15 de janeiro de 2021

DESCOBRINDO (AINDA MAIS) O TARÔ DE MARSELHA

RESENHA por Leo Chioda


Nunca o Tarô de Marselha foi tão bem articulado em um livro repleto de informações úteis a leigos, intermediários e veteranos

 

Tarô de Marselha: a jornada do autoconhecimento – guia do usuário para tiragens e interpretações, é o primeiro livro de Florian Parisse, renomado tarólogo francês, lançado pela Editora Pensamento (confira a apresentação e o link para compra logo abaixo).

 

O livro foi estruturado em dois grandes capítulos bem divididos: o primeiro é o Retrato dos 22 Arcanos Maiores e o segundo é A Tiragem em Cruz: Manual de Instruções, método que se tornou a especialidade do autor. As quase 200 páginas do primeiro discorrem sobre a simbologia dos Arcanos Maiores em determinadas áreas da vida que servem para interpretar a  Tiragem em Cruz, um arranjo tradicional da Cartomancia que aqui é exposto e ensinado com as várias adaptações e particularidades testadas e assinadas por Parisse. 

 

Um dos pontos altos (e bastante úteis) deste livro é a maneira como o autor disseca os Arcanos Maiores: cada carta é tomada nas mãos como um ser vivo, com suas características peculiares e sempre distintas dos demais, sempre dignas da dedicada atenção do leitor. Ao contrário de muitos autores que tratam as cartas como meras peças mortas de um jogo, que são simplesmente combinadas para resultar em significados bem frios, Parisse ressalta, na breve e importante introdução ao livro, que “cada arcano vive, existe e exprime sua quintessência por meio de seu grafismo". Quintessência, em outras palavras, é o que há de melhor, de mais apurado e importante dos arcanos. E ela está nas próprias imagens, considerada pelo autor como a obra prima de um mestre da pintura. 

 

O autor não só acredita na natureza viva do Tarô de Marselha como comprova a onisciência das cartas logo nas primeiras páginas. Começando pelo arcano O Mago, adentramos o recinto — o qual o autor chama de “retrato” — dos Arcanos Maiores, discorridos em seções bem detalhadas que vão das forças e fraquezas de cada carta até o modo como funcionam nas áreas profissional, financeiro, afetivo e na de saúde, sempre detalhando os bons e os maus aspectos desses contextos. 

 

Ao longo do capítulo sobre a Tiragem em Cruz, com revelações de aplicação do autor em seus atendimentos na França, destaca-se "A Caixa de Ferramentas e os Casos Práticos", as duas últimas seções do livro. A primeira delas oferece particularidades de leitura desse método, cuja versão extensamente discutida neste livro (com exemplos de leitura e interpretações completas de jogos) resulta na opus magnum de Florian Parisse, já que devidamente arranjada com ferramentas importantes para se fazer previsões como a temporalidade, a noção de arcanos estáticos e móveis, e até o exercício de propor datas específicas para acontecimentos previstos.

 

Há que possa tecer críticas (provavelmente infundadas) ao fato de Parisse se utilizar apenas dos 22 Arcanos Maiores. Porém, é preciso compreender essa medida como um traço do estilo profissional do autor em vez de considerar a ausência dos 56 Arcanos Menores como uma falha de sua prática. Ainda que seja inegável e completamente endossada a utilização de todos os 78, não se pode discriminar quem se utiliza apenas dos 22 Arcanos Maiores. Além de serem o cartão de visitas e a porta de entrada do Tarô, é importante reparar que muitos profissionais franceses frequentemente se valem apenas dos Maiores em consultas, palestras e cursos, na maioria das vezes com absoluta dedicação e eficácia


Pela primeira vez em língua portuguesa, eis um livro de origem francesa que expõe a prática adivinhatória com naturalidade e segurança, já que é fruto de um profissional em atividade e em constante experimentação daquilo que aplica. Mesmo para quem não usa ou não gosta do Tarô de Marselha, o livro é adaptável a todo e qualquer Tarô que siga a estrutura clássica dos Arcanos Maiores marselheses.* Para quem não conhece o oráculo e deseja começar com um estudo sério e profundo, Tarô de Marselha: a jornada do autoconhecimento é um título interessante por mostrar a nós, leitores brasileiros, o oráculo enquanto sistema — vivo e que passa muito bem, por sinal — de símbolos que refletem a nossa vida no presente e, também, o passado e o futuro. 


