o rebanho calado dos mortos
21 ou 22 Coroou o céu com o propiciatório
               mais alto que os anjos se vê planar a sua
               glória.

Fico pensando na obrigação de traduzir um livro sobre Tarô. Penso em uma poeta traduzindo um livro de Tarô. Na relação de uma poeta com o Tarô. Na relação desta poeta o Tarô. Independente de ser um livro nada falado pela classe esotérica atual — embora bem popular há quase 40 anos atrás — este livro merece releituras frequentes. Um livro fundamentado "na desconfiança das definições; e em homenagem à reiterada proposta do imaginário."

O presságio na língua de Ana C.
O livro. O Mundo.

7 de maio de 2016

ARCANOS E VELAS

The Tarot of Prague
BabaBarock, 2016

Uma dos meus hábitos mais antigos é a de acender uma vela antes de uma leitura de Tarô. Diante de um consulente, durante uma consulta virtual e mesmo à luz do dia, garanto uma vela acesa no ambiente. O motivo é simples e significativo: como leitor de imagens, tenho a função de contar histórias — histórias que se desvelam conforme desvelo as cartas, histórias desconhecidas por mim e mesmo pelos meus clientes. Histórias deles. Histórias que podem ser minhas. Me ponho como facilitador dessas histórias. O que faço é engendrar as palavras a partir das imagens. Construo uma narrativa, seja longa ou concisa, tanto com o baralho inteiro quanto com uma carta apenas. Para caminhar no desconhecido dessas tramas — no escuro do exercício simbólico — é necessário uma lamparina, uma lanterna. E as velas assumem, então, o papel de geradoras da inspiração e da intuição. É a luz do oráculo. Quem lê os arcanos tem o dever de gerir o calor dessas histórias. 

Evoluíram as lâmpadas dos contos de fada para a haste moldada na cera das abelhas. E nela ainda o gênio. Alquimia milenar. Uma chama deve ser implementada e respeitada como fonte de clareza em relação aos símbolos analisados: a faísca mais antiga incidindo sobre a simbologia. Força vertical. Toca as alturas. Ao lado das cartas, uma vela aquece o ambiente e a relação das pessoas ou dos instrumentos envolvidos na leitura do Tarô. E a vela prende a atenção de modo discreto — é uma forma simples e ao mesmo tempo poderosa de tonificar a consulta. De ascensionar cada presságio. 


The Tarot of Prague
BabaBarock, 2016


Em vez de maldizer a escuridão, acender uma vela. Acender uma vela é trazer o fogo para si, o elemento ligado à produção do alimento e à transformação da vida antiga em uma nova. Essa medida reforça o que uma leitura pode fazer por nós e por nossos consulentes: resgatar o dínamo interior, reavivar a autoconfiança e suscitar uma postura decidida frente ao que exige atitude ou ao que está por vir. Em poucas palavras, contribuir para uma vida nova. Abrir o apetite em relação ao mundo, tão vasto quanto se imagina. 

Uma vela, por mais simples que pareça, assegura esses propósitos de modo sereno e até mesmo charmoso. A minha sugestão é optar por velas pequenas e aromáticas, especialmente as que vêm ou caibam em vidros. Evite velas votivas ou muito compridas que podem atrapalhar ou poluir sua performance oracular. Siga a faísca da intuição. Ela se alastra.




PROLEGÔMENOS PARA O VATICÍNIO LUMINOSO 

A chama de uma vela condensa todo o fogo dos céus, das terras, dos mares de todos os tempos. Uma vela acesa honra as sacerdotisas, os contadores de histórias, as adivinhas e os leitores do passado, do presente e do futuro. Peça, antes e depois de cada leitura das cartas, que haja eloquência e sensatez ao lidar com as imagens de cada carta e boa vontade com cada um dos seus consulentes. Quando se lê o Tarô, você está se dedicando a outra pessoa ou a um objetivo. A vela serve como lembrete para haver consciência, tranquilidade e responsabilidade diante do oráculo. 




Este procedimento recebe conotações variadas de profissional para profissional, dentre elas a religiosa e a decorativa. Por isso deixo absolutamente claro que a eficácia do Tarô não depende de nenhum aparato sobre a mesa de leitura. Uma consulta significativa pressupõe estudo, dedicação e sincero respeito às cartas e aos consulentes. Ressalto ainda que trazer uma vela à mesa da leitura é uma medida arbitrária e não uma condição para as cartas responderem às perguntas. A segurança está na prática. Os recursos estéticos são parte de uma ritualística pessoal mas não são condições para um bom atendimento. A beleza de uma leitura de Tarô parte do oraculista. E a excelência, tão buscada, depende do seu preparo — sua luz, suas velas interiores. Jamais dos instrumentos ao redor do baralho. Em vez de maldizer a oráculo, manter o bom senso.

Porque acender uma vela é se deixar inspirar pelo Eremita, que caminha — com pés e cajado firmes no chão da realidade — pelo campos ensolarados e pelos vales sombrios de todos os tempos. Uma vela é a prova de querer vencer o medo do mundo. Alumiar. É a confiança na luz de si. É a branda proteção dos escudos celestes. 

A emulação da Estrela.



The Tarot of Saints
Robert M Place — Llewellyn, 2002





                                                                
LEIA TAMBÉM
para saber mais sobre instrumentos 
e objetos associados à leitura do Tarô