1 de dezembro de 2015

A IMPERATRIZ DE DEZEMBRO

The Tarot of Prague
Alex Ukolov & Karen Mahony
Baba Studio, 2004


Um corpo e suas regras. Um destino talhado em leite. A profusão dos dias é feminina — estamos na aurora do novo ano, nas horas puras da carne mais nua. Tudo aqui nos revela: mãe, avó, irmã, amante, amiga e vilã. Trinta mil e uma noites. O oráculo aponta um período de cuidados redobrados com a saúde e com a dignidade. Cinquenta tons de vulva. Reivindicações de ventre em polpa. São meios cordiformes de exigência e de suspiro. Só as mães são ferozes, em dezembro. Só o progresso gradativo e a sensualidade confirmada é que vingam. 

Um mês de coroamento. A poesia absurda da coragem. As flores, as peles. Um vulcão brotando para salvar o mundo. Uma ideia é estrela jorrando do peito da deusa. Tendência à luxúria, à beleza, ao afeto declarado pela vida. E um trono de futilidades vertidas na mesa familiar — o espírito do fácil contentamento dando um passeio. Sementes que brotam no pé da imagem. Árvore dos órgãos e jardim das funções. A harmonia, em dezembro, merece o ouro. Senhora dos tecidos. Física das ideias. A redoma dos filhos materiais, dos desejos consentidos, do sexo em chamas.

A Imperatriz floresce — assim na terra como no céu — e beija a tempestade. Voz e barco do próprio oceano. Ouve o campo e agiliza o cotidiano. A roda íntima de toda Fortuna. São dias de glória, horas de ódio e minutos de futilidade. Ser o refúgio, o complexo e o triunfo de si. Uma estrofe bem cuidada à razão e ao drama. O coração da escolha. O trono da vontade. O colo da atitude.

Só as mulheres são felizes, em dezembro. 
Toda a Via Láctea, por tabela.



Texto © Leo Chioda para Café Tarot.

1 de novembro de 2015

A ESTRELA DE NOVEMBRO


The Tarot of Prague | Baba Studio, 2004
Simonetta Vespucci como Cleopatra | Piero di Cosimo, 1477

A gentileza, o sublime, as cores, os planos, a purificação. Uma tendência a contornar os erros, enxergando a cintilância no fundo do poço. Uma luz no impossível. Mês regido pela conjectura da serenidade. Consonância entre dever e desejo. Período marcado pelo sensação de predestinação: o lugar certo, a palavra oportuna, a reação necessária — ainda que nem sempre esperada. Um quarto de ofensas vertido no esquecimento. Despejo bem propício de mágoas no grande nada. Sabotar os próprios planos de vingança. Colecionar menos raiva. A desforra não é líquida, por isso não acha passagem. O corpo deve se manter fechado a toda e qualquer tentativa de excesso. O brilho é intenso e a radiância é um vício — querer ser o centro do universo, ansiar pela translação da existência em torno da perfeição de si. Oh, falsa modéstia! Tu não és bem-vinda! Gerar motivos de ódio pela firme crença de que se é inatingível. O que nos confunde, em novembro, é a vontade súbita de ser o palco {estrela já somos na profusão das vaidades}. E há a menina dos olhos de Breton. Arcano 17 ajoelhado entre o medo do medíocre e o coração da plenitude. 

A grande inimiga do período? A opacidade. 

Mas A Estrela expurga. Água de cura. Derrota a impureza insistente das lamúrias. A carta da higiene exemplar na reta final do ano. O gesto é um afresco: dois jarros sorvem o melhor e o pior, de mim e de ti. E tudo azul, ainda assim. A Estrela é o fulgor. Renovamos o pacto de esperança diante de um caso perdido. Contrato irrevogável de otimismo, digno de pena. É a deusa de trinta dias, o senso de ordem depois da chuva. Tudo em seu devido lugar — se é que há lugar no devido tempo. E toda intuição pode desencadear o melhor das circunstâncias. A fruição dos textos, os cristais dourados. Ler poemas do Wilde e do Keats no original.
Novembro de alguma tranquilidade. 'Stella Maris' coordenando o mar sonoro, profundo e sem fim das emoções. Vênus da expectativa no céu da tarde. O horário de verão auspicioso, o desejo mais louco. Tendência a encontrar mil desculpas e a se perder nas termas da ingenuidade. O mundo é selva e você se esquece disso. Ainda assim, um mês para acreditar no genuíno empenho. No trabalho sem descanso regado a bom gosto. Um projeto luminoso desponta nas alturas — meio caminho a ser venerado. Rajada de flor adentrando a vida. A língua dos anjos. O barroco da simplicidade. Este caminho branco e descalço pelas ilhas gregas. A mais antiga Musa narrando a rotina.