Por fim, o leitor deve estar ciente de que tem mãos uma obra em progresso, isto é, que não se encerra neste volume. Ele é o primeiro de uma série de livros que se valem do Tarô de Marselha para realizar consultas oraculares, fazendo jus à tradição francesa, popularizada por Oswald Wirth, de encarar o Tarô como uma máquina de imaginar, isto é, de conseguir ver nos 22 Arcanos Maiores, de modo assombrosamente detalhado e sempre genial, tanto o micro quanto o macrocosmo. 

 


 

* Essa estrutura diz respeito ao número de cartas e à numeração delas, a saber: 22 cartas, sendo que O Louco é grafado como 0 (zero), O Mago é o arcano 1 e assim sucessivamente até O Mundo (21). Uma sugestão para quem deseja conhecer, começar a estudar o Tarô de Marselha e aplicar os ensinamentos de Florian Parisse, é o kit (livro e baralho) O Tarô de Marselha, de Carlos Godo, inteiramente revisto e atualizado pela Editora Pensamento. 



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FICHA TÉCNICA


Livro • Tarô de Marselha: A Jornada do Autoconhecimento - Guia do Usuário para Tiragens e Interpretações
Autor • Florian Parisse
Tradução • Karina Jannini
Ano de lançamento • 2020
ISBN •  9786587236117
Encadernação • Brochura
Páginas • 328
Release • Neste estudo surpreendentemente didático, Florian Parisse, vidente e tarólogo francês de renome, apresenta-nos um manual prático para tiragens e interpretação, destinado a todos os usuários do Tarô de Marselha. O livro nos traz uma descrição minuciosa dos 22 Arcanos Maiores sob a forma de fichas, reunindo dados bastante completos e originais, que permitem aos iniciantes compreender todas as nuances desse belo instrumento divinatório. Para cada tema abordado nesta obra (trabalho, finanças, amor, saúde), Parisse apresenta exemplos de relatos de casos e conversas particulares que manteve em seu consultório, acompanhados de respostas e experiência dos próprios interessados. Por fim, uma verdadeira caixa de ferramentas é colocada à disposição do leitor e estudante do tarô, fornecendo todas as chaves necessárias para uma boa leitura do Tarô de Marselha, que tornam este oráculo secular um instrumento de autoconhecimento e expansão da consciência.



7 de agosto de 2020

RESENHA • TAROT - THE LIBRARY OF ESOTERICA [TASCHEN, 2020]

 


TASCHEN, maior editora de livros de arte do mundo, só atira se for para acertar. Com a THE LIBRARY OF ESOTERICA, tende a ficar difícil resistir às obras temáticas em relação aos assuntos que amamos. E o que mais amamos é justamente o primeiro lançamento do selo: “TAROT”, escrito por Jessica Hundley com ensaios de Penny Slinger, Marcella Kroll e Johannes Fiebig, com citações de pensadores, criadores de baralhos e milhares de imagens.



 


O livro, de 520 páginas coloridas e em capa dura, é dividido em quatro partes. A primeira é uma introdução ao oráculo partindo de verbetes breves sobre sua história e fechando com uma linha do tempo centrada na produção intelectual do hemisfério norte. A segunda percorre a simbologia dos 78 arcanos com centenas de pinturas e cartas conhecidas ou não do grande público, provando a pluralidade de interpretações de cada arcano. A terceira cobre os artistas, literatos e esotéricos partindo de 1700, com Gébelin e Etteilla até Dalí, Calvino, Andy Warhol e chegando a 2020 com Jodorowsky e Patti Smith. A quarta e última parte, como não poderia deixar de ser, põe as cartas na mesa: o Tarot enquanto ferramenta do destino, linguagem visual e a criação de significado no sacro ofício de leitura dos arcanos.


 


Mas vale lembrar que este é um livro de arte, não um manual. Ele mapeia o Tarot nos principais e nos mais inusitados museus e bibliotecas do planeta, resultando em uma espécie de enciclopédia de cores, formas e filosofias ancorados na estrutura clássica do baralho filosófico. Um livro não definitivo — o único livro perfeito de Tarot é ele próprio —, mas um compêndio necessário. Ele passa o filminho dos 600 anos de vida do Tarot para validá-lo, sem dúvida ou receio, como tradição. Templo de expressão artística universal. Patrimônio espiritual da humanidade. Maquinário vivo da linguagem simbólica.


