sábado, 11 de maio de 2013

A COR DO SÍMBOLO

Proserpina
Dante Gabriel Rossetti, 1874
Tate Britain, Londres


Mas la granada es la sangre,
sangre del cielo sagrado,
sangre de la tierra herida
por la aguja del regato.
Sangre del viento que viene
del rudo monte arañado.
Sangre de la mar tranquila,
sangre del dormido lago.

Canción Oriental | Federico García Lorca, 1920



Qual é a cor predominante do fruto d'A Sacerdotisa?

O segundo arcano maior é uma imagem de grande poder no Tarot. A Mãe Celestial. Pudica, permanece prostrada entre as colunas mais famosas de toda a literatura esotérica — B e J, o chiaroscuro dos dentros. Madame da polaridade, senhora do presságio. Shekinah, misticamente falando. The higher and the holiest of the Greater Arcana, segundo o próprio Waite. Claro que todos os arcanos são fortes em suas potencialidades simbólicas, é sabido. Confesso que A Sacerdotisa é uma das minhas figuras arquetípicas prediletas. Precedendo A Temperança e A Força, é a feiticeira mais poderosa do círculo, justamente por sustentar as colunas do mistério. Oráculo em carne e espírito. Diáfana. Noiva-enigma do mundo. Musa impassível [feito o mármore de Brecheret].

Dentre os ornamentos clássicos mais inquietantes, vejo eu, está a cortina em The High Priestess de Arthur Waite, concebida pela genial Pamela C. Smith. Não simplesmente por ocultar o mar às suas costas, mas principalmente pela estampa do tecido — uma tapeçaria ornamentada de romãs.


The High Priestess | Waite-Smith Tarot
U.S. Games Inc.

Romã no quintal. Romã no própolis. Romã nos livros.
Romã nas lembranças da avó. Romã nas pinturas. 
Romã nos oráculos. 
Romã na poesia. Romã nos sonhos. 

Romã. Escrever sobre.
Entendi.



Sofiko Chiuareli | The Colour of Pomegranates, 1968



A Musa do cartomante é a analogia 

Sempre que revejo A Cor da Romã [1968], meu filme-poema predileto do armênio Sergei Paradjanov sobre as vidas e as mortes de Sayat Nova, um trovador do século XVIII, me certifico da importância do estudo simbólico. Do ritual da imagem e do conceito, por assim dizer. A predisposição à pesquisa e à prática com absoluto cuidado e alguma demora. Uma performance exemplar durante a leitura do oráculo requer alimentação artística e histórica constante.

Letramento, interesse, disposição. Fúria. Assim, embriagado pela beleza do simbolismo bizantino temperado com magia poética, reuni alguns baralhos e comecei a garimpar a presença da infrutescência na simbologia arcana. Já via A Maga do Crescente Lunar na minha mente quando então passei aos outros arcanos até chegar em The Empress, do mesmo Rider-Waite Tarot: Vênus que veste as romãs. The fruitful mother of thousands. Daí para lembrar do famigerado Tarô Mitológico foi um pulo: estamos entre Mulher e Donzela, com o ventre de vastos códigos e significados.


Perséfone e Deméter
The Mythic Tarot
Fireside, 1986.

