13 de julho de 2018

LIVROS DE TAROT



Madame Oráculo
Viaduto do Chá | São Paulo
Foto de Leo Chioda


Bibliotecas. Sebos. Livrarias. Nada me deixa tão instigado quanto esses palácios de sabedoria às traças. Templos de letra e poeira. Quem me conhece sabe que um dos meus ofícios constantes é perambular feito O Louco pelos sebos aqui de São Paulo. Em meio a tantas opções, sempre passo ao lado do cigano da Sé, companheiro das garotas que batem ponto em frente ao José de Alencar, embaralhando seu Tarô Mitológico aos transeuntes com pressa. O mercado de livros usados pode ser enigmático ou entediante aos olhos de um turista, mas também um verdadeiro reduto de preciosidades a quem se dedica a determinado assunto. De vinis antiquíssimos a filmes em Blu-Ray, as situações e surpresas que um sebo oferece são várias — a maioria delas prazerosa. E quem vos diz, com total convicção, é alguém que já encontrou um Tarot Universal Dalí absolutamente novo dando sopa numa prateleira. 

Começo dizendo tudo isso porque nem sempre as livrarias convencionais fornecem aquilo que realmente importa a um estudioso ou colecionador. E sigo afirmando que nem sempre o que está nas lojas é o que realmente interessa, ainda mais quando o assunto é Tarô.



O Cigano
Praça da Sé | São Paulo
Foto de Leo Chioda

UMA LISTA [OU UM GUIA] 
NADA CONVENCIONAL

É antiga a ideia e a necessidade de se escrever um verdadeiro compêndio de leituras sugeridas, desde as obrigatórias até as mais ofensivas, sejam elas nacionais ou importadas. Quem pesquisa, penso eu, tem o direito e até mesmo o dever de avaliar aquilo que se lê. Enquanto blogueiro — logo, formador de opinião — tenho a intenção de criar uma lista de indicações e boas maneiras diante de publicações a respeito das cartas. Em vez de atribuir  estrelas, me limito a pouquíssimas linhas sobre cada livro em três listas de peso. Espero que sirva tanto a leigos no assunto [que SEMPRE me procuram pedindo socorro] quanto aos já familiarizados com os símbolos que nos rodeiam. A lista se restringe aos títulos com tradução em português, justamente por tornar mais fácil a aquisição por meio de livrarias ou pela Estante Virtual, por exemplo.



LEITURAS INDISPENSÁVEIS 

PARA LEITURAS EXCELENTES




Quando o livro é bom, eu falo. Mas pra falar, eu leio. Leio e releio. Risco, grifo, transcrevo. E é assim que uma leitura pode suscitar outras ainda mais apuradas: a partir da verdadeira leitura. Fico bobo de ver o quanto as pessoas fazem questão de marcar presença em lançamentos e sessões de autógrafo mas não leem aquilo que compram. Especialmente quando o tema é esse. Percebo o quanto se repete o mesmo discurso, as mesmas bobagens acerca de tópicos já derrubados como o tarô que veio do Egito, o baralho que não tem 78 arcanos mas que é tarot, ou ainda o oráculo cigano que se chama Tarot. Pois falta leitura e sobram livros bons, acredite. Mas não, não basta dizer que um livro é bom. O bom é que você leia e questione o que está lendo. Questione até essas indicações. É aliando essas sugestões à prática de leitura[s] que você poderá falar por si quando lhe pedirem algum parecer a respeito de publicações especializadas. 



TARÔ: A JORNADA DO HERÓI | Hajo Banzhaf 
Editora Pensamento

Hajo Banzhaf, neste clássico, oferece uma viagem pela mitologia de cada um a partir dos 22 Arcanos Maiores. No estilo Joseph Campbell de conduzir uma trajetória, este livro acaba sendo uma jóia em qualquer biblioteca de tarô. Anote suas impressões a cada capítulo e componha sua saga em busca do Graal dentro de você.


78 GRAUS DA SABEDORIA | Rachel Pollack 
Nova Fronteira

Embora Pollack se valha do baralho de Waite e Pamela Colman Smith para narrar um dos trajetos mais consistentes da literatura esotérica, este é um título indispensável por oferecer um verdadeiro diálogo com o leitor e com as leituras que fazemos das cartas, independente do tarô escolhido.



TARÔ E INDIVIDUAÇÃO | Irene Gad
Editora Mandarim

Alquimia e Cabala tão bem casados numa publicação realmente rara hoje em dia. É o que a junguiana Irene Gad propõe num livro bem recheado de iconografia e conceitos esotéricos em torno das lâminas. Um tratado sobre os símbolos à luz dos conceitos de Oswald Wirth e outros teóricos indispensáveis. Se encontrar este livro por aí dando sopa, aproveite. É a sua chance. E provavelmente a única.




ESTUDOS COMPLETOS DO TARÔ | Nei Naiff 
Vol. 1  TARÔ, SIMBOLOGIA E OCULTISMO
Vol. 2 TARÔ, VIDA E DESTINO
Vol. 3 TARÔ, ORÁCULO E MÉTODOS
Best Seller

Quem nega a clareza e a higiene ideológica de Nei Naiff no universo do Tarô é justamente quem não leu ou quem tem medo de Nei Naiff. Não há, no mercado brasileiro, nada tão claro, didático e absolutamente  necessário quanto a trilogia relançada pelo selo Best Seller da editora Record. Nei Naiff oferece um caminho seguro e coerente a iniciantes e uma reciclagem incisiva a veteranos. Obras de inegável influência para a nova geração de tarólogos, estes três livros são tesouros que merecem lugar de destaque em toda mesa de trabalho que se preze.