Tarot, presente. E com um futuro brilhante, por sinal.




© Leo Chioda • @cafetarot




Review: Leo Chioda • @cafetarot

Translation: Edoardo Valmobida


TAROT • THE LIBRARY OF ESOTERICA • A REVIEW



TASCHENthe biggest artbook editor of the world, only shoots to hit the bullseye. With THE LIBRARY OF ESOTERICA it tends to be hard to resist to the thematic works related to the subjects hold dearto our hearts. And that which we really love is exactly the first release of the label: “TAROT”, written by Jessica Hundley, with essays by Penny Slinger, Marcella Kroll and Johannes Fiebigfull of quotes by thinkers, deck creators and millions of images.


 


The book, with 520 pages in color and hardback, is divided in four sections. The first, an introduction to the oracle, from short entries about its history finishing with a timeline centered around the intellectual production of the northern hemisphere on the subject matter. The second follows the symbology of the 78 Arcana with hundreds of paintings and illustrations of the cards, popular or not to the general public, thus proving the plurality of interpretations of each card. The third part of the book covers the artists, writers and esoterics from 1700’s Gébelin and Etteilla, to Dalí, Calvino, Andy Warhol, up to 2020 with Jodorowsky and Patti Smith. The fourth and last section, as it could none the less be, lays the cards on the table: the Tarot as a tool, the visual language and the creation of meaning in the sacred craft of reading the Arcana.


 


But bear in mind that this is still an art book, not a handbook. It maps the Tarot in the main and the more unexpected museums and libraries of the planet, resulting in a species of encyclopedia of colors, shapes and philosophies anchored in the classical structure of the philosophical deck. Not a definitive book – the only perfect book about Tarot is the Tarot itself  but a much needed compendium. The book presents the movie of 600 years of life of the Tarot to validate it, without doubt or fear, as a tradition. Temple of universal artistic expression. A spiritual heritage of humankind. Living machinery of symbolical language.

 

Tarot, present. And with a brilliant future, by the way.




Review: Leo Chioda • @cafetarot

Translation: Edoardo Valmobida


8 de dezembro de 2019

UM TAROT PARA OXUM

The Ghetto Tarot
Alice Smeets & Atis Rezistans


Todo ouro veio do céu, há muito e muito tempo. 

Mas todo ouro, dizem, é da maior feiticeira que Iemanjá poderia ter parido — a mãe do mel, a abelha mais brilhante. Oxum, senhora doce das águas, rainha dos afetos. É dela a carne dos apaixonados, a cabeça dos dedicados e o coração dos poetas. No oratório que é o seu ventre aberto estão as possibilidades. Tudo pode aquele que se banha no perfume da orixá mais forte — porque o amor é invencível em qualquer batalha. Iyá de mim, no quintal no domingo bem cedo. E se escolho o jardim em que anoitece por último, posso bem dizer: o céu de Oxum é um céu de estrelamento.


Um Tarot para Oxum é mensagem. É como se Ela própria embaralhasse e se derramasse nas cartas a fim de falar francamente aos despertos. Oráculo é coisa de Oxum, Oxum que encantou Exu para lhe ensinar a ler os búzios e os obis. Porque a beleza anda junto com o segredo — e é dourado o couro do destino. E se vem ao meu Tarot para erigir um palácio, Oxum toca n’A Estrela. A arcana mais bela. Falemos, aqui, de predestinação. O que deve ser feito deve ser claro: a nudez simboliza a verdade, e seu espelho mira o âmago. O arcano 17 pede capricho e sensatez ao encarar o que vem sendo procrastinado. Nos deixamos levar pelas delícias do caminho. Enquanto isso, há muito trabalho a fazer, repare. Oxum não cessa de lançar feitiços, dentre eles o melindre e a dispersão. Por isso, foco e manejo para tecer dias melhores, repletos de rosas amarelas. Em seus braços tudo é providência. Até as mais cortantes aflições.



Convém começar a limpeza final — Oxum exige tudo limpo, em todos os seres, sentidos e estares — para adentrar 2O2O com boa sorte, fartura e afeto. Lavar as mágoas, esfregar os ódios. Doar o que não usa, livrar-se de tanto lixo {por mais que extraordinário} e dar-se àquilo que deve ser feito da melhor {e mais bonita} maneira possível. Estar por inteiro a quem precisa de amor, em gesto, palavra e louvor.