A única filha de Zeus com Deméter era agraciada pelos deuses. Koré, a virgem cuja beleza cintilava a ponto de suscitar o desejo de Hades: desposá-la, mesmo que sem o consentimento da mãe. Assim concedeu Zeus o pedido de seu irmão que, impaciente, a raptou enquanto colhia narcisos. Deméter, inconsolável, passou a se tornar cada vez mais relapsa em suas funções. Trouxe a esterilidade aos campos ao rarear os alimentos, suspendendo o ouro dos trigais. Enquanto isso, no Hades, Perséfone rebelava-se com uma greve de fome, logo começando a enfraquecer. Temerosos pela reação de Deméter, os deuses recusavam-se a revelar o paradeiro de sua filha. Depois de uma longa jornada, descobriu que a jovem deusa havia sido levada às profundezas. Decidida a manter a escassez na terra enquanto não reavesse Koré, a mãe é atendida por Zeus, que ordena ao irmão a devolução de sua filha. Porém, tendo a garota provado das sementes de romã dos campos de Hades, conclui-se que ela não havia rejeitado com veemência o seu raptor. Quebrar o jejum com um fruto do submundo significava prender-se a ele. Criou-se um elo, já que Hades de fato seduziu Koré pela doçura de suas sombras. Concedeu à esposa os caminhos ocultos por meio da infrutescência. Assim, estabeleceu-se um acordo entre as famílias: ela passaria uma parte do ano com sua mãe e uma outra com Hades, tornando-se Perséfone, a dos olhos negros. Regula, ao lado de Deméter, os ciclos de cada ano. A vida que brota e fenece. A fertilidade e também a esterilidade da terra.

Perséfone e Hades banqueteando.
Atenas, 440-430 a.C.

Brincando de bibliomancia enquanto relia o delicioso As Núpcias de Cadmo e Harmonia, caí na página do rapto, tecido com tanto esmero por Calasso: Core, a pupila, estava portanto no umbral de um olhar em que teria visto a si própria. Estava estendendo a mão para colher aquele olhar. Mas irrompeu Hades. E Core foi colhida por Hades. Por um instante, o olhar de Core teve de desviar-se do narciso e encontrar-se com o olho de Hades. A pupila da Pupila foi acolhida por uma semelhante, na qual viu a si própria. E aquela pupila pertencia ao invisível.



As sementes quando são desveladas

Sofiko Chiuareli | The Colour of Pomegranates, 1968
















Nem todos os mistérios que encerram a romã estão no papel. Até porque o exercício visual é necessário. Sempre. Percebe-se, com absoluta atenção aos detalhes, que no arcano II as romãs estão atrás da figura principal, enquanto que no arcano III, o fruto está sobre a figura — envolto em seu corpo. É nítido que A Sacerdotisa não indica necessariamente nem gravidez nem esterilidade, já que encarna a virgindade, persona casta que preserva seus mistérios e segredos. Inaptidão sexual. Desconhecimento ou silêncio dos próprios desejos. Já n'A Imperatriz, discretamente as romãs saltam aos olhos, confirmando os sintomas clássicos de prosperidade. Na primeira, o potencial [de sexualidade e fertilidade]; na seguinte, a latência. 



A Sacerdotisa e A Imperatriz
Waite-Smith Tarot | US Games Inc.




É do rastro de Afrodite, no Chipre, que nasce a romã. A primeira dádiva de seus passos. A composição carnosa da planta passa a ser associada à vagina, à condição intrínseca de fertilidade. Um estimulante — o afrodisíaco primordial. Em meio ao caos dos fragmentos míticos, o pomo púnico acaba se conectando à Maria [e à Igreja, já que a profusão de sementes representa a união, os fiéis em torno de Cristo, a vida que pulsa]. Em algumas catedrais e museus, principalmente na Itália, a representação se mantém. La Vergine. La Madonna della Melagrana. Nem todos os mistérios estão no papel mas também nos caminhos cíprios. Nas artes. Nos próprios mistérios. Artefato. Víscera da Musa.


Sandro Botticelli | Madonna della Melagrana, 1487.
Galleria degli Uffizi, Firenze, Itália.

La Papisa prepara una eclosión. Espera que Dios venga a inseminarla. Me lembro bem de Jodorowsky falando do processo de incubação do segundo Arcano Maior. Se ela pode traduzir-se como gestação, na próxima carta numerada temos o afloramento. Nasce e desenvolve-se o fruto. E James Frazer, famoso historiador entre os adeptos da Bruxaria, propõe Deméter como a colheita madura do ano enquanto Perséfone encarna a semente. A catábase de Koré seria uma expressão da semeadura. Seu reaparecimento então significaria o despontar do novo cereal. Assim, a Perséfone de um ano seria a Deméter do seguinte. Parir associações, sempre com o devido cuidado, faz com que as cartas tenham ainda mais sentido quando colocadas em evidência. O êxtase da leitura é a performance do olhar. Teoria e prática num ramo [de ouro e narcisos] bem consistente.