DICIONÁRIO DE SÍMBOLOS | Jean Chevalier & Alain Gheerbranty

José Olympio

Amplamente usado na área acadêmica, eis um dicionário próprio para tarólogos, Apesar de existirem alguns outros tantos atualizados, este continua um clássico. Maçonaria, alquimia, mitologia e tarologia num lugar só. Ideal para consultas rápidas e não menos profundas.


O LIVRO DOS SÍMBOLOS | Vários Autores

Taschen

A nova era dos dicionários de símbolos começa com esta verdadeira bíblia. Lançada pela incrível Taschen portuguesa, esta pérola de mais de 800 páginas oferece conceitos nunca antes catalogados em livros similares sobre imagens arquetípicas. Ideal para qualquer ser humano. Indiscutivelmente.




MANUAL DO TARÔ | Hajo Banzhaf

Editora Pensamento

Sendo esse um dos meus livros preferidos e e também indicados para leigos que desejam se enveredar pelas cartas, o livro amarelo de Banzhaf continua sendo bem vendido e bem aceito nos dias de hoje. Não se deixe enganar pelo seu aspecto humilde. É, sem dúvida, um manual ímpar no mercado. Traz os conceitos do tarô de Waite sem se esquecer da simbologia tradicional através de listas, exercícios de significado e um caderno de métodos bastante útil. Assim como o livro azul e o livro vermelho do Hajo, este é um marco em toda pilha de livros importantes.



TARÔ OU A MÁQUINA DE IMAGINAR | Alberto Cousté 

Editora Ground


Outro dos meus favoritos, traduzidos pela poeta Ana Cristina César, a obra de Cousté é um pequeno tesouro também. Disponível em todo e qualquer sebo de qualidade, este antigo título é um guia necessário pelos estudos de Oswald Wirth, já que sua sobre Tarô não está disponível em português. O conceito das vias Úmida e Seca, por exemplo, é um dos destaques. Frequentemente subestimado, esse livro logo se tornará uma relíquia. 



PEÇAS BEM VINDAS 
A TODA E QUALQUER ESTANTE




E quando o livro acaba sendo quase intocável por ser pouco consultado? São exatamente os livros que você sabe que podem acrescentar alguma coisa em determinado momento da vida, tendo o papel de desencadear analogias e fazer com que você relembre conceitos sobre os arcanos ou refresque na mente algum método de tiragem. Tão importantes que não se restringem ao tema, mas deslancham em simbologia e mitologia por ser óbvia a necessidade. Se você quiser entender, apreender e transitar pela estrutura do oráculo, vá por mim: ficar só nos livros que trazem a palavra Tarô na capa não vai adiantar muita coisa. Sua bibliografia tem de ser de ser plural, assim como sua visão de mundo. E os escolhidos, rapidamente, são:


JUNG E O TARÔ | Sallie Nichols
Editora Pensamento

A autora, estudiosa da obra de Jung, nos presenteia com um verdadeiro livro de significados e exercícios que todo leitor de imagens tem de devorar alguma vez na vida. Vale a pena frisar que é um livro baseado nos estudos de Jung, não de Jung especificamente. Falar em tarô sob a ótica de Jung requer a leitura da obra de Jung, específica e obviamente. Enquanto você não se debruça sobre os livros de psicologia arquetípica, fique com os argumentos de bons estudiosos. E saiba filtrar, mesmo assim.


TARÔ -  ESPELHO DA ALMA | Gerd Ziegler
Editora Jorge Zahar

Mesmo que o alemão Gerd Ziegler tenha estrruturado sua obra-prima em torno do baralho de Aleister Crowley e Frieda Harris, ele foi muito feliz por trazer conceitos que servem para todo e qualquer tarô [como todo bom livro de tarô possibilita]. Por isso é que os conceitos de afirmação positiva e uma visão mágica das lâminas pode ser uma viagem crucial para quem se dedica à leitura visceral do tarô: pelos olhos da alma.


O CASTELO DOS DESTINOS CRUZADOS | Italo Calvino
Companhia das Letras 

Da literatura à prática de leitura. A magia do Tarô é a narrativa. Não são histórias que deitamos à mesa, diante de alguém? Sim. E é por aí que se envereda um dos maiores escritores italianos. Várias personagens são criadas a partir da disposição das lâminas. Um livro absoluto no que diz respeito ao poder de analogia, que é a musa de todo e qualquer cartomante.


INICIAÇÃO AO TARÔ | Pedro Camargo
Editora Nova Era

A tendência da vida é dar certo. Com uma sentença dessas, o livro de Pedro Camargo não poderia ser mais que um clássico brasileiro. Lançado numa renomada coleção, este pocket merece releituras e mais releituras. Camargo repassa os mestres cabalistas, os simbologistas e magistas que ajudaram a formar o pensamento tarológico do século passado, sendo um compêndio rápido de significados e noções básicas para qualquer tipo de público, desde o leigo até o avançado.


O LIVRO DE THOTH | Aleister Crowley 
Editora Madras | Anúbis

Aleister Crowley pintou e bordou. E fez isso com tanta maestria que hoje temos uma realidade em torno do Tarô que muito deve ao magista mais polêmico de que temos notícia. É indiscutível que suas teorias condensadas no baralho concebido por Lady Harris sejam necessárias à compreensão de vários tarôs modernos, inclusive. Importantíssimo ter este título na estante. A edição brasileira é uma raridade, por diversos motivos [também polêmicos] em torno da tradução e da publicação.