Oxum é toda mulher.
É cada homem que se curva ao brilho. 
E todo ouro é de Oxum. 
Ouro que mais vale. 

Ouro que é você.



ORA YE YE Ô!

4 de dezembro de 2019

UM TAROT PARA IANSÃ



Acerca do verso “encanta, mãe, o meu ofício de raio”, abro as palavras para aventar significados. Eles vêm de quem o lê. Mas ofício de raio é escrever, que faz descer a divindade ao papel ou à tela, queimando os olhos e acendendo tudo. Escrever é ritual; ler é comungar. E o oráculo é o jardim propício em que as forças — essas forças — convergem.

Para um Tarot regido por Oyá, respirei fundo enquanto olhava as nuvens de chumbo. Uma carta pulou do baralho com alguma rispidez. Vi qual era, entendi o recado, misturei com as demais e continuei embaralhando. Minutos e mais minutos pensando no que deve ser escrito a respeito do que deve ser considerado neste momento, em todos os seres e estares. Parei, respirei o cheiro aberto do tempo nublado e cortei. De novo o mesmo arcano — escolhido por ela, é claro: A RODA DOS VENTOS, A MÁQUINA DA FORTUNA.

E não é que neste 4 de Dezembro, em meio a torres desmoronando e outras aguentando firme, no tempo bom tempo ruim, o décimo arcano do Tarot vem como rajada clareza a respeito do que passa e do que fica? Pense bem no que deve ser cortado e no que deve ser mantido. Com esse presságio, saibamos que nossa destreza receberá o sorriso de Oxum, Iyá de mim. Mas se algo desata ou desanda, prudente é encarar os medos e proteger-se de todo mal — mal que nós mesmos empinamos no céu da vida.

Estamos em guerra longa contra ignorância e injustiça, e só uma postura genuína de coragem nos apruma na tempestade. Somos nossa família, nossa política, nossa casa, nosso espírito, nossa voz. Somos quem canta no pior momento, mas ainda assim encantamos. Aqui se fala de resistência, de enfrentamento em nome da liberdade e da beleza. Por isso tão justo esse ofício. De ser coração sem deixar de ser lâmina.

Há tanto sagrado ao redor que só o trovão e a gira para que acordemos, não é? Então acorda e repara. Porque a Senhora passa, pousa no aro do Destino e, com a sagrada força das rosas, bem rente à espada, nos convoca sem demora: 

FAÇAM VENTANIA. E DANCEM.




Meu nome é Leo Chioda e eu vos escrevo. A imagem é composta por uma gravura de Pedro Rafael, presente no livro Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi, publicado pela Companhia das Letras. A RODA DA FORTUNA é uma iluminura da incrível Carola Trimano, do Ateliê Pássaro de Papel.

19 de junho de 2019

STALKER


















Precaução nunca é demais. Provavelmente alguém já te perseguiu ou ficou no seu pé sem motivo aparente ou relevante. Ou então, devido a alguma situação ou detalhe ínfimo, alguém parece ter criado um laço com você. Ou ainda, quem sabe, alguém te pegou pra Cristo a ponto de te causar medo da presença ou das possíveis atitudes dessa determinada criatura. 

Isso é mais comum do que pensamos, já que estamos rodeados de gente desequilibrada ou, simplesmente, sem noção. Foi levando isso em conta, em meio a abordagens estranhas de pessoas mais estranhas ainda, que decidi compartilhar este método rápido. Ele poder ser útil para saber com quem estamos lidando, o que tende a acontecer e o que devemos fazer em relação a determinada pessoa. 

Não nos custa, enquanto oraculistas, analisarmos alguns pormenores para lidar bem com posturas invasivas, ofensivas e até mesmo perigosas. Mas se você não é um profissional do Tarot, consulte a nossa agenda de leituras


ENTÃO PREPARE-SE

Você pode misturar Arcanos Maiores e Menores, usar só os Maiores ou combinar um Maior e um Menor para cada posição. No exemplo de leitura [arraste pro lado!], misturamos os 78 arcanos. 

Atente à temporalidade estipulada — do dia da leitura até 3 meses — para a validade da consulta. Se quiser para um período mais curto, determine isso antes de sortear as cartas.   