Somos todos pó de estrela, em novembro. 
Contra o vento. Em tudo.


Brilha, brilha, Guia Suprema.

1 de outubro de 2015

ARCANO DO MÊS ✦ "A LUA"

The Tarot of Prague
Baba Studio | Magic Realist Press, 2004


A traição, o erro, a ignorância, a raiva. As carências, todas nítidas na escuridão. Um mês regido pela musa impassível dos mistérios pressupõe mergulhos profundos no que tem sido evitado. É o período do feitiço mais forte, da comunhão entre os mundos, da mandinga imbatível. O baile dos artrópodes. Um concílio de anjos e bruxas na carne trêmula. Há de se ter cuidado com a voz de Chet Baker. 

Fechar o corpo é favorável — desencontrar a passagem da inveja, quitar o som do rancor. Ah, fúria imóvel do amor perdido! Comece debilitando a própria maledicência. Toda presunção será questionada. E toda intuição será coroada à medida que a coragem pulsar na sombra. É nela que o sangue tem mais brilho. Evite Kafka e as cartas de amor com mais de dez páginas. Ou então abrace o monstro. De coração.

Azul, negro, alvo. Outubro rosa. 31 dias de auspício, névoa e bronca. Força e firmeza. Fulgor prateado desde a garganta. Um mês para discernir o caminho mais auspicioso — entre a dúvida e a certeza.

✦ AGENDA DE CONSULTAS http://goo.gl/QyJLi3

✦ OS ARCANOS DE OUTUBRO http://goo.gl/vMWi3G

26 de julho de 2015

PRUDÊNCIA



'Prudentia', observa Cícero, vem de 'providere', que significa tanto 'prever' como 'prover'. Virtude da duração, do futuro incerto, do momento favorável (o 'kairós' dos gregos), virtude de paciência e de antecipação. Não se pode viver no instante. Não se pode chegar sempre ao prazer pelo caminho mais curto. O real impõe sua lei, seus obstáculos, seus desvios. 

A prudência é a arte de levar tudo isso em conta, é o desejo lúcido e razoável. Prudência é o que separa a razão do impulso, o herói do desmiolado. Ela determina o que é necessário escolher e o que é necessário evitar. Assim, no homem, a prudência faz as vezes do que é, nos animais, o instinto — e, dizia Cícero, do que é, nos deuses, a providência.


André Comte-Sponville
Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, 1999


The Tarot of PragueBaba Studio, 2004



24 de junho de 2015

PEDRO CAMARGO

08/04/1941 — 24/06/2015


Uma singela homenagem ao cineasta e tarólogo que nos deixa hoje. Além de dirigir a revista Ano Zero nos anos 80, Pedro escreveu o livro 'Iniciação ao Tarô', pequeno grande clássico da literatura esotérica nacional. Um amigo querido que deixa muitas lembranças e muita sabedoria compartilhada. Abaixo, um trecho significativo da obra, que merece ser lida e relida.




Uma curiosa característica do Tarô é que, no fundo, ele nos diz tudo que já sabíamos. Mas, como em geral não temos consciência de tudo o que sabemos, essas revelações têm o poder de nos assegurar a confiança e, portanto, a tranquilidade de agir de acordo com o que a vida espera de nós. Que situação pode ser mais feliz do que estar de bem com a vida?

A tendência da vida é dar certo, como a da semente é germinar. Quando achamos que as coisas não andam bem, é porque elas não estão correspondendo aos nossos projetos pessoais. Mas quem garante que nossos planos são os mais adequados?