O TAROT DE THOTH | Johann Heyss
Editora Nova Era

Um dos livros que definiram minha trajetória oracular foi este. Foram decisivos os tempos de dedicação ao baralho de Crowley. Johann é direto e reto na explicação das atribuições e nas definições cabalísticas em torno da obra prima do grande mago inglês. Uma das premissas do livro é uma das minhas preferidas: tarot é para brincar. Pode ser facilmente encontrado em sebos, embora a nova edição [do autor, via Amazon, revista e ampliada] seja ainda melhor. Considero o melhor livro já escrito sobre o Tarô de Thoth em língua portuguesa. Imperdível.


TARÔ - DICIONÁRIO E COMPÊNDIO | Jana Riley
Editora Jorge Zahar

Vários autores, vários baralhos, vários conceitos. Foi pensando na diversidade ideológica que nutre o Tarô que a autora reuniu grandes pensadores para compor um verdadeiro tratado acerca das 78 cartas. Um item forte para consultas e ideias a partir de visões de autoridades oraculares nos Estados Unidos e na Inglaterra. A obra de Riley supre a carência de traduções de autores consagrados para a língua portuguesa.


MÃE PAZ | Vicki Noble
Editora Nova Era

O livro criado para o Motherpeace Tarot foi lançado no Brasil há vários anos e, apesar de ser voltado para o baralho homônimo, serve perfeitamente a quem se preocupa em vivenciar as cartas de modo integral. Possibilita a inclusão do Tarô em um sistema de crenças voltado às divindades primordiais e ao universo pagão. Uma visão diferenciada e bastante urgente para a nossa realidade.



CURSO DE TAROT TERAPÊUTICO | Veet Pramad
Editora Madras

Um sistema voltado especificamente aos meandros do consulente. Preocupado com a essência humana, o autor foi no cerne dos símbolos e escreveu um verdadeiro tratado sobre os arcanos à luz de vários baralhos e de conceitos esotéricos diversos.



AFRONTAS E RELÍQUIAS
DE INVESTIMENTO PURAMENTE ARBITRÁRIO






Sério, eu poderia inaugurar o Movimento Passe Longe devido a vários títulos dispensáveis, mas fico com os menos péssimos do que pensamos se os olhos forem livres e a triagem de informações prevalecer. Há relevância em toda ignorância, mas a dosagem é que é o perigo. Se você tem alguma dessas publicações por perto, leia e releia de modo crítico. E espero que para isso você tenha se debruçado, de verdade, sobre os títulos das duas listas anteriores. Vá, mas vá com cuidado.


TARÔ DE MARSELHA | Carlos Godo 
Editora Pensamento

De longe um dos títulos mais vendidos no Brasil, este é o que chamamos de 'básico'. Sendo um dos primeiros livros que caíram nas minhas mãos, sua relevância se restringe às noções básicas de simbologia, sobretudo à linguagem corporal das imagens e das cores que compõem as cartas. Um item que pode servir para eventuais consultas, mas nada que lhe fará falta. 


O TARÔ DOS BOÊMIOS | Papus
Editora Ícone

Papus é literatura tarológica. Há quem se dedique às suas teorias e até quem extraia informações e práticas relevantes de seus escritos, mas ainda assim vejo o livro como uma oportunidade de conhecer o pensamento arcano das escolas de mistério dos séculos passados. Um clássico, mas não tão útil às leituras contemporâneas como pode parecer.

OS ARCANOS MAIORES DO TARÔ 
OS ARCANOS MENORES DO TARÔ | G. O. Mebes 
Editora Pensamento 

Estas publicações também deveriam ser encaradas com cuidado, num primeiro momento, diante de tantas outras maravilhosas que estão ao alcance de todos. Me limito a dizer que Cabala é uma coisa e Tarô é outra. Servindo a outros propósitos que não à leitura de Tarot que você conhece, estes volumes se voltam às noções de magia ligadas a escolas esotéricas. Se a intenção for mergulhar no cerne do oráculo, podem não ser tão úteis.



O TARÔ MITOLÓGICO | Liz Greene & Juliet Sharman-Burke 
Madras

Sim, este livro é bom. Apesar de olhar um pouco torto para o baralho, sei da coerência que Greene e Sharman-Burke conseguiram imprimir nestas páginas. É um livro útil, principalmente quando se sabe adaptar as referências míticas sem acabar contaminando a simbologia dos tarôs tradicionais. Digo que vale a pena ter na estante.



TARÔ DOS ANJOS | Monica Buonfiglio
Editora Monica Buonfiglio

Incluo este livro devido à sua onipresença nas livrarias do país, há tantos anos. Este é um oráculo angelical de 42 cartas. Se o interesse é o Tarô clássico, diria que não é prudente se dedicar a um maço de estrutura adaptada. Este baralho não corresponde à quantidade de cartas de um tradicional [78 lâminas: 22 Arcanos Maiores e 56 Menores]. Ele destoa por ter um sistema próprio: 22 Maiores e 20 Menores. Caso queira adquirir pela temática ou pela relevância da autora — que foi importante para o Esoterismo brasileiro devido às suas contribuições midiáticas —, leia com as devidas ressalvas.



O TARÔ CABALÍSTICO | Robert Wang 
Editora Pensamento

Tarô é Tarô e Cabala é Cabala. Mas se é pra juntar uma coisa com outra de modo minimamente coerente, que seja com livros aparentemente coerentes. Considero este um exemplo de concisão e elasticidade teórica quando o assunto é Tarô E Cabala. Vale uma folheada atenta para saber ainda mais a respeito dessa correlação tão frequente. Também vale por ser um clássico traduzido há algumas décadas e atualmente um tanto difícil de ser encontrado.