UM CASO [A SER ESTUDADO]


Há muito tempo, a pessoa Y adicionou meu consulente no Facebook para conversar sobre literatura e publicação de livros. X, a parceira de Y, também o adicionou. Meu consulente e Y conversaram sobre os tais assuntos, pelo inbox do Facebook, até que um dia Y passou a mandar mensagens estranhas, de duplo sentido — como se houvesse ali uma amizade de longa data, com intimidade e possibilidade de algo mais. 

Meu consulente se manteve neutro, respondendo apenas ao que dizia respeito a livros e afins. Dias se passaram e X procurou meu consulente dizendo que não estava entendendo porque ele (meu consulente) estava assediando Y com tanta frequência, questionando se ele não se lembrava de que Y era bem casada e tal. Meu consulente estranhou e limitou-se a responder que não estava entendendo lhufas, mas que torcia pela felicidade deles. Fim. 

Será?

Muitos anos depois, Y já havia sumido da face da terra e X, sempre quieta no facebook [e solteira], encontra meu consulente em uma feira de comida vegana. Aproxima-se como quem vê um amigo amicíssimo e vem suplicar perdão pelo mau entendido de, sei lá, 6 anos atrás. Meu consulente então relembra o caso (com dificuldade, claro), estende a mão pra deixar a bobagem onde bem estava (lá atrás) e X o puxa para um abraço, apertando e agradecendo com insistência chata. “Ai ai, amigos, então?” Meu consulente sorri amareladamente, meio apavorado, e X se despede com um sorriso estranho. 

Pode não parecer, mas imaginar a cena enquanto ele contava foi um tanto apavorante. E justo eu, com uma bela Lua em Escorpião — adepto confesso de toda discrição, que reprova toda e qualquer postura maluca ou cretina, e com faro infalível para gente obcecada e obsessiva — tratei de esboçar o método acima para ver se há (ou haverá) algum caroço nesse angu. E o resultado você acompanha aqui embaixo. 

Coragem, vamos lá.






1 QUEM É ESSA PESSOA 
O LOUCO
Eu tremi na base assim que deitei a carta. “Pronto, é doida de pedra”, pensei. Mas nunca se julga uma leitura completa por uma carta apenas. Embora ela tenha um peso considerável, só no fim é que se pode ousar apontar o dedo para algo que não parece normal. Aliás, quem é normal? Você é? 

Bem, O LOUCO aqui mostra as desmedidas de X, o destempero, a insegurança ao tatear as coisas. Muito claro que a X não fechou bem o relacionamento com Y, como que tentando reparar os erros que se arrastam até hoje. 

2 COMO ME VÊ \ QUE SENTIMENTOS NUTRE 
OITO DE ESPADAS
A primeira impressão que o Oito de Espadas causa é negativa. Nesse caso foi pra lá de péssima, como se X estivesse querendo sequestrar, matar ou torturar meu consulente. Algo assim, com requintes de crueldade. Mas uma análise apurada [ou apenas sensata, sem afetações] permite entender que X está presa aos erros, atada às loucuras que deve ter feito em nome do amor por Y. 

Ainda que se veja de modo turvo, ela enxerga meu consulente como uma espécie de pessoa incorruptível, serena, que vale a pena. Uma pessoa pessoa que não merecia ter caído nas lâminas do seu ciúme descabido, mas caiu e sujou as próprias mãos. 

3 O QUE QUER DE MIM OU COMIGO
RAINHA DE PAUS 
Respiro com algum alívio e digo ao meu consulente que a intenção não é tão ruim como parece. A Rainha De Paus indica aqui a vontade de ser amiga de verdade, de participar com frequência da vida de meu consulente, que é uma pessoa influente no meio literário. 

Ele confirmou que parece ser bem isso, já que X ainda é sua amiga no Facebook e o segue, sempre curtindo postagens sobre livros etc. Ufa. Menos mal. Mas ainda não acabamos.

4 O NÍVEL DA AMEAÇA
OITO DE PAUS
Se a partir da terceira posição comecei a tranquilizar meu consulente — sempre paranoico [e com razão] com gente pessoas desequilibradas —, com o Oito De Paus ambos respiraram com alívio: embora sejam oito bastões sendo lançados com rapidez, a eficácia de qualquer tentativa de vingança é nula. 

Não há, neste estágio de Paus, qualquer intenção maléfica por parte de X.

