sábado, 12 de abril de 2014

BONS FLUIDOS

E na edição de aniversário da revista BONS FLUIDOS, já na capa uma matéria sobre Tarô. 

Leo Chioda e outros profissionais falam a respeito da prática oracular 
nas diferentes fases de quem procura as cartas. 

O Tarot é sempre.
Confira. Nas bancas!


domingo, 1 de dezembro de 2013

OSSOS DE AÇÚCAR



Em uma de minhas viagens ao México, conheci Leonora Carrington, poeta e pintora surrealista que durante a guerra civil espanhola viveu uma história de amor com Max Ernst. Quando o prenderam, Leonora sofreu um ataque de loucura, com todo o horror que isso significa, com todas as portas que esse mal abre na mente racional. Convidando-me a comer um crânio de açúcar com meu nome gravado na testa, me disse: "O amor transforma a morte em doçura. O esqueleto do Arcano XIII tem os ossos de açúcar". Ao me dar conta de que Leonora utilizava em suas obras os símbolos do Tarô, pedi a ela que me iniciasse. Me respondeu: "Tome estas 22 cartas. Observe-as uma por uma e em seguida me diga o que significa para você o que vê". Dominando a timidez, obedeci. Ela anotava rapidamente tudo o que lhe dizia. Ao término da descrição d'O Mundo, eu estava empapado em suor. A pintora, com um misterioso sorriso, sussurrou: "O que acaba de me ditar é o "segredo". Cada arcano, sendo um espelho e não uma verdade em si mesma, se converte no que se vê nele. O Tarô é um camaleão". Logo em seguida me presenteou com o jogo criado pelo ocultista Arthur Edward Waite, com desenhos no estilo mil novecentos, que logo estaria na moda entre os hippies. Pensava que Leonora, a que eu vi como uma sacerdotisa, me havia outorgado a chave do luminoso tesouro que estava no centro do meu escuro interior, sem me dar conta de que esses arcanos atuavam como excitantes do intelecto.



Alejandro Jodorowsky

La Via del Tarot | Sudamericana, 2005

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A COR DO SÍMBOLO

Proserpina
Dante Gabriel Rossetti, 1874
Tate Britain, Londres


Mas la granada es la sangre,
sangre del cielo sagrado,
sangre de la tierra herida
por la aguja del regato.
Sangre del viento que viene
del rudo monte arañado.
Sangre de la mar tranquila,
sangre del dormido lago.

Canción Oriental | Federico García Lorca, 1920



Qual é a cor predominante do fruto d'A Sacerdotisa?

O segundo arcano maior é uma imagem de grande poder no Tarot. A Mãe Celestial. Pudica, permanece prostrada entre as colunas mais famosas de toda a literatura esotérica — B e J, o chiaroscuro dos dentros. Madame da polaridade, senhora do presságio. Shekinah, misticamente falando. The higher and the holiest of the Greater Arcana, segundo o próprio Waite. Claro que todos os arcanos são fortes em suas potencialidades simbólicas, é sabido. Confesso que A Sacerdotisa é uma das minhas figuras arquetípicas prediletas. Precedendo A Temperança e A Força, é a feiticeira mais poderosa do círculo, justamente por sustentar as colunas do mistério. Oráculo em carne e espírito. Diáfana. Noiva-enigma do mundo. Musa impassível [feito o mármore de Brecheret].

Dentre os ornamentos clássicos mais inquietantes, vejo eu, está a cortina em The High Priestess de Arthur Waite, concebida pela genial Pamela C. Smith. Não simplesmente por ocultar o mar às suas costas, mas principalmente pela estampa do tecido — uma tapeçaria ornamentada de romãs.


The High Priestess | Waite-Smith Tarot
U.S. Games Inc.

Romã no quintal. Romã no própolis. Romã nos livros.
Romã nas lembranças da avó. Romã nas pinturas. 
Romã nos oráculos. 
Romã na poesia. Romã nos sonhos. 

Romã. Escrever sobre.
Entendi.



Sofiko Chiuareli | The Colour of Pomegranates, 1968



A Musa do cartomante é a analogia 

Sempre que revejo A Cor da Romã [1968], meu filme-poema predileto do armênio Sergei Paradjanov sobre as vidas e as mortes de Sayat Nova, um trovador do século XVIII, me certifico da importância do estudo simbólico. Do ritual da imagem e do conceito, por assim dizer. A predisposição à pesquisa e à prática com absoluto cuidado e alguma demora. Uma performance exemplar durante a leitura do oráculo requer alimentação artística e histórica constante.

Letramento, interesse, disposição. Fúria. Assim, embriagado pela beleza do simbolismo bizantino temperado com magia poética, reuni alguns baralhos e comecei a garimpar a presença da infrutescência na simbologia arcana. Já via A Maga do Crescente Lunar na minha mente quando então passei aos outros arcanos até chegar em The Empress, do mesmo Rider-Waite Tarot: Vênus que veste as romãs. The fruitful mother of thousands. Daí para lembrar do famigerado Tarô Mitológico foi um pulo: estamos entre Mulher e Donzela, com o ventre de vastos códigos e significados.


Perséfone e Deméter
The Mythic Tarot
Fireside, 1986.