O TARÔ DE MARSELHA | Paul Marteau 
Editora Objetiva

Outro clássico que geralmente dá sopa por aí nos sebos, o livro de Marteau é uma introdução clássica ao baralho marselhês. Recomendo para quem, ainda hoje, deseja se enveredar por este tarô e estar por dentro da simbologia tradicional das cartas. Lembrando que, como todos os outros, é um título digno de ser filtrado pelo seu bom senso. 



TARÔ - A SORTE PELAS CARTAS | Arthur E. Waite 
Ediouro

A teoria de Waite acerca do baralho que concebeu com Pamela C. Smith pode parecer absurda devido a algumas alterações estruturais e conceitos que nada têm a ver com os Arcanos Menores ilustrados. Mesmo assim, este é um clássico lançado em formato cartilha pela Coleção Astral e ainda pode ser encontrado por aí. Se der sorte, pode haver o encarte com as 78 mini-lâminas para recortar e colocar na bolsa, por exemplo. Assim como Crowley, Waite igualmente merece lugar de destaque em toda e qualquer biblioteca de pesquisa. Indispensável.



NOTA DE RODAPÉ | um recado final

MEA CULPA, claro, por deixar de fora tantos outros livros, no calor de cada uma das listas. Alguns até excelentes para figurarem aqui, eu sei. Mas reitero: esta lista trata apenas dos principais títulos publicados no Brasil. Aqueles que estavam [ou ainda estão] por toda a parte e que merecem atenção. Aliás, aproveito para pedir que ENCARE TODOS ESSES TÍTULOS, assim como todos os outros que caírem em suas mãos, COMO LITERATURA TAROLÓGICA, E NÃO COMO VERDADES INCONTESTÁVEIS. Este é apenas um guia de sugestões — antes, durante e depois de qualquer coisa. Sugestões seguidas de opiniões. Minhas. Rápidas justamente para não viciar seu percurso pelos livros de Tarô. Assim como o destino muda assim que você olha pra ele, posso mudar a impressão que tenho sobre determinadas obras. E você também, a partir de leituras cada vez mais pontuais, pode definir sua trajetória pelo Tarô por meio de poucos e bons livros. Leve em consideração os autores, o que publicam, o como e quanto discutem suas ideias. 

Mais interessante que sair devorando tudo o que se encontra pela frente é digerir informações com a cabeça no lugar, isenta de todo e qualquer esquizoterismo que possa deturpar sua visão de mundo e de oráculo. Aproveite essas indicações, mas não pare por aqui. Aliás, siga pelos corredores dos sebos como se fosse o seu habitat natural. Quem sabe os Arcanos não esbarram em você?

Boas leituras. 
Sempre.


L.


2 de abril de 2018

CAFÉ TAROT NO SPOTIFY



LOUNGE MAGIC é a primeira playlist que liberamos no Spotify. Com 22 músicas associadas auspiciosamente aos Arcanos Maiores, o álbum intenta criar um clima de inspiração e aconchego para o ritual da leitura, seja de um oráculo ou de um bom livro. Uma ideia antiga que agora chega ao público. E na faixa. Tarot também é música! 

Aproveite, compartilhe e comente. 
E relaxe com a gente.

 ★ 


24 de junho de 2017

SANGUE E LEITE

ALKAMA
(Alquimia)

Frederic Fontenoy


É impossível ter todos os baralhos e todos os livros já escritos sobre Tarô. São vários séculos de evolução simbólica. Séculos de perdas e acréscimos. Mas o vínculo entre as pessoas dadas às cartas e o conhecimento assimilado são suficientes para proporcionar novos encontros, fazer associações cada vez mais ricas e revisitar certas práticas refutadas ao longo do tempo. Porque com poucos títulos e breves encontros vislumbra-se a Grande Obra. 


PEDRA FILOSOFAL
Harmonie Chymique

David Lagneau, 1636

Grata surpresa foi a presença do artista Robert M Place em São Paulo. O responsável por diversos baralhos como o Alchemical Tarot, o Tarô dos Santos e o Burning Serpent Oracle esteve em São Paulo para a segunda edição do Cartomancia, um  dos maiores e melhores eventos de Tarô no Brasil. Mesmo havendo alguns de seus livros em minha biblioteca tarológica, ver Place aplicando seus métodos de leitura foi inspirador. Assistir à sua aula de Alquimia e Tarô foi como voltar para casa depois de uma longa viagem. Talvez porque um baralho alquímico reforça a metáfora sobre os processos humanos; porque restaura, como quer James Hillman, pai da Psicologia Arquetípica, o modo alquímico de imaginar. Ele considera cada tiragem, composta de três cartas, no mínimo, como uma única cena. São respeitadas as direções para onde olham as personagens e para onde se voltam os objetos das cartas sorteadas. É uma forma de revitalizar a leitura oracular ao resgatar a linguagem corporal dos arcanos — uma prática não mais adotada pela maioria dos profissionais, não ensinada em cursos e quase nunca citada em workshops de Tarô. Lembro, aqui, de um axioma presente no Amphitheatrum Sapientiae, de Heinrich Krunrath (1602): “Para quê tochas, luzes e óculos se as pessoas não vêem?” 


