13 de fevereiro de 2017

OLHE BEM PRO SEU CAMINHO



Tem pessoas que dão uma volta imensa para chegar ao mesmo lugar: estudam, vislumbram um futuro rico e glorioso, se formam e acabam fazendo aquilo que faziam no começo de tudo: aquilo que lhes fascinava. Alguns perseguem o que realmente amam, seja lucrativo ou não. Talvez por necessidade, talvez por preguiça, talvez por destino. Mas muitas vezes é aquele o ofício que lhes define. Seu labor intrínseco. É o que lhes preenche. 
Em consultório, entre conhecidos ou mesmo em viagens, às vezes acabo perguntando, com jeito: quem você pensa que é para julgar a trajetória dos outros? E quem garante, aliás, que essas suas certezas aí são tão firmes assim? Tem gente que prefere o mais caro, tem gente que anseia pelo mais alto e tem gente que prefere o mais simples. E daí? Você vive no lugar de alguém? Corre com as pernas ou nas costas dos outros? Enquanto se repara no que fazem ou deixam de fazer, tem pessoas fazendo esse baita circuito pra descobrirem quem são. E certas elas, viu? Mesmo com dúvidas, elas seguem. E chegam no lugar que devem chegar, cedo ou tarde. Porque é assim. Porque presença de espírito requer andança.

Nobre é respeitar o percurso alheio, na vitória e na errância. Cada um escreve o próprio rastro. Quem disse, aliás, que a vida é só altura ou abismo? Olhar em volta pode ser revelador: você e sua história em longos círculos de providência e promissão. Em vez de desqualificar a evolução ou reparar na 'perda de tempo' das pessoas, melhor é desejar o melhor: abençoar o caminho do outro é um bom passo para valorizar [ou encontrar] o seu próprio.

E se você não sabe quem você é, aperte o pé. 
Dá tempo.


 © Leo Chioda {http://goo.gl/Qd70ao} 

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24 de junho de 2016

SANGUE E LEITE

ALKAMA
(Alquimia)

Frederic Fontenoy


É impossível ter todos os baralhos e todos os livros já escritos sobre Tarô. São vários séculos de evolução simbólica. Séculos de perdas e acréscimos. Mas o vínculo entre as pessoas dadas às cartas e o conhecimento assimilado são suficientes para proporcionar novos encontros, fazer associações cada vez mais ricas e revisitar certas práticas refutadas ao longo do tempo. Porque com poucos títulos e breves encontros vislumbra-se a Grande Obra. 


PEDRA FILOSOFAL
Harmonie Chymique

David Lagneau, 1636

Grata surpresa foi a presença do artista Robert M Place em São Paulo. O responsável por diversos baralhos como o Alchemical Tarot, o Tarô dos Santos e o Burning Serpent Oracle esteve em São Paulo para a segunda edição do Cartomancia, um  dos maiores e melhores eventos de Tarô no Brasil. Mesmo havendo alguns de seus livros em minha biblioteca tarológica, ver Place aplicando seus métodos de leitura foi inspirador. Assistir à sua aula de Alquimia e Tarô foi como voltar para casa depois de uma longa viagem. Talvez porque um baralho alquímico reforça a metáfora sobre os processos humanos; porque restaura, como quer James Hillman, pai da Psicologia Arquetípica, o modo alquímico de imaginar. Ele considera cada tiragem, composta de três cartas, no mínimo, como uma única cena. São respeitadas as direções para onde olham as personagens e para onde se voltam os objetos das cartas sorteadas. É uma forma de revitalizar a leitura oracular ao resgatar a linguagem corporal dos arcanos — uma prática não mais adotada pela maioria dos profissionais, não ensinada em cursos e quase nunca citada em workshops de Tarô. Lembro, aqui, de um axioma presente no Amphitheatrum Sapientiae, de Heinrich Krunrath (1602): “Para quê tochas, luzes e óculos se as pessoas não vêem?” 


Nos apegamos aos conceitos e às posições das cartas e damos de ombros à inclinação da cabeça d’O Louco ou ao olhar d’O Mago. Nem nos perguntamos mais se A Justiça nos olha ou se é cega, de fato — comumente desenhada encarando o leitor e o consulente. Uma análise de relacionamento feita por Place pode ser extremamente auspiciosa ao colocar uma ponte entre as duas pessoas envolvidas: o que as une, o que elas têm em comum. E a tríade arcana pode sugerir, ainda, uma história linear ou um relacionamento fadado ao fracasso. Tudo depende do posicionamento e do valor simbólico das imagens. Estamos de volta à cartomancia dos livros herméticos de Paris, das sibilas em seus salões e dos imagiers de Wirth. 