A única filha de Zeus com Deméter era agraciada pelos deuses. Koré, a virgem cuja beleza cintilava a ponto de suscitar o desejo de Hades: desposá-la, mesmo que sem o consentimento da mãe. Assim concedeu Zeus o pedido de seu irmão que, impaciente, a raptou enquanto colhia narcisos. Deméter, inconsolável, passou a se tornar cada vez mais relapsa em suas funções. Trouxe a esterilidade aos campos ao rarear os alimentos, suspendendo o ouro dos trigais. Enquanto isso, no Hades, Perséfone rebelava-se com uma greve de fome, logo começando a enfraquecer. Temerosos pela reação de Deméter, os deuses recusavam-se a revelar o paradeiro de sua filha. Depois de uma longa jornada, descobriu que a jovem deusa havia sido levada às profundezas. Decidida a manter a escassez na terra enquanto não reavesse Koré, a mãe é atendida por Zeus, que ordena ao irmão a devolução de sua filha. Porém, tendo a garota provado das sementes de romã dos campos de Hades, conclui-se que ela não havia rejeitado com veemência o seu raptor. Quebrar o jejum com um fruto do submundo significava prender-se a ele. Criou-se um elo, já que Hades de fato seduziu Koré pela doçura de suas sombras. Concedeu à esposa os caminhos ocultos por meio da infrutescência. Assim, estabeleceu-se um acordo entre as famílias: ela passaria uma parte do ano com sua mãe e uma outra com Hades, tornando-se Perséfone, a dos olhos negros. Regula, ao lado de Deméter, os ciclos de cada ano. A vida que brota e fenece. A fertilidade e também a esterilidade da terra.

Perséfone e Hades banqueteando.
Atenas, 440-430 a.C.

Brincando de bibliomancia enquanto relia o delicioso As Núpcias de Cadmo e Harmonia, caí na página do rapto, tecido com tanto esmero por Calasso: Core, a pupila, estava portanto no umbral de um olhar em que teria visto a si própria. Estava estendendo a mão para colher aquele olhar. Mas irrompeu Hades. E Core foi colhida por Hades. Por um instante, o olhar de Core teve de desviar-se do narciso e encontrar-se com o olho de Hades. A pupila da Pupila foi acolhida por uma semelhante, na qual viu a si própria. E aquela pupila pertencia ao invisível.



As sementes quando são desveladas

Sofiko Chiuareli | The Colour of Pomegranates, 1968
















Nem todos os mistérios que encerram a romã estão no papel. Até porque o exercício visual é necessário. Sempre. Percebe-se, com absoluta atenção aos detalhes, que no arcano II as romãs estão atrás da figura principal, enquanto que no arcano III, o fruto está sobre a figura — envolto em seu corpo. É nítido que A Sacerdotisa não indica necessariamente nem gravidez nem esterilidade, já que encarna a virgindade, persona casta que preserva seus mistérios e segredos. Inaptidão sexual. Desconhecimento ou silêncio dos próprios desejos. Já n'A Imperatriz, discretamente as romãs saltam aos olhos, confirmando os sintomas clássicos de prosperidade. Na primeira, o potencial [de sexualidade e fertilidade]; na seguinte, a latência. 



A Sacerdotisa e A Imperatriz
Waite-Smith Tarot | US Games Inc.




É do rastro de Afrodite, no Chipre, que nasce a romã. A primeira dádiva de seus passos. A composição carnosa da planta passa a ser associada à vagina, à condição intrínseca de fertilidade. Um estimulante — o afrodisíaco primordial. Em meio ao caos dos fragmentos míticos, o pomo púnico acaba se conectando à Maria [e à Igreja, já que a profusão de sementes representa a união, os fiéis em torno de Cristo, a vida que pulsa]. Em algumas catedrais e museus, principalmente na Itália, a representação se mantém. La Vergine. La Madonna della Melagrana. Nem todos os mistérios estão no papel mas também nos caminhos cíprios. Nas artes. Nos próprios mistérios. Artefato. Víscera da Musa.


Sandro Botticelli | Madonna della Melagrana, 1487.
Galleria degli Uffizi, Firenze, Itália.

La Papisa prepara una eclosión. Espera que Dios venga a inseminarla. Me lembro bem de Jodorowsky falando do processo de incubação do segundo Arcano Maior. Se ela pode traduzir-se como gestação, na próxima carta numerada temos o afloramento. Nasce e desenvolve-se o fruto. E James Frazer, famoso historiador entre os adeptos da Bruxaria, propõe Deméter como a colheita madura do ano enquanto Perséfone encarna a semente. A catábase de Koré seria uma expressão da semeadura. Seu reaparecimento então significaria o despontar do novo cereal. Assim, a Perséfone de um ano seria a Deméter do seguinte. Parir associações, sempre com o devido cuidado, faz com que as cartas tenham ainda mais sentido quando colocadas em evidência. O êxtase da leitura é a performance do olhar. Teoria e prática num ramo [de ouro e narcisos] bem consistente.




Uma descida aos infernos (da imagem)

Sofiko Chiuareli | The Colour of Pomegranates, 1968















Gosto de jogos imagéticos. Dos véus. Hologramas. Tanto que agora, descobrindo o Petit Lenormand depois de duas sabatinas com Alexsander Lepletier em Curitiba e em São Paulo, as combinações tem sido uma divina diversão. São feitiços. Pelo fato de nem sempre serem percebidos a olho cru, tonificam a voz do oráculo. A capacidade de versificar as figuras e compor um poema cada vez mais bonito e rico de significado. Interpretação de símbolos. E confesso que faço cara de origami quando me dizem que gostam da 'facilidade' que o Tarô Mitológico proporciona [ainda vigora esse tipo de argumento], mesmo que não consigam fazer dos mitos ali encarnados apenas uma sugestão à compreensão do arcabouço em vez de lindas, rápidas e definitivas roupagens aos arcanos, que por sua vez existem e significam por si próprios; como se o símbolo fosse um organismo hermeticamente exato e indiscutível a ponto de se sobrepor ao que o arquétipo cansa de caracterizar. Mas gosto de jogos imagéticos, gosto mesmo. E se às vezes vejo Perséfone n'A Papisa, devo ter toda uma bagagem de pesquisa para apropriar minhas impressões e constatar possíveis associações. Sair dizendo que a mulher n'A Estrela aparece nua porque está debilitada devido à destruição d'A Torre soa tão taxativo quanto absurdo. Mas este é um outro caso.