5 O QUE FARÁ EM RELAÇÃO A MIM
O EREMITA
Um eremita pode ser bem um stalker, mas não entramos em piras. Disse ao meu consulente que a provável postura de X será a já conhecida relação de Facebook, nada além disso ou de um aceno de mão (ou um abraço paralisador!) na feira de comida ou pelo bairro. Mas como estamos projetando um presságio com validade de três meses, O Eremita aponta para um acompanhamento sempre discreto e silencioso por parte de X: nada escandaloso nem invasivo como foram antes. 

A verdade é que a pessoa nem se mostrará direito. O arcano é lento, tem poucas vantagens em uma batalha (a idade avançada do arcano simboliza fragilidade) e não se meterá a qualquer abordagem direta. O Eremita é a pessoa solitária, como bem parece ser X, que quer apenas levar luz onde antes havia treva. 


6 QUE DEVO FAZER \ COMO ME PROTEGER
O PENDURADO
“Tem que rezar muito!” Brincadeiras a parte, O Pendurado aconselha meu consulente a ver X com outros olhos, por mais descabidas que tenham sido suas atitudes. Considerar que Y pode ter agido de modo cruel ao distorcer as coisas para X acreditar que meu consulente é quem a estava assediando nos coloca no lugar de uma pessoa enganada. 

O homem de ponta-cabeça do Tarot sugere torcer para que X fique bem, continuando a agir de modo gentil, mas sempre distante. Meu consulente e X não são amigos nem provavelmente serão, mas sabendo que meu consulente é uma pessoa pública, o Tarot orienta a agir como se X fosse uma cliente, uma espectadora, uma seguidora [de perto] de seu trabalho. 


EPÍLOGO

Ainda estamos analisando os movimentos futuros de X, mas o trabalho massivo é com o meu próprio consulente: por que essa situação, por mais invasiva que tenha sido, o incomoda tanto a ponto de trazer para a sessão de leitura oracular? 

O que pode ser feito para amenizar o susto — ele já passou por bons maus bocados em relação a assédio, daí a minha anuência em analisar o caso — é encarar cada pessoa que se aproxima como um universo em si. Toda leitura de Tarot incita essa visão, mas alguns casos, como esse, são mais propícios. É nítida a tristeza de X diante da situação com Y e com meu consulente, e às vezes o melhor a ser feito é justamente o bom e velho nada. 

Embora um mapeamento como este possa suscitar cada vez mais medos em relação a estranhos, ele pode servir como um medidor a respeito de nossos receios e como comprovante de que o perigo pode ser menor do que promete. Precaução nunca é demais — dá-lhe patuás a torto e a direito! — mas tanto as nossas cismas podem ser exageradas demais quanto um cão ladrando pode ser apenas um blefe: inofensivo assim que mostramos os nossos dentes de volta. 

Mas o método fica registrado para quando alguma perseguição for claras o bastante para nos preocupar. É tateando possibilidades que passamos a agir com mais cuidado em relação ao que fazemos, à atenção que dispomos aos outros e como somos interpretados. O Tarot, como aliado, é feito para nos alertar e nos ajudar a agir pelo nosso bem. 



E aí, foi útil? Comente por aqui, pelo nosso Facebook, compartilhe o método com quem você gosta e comente a sua leitura no nosso Instagram

20 de novembro de 2018

ENTREVISTA COM O ORÁCULO


Tem sido cada vez mais frequente, em blogs de entusiastas e tarólogos profissionais de língua inglesa, a prática da entrevista de um baralho. Seja ele novo ou velho, a medida é interessante para medir o potencial do Tarot que nos chega em mãos. 

Eu compro baralhos com alguma frequência. É um vício que muitos celebram. Mas melhor que isso é saber com que[m] estamos lidando, já que um oráculo é um espelho que nos reflete e nos coloca em contato com histórias extraordinárias — nossas e de outras pessoas. Há algumas semanas acabei comprando um novo DruidCraft Tarot. Uso este deck desde 2005, quando ganhei a primeira edição de um amigo muito querido. E agora, aproveitando os feriados para colocar a vida [e as perguntas] em dia, decidi entrevistar esta ferramenta de ofício tão querida. 


QUEM PRECISA DE TÁBUA OUIJA?

Brincadeiras a parte, entrevistar um Tarot pode dar arrepio em leigos e veteranos. E é bom que seja assim. Sugiro aqui o método de leitura que desenvolvi e que aplico com frequência. A grandeza de entrevistar um baralho, além de exercitar o raciocínio simbólico, é se deparar com cartas e respostas que surpreendem, que instigam o trabalho constante com as cartas. Esse método é ideal para quem se dedica a alguma linha de espiritualidade, já que abre caminho para noções cada vez mais profundas sobre a natureza e a aplicação do baralho em questão. Embora, claro, também sirva a quem deseja mapear as nuances e as vibrações de um oráculo específico. Vamos lá?