Uma descida aos infernos (da imagem)

Sofiko Chiuareli | The Colour of Pomegranates, 1968















Gosto de jogos imagéticos. Dos véus. Hologramas. Tanto que agora, descobrindo o Petit Lenormand depois de duas sabatinas com Alexsander Lepletier em Curitiba e em São Paulo, as combinações tem sido uma divina diversão. São feitiços. Pelo fato de nem sempre serem percebidos a olho cru, tonificam a voz do oráculo. A capacidade de versificar as figuras e compor um poema cada vez mais bonito e rico de significado. Interpretação de símbolos. E confesso que faço cara de origami quando me dizem que gostam da 'facilidade' que o Tarô Mitológico proporciona [ainda vigora esse tipo de argumento], mesmo que não consigam fazer dos mitos ali encarnados apenas uma sugestão à compreensão do arcabouço em vez de lindas, rápidas e definitivas roupagens aos arcanos, que por sua vez existem e significam por si próprios; como se o símbolo fosse um organismo hermeticamente exato e indiscutível a ponto de se sobrepor ao que o arquétipo cansa de caracterizar. Mas gosto de jogos imagéticos, gosto mesmo. E se às vezes vejo Perséfone n'A Papisa, devo ter toda uma bagagem de pesquisa para apropriar minhas impressões e constatar possíveis associações. Sair dizendo que a mulher n'A Estrela aparece nua porque está debilitada devido à destruição d'A Torre soa tão taxativo quanto absurdo. Mas este é um outro caso.

Faço de conta que uso o Tarô Mitológico e sorteio A Sacerdotisa numa leitura sobre o paradeiro de algum objeto, pessoa ou animal [vide experiências de Zoe de Camaris e de Giane Portal]. Devo dizer que o elemento procurado se encontra abaixo de uma escadaria escura? Não, não necessariamente. Mas preserva-se a ideia de oculto, escondido, praticamente inalcançável a olhos nus — o Hades é o invisível que está ali, não?

As cores das Musas
instagram.com/leochioda


Uma ode ao bom senso. Um hino homérico. Os degraus infernais de Greene e Sharman-Burke são uma novidade simbólica, mesmo que a ideia de ocultação, mistério, perda e desencontro mantenha A Papisa guardando seu templo, reino tão rico em segredos. Ou nas alturas do Capitólio presididas por Juno, rodeada de pavões e  romãs, uma antiga representação do arcano. Tão inatingível aos que não se permitem enxergar [o] além. E é a partir do mergulho nos ornamentos e atributos, sempre respeitando e preservando a estrutura clássica do conjunto de cartas, que posso vislumbrar os véus de Perséfone no segundo arcano maior. Até mesmo usando um Marselha.

Que haja coerência, portanto. Não só simbólica, respeitando cada sistema [astrologia é astrologia, mitologia é mitologia e tarô é tarô, mesmo que possam dialogar entre si], mas também interpretativa. E que os mitos, os dicionários de iconologia e as referências folclóricas sejam ingredientes à compreensão e à fortificação do poder de analogia dos símbolos. Não verdades inquestionáveis proferidas pelas bocas do achismo nem bengalas para se entender a dinâmica dessas imagens há tanto plasmadas em nossa cultura. Apenas afrodisíacos disponíveis para refletir o poder dos símbolos. As cores de cada um deles diante das mil faces da analogia.


O poeta morre, mas não a sua Musa, deixou o armênio Sayat Nova em um dos seus versos. 
E qual é a cor do símbolo? Pesquisa, fúria, atenção e qualidade. O sangue da excelência, vertido de todo árduo submundo. Só assim para que haja luz sobre todas as tonalidades de nossas cartas e palavras.

L.