Faço de conta que uso o Tarô Mitológico e sorteio A Sacerdotisa numa leitura sobre o paradeiro de algum objeto, pessoa ou animal [vide experiências de Zoe de Camaris e de Giane Portal]. Devo dizer que o elemento procurado se encontra abaixo de uma escadaria escura? Não, não necessariamente. Mas preserva-se a ideia de oculto, escondido, praticamente inalcançável a olhos nus — o Hades é o invisível que está ali, não?

As cores das Musas
instagram.com/leochioda


Uma ode ao bom senso. Um hino homérico. Os degraus infernais de Greene e Sharman-Burke são uma novidade simbólica, mesmo que a ideia de ocultação, mistério, perda e desencontro mantenha A Papisa guardando seu templo, reino tão rico em segredos. Ou nas alturas do Capitólio presididas por Juno, rodeada de pavões e  romãs, uma antiga representação do arcano. Tão inatingível aos que não se permitem enxergar [o] além. E é a partir do mergulho nos ornamentos e atributos, sempre respeitando e preservando a estrutura clássica do conjunto de cartas, que posso vislumbrar os véus de Perséfone no segundo arcano maior. Até mesmo usando um Marselha.



A romã d'A Sacerdotisa
El Gran Tarot Esoterico | Fournier, 1978

Que haja coerência, portanto. Não só simbólica, respeitando cada sistema [astrologia é astrologia, mitologia é mitologia e tarô é tarô, mesmo que possam dialogar entre si], mas também interpretativa. E que os mitos, os dicionários de iconologia e as referências folclóricas sejam ingredientes à compreensão e à fortificação do poder de analogia dos símbolos. Não verdades inquestionáveis proferidas pelas bocas do achismo nem bengalas para se entender a dinâmica dessas imagens há tanto plasmadas em nossa cultura. Apenas afrodisíacos disponíveis para refletir o poder dos símbolos. As cores de cada um deles diante das mil faces da analogia.


O poeta morre, mas não a sua Musa, deixou o armênio Sayat Nova em um dos seus versos. 
E qual é a cor do símbolo? Pesquisa, fúria, atenção e qualidade. O sangue da excelência, vertido de todo árduo submundo. Só assim para que haja luz sobre todas as tonalidades de nossas cartas e palavras.

L.


The Colour of Pomegranates, 1968



Os livros no colo
BIBLIOGRAFIA SUGERIDA

CALASSO, Roberto. As Núpcias de Cadmo e Harmonia. Companhia das Letras, 1991.
FAUR, Mirella. O Legado da Deusa. Rosa dos Ventos, 2003.
GRAVES, Robert. O Grande Livro dos Mitos Gregos. Ediouro, 2008.
LAO, Meri. Musica Strega. Edizione delle Donne, 1977.
LORCA, Federico García. Poesía Completa. Galaxia Gutenberg, 2011.
NAIFF, Nei. Tarô, Vida e Destino. Best Seller, 2013.
SHARMAN-BURKE, Juliet. Os Segredos do Tarot. Editorial Estampa, 1998.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

AQUELE QUE ENSINA




Aos meus amigos-mestres na arte de ensinar o Tarô
Alexsander, Vera, Zoe, Giane, Nei e Giancarlo
e aos que aprendem com ele, de verdade.





































Tarô é atitude, antes e depois de tudo. Atitude de destrinchar um caso, de mapear soluções, de prever os passos. Atitude de comprar, de investir, de adquirir conhecimento, de colecionar. De disponibilizar-se ao acaso que se faz centro. Tarô é atitude, independente do que falem por aí — que ele destroi o livre-arbítrio, que é um livro de figurinhas do Diabo, que não funciona ou mesmo que veio do Egito. Quem me conhece sabe o quanto eu gosto de colecionar Tarôs. Mas não qualquer baralho, veja bem — os itens que desejo adquirir devem servir para leituras, não apenas para mantê-los intactos em minha redoma de raridades. Devem servir ao conhecimento e, sobretudo, devem me ensinar. Pensando exatamente nas trocas possíveis entre o tarólogo e sua ferramenta de trabalho que na minha primeira resenha publicada em inglês no Aeclectic Tarot, transcrevi a 'entrevista' que fiz com o baralho em questão, o Tyldwick Tarot [clique AQUI para ler o original e a tradução]. O que poucos sabem é que esse é um costume até que antigo diante de todo e qualquer Tarô que chega às minhas mãos. Perguntar ao oráculo a quê ele vem, por exemplo, é uma forma de familiarização e adaptação ao conjunto de imagens que dispomos na mesa para montar os jogos da vida. E é a vida, justamente, quem nos coloca as lições, as dádivas e os percalços para fazer da nossa narrativa pessoal uma jornada. De herói. 

Justo hoje, Dia do Professor, me chega um exemplar do esgotadíssimo e em perfeito estado do Egipcios Kier*, publicado pela U.S. Games em 1984. Não, não veio do Egito e é bem sabido que o original, em espanhol, tem sido publicado pela editora argentina Kier desde a década de 1950, ao lado do clássico La Cabala de Predicción, de J. Iglesias Janeiro. Motivos mais que especiais para abrir o oráculo em consonância com o coração. O primeiro arcano avistado no caos simbólico que submeto o oráculo 'virgem', ao misturar todas as cartas e extrair a Carta Primeira, foi justamente o O Sacerdote. Ou The High Priest, aqui personificado como Anúbis, deus dos mortos, a autoridade que emerge para assentar a autoridade divina sobre os humanos. Sendo o detentor de poderes mágicos e divinatórios, é também a força-guia pelos meandros do submundo — aquele que dá acesso. O negro chacal me provê a noção de familiaridade com as desgraças e as maravilhas da existência — nada assusta o Grande Pai; a chefia dos cemitérios. É na figura do Mediador entre um reino e outro, do mais Alto ao mais Baixo, que reside a essência do Mestre. Sendo o regente da mumificação, posso enriquecer a ideia de que preza pelas verdades inquestionáveis e mantém intacta a máquina dos ajustes. É esta lâmina que tradicionalmente estimula o aprendiz a trilhar sua própria senda. O representante dos deuses na Terra, falando por meio deles. A ponte. Daí o Pontífice que bendiz com a mão direita. No baralho Kier, por sua vez, o emblema tânato governa o Conhecimento com o cetro enquanto o Equilíbrio define seu chão. A balança, 'o nada em excesso'. Sinais. São os sinais, aliás, que definem o caminho de um leitor de imagens diante de um oráculo até então novo, desconhecido, esperando pelas combinatórias.