OS PREPARATIVOS

A ideia é que você tire o Tarot da caixa, se certifique de que há 78 cartas diferentes e comece embaralhando com tranquilidade e constância, sem pressa. Enquanto embaralha, sinta o cheiro das cartas, repare nas cores do verso delas e na textura do papel. Vá pensando nas circunstâncias que fizeram este Tarot chegar às suas mãos. Você o desejou muito? Gosta das suas imagens? O que mais te atrai nele? Sinta o oráculo. Ao mesmo tempo, reconheça que ele é uma instrumento de reflexão, previsão e orientação que merece o devido respeito. E que, não à toa, ele está em seu poder agora. Às suas ordens. Não se engane, esta etapa é simples e muito importante. Se você não vê sentido nela, convém pensar bem a respeito da sua própria relação com o oráculo.  

Feito isso, reúna as cartas e em seguida abra-as em leque ou corte onde o maço onde intui que deve ser. Essa medida é totalmente arbitrária e não influencia na leitura, a menos que você permita. Se prefere escolher as cartas uma a uma, tudo bem; se prefere pousar a mão sobre o baralho e 'quebrar' o maço em determinada altura, vá em frente. Este detalhe é pessoal e varia com muita freqüência. O importante é estar presente enquanto manipula os arcanos — sejam eles virgens ou não. 



AS PERGUNTAS

1. Quem é você? Quem fala através deste Tarot?
2. A quais propósitos você serve com maestria?
3. O que você revela a seu respeito?
4. O que você revela a meu respeito?
5. Quais suas fraquezas?
6. Quais suas forças?
7. Eis o nosso potencial de trabalho em conjunto.
8. O que você começa me ensinando?

E caso o seu desejo seja ir um tanto além nesta consulta, você pode tirar uma carta extra:
9. Qual o seu segredo?

Mas se você quer uma análise mais rápida, quase um bate-bola, sugiro a seguinte adaptação:

1. Quem é você?
2. O que você faz de melhor?
3. Como será o nosso trabalho em conjunto?
4. O que você me ensina agora?


EXEMPLO DE LEITURA



O DruidCraft Tarot, como já comentei, é um dos meus favoritos. Seu imaginário é voltado ao Druidismo e à Wicca e tem sido um dos baralhos mais vendidos do mundo desde o lançamento. Às vésperas de uma viagem muito importante em termos espirituais, o trabalho com essas cartas volta em boa hora. Compartilho com vocês as respostas que me foram dadas. 

1. Quem é você? Quem fala através deste Tarot?

XV CERNUNNOS
Eu sou o Senhor das Folhas, o Guardião das Florestas. Meu nome é Paixão. Dança. Amor. Medo. Domínio. Eu sou o vento forte e a brisa. A potência e o chão. A semente da vida vinga em meu nome. Eu sou o deus de tudo o que floresce, fenece e renasce. Quem se liga a mim vê tudo; quem foge só estreita os nossos laços. Eu chego e a terra treme. Terra e Água e Fogo e Ar são o meu Espírito. Eu estou em cada lágrima, em cada grão de sol, em cada arma, em cada escuro, em cada fagulha. Quem fala através deste oráculo é aquele que os tolos chamam de Diabo e os sábios tomam por Natureza. Eu sou o portal e sou quem passa por mim. Eu sou o que se chama de vida e de morte diante de ti.


2. A quais propósitos você serve com maestria?
OITO DE OUROS
Eu sirvo àquele que preza pela excelência. Sou o hábito da primazia, o capricho que não se negocia, a grandeza em tudo o que é possível ser feito. Produzo, aprimoro e me garanto como o arcano do cuidado e das mãos atentas ao que é belo, palpável, urgente e inadiável. Eu venho para responder a questões de ordem material, assuntos que pedem reparo e potências que exigem vazão. 