É instigante aprender com um artista cuja argumentação, bastante sólida, se aplica de modo sensato à bagagem de um praticante. Ele sabe que, como a Alquimia dos antigos, a sua arte é uma experiência de transmutação. E o Tarô é essa ferramenta de transformar o elemento básico em metal valioso — de tornar o cifrado em algo óbvio e útil. Pensar e agir por meio de imagens. Exemplo é o contexto simbólico do uso das três cartas, tratado com respeito a partir do seu significado arquetípico. Para os pitagóricos, três eram os pontos necessários para fazer a primeira forma geométrica e assim começar a criação. A existência em si, para eles, era governada por três deuses: Zeus, Possêidon e Hades. Já os alquimistas acreditavam que toda matéria é composta de uma trindade de essências. O mesmo ocorre em qualquer sentença, como bem sabemos: uma frase completa pressupõe um sujeito e um predicado. E ainda é preciso uma terceira parte: o objeto. Assim como uma história, com o seu começo, o seu meio e o seu fim, pode-se sortear três cartas e compor uma narrativa. 

TRÊS CARTAS
The Alchemical Tarot Renewed: 4th Edition

Hermes Publications, 2015

Penetrar na Alquimia. Enquanto reconsiderava em mil variações a tão saturada leitura de Passado-Presente-Futuro, minha atenção se prendeu à imagem d'A Estrela, uma das minhas cartas favoritas no Alchemical Tarot. Uma imagem arquetípica, embora se apresente repleta de significado, não é uma simples revelação. Daí o termo 'arcano' ainda tão bem aplicado. O significado deve ser elaborado, também de acordo com Hillman, através do 'trabalho com a imagem'. Place transforma a donzela nua dos baralhos tradicionais na Sereia dos Filósofos e funde os astros na aurora com a  Escada dos Planetas, ambas as pranchas provenientes do L'Azoth des Philosophes, texto alquímico de Basil Valentin. Esta figura mítica, tão rica em significados quanto misteriosa, personifica a grandeza e a profundidade do mar. Vem nas ondas de todos os panteões como a dona dos segredos da água. Em termos alquímicos, é a representação da Anima Mundi.


A SEREIA DOS FILÓSOFOS
Azoth des Philosophes

Basil Valentin, 1659



O propósito da obra é a proposição em si. Aliás, a própria Anima Mundi foi quem exigiu que o Alchemical Tarot fosse publicado, afirma Place. Ela é quem fala através das cartas, não eu.  No lugar das duas ânforas d'A Estrela clássica, a sereia pinça seus seios. Ela verte sangue e leite — os líquidos opostos que, combinados com a água salgada, formam a Tria Prima: Sulfúreo, Mercúrio e Sal, três tesouros para compor a Pedra Filosofal. O jorro vermelho é o masculino, relacionado ao sofrimento, à morte e ao medo. Já o branco é o feminino: o alimento, a vida e a esperança. 


O corpo da sereia simboliza, literalmente, a fonte da existência. É dela o estado de calma que vai além das emoções e dos anseios: a tranquilidade necessária para subir os degraus planetários. A estrela de sete pontas, marcada com outro símbolo da Anima Mundi, remete aos portões do Paraíso. Assim, Place compõe este arcano como uma guia ao mais alto estágio de consciência. A mestra, a portadora do equilíbrio e do bem estar. É a Mãe Serena. Afrodite, ela mesma, conforme a presença da pomba ao seu lado esquerdo. Stella Maris. A própria Deusa Branca de Robert Graves. Sophia nas próprias águas.


A LEITURA DOS FLUÍDOS

ALCHIMIA
Collectanea 
Chymica
Morley & Muskens, 1693

Repenetrar no Tarô. Não se pode ter tudo, mas tem-se o que é necessário. Contrariando toda e qualquer cobiça, a excelência é atingida com o que se tem e por quem  se é. Aproveito as lições da aula de Place para experimentar alguns métodos de interpretação [porque com três cartas se tem um presságio, uma diretriz, uma revelação; porque do improviso, que nada tem de mundano, se chega à Magnum Opus]. O laboratório tem o teto estrelado. Eles está em mim e em você.