Nos apegamos aos conceitos e às posições das cartas e damos de ombros à inclinação da cabeça d’O Louco ou ao olhar d’O Mago. Nem nos perguntamos mais se A Justiça nos olha ou se é cega, de fato — comumente desenhada encarando o leitor e o consulente. Uma análise de relacionamento feita por Place pode ser extremamente auspiciosa ao colocar uma ponte entre as duas pessoas envolvidas: o que as une, o que elas têm em comum. E a tríade arcana pode sugerir, ainda, uma história linear ou um relacionamento fadado ao fracasso. Tudo depende do posicionamento e do valor simbólico das imagens. Estamos de volta à cartomancia dos livros herméticos de Paris, das sibilas em seus salões e dos imagiers de Wirth. 

É instigante aprender com um artista cuja argumentação, bastante sólida, se aplica de modo sensato à bagagem de um praticante. Ele sabe que, como a Alquimia dos antigos, a sua arte é uma experiência de transmutação. E o Tarô é essa ferramenta de transformar o elemento básico em metal valioso — de tornar o cifrado em algo óbvio e útil. Pensar e agir por meio de imagens. Exemplo é o contexto simbólico do uso das três cartas, tratado com respeito a partir do seu significado arquetípico. Para os pitagóricos, três eram os pontos necessários para fazer a primeira forma geométrica e assim começar a criação. A existência em si, para eles, era governada por três deuses: Zeus, Possêidon e Hades. Já os alquimistas acreditavam que toda matéria é composta de uma trindade de essências. O mesmo ocorre em qualquer sentença, como bem sabemos: uma frase completa pressupõe um sujeito e um predicado. E ainda é preciso uma terceira parte: o objeto. Assim como uma história, com o seu começo, o seu meio e o seu fim, pode-se sortear três cartas e compor uma narrativa. 

TRÊS CARTAS
The Alchemical Tarot Renewed: 4th Edition

Hermes Publications, 2015

Penetrar na Alquimia. Enquanto reconsiderava em mil variações a tão saturada leitura de Passado-Presente-Futuro, minha atenção se prendeu à imagem d'A Estrela, uma das minhas cartas favoritas no Alchemical Tarot. Uma imagem arquetípica, embora se apresente repleta de significado, não é uma simples revelação. Daí o termo 'arcano' ainda tão bem aplicado. O significado deve ser elaborado, também de acordo com Hillman, através do 'trabalho com a imagem'. Place transforma a donzela nua dos baralhos tradicionais na Sereia dos Filósofos e funde os astros na aurora com a  Escada dos Planetas, ambas as pranchas provenientes do L'Azoth des Philosophes, texto alquímico de Basil Valentin. Esta figura mítica, tão rica em significados quanto misteriosa, personifica a grandeza e a profundidade do mar. Vem nas ondas de todos os panteões como a dona dos segredos da água. Em termos alquímicos, é a representação da Anima Mundi.


A SEREIA DOS FILÓSOFOS
Azoth des Philosophes

Basil Valentin, 1659



O propósito da obra é a proposição em si. Aliás, a própria Anima Mundi foi quem exigiu que o Alchemical Tarot fosse publicado, afirma Place. Ela é quem fala através das cartas, não eu.  No lugar das duas ânforas d'A Estrela clássica, a sereia pinça seus seios. Ela verte sangue e leite — os líquidos opostos que, combinados com a água salgada, formam a Tria Prima: Sulfúreo, Mercúrio e Sal, três tesouros para compor a Pedra Filosofal. O jorro vermelho é o masculino, relacionado ao sofrimento, à morte e ao medo. Já o branco é o feminino: o alimento, a vida e a esperança. 


O corpo da sereia simboliza, literalmente, a fonte da existência. É dela o estado de calma que vai além das emoções e dos anseios: a tranquilidade necessária para subir os degraus planetários. A estrela de sete pontas, marcada com outro símbolo da Anima Mundi, remete aos portões do Paraíso. Assim, Place compõe este arcano como uma guia ao mais alto estágio de consciência. A mestra, a portadora do equilíbrio e do bem estar. É a Mãe Serena. Afrodite, ela mesma, conforme a presença da pomba ao seu lado esquerdo. Stella Maris. A própria Deusa Branca de Robert Graves. Sophia nas próprias águas.


A LEITURA DOS FLUÍDOS

ALCHIMIA
Collectanea 
Chymica
Morley & Muskens, 1693

Repenetrar no Tarô. Não se pode ter tudo, mas tem-se o que é necessário. Contrariando toda e qualquer cobiça, a excelência é atingida com o que se tem e por quem  se é. Aproveito as lições da aula de Place para experimentar alguns métodos de interpretação [porque com três cartas se tem um presságio, uma diretriz, uma revelação; porque do improviso, que nada tem de mundano, se chega à Magnum Opus]. O laboratório tem o teto estrelado. Eles está em mim e em você.

The Rider-Smith-Waite Tarot — US Games, 1971
Tarot de Marseille — Camoin & Jodorowsky, 1997

The Tarot of Prague — Baba Studio, 2003

Tanto os seios da sereia quanto os seios da donzela nua de todo e qualquer Tarô representam a fonte. Seios são símbolos de provisão. Estão ligados simbolicamente ao mar e à mãe. As mamas, a figura materna e as coordenadas marítimas convergem para a assunção e a proliferação da vida. O fluxo é profuso. Peças fundamentais da Alma do Mundo. Nos procedimentos alquímicos, os seios são tanto criativos quanto destrutivos. Deles vêm o elixir e o veneno. Segundo alguns psicoterapeutas como Melanie Klein, há o seio que fornece e o seio que retém. Um é o Sol; o outro é a Lua. Place, para a alegria dos bons estudiosos, concebeu sua Estrela de acordo com todos esses princípios. O mesmo acontece com o verso da quarta edição do Alchemical Tarot, que é a releitura de uma antiga personificação da Alquimia: seus cabelos são o Fogo; seus olhos são o Sol e Lua; em seus braços estão os animais fixos e voláteis; sua respiração é o Ar; seu vestido sustenta os sete metais e de seus seios brota a Água da Vida. 