ENTREVISTA AO TARÔ 






Depois de passear lenta ou brevemente pelas imagens, me coloco a embaralhar as 78 cartas enquanto formulo as questões de boas-vindas. Três, como as primeiras palavras de apresentação de um aluno a um mestre. Três, as respostas do oráculo ao buscador. Essa é uma forma rápida e poderosa de certificar-se das forças que permearão as leituras. Independente do número de cartas selecionadas e das perguntas mentalizadas, o que realmente interessa é a maneira como você vai trabalhar a[s] resposta[s], já que este é um exercício não só de familiarização como também de atenção e percepção aos símbolos. Sigamos, agora, pelo que tenho vivenciado hoje.



QUEM É VOCÊ?

39, Testimony | O Testemunho

Eu sou a prova viva de que o Conhecimento existe e está disponível aos que o buscam. Sou, através destes símbolos, a Sabedoria encarnada. Permita que suas dúvidas comecem a se tornar o pó que logo pisarás. O Caminho é teu. Eu sou o Caminho. Percebe que oferecer o teu melhor faz com que o ritual da excelência se cumpra. Somos as imagens de ti mesmo. O grande opera sobre ti. Vê com os nossos olhos, a janela que a tudo enxerga. O que ofereces, te será dado.



QUAL SUA MAGIA EM/ PARA MIM?

50, Attraction | Atração

Eu venho para promover a Beleza dos deuses sobre tuas palavras e visões. Percebe o quanto somos fascínio e luz! A compreensão de nossas lâminas favorece o Jardim. Ele brota em ti e toma o Mundo, desde que respeitadas nossas forças e arquiteturas. Somos símbolos concatenados com a Existência. A Senhora dos Véus me serve. A Magia consiste na forma e na aplicação da Verdade. A Magia opera em ti a partir da destreza em predizer nossas vontades. Os meus caprichos estão impressos na tua pele, nos teus olhos, na tua voz. A minha Magia define o oráculo que és. Meu nome é Serendipidade.


O QUE TENHO A APRENDER A PARTIR DE AGORA?

27, The Unexpected | O Inesperado

Segue com teus dons as rajadas. Vê como minhas flechas deturpam o que se estabelece? Eu vou contra o vento dos demais. Sou a diferença que buscas. O que não está agendado nem possui tempo para formular-se com exatidão. Se neste portal meu nome é Inesperado, recorre ao Acaso para que alimente ainda mais tua coragem em explorar nossos domínios. Há perigo em toda previsão, mas abençoa-se quem tem grandeza nas próprias sentenças. Eu assusto as surpresas e surpreendo o inconveniente. Deves, portanto, assumir a dádiva de ser um canal. A ser um artífice diante das alterações que não se pode evitar. Aprende a fortificar tua consciência e tua agilidade nos passos eternos a partir de ontem. Agora.


TODA E QUALQUER RESPOSTA PODE SER REVELADORA. 
E SERÁ.

Perceba que as respostas são como que canalizações. Para que aconteça isso, há de se ter em mente que toda resposta que você escrever, mentalizar ou pronunciar em voz alta a partir da análise individual de cada Arcano é importante para definir o que tal baralho lhe oferece e/ou exige. É uma maneira absurdamente fácil, aliás, de abordar qualquer outro maço cartomântico e colocar à vista suas noções prévias a respeito de determinada imagem arquetípica. Todo e qualquer arcano do Tarô nos ensina, por mais que se considere esgotado o que se pode extrair dele. A predisposição a aprender deve ser unânime para que as palavras e as formas surtam efeitos proveitosos. 


A PIRÂMIDE DA MAESTRIA






Fiquei realmente surpreso com estas primeiras cartas. O caso do baralho Kier é único por ter uma estrutura diferente dos demais Tarôs. Respeitando esta estrutura e somando as três cartas sorteadas, obtenho O MESTRE deste oráculo para mim, que a partir de agora serei seu intérprete. E nada mais auspicioso que receber meu Arcano Pessoal como produto final: A JUSTIÇA, associada a Capricórnio e personificada como a deusa Ma'at, companheira de Anúbis no ofício da balança, ajustando minha performance com verdade e harmonia. Claro que meu fascínio pelo universo egípcio, adormecido há tantos anos, tende a voltar com força absoluta. É assim, pelo menos para este colecionador que vos fala, que se procede diante de uma aquisição — da mais aguardada à mais inusitada. Bons augúrios, verdade, para erigir os quatro lados de atitude daquilo que chamo de Pirâmide da Maestria — preceitos que o oráculo constantemente exige e proporciona:

Administrar o Mistério com coragem e grandeza.
Manter a predisposição a aceitar e a vivenciar os presságios.
Encarar o Tarô como um professor atemporal. 
Nutrir o mundo com a sabedoria adquirida pelo esforço.


Na medida em que o leitor se dispõe verdadeiramente a aceitar e a absorver a magia dos símbolos, o caminho do genuíno conhecimento começa a se ladrilhar aos seus pés. O Mestre é aquele que ensina quando o Neófito age.



L.







I N D I C A Ç Õ E S


Nelise Carbonare Vieira
principal divulgadora do Tarot Egípcio Kier




















Interessou-se pelo Tarô Egípcio Kier

Saiba que ele tem história.

Conheça o Tarot Door, da taróloga Nelise Carbonare, 

principal referência sobre o ensino e a prática de leitura deste deck único.