The Colour of Pomegranates, 1968



Os livros no colo
BIBLIOGRAFIA SUGERIDA

CALASSO, Roberto. As Núpcias de Cadmo e Harmonia. Companhia das Letras, 1991.
FAUR, Mirella. O Legado da Deusa. Rosa dos Ventos, 2003.
GRAVES, Robert. O Grande Livro dos Mitos Gregos. Ediouro, 2008.
LAO, Meri. Musica Strega. Edizione delle Donne, 1977.
LORCA, Federico García. Poesía Completa. Galaxia Gutenberg, 2011.
NAIFF, Nei. Tarô, Vida e Destino. Best Seller, 2013.
SHARMAN-BURKE, Juliet. Os Segredos do Tarot. Editorial Estampa, 1998.

domingo, 17 de março de 2013

UM TARÔ PARA MARINA ABRAMOVIĆ






Symbols are an artist’s language 

An Artist’s Life Manifesto




The Life and Death of Marina Abramović, 2011

the Srenght
A FORÇA









The Dragon Heads, 1990

the Devil
O DIABO








The Life and Death of Marina Abramović, 2011

the Death
A MORTE












The Life and Death of Marina Abramović, 2011

the Tower
A TORRE














Back to Simplicity, 2010

the Empress

A IMPERATRIZ








Portrait with a Scorpion, 2005

the Moon
A LUA










Rest Energy [com Ulay], 1980
the Lovers
OS ENAMORADOS









The Kitchen, 2009
the Judgement
O JULGAMENTO









Harper's Bazaar, 2012

the Priestess

A SACERDOTISA











The Kitchen, 2009
the Temperance
 A TEMPERANÇA










The Dress, 2008

the Star
A ESTREL
A










The Relation Work, 1976

the Chariot + the Wheel of Fortune
O CARRO | A RODA DA FORTUNA











Harper's Bazaar, 2012

the Justice
A JUSTIÇA









An Artist's Life Manifesto

the Magician


O MAGO











Freeing the Voice, 1970

the Hanged
O PENDURADO












The Kitchen, 2009

the World
O MUNDO











The Life and Death of Marina Abramović, 2011

the Emperor
O IMPERADOR 











Marina Abramović Community Centar Obod, 2011

the Hermit
O EREMITA













The Artist is Present, 2010


the High Priest
O PAPA













Portrait with Flowers, 2009

the Sun
O SOL














The Lovers | The Great Wall Walk, 1988

the Fool
O LOUCO











TARÔ 
É 
PERFORMANCE.


sexta-feira, 15 de março de 2013

CADA REPETIÇÃO É MUDANÇA




O tempo não está fora de nós, nem é algo que passa diante dos nossos olhos como os ponteiros do relógio: nós somos o tempo, não são os anos que passam, mas nós que passamos. O tempo possui uma direção, um sentido, porque ele é nós mesmos. O ritmo realiza uma operação contrária à de relógios e calendários: o tempo deixa de ser medida abstrata e volta a ser o que é: algo concreto e dotado de uma direção. Contínuo emanar, perpétuo ir além, o tempo é um permanente transcender-se. Sua essência é o “mais” — e a negação desse mais. O tempo afirma o sentido de um modo paradoxal: possui um sentido — o ir além, sempre fora de si – que não cessa de negar a si mesmo como sentido. Destrói-se e, ao se destruir, repete-se, mas cada repetição é uma mudança. 


Octavio Paz | O Arco e a Lira. 
Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht 
Cosac Naify, 2013.

domingo, 10 de março de 2013

ANATOMIA DO PENDURADO


Le Pendu | Winston Tong




DEFINIÇÕES 
taxonomia da suspensão


Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Mammalia 
Ordem: Primata 
Família: Hominidae
Gênero: Homo
Espécie: Homo sapiens
Hierarquia arcana: Maior
Natureza: Retrógrada; unidimensional
Habitat: literatura, mitologia, religião, relações humanas.
Caminho: da Dor
Período de atuação: ininterrupto; atemporal.
Função cultural: aprendizado, arrependimento, humilhação, correção de erros, iluminação.
Iconografia relacionada: humano sacrificado, punido, abandonado, ofertado.