3. O que você revela a seu respeito?
DOIS DE COPAS
Eu mostro os emblemas do Amor. Eu posso e faço aquilo que demanda coerência e aliança. Sou o arcano dos contratos, das relações públicas e secretas, dos brindes que a vida pede. Eu revelo que este é um tempo único de celebrar o que há de mais forte e indestrutível dentro de ti e de quem recorre às suas palavras. A minha natureza é um acordo fiel e duradouro com o que há de sensato, sincero e sereno. Somos duas taças tilintando a céu aberto. O nosso tempo é de comunhão com a verdade. Nós somos o arcano que não te deixa esquecer: tu não estás só. 


4. O que você revela a meu respeito?
NOVE DE PAUS
Tu tens sido a desconfiança e a incredulidade em pessoa. A tua pessoa é essa que questiona até mesmo uma entrevista com um instrumento de trabalho tão vivo quanto somos nós. A verdade é que teu ceticismo cessa na medida em que nos ouve e acompanha: a cada momento é como se a vida desabrochasse aos teus pés, firme e fiel a si, mostrando que pouco importa qualquer medo. A tua força se faz digna na medida em que nos toma reais. Eu revelo que tu és o senhor do teu campo. E há muito a ser feito. Começa.


5. Quais suas fraquezas?
TRÊS DE OUROS
Eu falho no que é tocável. Eu vou até o ponto em que tu determinas. O inverso do trabalho é a inércia, e eu erro na constância dos detalhes caso não receba a tua devida atenção. Eu peco pela falta de uso. Sou um tanto fraco fisicamente, mas cada desgaste corresponde à minha melhor performance. Todos atentos aos meus talentos: a minha beleza abre os teus portões para perceber a Magia. Ainda que eu falhe, tu te moves. E alcanças.

6. Quais suas forças?
ÁS DE COPAS
O meu ouro é líquido. As forças que reúno são as forças das águas — os sentimentos, os fluidos principais, o caldo sagrado de Cerridwen. Meu nome é caldeirão, concha, vaso, útero, mão. Eu sou a  própria Força. Eu jorro cada dia. Eu te ofereço clareza e profundidade em assuntos ligados ao amor, à alma e à vida que nunca seca. 

7. Eis o nosso potencial de trabalho em conjunto.
XX O JULGAMENTO
Juntos renascemos. Juntos saímos do fundo de qualquer poço para o ponto mais claro da alvorada — assim é o prenúncio de um laço que já vem de outros tempos. Juntos refazemos caminhos e começamos outros mil. Assim, juntos, podemos tocar os temas luminosos do espírito, das surpresas e das urgências. Tudo que eu falo através de ti é revelação. A tua palavra é minha grandeza e a minha grandeza está na tua palavra. Juntos renascemos e damos o renascimento. Juntos iluminamos. Juntos somos luz a quem se habituou com a sombra.

8. O que você começa me ensinando?
REI DE PAUS
Há coisas que devem ser feitas. Há coisas que devem esperar. Tu estás pronto. Não há tempo a perder agora, bem sabes. As coisas devem ser feitas com louvor, como se fosse o último dia de tua vida. Cada postura assumida é uma dívida criada com a vida. E tua vida é essa fagulha pedindo para valer a pena. Eu sou o Rei do Fogo, o Fogo dos Reis. Estou desde o começo encarando as tuas palavras. Toda promessa que me fazes será cobrada. Toda dúvida que resta deve ser destruída. Eu olho fundo nos teus olhos. E cada compromisso firmado mede a tua honra. 


9. Qual o seu segredo?
SEIS DE ESPADAS 
Posso te mostrar o além. Como os caminhantes da água que ligam Avalon ao mundo dos homens, te levo pelos veios de bruma e de certeza pelo que deve ser considerado. O meu segredo é servir ao tempo dos vivos e ao tempo dos mortos, como se nada tivesse fim. Como se tudo fosse um contínuo entre o teu coração e os outros. O que outros oráculos chamam de fase ou momento, eu chamo de viagem propícia a cada momento que tu nos embaralha. O meu nome é jornada. Travessia.


AS PALAVRAS DEPOIS

Como você percebeu, as respostas vieram em primeira pessoa. Esse é um exercício simbólico, como comentei, mas também um exercício de escrita. Você não precisa escrever dessa maneira em seu caderno de anotações. Pode ser simples, elencando palavras-chave das cartas, por exemplo. Caso deseje 'gravar' a voz dos arcanos, fica a dica. O importante é anotar as cartas e trabalhar em cima de seus significados. 

É assim, aos poucos, que a sua relação com o oráculo passa a ser menos distante e começa a abrir cada vez mais a sua intuição.