Neste link do Clube do Tarô você pode se enveredar pelas cartas 

a partir da galeria e dos textos compilados. 

A editora Pensamento lançou o baralho com o livro escrito por Bibiana Rovira, 

bem indicado por quem entende do assunto. Clique AQUI e pesquise o melhor preço! 

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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

ARCANO PIVA | poemas descritos com o Tarot












abandonar tudo. conhecer praias. amores novos.
poesia em cascatas floridas com aranhas
azuladas nas samambaias.
todo trabalhador é escravo. toda autoridade
é cômica. fazer da anarquia um
método & modo de vida. estradas.
bocas perfumadas. cervejas tomadas
nos acampamentos. Sonhar Alto.














monstro de puro amor
curare
estilo cerâmico de Nazaratequi
pandemônio de Zeus
Eros atravessando
o tímpano com um 38
gavião de arame farpado
núcleo do veneno fiel














Todos os dedos do Sol
nas asas do gavião-peneira
que anjo ou deva pirado assombrou
a folhagem da sua alma?
a nuvem marcha
o sanhaço lambe o vento no
corrimão do Mundo
céu esculhambado
licor de aurora boreal
sonho ofegante de árvore-cinema









E para que ser poeta
em tempos de penúria? Exclama
Hölderlin adoidado
assassinos travestidos em folhagens
hordas de psicopatas
atirados nas praças
enquanto os últimos
poetas
perambulam na noite
acolchoada


















Bomba atarefada
Bomba desastre
anjo de vôo de abutre
garoto-bomba               mini-Tarzã
bomba solar do barão Julius Evola
bomba na bunda de Hitler
sonhos secos em Tóquio
agonia de uma princesa deplorável









ROBERTO PIVA
25 de Setembro de 1937 - 30 de julho de 2010

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embaralhados e sorteados de

20 Poemas com Brócoli | Massao Ohno/Roswitha Kempf, 1981.
Estranhos Sinais de Saturno | Editora Globo, 2008.

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terça-feira, 24 de setembro de 2013

JARDIM DE DELÍCIAS

este jardim é meu, apenas para que a vossa paz seja respeita-
da; para além da porta que dá acesso à rua do jardim, ides ad-
quirindo, pouco a pouco, o fulgor de manifestar, no vosso corpo, o tempo;

Maria Gabriela Llansol | Apoptose



The Tarot of the Sevenfold Mystery | Hermes Publications, 2012.


Só sei que trabalhar em casa tem suas mil glórias: jornada de herói. Pântano pavimento de contrariedades administráveis. E sinto o dia auspicioso, cheio de frio e cinza de chuva. Trabalhando desde cedo na tela do Mac, lendo pessoas e páginas, reviro futuros antigos em baralhos recém-chegados. O entregador dos Correios já aparece dizendo 'bom dia, Leonardo; este aqui veio dos Estados Unidos. Assina aqui, por favor'. É Primavera e a egrégora favorece a sobreposição de sensações e impressões acerca do mundo. Renovar os meandros.

Entre o Cinco do leite derramado perto da ponte e o Sete do devaneio conjurado em alta voltagem poética, o Seis de Copas equilibra o teor dos vasos. Um jardim suspenso entre desilusão e expectativa. O senso de serenidade que se evoca do prazer. O recinto da fruição.

Mr. Crowley e Madame Harris esquematizam o portal do Senhor do Prazer de modo que haja fluência. A dicção do gozo é treinada em pétala. Sexo com a pessoa amada seguido de um belo café da manhã na varanda, por exemplo. Não dissocio, de modo algum, o protótipo deste arcano à sensação bucólica. Há de se ter um jardim por perto.



Crowley-Harris Thoth Tarot | AGMüller, 1986.


Mas o desejo de escrever para esta carta, apesar de antigo, veio forte com a nova estação ao abrir e embaralhar o mais recente trabalho de Robert Place, The Tarot of the Sevenfold Mystery, publicado no ano passado pelo seu próprio selo*. A lâmina, batizada de The Gardener, é um primor aos olhos acostumados à pinta e à cena de Pamela Smith: uma donzela pré-rafaelita, nos moldes de Burne-Jones, regando seus vasos de modo aplicado à delicadeza — um convite à atmosfera de horizonte interior: calmaria, sossego. Até melancolia, se não dou de ombros às atribuições mais variadas dos estudiosos. 



Haindl Tarot | US Games, 1990.


Uma dessas atribuições, aliás, me esboça um sorriso. Hermann Haindl, criador do assombroso Haind Tarot, grava o hexagrama 58, A Alegria, na base desta carta. Rachel Pollack traça, no livro escrito sobre o baralho, as concepções do artista em relação à ideia de felicidade, de sucesso e dos bons momentos entre pessoas queridas. Um lago sobre outro lago. The Joyous Lake — coerente relação entre a sabedoria oracular chinesa e o naipe de águas, apesar de todas as minhas reservas e ressalvas a atribuições deliberadas que se fazem entre um sistema divinatório e outro.



IN AN OLD GARDEN

Cresci em um grande quintal repleto de árvores, plantas e portões antigos de ferro fundido. Criava inúmeras personagens de modo quase instantâneo e encarnava cada uma delas durante a semana, com amigos e irmão ou 'sozinho'. Entre a realidade e a imaginação, o prazer de ser e sentir. Em Copas nos permitimos outros mundos. O paralelo necessário da magia. 




Smith-Waite Tarot | US Games, 1971.


Entre. A preposição que tenho repetido até aqui porque são justamente as sobreposições que fazem deste arcano um jardim secreto de conhecimentos e gentilezas. No Tarô Smith-Waite, especificamente, as crianças se relacionam 'em um velho jardim', segundo a Chave Pictórica escrita por seu idealizador. As taças repletas de flores e um guarda devidamente armado no fundo à esquerda, fazendo a ronda pelo caminho ladrilhado. Estamos literalmente no quintal da casa. Vendo a imagem em preto e branco percebe-se as duas dimensões que a artista conseguiu plasmar em uma das cenas mais doces da galeria de Copas. Gentileza, delicadeza, inocência e a chance de fazer do que é simples, inocente e sincero uma oportunidade de grandeza. 