A CARA [E A COROA] DA TRAIÇÃO
And Judas is the demon I cling to


TRAITOR | The Tarot of the Sevenfold Mystery, de Robert M. Place

Vedi, bambino. Ludovica, com os olhos verde-amarelados pelo sol através das folhas da sua bétula, suspendia delicadamente um fio de lã. Parada à minha frente, com o rosto fixo em mim equanto tomava café na soleira de sua porta, ela mexia apenas o braço direito. Um pequeno boneco de pano descia pela outra ponta, amarrado por uma das pernas. Percebi que era recheado com ervas — paus de canela feito membros, cabeça com botões e miçangas, boca costurada com um leve sorriso — ecco il Traditore! 

Curioso encarar O Pendurado como um traidor. Na Itália, por meio do treinamento com uma menina em corpo e alma de strega, pude perceber — entre poemas de Folgore di San Gimignano e Ungaretti — que o Tarot é tão belo quanto trágico. Tão cômico quanto as origens da minha família e os causos perdidos de toda ancestralidade. Foi também em Perugia que passei a inverter o arcano XII com mais frequência e sentir os traços de seu rosto: do tédio ao desespero, com pitadas de raiva. Mapear as feições do invertido acaba sendo uma tarefa auspiciosa quando se tem a história como aliada irrefutável.

Judas Escariotes. Moedas. Mãos atadas. E que fique claro: a corruptela O ENFORCADO se dá pela tradução direta do vergo to hang, que também significa pendurar, suspender.   A nomenclatura foi viciada. O homo sapiens imobilizado mantém-se, iconograficamente. The Dying God se penso em Crowley e seus bruxedos associativos, graças aos toques de Lady Harris. Drowned Man. O Suspenso é O Louco, numa oitava mitológica. O herói em apuros necessários. O que se vira nos 30.



E DO CORPO AO ESPÍRITO
Pernas, pra quê te quero?


Hanged Man | Jordan Clarke


A literatura esotérica é tão rica que produz e colhe sentidos variados às amarras do traidor apostolado enforcado abnegado Pendurado. Óbvio que a simbologia do corpo humano se constata nas cartas, mas atribuir um sentido específico e imutável ao fato de o personagem ter sido preso pela perna esquerda ou direita é um exemplo de encheção de linguiça — e que me perdoem os mais fanáticos. O homem já é símbolo de atividade e destreza. Pendurado pelo pé é sinal de sacrifício e renúncia. Um dos membros inferiores, dobrados, significa impossibilidade de realização. Perna pra quem tem: fugir das atribuições escalafobéticas é um grande passo na direção da coerência interpretativa.

Aliás, o fanatismo vem a ser um atributo pouco explorado deste Maior: em termos espirituais é o fervoroso, o que promove a autoflagelação, o que dá a carne em troca de algo maior e mais importante. Opus Dei feelings. A renúncia como caminho à transcendência.














Mas este holy fool é mesmo um bálsamo quando se questiona sobre o caminho espiritual a ser trilhado ou construído. The Yellow Brick Road até o Paraíso acaba sendo possível quando o buscador se desarma e permite que a vida o leve, que a fé o desterre daquilo que é inútil ao crescimento interno. Definida a verticalidade de sua transcendência, O Suspenso deixa a desejar quando se trata do coração.




VIRADO NO AMOR
You better hang on to yourself

The Love Show | Hanged Man, por Aaron Vizos


Amar é ver diferente.
Depois fica-se cego.
Mas primeiro é ver diferente. 