Durante meus estudos recentes, passei a aplicar uma sugestão do próprio Place quando emerge A Estrela em uma leitura: colocar uma carta à sua esquerda e outra à sua direita. Quando olha para os seus próprios seios, ela sabe que o esquerdo é o feminino e o direito é o masculino. O esquerdo é o lado branco, do inconsciente. A poção da imortalidade. O direito, que expele sangue, está ligado à consciência, à ação. Em outros termos, o branco merece discernimento e o vermelho exige atitude.  Dois dutos, dois Phármaka. 



O arranjo é rápido e significativo. A carta posicionada à esquerda d'A Estrela, no lado associado ao jorro vermelho, representa os temores do momento ou diante da questão trazida ao oráculo. Já a carta da direita, ao lado do jorro leitoso, representa as esperanças. Uma outra experiência é assumir o arranjo simbólico d’A Estrela como modelo para a leitura de três cartas. O assunto a ser tratado é simbolizado pela carta central. O arcano à esquerda sugere a reflexão necessária sobre os percalços ou os limites. À direita, por fim, o conselho a ser acatado e a postura a ser fortalecida. Esta etapa, na Alquimia, é o batismo, a purificação do negro mais negro. Marie-Louis Von Franz, em conferência transcrita no livro Alquimia [Cultrix, 1993], cita uma parte do Aurora Consurgens, um dos manuscritos mais emblemáticos e enigmáticos da historia da Alquimia: depois de distribuir e atribuir estes sete [metais] através das sete estrelas, e as tiver limpado nove vezes até que pareçam pérolas, este é o estado de brancura”. N'A Estrela, o primeiro corpo celeste em destaque nos Arcanos Maiores, se alcança a claridade. Albedo.




UM EXEMPLO DE LEITURA

Porque exemplos tonificam a prática. O consulente veio a uma consulta para saber quais rumos tomarão a sua empresa, aberto ao que cartas poderiam sugerir, confirmar ou exigir. Sorteou, então, O Hierofante, O Eremita e A Imperatriz.


Se começo lendo como uma narrativa linear — um dos sete padrões descritos por Robert Place para a disposição em três cartas — os arcanos sugerem uma postura resoluta e aparentemente impecável em relação ao próprio trabalho, aplicando com maestria seus princípios à demanda comercial. A carta central, considerada a mais importante por Place, sugere o seguir à risca as ordens de uma autoridade ou mesmo uma ideologia. Dentre as delícias visuais do Alchemical Tarot estão as pegadas à frente do velho sábio. Elas são os rastros da própria Anima Mundi — um exemplo a ser seguido, literalmente — que levam à mulher coroada, senhora da razão e digna da visão. A imagem, presente na obra Atalanta Fugiens, do médico rosacruz Michael Maier, publicada em 1618, também se encontra no Musaeum Hermeticum, de 1625. Foi reimpressa em 1687 com o título Secretioris Naturae Secretorum Scrutinium Chymicum [Investigação Alquímica dos Mais Ocultos Segredos da Natureza]. Em um desses epigramas, referentes à imagem do eremita-alquimista, o conselho é explícito: “Deixai que a Natureza seja o vosso líder, e por este meio sereis prazerosamente o servo da natureza; caminhais a esmo, a menos que a própria Natureza seja a companheira da nossa vida. Dai à razão a força do cajado; a razão intensifica a luz que pode distinguir aquilo que está muito distante. Deixai que a leitura com uma lâmpada transforme as trevas em luz, de modo que possais prever e vos proteger contra muitas coisas e palavras.”

Sendo O Eremita o arcano central e também o meu consulente, a leitura do arranjo visual incita um deslocamento. Ele segue os passos, então, d’A Imperatriz, o arcano final. Apoiado no vaticínio extraído dai interpretação PASSADO-PRESENTE-FUTURO, o papai-mamãe da Cartomancia, prenunciei a influência direta de uma mulher repleta de ideias e potenciais exigindo parte do controle sobre os negócios. O empresário não deixará valores e convicções de lado, mas passará a acatar as sugestões de quem olha para frente, de quem pensa aqui e agora para longe e mais além — sair do seu templo [Hierofante] e experimentar a caminhada [Eremita] até o horizonte vislumbrado pela sua soberana [Imperatriz]. De fato, meu consulente consentiu a respeito do comando de boa parte dos investimentos por parte da esposa, tanto pelos ideais de expansão do negócio e de uma aposentadoria tranquila quanto à carreira do filho, que pretende entrar para o mesmo ramo — aliás, ele próprio presente na carta (!) aos pés da mãe. Sucesso a caminho. Em família. 

O valor da leitura aumenta com as noções de Sangue e Leite. O consulente deve sacrificar [carta à esquerda] a irredutibilidade d’O Hierofante. Achar que a esposa não sabe ou não pode dirigir os negócios da família é uma postura típica de alguém soterrado pelas próprias convicções e pelo senso de moralidade que beira o machismo. À direita, a carta assegura o que deve ser alimentado: o respeito e os esforços d’A Imperatriz em querer administrar os caminhos profissionais, com sensatez, assertividade e previdência. Dar razão à esposa. Um panorama, uma sentença, um prognóstico. Um recorte do mundo em três cartas.

Virtuoso é perseguir a Quintessência, outro nome alquímico para o advento máximo — a Anima Mundi, tão estimada. No âmbito tarológico, alguns dão esse nome à soma da numeração das cartas presentes uma leitura. No caso desta, os arcanos 5, 9 e 3 resultam em 17, A Estrela. Providencial, não? 