GET BACK TO SERENITY

Mas Leo, um jardim não é Ouros puro? 
Não, puro não. Que são vasos senão Copas? Receptáculos. Recipientes que recebem a terra. O jardim pressupõe as formas da água. O passado do fruto é a própria semente e não só, mas o fruto anterior. Daí, talvez, posso jogar luz aos atributos clássicos de nostalgia e memória vinda à tona. A nossa velha infância permeando o gramado.



Morgan-Greer Tarot | US Games, 1979.


Para os italianos, o Sei di Coppe é o que se pode chamar de arcano di ritorno. Combinado, por exemplo, com o O Carro, significaria a volta de um antigo amor, ou mesmo recordações que levariam o coração a um estado sereno.  Com O Eremita, no entanto, é um velho amigo que retorna, provavelmente depois de muitos anos, jogando luz nas memórias — um presságio de saudosismo. Mas é a serenidade o cerne. Uma das características que podem fazer questionar a ideia de sucesso absoluto a qualquer custo que esta carta não prenuncia. E para quê perder-se na loucura da correria se não é hora nem lugar? Nutrir os afetos na figura de uma planta é tão importante quando trabalhar pesado para pagar as contas. Uma postura intuitiva tende a ser mais valiosa que toda a tensão do mundo lá fora. Aliás, de inimigo ele tem pouco, diria um mestre Zen que rejuvenesce ao longo dos anos, curvado aos seus canteiros. Um jardim de delícias, se [me] permito. 


Cresço, ainda hoje, nos meus próprios quintais. Em outros, não só no da infância. É encontrando o ponto de suntuosidade que a natureza dos sentimentos oferece que treino minha leitura de mundo. Em consonância com a beleza e a verdade, independentemente do passado; entre a possibilidade de respirar e a necessidade de agir. É primavera. E os pés vão descalços aguar as heras no vento, com todo o amor de Flower Child que me define.

A fruição é gradativa; se insinua aos que a regam. 


















L.






terça-feira, 17 de setembro de 2013

ARCANOS & CRISTAIS

Crisocola, Ametista, Sodalita e Serpentina
Haindl Tarot | US Games, 1990.

























Desde bem pequeno os cristais me fascinam. As pedras preciosas, como sempre via nos filmes, nos gibis e nos livros de aventura, eram um constante sonho de consumo. Fui colecionador daqueles fascículos que traziam amostras de vários minerais, os quais catalogava e acomodava cuidadosamente nos estojos apropriados, feito um geólogo aplicado. Mas nas jornadas esotéricas dos anos seguintes, as pedras não acompanharam o turbilhão bibliográfico que se colocava à minha frente — de Gerald Gardner a Aleister Crowley e seus muitos parênteses, adendos e extras. Exceto em alguns sonhos memoráveis, como aquele com uma coruja cravejada de pontas azuis conversava comigo sobre os ancestrais, meu tesouro continuava incólume no armário, longe das vivências, dos feitiços e dos oráculos. Até então, apenas artefatos de contemplação aos olhos fascinados de um menino. Até então.

Retorno agora de uma viagem visceral pelo Peru, onde encontrei drusas, estrelas e pontas de cristais em pleno contraste com o artesanato fabuloso dos pueblos que visitei. Folheava 'à toa' um livro sobre o assunto na livraria do aeroporto de Lima quando fui fisgado na hora: dei de cara com a descrição da Serpentina, um dos elementos que trouxe do mercado de Ollantaytambo na forma de uma pirâmide. Pronto, entendi o recado. Já em casa, me vejo garimpando na biblioteca todos os livros relacionados a pedras, independente do enfoque: do terapêutico ao geográfico, estudar as pedras é uma lição de mundo, não só de vida. Nos faz perceber que somos mesmo poeira brilhante numa distância de bilhões e tão perto pela retina em cores. Então o ABC dos Cristais, de Antonio Duncan, foi o seguinte a ser re-devorado. Os livros certos aparecem na hora certa, dizem. As drusas e as gemas também. Verdade.


PERFORMANCE CRISTALINA


















Percebi, nos xamanismos ao redor Cusco e no sagrado em Machu Picchu, que reconectar-se exige constância. Feeling para manter o corpo funcionando no ritmo do espírito. E tenho constatado que exatamente os cristais são chaves para destravar de vez algumas portas que julgamos já estarem abertas e até mesmo outras que nem supomos que existam. Uma delas, por excelência, a intuição. Digo que são constatações porque comecei a fazer uso direto deles em meus atendimentos, que até então livres de todo aparato que desvie a atenção dos meus consulentes, céticos e cartesianos em sua maioria. Mas no atendimento virtual, quando a mesa de trabalho é só nossa, tenho me permitido os símbolos programados. Assim me mantenho em conexão com essas vibrações específicas. Abertura ao que as pedras oferecem. Uma condição óbvia [para alguns] é que o trabalho com os cristais insufla uma conduta transparente, firme e segura para lidar com as questões que se apresentam. Ensinam, sobretudo, a nos darmos conta do termo 'energia' com um pouco mais de atenção.


PEDRAS DE CARTOMANTE

















É lidando com esses vidros naturais de força extrema que regulamos os ciclos e nos abrimos ainda mais à vida. Digo isso por sabermos, de antemão, alguns enigmas da existência pelo privilégio de viver a magia narrativa que é o Tarot. Unir as forças cristalinas às arcanas pode triplicar o desempenho diante de clientes e mesmo em trabalhos solitários de percepção e aguçamento dos próprios sentidos. Por isso que decidi elencar alguns dos cristais indicados para oraculistas. E para quem tem preguiça de lidar corretamente com as pedras, desde a purificação [expor ao tempo aberto em água filtrada com sal grosso, por exemplo] até a programação [meditar com a pedra ao som de um lounge, direcionando as vibrações que deseja e proferindo a função que ela terá], sugiro que simplesmente os traga consigo, junto ao corpo, ou mantenha sobre a mesa durante as leituras. 