[Gonçalo M. Tavares]


O Pendurado nos dá noção de corpo. Já reparou no quanto nos dilaceramos quando o amor deturpa nossa visão de mundo? Quando há decepção amorosa, o sofrimento toma a forma de um ser invertido, vertido na desgraça do abandono ou da injustiça, no último milímetro do fim da linha. Nada à frente. O que fazer, o que fazer!? Tomo pra mim certo desespero ao ter de prenunciar que é nulo o futuro de relações marcadas por esta criatura às avessas. As dores do amor são maiores quando o sangue desce à cabeça — permanece o descaso com a vida, consequentemente. Como enxergar os quereres do menino Eros quando se está em suspensão? Ata-me e incendeia, parecem dizer os que gostam de sofrer. E não somos todos um pouco sádicos a esse ponto? Há um lampejo de esperança em todo fundo de poço. A impossibilidade de relacionar-se com sabedoria e autenticidade se torna uma constante se não houver a capacidade de desatar certos nós. Virilidade zero se não conhecer sua própria morfologia. Botar a mão na massa, mais que necessário quando O Humilhado é augúrio.

Mas é também um convite — nobre, muito nobre — a uma nova visão de tudo e de todos. Que fique claro: transmutar o nadir em zênite é reconfigurar toda a esfera dos afetos a partir de decisões menos violentas para com o corpo. O corpo, O Pendurado nos dá a noção dele. O coração de cabeça para baixo é oportunidade de oxigenar expectativas e verdades até então inquestionáveis. Há maior lucidez quando se inverte os olhos. Confirma-se a necessária repaginação da paisagem. O teto é chão. E o amor não é mais o mesmo, não por um bom tempo de suspensão.



Sherlockian Tarot | www.sherlockiantarot.tumblr.com



JOGO DE CINTURA
Fear can make you compromise


Tempo de suspensão. Pois bem. Revirar os textos, revirar os baralhos. E não é árdua a tarefa de enxergar este mundo por outro prisma? Não, não por outro prisma, mas por outros ângulos. Favorecer a inversão a ponto de faiscar o cerebelo: entenda que nem tudo é o que parece, pois pode estar de ponta-cabeça. Acrobata, O Pendurado é um exímio acrobata também. Perceber estas nuances de movimento a partir de uma perna vai além da noção de impossibilidade. Nos torna exímios improvisadores. 

Quando empresários procuram minhas leituras e o XII é sorteado, alerto à destreza necessária. Negócios e investimentos são amarras adoráveis. Desafios transponíveis com a condição irrefutável de transformação e contenção. Respirar fundo e tomar consciência do entorno. Mapear o movimento da concorrência, mesmo que de mãos atadas. A boca se torna a arma. O conselho é mudar, mas não tudo de uma vez. Uma coisa a cada tempo, nem que seja em questão de segundos. Um movimento brusco pode botar a perder uma empreitada invejável. O medo pode fazer com que você se comprometa até doze gerações a frente. Suspendê-lo, então. Encarar os fatos é assumir a gravidade da vida. E com essa frase apelo a todas as interpretações possíveis. Suspender-se. Cair é natural; permanecer preso é que é opcional. Valha-nos, Houdini!



Harry Houdini | Times Square, 1915.



CONSIDERAÇÕES FINAIS
De um rápido relatório do acaso


Veja bem, querido e querida tarotista: malhar o arcano não lhe ajuda em nada. Não é encardido e nem [tão] desagradável quanto parece — e volto a professar uma didática antiesquisotérica com o que é lúgubre e obscuro, talvez pela bendita Lua em Escorpião tão bem aspectada: tudo bem detestar a figura de Judas pelas calçadas do inconsciente, mas violentar a carta ao longo das leituras é ignorância. Ela é essencial, como todas as outras 77, à estrutura do que simbolicamente nos define. Preservemos, pois, a anatomia divina do oráculo. É O Pendurado quem nos dá noção de corpo. Lição de hoje e de sempre. Levar esta lâmina ao abate, aplicando a ela uma noção genuína de fim de carreira e fim de felicidade é o mesmo que limitar seus atributos ao que se vê [não muito bem]. Compensa, talvez, forçar um pouco a vista e até mesmo a vida. Estender a mão ao Invertido. Dar um salto e curvar a retina. Constatar o caráter messiânico desta carta diante de todo e qualquer conflito. Passa, tudo passa. Enquanto se endireita a coluna, o [bom] futuro se ladrilha.


Não é mais que tempo de vislumbrar o novo?


OSHO Zen Tarot | Ma Deva Padma