O EREMITA SEGUINDO OS PASSOS DA NATUREZA
Musaeum Hermeticum

1625

O objetivo do estudo da Alquimia aliado ao Tarô é congruência, a adaptação mútua. Não se trata de uma linguagem rebuscada de imagens antigas em cima de imagens também antigas. É fazer e estar em contato. Receber mensagens. Tenho repassado alguns conceitos dos livros e baralhos criados por Place. Sua tese é repaginada a cada publicação, com adendos e revisões sistemáticas dos métodos de leitura e da teoria dos símbolos. Mergulhar em temas como o Neoplatonismo e a Cabala, por exemplo, tem sido seguro porque o escritor oferece caminhos bem neutros através das próprias ilustrações, sem preconceitos nem fatalismo. Os sistemas adotados ou desenvolvidos em vários de seus trabalhos convergem na figura d'O Mundo, que é a Grande Obra alcançada. O trunfo XXI é a Quintessência, o processo completo da Alquimia — a Anima Mundi absolutamente exposta. Recompensa. Coroamento. A Pedra Filosofal.

Tarot of the Saints — Llewellyn, 2001
Alchemical Tarot — Hermes Publications, 2007

The Tarot of the Sevenfold Mystery — Hermes Publications, 2012

O número 21 reduzido a três [2+1=3], conforme pontua Place, evoca a Senhora do Mundo Terreno — A Imperatriz. Três são faces da Grande Mãe. Três é o conceito que une o par e supera a polaridade. Três são os hieróglifos da alma sobre a mesa. Três cartas. Retomar conceitos práticos [e simples!] da linguagem simbólica é uma postura saudável diante de tantos verdades disponíveis e tantas ditaduras em relação aos significados e ao funcionamento do Tarô. Precisa-se de pouco para haver uma revolução simbólica. Com poucos recursos e muitos esforços se atinge a meta. Assumir uma postura disciplinada em relação ao que já existe na estante é o mesmo que descobrir aqui e agora o tesouro mais cobiçado de uma terra longínqua. E reaprender a olhar as imagens é tão desafiador e fascinante quanto mergulhar nas águas da Grande Imagem Primordial. É como voltar para casa e fazer uma lição esquecida, esperando por correção. E ter nos baralhos e nos livros um mestre generoso, iluminado pela eloqüência. Talvez Place tenha acatado à pérola de Pietro Bonus, alquimista italiano do século XIV:

Qual a utilidade, para o mundo, de diamantes escondidos ou de tesouros secretos? Qual a utilidade de uma vela acesa quando escondida? É o inato egoísmo do coração humano que faz essas pessoas buscarem um pretexto pio para manter esse conhecimento longe da humanidade. 

Retificar, pela Alquimia, a linguagem dos símbolos. Compartilhar o conhecimento. Se essa arte é uma experiência de transmutação, como bem sabe Robert Place, o Tarô é o instrumento mais adequado às mãos do buscador. Através das cartas, revela-se. Tudo tem alma, dos metais elementais aos Arcanos Menores. Porque é bem assim: quem lê as cartas pode não ter tudo o que quer, mas tem tudo o que precisa — tanto para suscitar a sua própria evolução quanto para operar a transmutação nas pessoas. 

O Universo nas mãos. 





 Para conhecer e encomendar os títulos de Robert M Place, acesse o blog Tarot & Divination.
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10 de maio de 2017

APRENDA A LER O TAROT



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26 de março de 2017

AMPLIANDO A CARTA DO DIA

E quando um só arcano não responde com clareza sobre como será o período estipulado? 
E se uma simples carta parece não ser suficiente para inspirar a melhor postura? 

Segundo os tibetanos, Buda certa vez disse que a mente é limitada para compreender o ilimitadoFaço então uma leve e rápida analogia com o arcano diário, tido muitas vezes como uma carta enigmática porque nem sempre responde à questão formulada ou pouco diz a respeito do que é necessário ser feito para alcançar determinado objetivo. 


Cada carta de Tarot é ilimitada. O arcabouço simbólico contido num simples arcano pode sugerir infinitamente uma série de conceitos, preceitos e respostas. É inesgotável. Sendo assim, uma carta sempre dirá alguma coisa, estejamos preparados para ouvir ou não. Mas só a partir da clara intenção é que é possível contextualizar a mensagem do arcano. A princípio, a carta do dia não necessita de perguntas, mas para ser assertiva em relação ao momento, ela  depende de uma ou várias intenções. Quero saber como será o dia no geral? Quero saber o que acontecerá de bom? De ruim? Quero saber o que devo fazer em relação a algo ou alguém? Deve haver um filtro, um ponto sobre o qual repousamos nossa atenção. Por isso digo que quanto mais pontual for a programação da carta que será sorteada, melhor será o seu aproveitamento.

Uma das possibilidades é a seguinte, já testada e recomendada:




1. DESAFIOS 
O que demanda atenção, o que chama atenção, o que desafia. 
Os possíveis percalços.

2. POSTURA
Como deve ser a postura física, mental e emocional. O real conselho. 
E como está no centro, pode ser considerada a carta mais importante da tríade: é o ouro do dia.

3. OPORTUNIDADES
O que se aprende, o que se ganha, o que se assimila neste dia. 
Possíveis lições ou mesmo conquistas. 


Fácil e rápido, mas profundo. Pode ser feito com qualquer Tarô, naturalmente, mas trago um exemplo com The Buddha Tarot, de Robert Place [Llewellyn, 2004], um dos baralhos temáticos mais interessantes que me fisgaram nos últimos tempos. 