A consulta ao Tarô, quando bem realizada, certamente vai apoiar a melhor atitude ou caminho a serem adotados em face de quaisquer circunstâncias. Esta nos parece a principal função social do Tarô: proporcionar ao consultante a possibilidade de administrar seu futuro pessoal, integrado ao desígnio supremo a ele reservado: o desígnio cósmico. Em outras palavras, saber onde se encontra o tesouro, seja nos sombrios porões após o incêndio ou nos salões iluminados da festa.


INICIAÇÃO AO TARÔ
Nova Era, 1992

22 de abril de 2015

REIS DE COPAS



Jude Law | Alfie, 2003



É com o REI DE COPAS que o Cavaleiro aprende a brandir autêntica sedução.

 O que é leal por toda a eternidade de uma noite. Senhor sempre jovem, o que faz bem feito. 
Menino que se garante — adulto aos 17, guri aos 60 — na cama e no peito. 

Artífice do Amor.

Aquele que traz as flores nos olhos.








Leonard Cohen




Um REI DE COPAS pode bem ter a voz de um deus. 


Cálido e cálice, with a burning violin. 
Não, não basta a perdição nos olhos. 

Se ele chegar cantando I'M YOUR MAN no seu ouvido, ele é seu. 
Sim. Duvide nunca.







Neil Gaiman




O REI DE COPAS é um vislumbre do perpétuo.

Canal dos mais nobres imaginários. 

Áureo. 

Água onírica governando desde as sombras.
Sabe o que ele vende? 
Sonhos.







Beatles




Cada homem é um Rei e mil outros. 

De vários-todos os naipes. 
Mas cada um tem uma gota de REI DE COPAS.


E bebem de tudo. 
Exímios na arte do chá inglês. 
Oh, believe me, darling.

Sabe o que acontece quando você os encara? 
Música.





Johnny Depp




E pra fechar em COPAS, saibamos: 
o REI vai sempre oferecer um brinde. 

Mesmo que você não aceite seus personagens. 
Mesmo que tudo ao redor desmorone. 


É a carne da elegância, o assombro de tantos talentos.
Apesar de todo e qualquer arrebatamento erótico.

Cena primordial do coração. 
E a última cartada. 
Imagem. 
Palavra.

Cheers.



14 de fevereiro de 2015

CARTAS DE AMOR

CONIUNCTIO 
capa do álbum New Skin for fhe Old Ceremony
Leonard Cohen, 1974




















Uma carta de amor nunca é inocente. É com essa verdade que Alberto Manguel fundamenta um ensaio homônimo. Nele o escritor argentino sugere encarar a correspondência amorosa como gênero literário nunca dantes navegado: estipular suas regras, seus labirintos de rosas regadas a tinta esferográfica e suas revelações — de quem lê e de quem é lido, já que cartas de amor descortinam identidades ao longo do mundo. Identidades floreadas de loucura, de desejo, de tristeza e de pertencimento. Sim, pois sendo amantes provamos gozar da faculdade de nos apaixonarmos: Homo amans por natureza. 

The Love Letter
Carl Spitzweg

Cartas de amor. Por toda a história da leitura há cartas de amor. Entre os primeiros vestígios de escrita estão relatórios contábeis e, claro, correspondências amorosas. Não à toa. De procedimentos mágicos a fórmulas químicas, o homem até tenta reduzir atração física e afetiva a cálculos, produtos e problemas cada vez mais insolúveis. Desde a Antiguidade é frequente o apelo aos meandros da superstição para trazer a pessoa amada ou mesmo para afastar quem não é do agrado. 

Ovídio já se indagava a respeito dos conjuros de amor. Palavras seguidas de diversos protocolos sombrios. As defixionum tabellae, ou 'maldições romanas'Teria sido algum veneno tessálico que tornou assim fraco aquele homem? Ou alguma feiticeira teria gravado seu nome em tábuas de cera vermelha e cravado agulhas no desenho cordiforme? Desde o sempre dos tempos existe a relação entre a magia e a poesia. Faz parte dos privilégios humanos tentar manipular elementos mais inusitados para rearranjar a Harmonia Macrocosmica a seu favor. Dentre os mais óbvios, estão as palavras. Palavras são flechas que se pode lançar, certeiras.  Dardos cupidos que ferem ou afagam. 
A escrita é feitiçaria. 