Poderia elencar um cristal para cada arcano, embora as propriedades cristalinas terapêuticas ultrapassem em número as referências simbólicas de cada arcano, tornando tudo muito vago — como qualquer associação sistêmica meramente pessoal relacionada ao Tarot. Não, mais gororoba esotérica não, já existe de sobra. Em vez disso, me atenho a peças facilmente encontradas no Brasil em lojas especializadas, comuns em sua maioria mas indiscutivelmente belas e poderosas como a Ametista, a Sodalita, o Quartzo Rosa e o Ônix, instrumentos possíveis a todo e qualquer cartomante. As mesmas que estão desde cedo expostas à tempestade lá fora. E saiba que estas são apenas algumas possibilidades e sugestões de associações. Fazer dos cristais um estudo constante é tão válido quanto trilhar o infinito caminho das cartas.













SODALITA 
Sendo a Pedra da Intuição, como às vezes é chamada, ter uma Sodalita por perto é sinônimo de canalização e fluência no discurso simbólico. Um cristal promotor de insights por estimular a visão de modo direto, sem se perder em meio a contradições e paradoxos trazidos por outras pessoas,  a Sodalita é uma das pedras oraculares de mais fácil acesso, mesmo que ainda nem tão conhecida pelo grande público. Favorece uma postura verdadeiramente intuitiva quando é necessário mergulhar no que o consulente deseja saber ou precisa fazer para resolver, agindo como uma facilitadora na arte de traduzir padrões arquetípicos. É o cristal de Sodalita que estimula uma compreensão significativa dos sinais apresentados pelo acaso ou mapeados. É um elemento de jornadas interiores precioso por instigar a integrar aspectos de modo sereno, fazendo com que se veja a realidade com a intuição aguçada e as palavras bem colocadas. 

CRISOCOLA 
A pedra que me encontrou em meio a tantos bruxedos em sua forma bruta e também na moldado em ovo. Alertando-me que era uma Turquesa Peruana, a vendedora elogiou a pedra até me fazer comprar ao perceber meu fascínio pelo tom azulantigo. A Crisocola é um mineral considerado até mesmo superior à Turquesa em seus atributos esotéricos e terapêuticos. Sua força é estritamente feminina. Fortalece a força do corpo físico emanando gentileza e poder. É, literalmente, uma pedra da Deusa. Suas energias antigas, quando ressoam nas pessoas por meio de sua beleza, se fazem atuar logo de cara. Tenho percebido a diferença nos atendimentos por estar com a Crisocola por perto. Ela governa o fluxo de energia e comunicação e permite a canalização do conhecimento de modo claro e objetivo. Sendo uma aliada poderosa para quem fala para viver, ajuda a abrir um canal entre uma consciência mais elevada e a expressão verbal, concedendo discursos divinamente inspirados. Nada melhor para quem lida com imagens por meio da voz, não? Permite, ainda, que falemos sem máscaras, através da intuição da própria sabedoria, não por informações simplesmente adquiridas. Nos conscientiza da energia que dispomos ao mundo. Tanto a palavra quanto o silêncio, diante desta pedra, estão bem dignificados.


SERPENTINA 
Esta pedra simboliza, literalmente, o Poder da Serpente. Serve para ativar e elevar as forças da Kundalini e é ideal para quem dança, encanta, sibila. Celebra a condição de oráculo por meio do encantamento. Ajuda a eliminar energias bloqueadas e permitir que a saúde e a beleza fluam, havendo reequilíbrio sempre que necessário. É uma pedra poderosa para curadores, magos e aqueles que trabalham com energia e conhecimento nada convencionais. Calmante para o corpo emocional, ela permite que eliminemos todo e qualquer medo de mudanças e de dificuldades. Tem este nome por ser semelhante à pele ofídica, o que me atraiu logo de cara, numa terra de constantes jornadas e reconhecimentos de animais aliados.

AMETISTA 
Uma das pedras mais comuns mas não menos poderosas e importantes do nosso país, a majestade roxa que é a Ametista vem a ser um instrumento indispensável para todo e qualquer oraculista que se preze. Famosa por ser usada em jóias e talismãs desde o Antigo Egito e passando pelo mito relacionado a Baco e a Diana, este cristal é símbolo de proteção espiritual e purificação. Aglomerados e geodos deste elemento são chaves para uma rotina tomada por beleza, tranquilidade e lucidez. Oferece a chance de criar um escudo energético contra a maioria das forças nocivas de quem vem até nós, especialmente quando a consulta é pautada em ansiedade e rancor. Ideal para harmonizar ambientes, na real, todos os cômodos de uma cada merecem uma Ametista. Recomendada a todos, é um belo artefato de meditação e geração de energia para reciclar atitudes e sentimentos. Desordens nervosas e outros desequilíbrios podem ser controlados a partir do uso dedicado de uma drusa de Ametista, além de ser um estimulante para manter a saúde física, mental e espiritual em dia. 