1. DESAFIOS 
Dois de Vajras Duplos [Copas]

As questões afetivas, as alianças e os afetos é que demandam atenção extrema. Alimentar as uniões tende a ser necessário para haver harmonia. O alerta é para que a coerência afetiva se instale. 

O curioso é que, neste baralho, os peixes são um dos Oito Símbolos Auspiciosos do Budismo Tibetano — os presentes que os deuses dão a Sidarta Gautama quando ele atinge a iluminação e se torna o Buda. Os Peixes, tão bem associados à imagem tradicional do DOIS DE COPAS, representam fidelidade, harmonia e predisposição para estarem juntos no oceano, uma das representações do próprio Samsara, a nossa existência aqui e agora.


2. POSTURA
Amitabha: O Buda de Lótus [Rei de Paus]

O Rei de Paus sugere uma postura verdadeiramente atenta, capaz de entender os detalhes e avançar no que denota estagnação. Este é o Rei do ânimo que movimenta a tudo e a todos como que exigindo uma reação à altura da vida: cheia, repleta de situações e chances de aprender e também ensinar. A carta sugere responsabilidade: agir de acordo com a vontade, mas não com a impulsividade. 

The Buddha Tarot apresenta este Rei como Amitabha, um d'Os Cinco Dhyani Budas — que são os curadores supremos do meio ambiente externo e interno. São também chamados de Jinas ou Cinco Budas da Meditação. Cada um deles rege uma família com seu respectivo símbolo. Amitabha, que significa 'luz infinita', é o Buda vermelho da família Lótus, associada ao elemento fogo e arcanizado então como o naipe de Paus. É dito que este buda purifica o carma e o desejo, expandindo os poderes da real percepção e da confiança no que é preciso ser feito ou alcançado. Assim, é Amitabha quem transforma os venenos em águas de cura. Outro detalhe curioso é o animal sagrado da família Lótus, o pavão, abaixo da figura búdica. Cada um olha para o lado oposto, exigindo também atenção ao que deve ser encarado [casa dos Desafios] e como deve ser resolvido e melhor aproveitado [casa das Recompensas]. Sim, a direção e a linguagem corporal das personagens podem ser muito auspiciosas. 



3. OPORTUNIDADES
Ás de Jóias [Ouros]

A recompensa não só se garante como se materializa! O ÁS DE OUROS representar um presente, uma ação concreta que se constata ou se sente. Sugere um gesto ou mesmo um objeto. Assim, a tendência é receber algo em troca pelos esforços ou pela clareza que se alcança a partir da reflexão, da demonstração de afeto e da postura atenta.

Cintamani, a Jóia que concede os desejos, é uma referência direta às Três Jóias do Budismo, que são o Buda [o exemplo em que se pode se inspirar para atingir a iluminação], o Dharma [os ensinamentos, os textos e as pérolas budistas] e o Sangha [a comunidade, o meio em que se vive e se convive]. Essa jóia, claramente associada à ideia de riqueza e de valor, é representada como uma bola repleta de pedras preciosas com uma rampa afunilada no topo. Além de ser tido que ele realiza todo e qualquer desejo, a Jóia é como uma semente: simboliza o que é propício e o que vai além da vida e da morte. 



TRÊS CARTAS PODEM MUDAR MUITA COISA

O ideal é chegar ao oráculo como um propiciador de ações sensatas, como um instrumento para despertar. Por mais que pareça utópico considerar as cartas dessa maneira, é forçoso tentar aproveitar ao máximo a experiência com o Tarot. Mesmo havendo poucas cartas à frente. E mesmo que as intenções sejam consideradas menos nobres, nenhuma pergunta merece o desprezo. Exceto o mexerico, a fofoca, a especulação e a curiosidade vazia. 


No caso do nosso exemplo, podemos dizer que o dia será marcado por divergências afetivas [Dois de Copas na casa dos Desafios] que exigem uma posição atenta e compenetrada ao que realmente importa no momento, sobretudo nas relações mais importantes [Rei de Paus na casa da Postura] para então haver reconciliação, acordo ou harmonia a olhos vistos [Ás de Ouros na casa das Recompensas]. Constatar o equilíbrio após tomar a devida atitude.

De acordo com Robert Place em seus livros e workshops, numa leitura de três cartas é prudente respeitar a cadeia de três arcanos, lendo-as de modo interdependente. Em conjunto. Aproximando a prática oracular dos preceitos budistas, uma carta está associada a outra porque tudo se constrói a partir de causas e efeitos. É auspicioso encarar os três arcanos como uma cena completa. Ainda assim, a carta central é a mais significativa, já que determina uma postura específica a ser assumida durante o período. 

E por falar em período, é preciso deixar claro que as três cartas podem ser programadas, antes do embaralhamento e do sorteio, para alguma outra demarcação de tempo, como um semana, uma quinzena ou um mês. 

Confira, inclusive, o meu Tarot Mensal no Personare. O procedimento é semelhante e você fica sabendo de tudo que está por vir e como deve lidar com as situações.

Lembre-se de anotar ou fotografar as cartas que saem. A sequência deve ser lida e relida sempre que possível para tomar noção de como o período se desenrola e como as cartas o espelham. É importante mergulhar nas imagens, ir fundo nos sinais que elas suscitam e trabalhar os significados tradicionais dos arcanos. Nada será à toa se a intenção e o procedimento forem autênticos. 



Oráculo é auspicioso porque te chama à atitude.
A cada dia. 

Então desperte.




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