De Frida Kahlo para Diego Rivera



Escrevi pra ela, mas não sei se leu. Não me respondeu. 
Ela vai voltar pra mim? 

É esperado que o apaixonado escreva. Quando não aventura a pena pelas páginas, todas promissoras diante da grandeza incabida no peito, ele deseja saber de algum modo dos sentimentos de sua paixão — aquele ser vivente que arde aos seus olhos, carne amadíssima, o doce mais delicado, um anjo enquadrado para sempre. Especula-se a recíproca. Apaixonados são especuladores vivazes que recorrem aos conhecedores do destino. E tem-se o tema clássico de toda a vastidão da Cartomancia, o favorito e mais rentável entre os adeptos. O amor que escrevo. Amor que faz querer saber de cada passo dado. Interesse abrupto. Mil perguntas aos leitores de símbolos. Afinal, estamos sob a mesma abóbada conceitual da combinatória quando falamos dos extensos bilhetes deixados no meio caderno, no chão da garagem ou na caixa de correio e quando tratamos dos arcanos. A analogia funciona com o Tarô: são cartas de amor. Seja por sonetos arquitetados na madrugada ou por imagens arquetípicas embaralhadas à luz de velas, o apaixonado busca os dois lados do mesmo ouro: dizer o indizível; saber do palpável. 


The Chelsea Lenormand
MALPERTUIS

O que nos revela, então, uma carta de amor? Indagação preciosa a todo e qualquer oráculo que se preza à verdade. Nos revela a voz de quem lê a voz de quem se espera. Mais que isso, uma carta de amor revela a terceira pessoa, a pessoa amada na qual se transforma o amante. O conúbio alquímico de substâncias desiguais. CONIUNCTIO — a união de opostos, a geradora de um novo membro. Da alma e do corpo ao papel. E o Grande Senhor d'OS ENAMORADOS que a tudo preside.


ALCHIMIE
Nicolas Flamel

É a Copa o receptáculo da substância primordial por excelência. Água. Em várias civilizações e cosmogonia, precede a própria criação — o primeiro componente. Fonte geradora da matéria. Liga-se ao naipe de Copas pela fluidez: inspira e também respeita as curvas do vaso sagrado. Mãe da Estética. Regente do potencial criativo. Senhora absoluta das emoções. E se cabe um breve tratado etimológico do naipe, 'copa' vem do latim cupa. Precisamente 'vasilha grande'. Estamos diante do Cálice, o recipiente passado de mão em mão quando se bebe e se brinda. Símbolo da amizade e sugestão de solidariedade. Il Sangue di Cristo. Ambivalente por remeter tanto à ira quanto à alegria, na Bíblia. Taças diversas para expressar os humores de Deus. Os nossos.





Estamos, pois, na plataforma dos líquidos. Sangue, saliva, sêmen, lágrima. Tinta com que se escreve. O recinto do mênstruo. E como nada é à toa no Tarô, em Copas se celebra o Grande Rito. E Copas é coração, por sua vez. The Suit of Hearts. A redoma, o centro de onde irradia a ação do indivíduo. Centro para onde convergem as informações recolhidas dos órgãos dos sentidos. Não à toa, os egípcios embalsavam os mortos mantendo o coração em seu devido lugar. A sobrevivência no Além era impensável sem o coração.



Love Letters in Hakone
Tamiko Braun

Se as Copas aludem aos fluidos subterrâneos — àquilo que se brota, viceja e se prolifera nos recônditos — na estrutura do Tarô elas descrevem e enaltece nosso universo interior: alma, desejo, fantasia, aspiração. Os planos de vôo passam pelo delírio e são por ele consentidos. Tudo o que envolve o âmbito sentimental está em Copas, inclusive aquilo que não conseguimos mensurar em atos prudentes ou mesmo expressar em palavras. O gozo, a saudade, a satisfação da pele. Frente à necessária postura prática para realizar aquilo que tanto se quer, os valores pessoais se suplantam. Inabalável a busca pela felicidade verdadeira. É a casta sirênica. Estrada Real de toda a Lírica. Justifica-se como o naipe dos poetas. 