ÔNIX 
Foi também no Peru que encontrei [ou fui encontrado por] uma pirâmide desta pedra, em sua variação negra. A beleza de uma das pedras mais utilizadas em rituais de magia veio às minhas mãos por um meio de uma señora bastante enigmática aos pés do santuário de Machu Picchu: — La piedra de las brujas, amigo. Tomado pela suntuosidade do objeto, acabei trazendo sobretudo pelo fascínio com que a mulher tratava o produto, como se houvesse alguma relação muito antiga com ele. Indicada para estudantes, professores, advogados e psicólogos, é ideal para quem deseja manter o autodomínio intacto diante dos desafios cotidianos. Tradicionalmente associada a Capricórnio e refletida n'A Justiça por alguns — meu signo solar e arcano pessoal, surpreendente e respectivamente — é desde sempre uma das minhas favoritas. A pedra cor-de-noite guarda ainda o segredo da materialização de tudo o que se deseja. Consolida o poder de outros cristais em vez de aumentá-los, como um carimbo a constatar a força suscitada dos outros. Mágica por excelência, instiga o oraculista a fazer uso harmonioso de sua intuição e a narrar os eventos com os pés no chão, inclinando-se à objetividade e à sinceridade frente aos símbolos das combinatórias.


ENTRE CARTAS E CRISTAIS

Embebendo um cristal nos mistérios d'A Sacerdotisa
Vision Quest Tarot | AG Müller, 1998.




















Purificar, tonificar, energizar, imantar, fortalecer, expandir. Alguns poucos grandes verbos que fazem a diferença antes, durante e depois de ler as cartas. 

● Programar um cristal, como costumam dizer, significa carregá-lo com alguma função. Profira, enquanto segura a pedra escolhida, tudo aquilo que você deseja que a pedra viabilize. 

● É indicado deitar o cristal escolhido em cima do seu baralho de uso para 'zerar' as energias entre uma leitura e outra. Uma drusa atenua ou intensifica tensões, desde que respeitados seus atributos. Para descarregar um Tarô, sugiro que você tome uma pedra devidamente purificada e programada para este fim. 


Limpando e protegendo o oráculo
Aleister Crowley Thoth Tarot | AG Müller, 1986.

● Segure o cristal minutos antes de começar uma leitura, tanto para interpretar atentamente as cartas que serão sorteadas quanto para ouvir uma interpretação. As pedras oferecem foco às questões, além de ampliar intenções e harmonizar a atmosfera em que você se encontra — seja diante de um cliente, presencial ou virtualmente, seja diante da pessoa que lerá para você. 

● Uma das práticas mais fantásticas envolvendo esses dois universos e que merece um texto a parte, é a que eu chamo de INFUSÃO: ato de programar um ou vários cristais com determinada imagem arquetípica. Se quero, por exemplo, ter um cristal d'O Sol para levar comigo por onde for, é bem possível se tenho um cristal devidamente purificado. Esta prática, um verdadeiro encantamento, pode ser feita a partir da fusão entre o arcano escolhido e a peça destinada a ser o 'recipiente' imagético. Cristais, sobretudo os de quartzo, são perfeitos para esse tipo de trabalho. Visualize, com o devido preparo mental, a carta sendo gravada dentro da pedra. Sinta-o pulsando em consonância com a imagem. Se o cristal for transparente, o trabalho pode ser ainda mais nítido: coloque a lâmina atrás da pedra e visualize a amálgama. Essa medida pode se estender a outros oráculos como runas ou mesmo hexagramas e exige, naturalmente, que você seja responsável com as energias a serem trabalhadas. Sempre.



+ DICAS PRECIOSAS















 A estética, fator muitas vezes apagado da perfomance do tarólogo, é essencial para um atendimento gratificante, já que nem só de acertos e erros se faz a cartomancia. Saiba, no mínimo, quais são cristais que você tem ou quer ter por perto.

 Gostou de uma pedra? Pesquise sobre ela TAMBÉM a nível geológico. Saiba de onde ela vem, os mitos que a envolvem, como é extraída, qual sua dureza e outras características relevantes de sua composição. Ah, e pergunte-se porque você gosta tanto dela. As respostas, vindas bem lá de dentro, vão surpreender você.

● Tire as pedras do bolso! Oxigenar esses elementos é crucial para que eles 'respirem' de acordo com você. Para haver proteção, não adianta manter a Turmalina perdida em algum canto inacessível da bolsa. Se mora em apartamento, coloque seus cristais na janela. Se mora em casa, mande a preguiça dar uma volta e exponha cada um deles à chuva, ao sol e à lua. As pedras são jóias de Gaia e merecem o contato constante e variado com suas forças.

● Estude as formas de cristais que você já tem em casa ou deseja adquirir. Geradores, biterminados, arquivistas, aglomerados, guardiões, transmissores e canalizadores são apenas alguns dos variados tipos que encontramos ao longo do caminho. Um exército mineral ao nosso dispor para tomar ciência do quão rica é a existência, seus arcanos e meandros.

Muito cuidado com as lojas em que você pretende em comprar seus cristais. Certifique-se de que fazem um bom serviço e, no caso de estabelecimentos virtuais, saiba se as imagens são mesmo do item que você está comprando.

● Não acredita em nada disso? Nem eu. Não se crê numa pedra, constata-se. Ela existe, assim como a energia. Somos energia; cristais são energia. Mas se preferir não se dedicar a prática alguma de purificação ou programação, faça uso da beleza dos cristais elencando os que você realmente gosta para testemunhar suas atividades. Invariavelmente as forças tendem a ser favoráveis aos seus propósitos.


Por fim, espero ter sido claro ao apontar alguns conceitos, mesmo que rapidamente, sobre os cristais lado a lado com os arcanos. Assim como os cristais me ajudaram perceber que são eles os ancestrais mais antigos do qual falava a coruja azul. E enquanto recolho meus tesouros lá no jardim, desejo que você tenha boas surpresas com suas pedras — as que já possui e as que virão. E que faça da sua condição de oráculo e/ou consulente uma realidade cada vez mais brilhante, refletindo suas próprias cores no assombro das horas. Na formação mágica que é nossa vida.

Arcana, por excelência. 



L.




B I B L I O G R A F I A

DUNCAN, Antonio. ABC dos Cristais. Círculo do Livro, 1992.
SIMMONS, Robert; AHSIAN, Naisha. The Book of Stones. North Atlantic Books, 2007.
WALKER, Barbara G. The Book of Sacred Stones. Harper&How, 1989.