L'amante nel'amato si transforma

Uma carta de amor nunca é inocente. Tanto que é copiada de modo ininterrupto ao longo dos tempos. Eis o princípio da imitação, também caro à literatura clássica. Molde que se transmuta aos poucos. Alguns dos mais belos versos da língua portuguesa, por exemplo, obedecem ao mesmíssimo princípio. Camões que bebe de Petrarca. Embora se mantenha algum racionalismo. Quem se escreve não se abandona totalmente ao fluxo emocional. Mesmo que uma seja escrita sob a égide do coração inflamado, a Razão parece sondar cada parágrafo. Tal processo também ocorre no Tarô: um baralho novo em folha pode trazer roupagens diversas de um mesmo arcano. Acontecem várias deformações simbólicas, mas aos olhos atentos de estudantes e colecionadores, essas novas visões das cartas tendem a acrescentar algo ao arcabouço de experiências. 



Ace of Vessels
The Alchemical Tarot

ROTEIRO AUSPICIOSO pelas cartas de amor

Estamos em Copas. Se é este o jardim encantado de Eros, podemos nos servir das cartas para inspirar os períodos mais significativos. Guiados pelas suas mãos de flechas, é quase certo chegar a grandiosas investidas na comunicação escrita.  Debrucemo-nos sobre o protótipo a seguir, um básico-clássico-anônimo:


Amor,

Te escrevo para demonstrar o quanto você é importante para mim. Eu te amo e quero estar com você. Casar, ter nossa família, nossa vida juntos. Quero estar cada minuto da minha vida ao seu lado, celebrando tudo o que a vida oferece. Quero estar com você para o que der e vier.Assim como quero dar conta das situações que se mostram todos os dias, sem deixar passar nada, porque só penso em estar bem com você. Sei que talvez seus sentimentos já não sejam os mesmos de antes, por tudo o que tem acontecido entre nós. Mas sei de uma coisa: quero que tudo volte ao que era, pois não há nada mais puro do que meu sentimento por você. Quero, de verdade, que sejamos o casal que desde o começo fomos destinados a ser. Sair conhecendo o mundo, vivendo intensamente nossas emoções, nossos desejos. Sem olhar para trás. Deixando todos os erros no passado. Esperando o melhor, dando o melhor para você e para nós. Você é minha felicidade. E eu só quero te fazer feliz. Quero ficar com você até o fim dos tempos. Você é a minha vida. 

Te amo para sempre.


As cartas numeradas de cada naipe do Tarô representam uma série de processos. Agora pode-se fazer uma incisão no texto, de acordo com cada arcano. Tem-se assim vários atributos das respectivas cartas na sua ordem numérica crescente. Duvida? Siga o acróstico.


The Tarot of Prague
Baba Studio

Ás. Te escrevo para demonstrar o quanto você é importante para mim. 

2. Eu te amo e quero estar com você. Casar, ter nossa família, nossa vida juntos.

3. Quero estar cada minuto da minha existência ao seu lado, 
celebrando tudo o que a vida oferece. Quero estar com você para o que der e vier.

4. Assim como quero dar conta das situações que se mostram todos os dias,
sem deixar passar nada, porque só penso em estar bem com você.

5. Sei que talvez seus sentimentos já não sejam os mesmos de antes, 
por tudo o que tem acontecido entre nós.

6. Mas torço para que tudo volte ao que era, 
pois nada na minha vida é mais puro do que meu sentimento por você.

7. Quero, de verdade, que sejamos o casal que desde o começo fomos destinados a ser. 
Sair conhecendo o mundo, vivendo intensamente nossas emoções, nossos desejos.

8. Sem olhar para trás. 
Deixando todos os erros no passado.

9. Esperando o melhor, dando o melhor para você e para nós. 
Você é minha felicidade. E eu só quero te fazer feliz.

10. Quero ficar com você até o fim dos tempos.
Você é a minha vida. Te amo para sempre.


Pois é. Nada à toa.
Quem disse que as Copas não são didáticas? Não, elas não se resumem a uma receita única, pronta. Escrever uma carta de amor é como uma leitura oracular: tem-se os símbolos à disposição; os contextos, as medidas e a performance são variáveis. Infinitas possibilidades. Se do Ás ao Dez temos cada etapa do processo da paixão — o rompante, a delícia, a quebra de expectativas, o desejo de consertar as coisas e ainda o ressurgimento da harmonia no coração —, as quatro figuras da corte é que de fato encenam o arrebatamento erótico. Toda destreza de uma performance querubínica. É a família de Copas que nos interessa e nos revela. As cartas numeradas estipulam sucessivos itinerários do sonho, mas são eles os regentes do Amor. Quatro vetores, quatro emissários. A realeza do âmago. O grande poder que insufla a Musa camoniana.













Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.




Pajem é aquele que anuncia. 
O primeiro, o mais novo, aquele que se entrega às emoções. Sincero, prestativo, delicado, passional. Se não é quem escreve, é quem entrega. Modelo de pombo-correio. Tem em si todos os sentimentos do mundo, ainda em gestação. O portador da mensagem. 












Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está ligada.



Cavaleiro é aquele que leva. 
O caminhante determinado a vivenciar o trajeto — aquele que alça vôo no próprio desejo. Sincero galante a galope, transmuta a vontade em performance. Leva a mensagem mas pode fazer-se remetente para enfeitiçar algum destinatário que lhe avassale o sexo e o peito.












Mas esta linda e pura semidéia,
que, como um acidente em seu sujeito,
assim como a alma minha se conforma,



Rainha é quem recebe. 
Imagem arquetípica da bruxa que ostenta seus filtros. É Circe, quase deusa.  E é Penélope — a que espera a mensagem, a que retém os segredos. Flana descalça pela praia, absorta no próprio amor. Ela faz um brinde aos mistérios. Senhora dos fluidos. 












está no pensamento como idéia:
[e] o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.




Rei é quem manda. 
Quem escreve e ordena que a mensagem chegue ao objeto amado. E, transformado nele, é a estrutura dos próprios sentimentos. Senhor e vassalo do coração devastado, do prazer definido, do romantismo administrado na carne. Embriaga-se, investe e demonstra.


Ainda entre os egípcios, acreditava-se que aconselhando, tonificando ou mesmo censurando o coração, ele se torna um ser independente, como se a essência divina aflorasse — o deus que habita em cada ser humano. E é em Copas que damos por esse caminho iniciático. 




Carta-puzzle de John Keats para Fanny Brawne
em
Brilho de uma Paixão, filme de 2009


Todas as cartas de amor são ridículas. Mas são tão sérias a ponto de revelar quem somos, o que desejamos e como vivenciamos o melhor da vida. Por isso mesmo não se deve subestimar as cartas de amor. Jamais. As primeiras que recebi ainda guardo, a seis chaves, no baú das correspondências mais puras. Talvez porque cada pedaço de afeto sobrevive no papel com mais destreza que na catedral da memória. E existindo nela, o coração se descobre mais forte, fazendo jus a si próprio. 


Uma carta de amor é o próprio Graal. 
A busca primeira, a magna condição da saga humana. Um poema condenado. O papel fundamental. 
O nácar da alma.





Nada é à toa nos braços do Amor. 
Nem no Tarô.



de L. 

para A.









BIBLIOGRAFIA apaixonada


CENTENO, Yvette K. A Alquimia do Amor. A Regra do Jogo, 1982.
KING, Francis X. The Encyclopedia of Fortune-Telling. Gallery Books, 1988.
MAHONY, Karen. The Tarot of Prague. Xymbio, 2003.
MANGUEL, Alberto. História da Leitura. Companhia das Letras, 1997.
OVÍDIO. Amores & Arte de Amar. Penguin Companhia, 2011.
ROOB, Alexander. O Museu Hermético. Taschen, 2006.


26 de janeiro de 2015

TRANSFORME SUA VIDA EM 2015


Começou hoje uma nova empreitada do Personare: o primeiro congresso online com mais 20 profissionais e mais de 18 horas de palestras imperdíveis. Como especialista em Tarô do portal, meu hangout foi sobre o arcano que rege o ano de 2015. Para quem perdeu a minha videoconferência assista logo abaixo, na íntegra. Saiba tudo sobre o arcano regente deste ano. Dúvidas e perguntas? Deixe nos comentários. 


TAROT 2015: JUSTIÇA, o Arcano do Ano





Transforme sua vida em 2015!