The Rider-Smith-Waite Tarot — US Games, 1971
Tarot de Marseille — Camoin & Jodorowsky, 1997

The Tarot of Prague — Baba Studio, 2003

Tanto os seios da sereia quanto os seios da donzela nua de todo e qualquer Tarô representam a fonte. Seios são símbolos de provisão. Estão ligados simbolicamente ao mar e à mãe. As mamas, a figura materna e as coordenadas marítimas convergem para a assunção e a proliferação da vida. O fluxo é profuso. Peças fundamentais da Alma do Mundo. Nos procedimentos alquímicos, os seios são tanto criativos quanto destrutivos. Deles vêm o elixir e o veneno. Segundo alguns psicoterapeutas como Melanie Klein, há o seio que fornece e o seio que retém. Um é o Sol; o outro é a Lua. Place, para a alegria dos bons estudiosos, concebeu sua Estrela de acordo com todos esses princípios. O mesmo acontece com o verso da quarta edição do Alchemical Tarot, que é a releitura de uma antiga personificação da Alquimia: seus cabelos são o Fogo; seus olhos são o Sol e Lua; em seus braços estão os animais fixos e voláteis; sua respiração é o Ar; seu vestido sustenta os sete metais e de seus seios brota a Água da Vida. 

Durante meus estudos recentes, passei a aplicar uma sugestão do próprio Place quando emerge A Estrela em uma leitura: colocar uma carta à sua esquerda e outra à sua direita. Quando olha para os seus próprios seios, ela sabe que o esquerdo é o feminino e o direito é o masculino. O esquerdo é o lado branco, do inconsciente. A poção da imortalidade. O direito, que expele sangue, está ligado à consciência, à ação. Em outros termos, o branco merece discernimento e o vermelho exige atitude.  Dois dutos, dois Phármaka. 



O arranjo é rápido e significativo. A carta posicionada à esquerda d'A Estrela, no lado associado ao jorro vermelho, representa os temores do momento ou diante da questão trazida ao oráculo. Já a carta da direita, ao lado do jorro leitoso, representa as esperanças. Uma outra experiência é assumir o arranjo simbólico d’A Estrela como modelo para a leitura de três cartas. O assunto a ser tratado é simbolizado pela carta central. O arcano à esquerda sugere a reflexão necessária sobre os percalços ou os limites. À direita, por fim, o conselho a ser acatado e a postura a ser fortalecida. Esta etapa, na Alquimia, é o batismo, a purificação do negro mais negro. Marie-Louis Von Franz, em conferência transcrita no livro Alquimia [Cultrix, 1993], cita uma parte do Aurora Consurgens, um dos manuscritos mais emblemáticos e enigmáticos da historia da Alquimia: depois de distribuir e atribuir estes sete [metais] através das sete estrelas, e as tiver limpado nove vezes até que pareçam pérolas, este é o estado de brancura”. N'A Estrela, o primeiro corpo celeste em destaque nos Arcanos Maiores, se alcança a claridade. Albedo.




UM EXEMPLO DE LEITURA

Porque exemplos tonificam a prática. O consulente veio a uma consulta para saber quais rumos tomarão a sua empresa, aberto ao que cartas poderiam sugerir, confirmar ou exigir. Sorteou, então, O Hierofante, O Eremita e A Imperatriz.


Se começo lendo como uma narrativa linear — um dos sete padrões descritos por Robert Place para a disposição em três cartas — os arcanos sugerem uma postura resoluta e aparentemente impecável em relação ao próprio trabalho, aplicando com maestria seus princípios à demanda comercial. A carta central, considerada a mais importante por Place, sugere o seguir à risca as ordens de uma autoridade ou mesmo uma ideologia. Dentre as delícias visuais do Alchemical Tarot estão as pegadas à frente do velho sábio. Elas são os rastros da própria Anima Mundi — um exemplo a ser seguido, literalmente — que levam à mulher coroada, senhora da razão e digna da visão. A imagem, presente na obra Atalanta Fugiens, do médico rosacruz Michael Maier, publicada em 1618, também se encontra no Musaeum Hermeticum, de 1625. Foi reimpressa em 1687 com o título Secretioris Naturae Secretorum Scrutinium Chymicum [Investigação Alquímica dos Mais Ocultos Segredos da Natureza]. Em um desses epigramas, referentes à imagem do eremita-alquimista, o conselho é explícito: “Deixai que a Natureza seja o vosso líder, e por este meio sereis prazerosamente o servo da natureza; caminhais a esmo, a menos que a própria Natureza seja a companheira da nossa vida. Dai à razão a força do cajado; a razão intensifica a luz que pode distinguir aquilo que está muito distante. Deixai que a leitura com uma lâmpada transforme as trevas em luz, de modo que possais prever e vos proteger contra muitas coisas e palavras.”

Sendo O Eremita o arcano central e também o meu consulente, a leitura do arranjo visual incita um deslocamento. Ele segue os passos, então, d’A Imperatriz, o arcano final. Apoiado no vaticínio extraído dai interpretação PASSADO-PRESENTE-FUTURO, o papai-mamãe da Cartomancia, prenunciei a influência direta de uma mulher repleta de ideias e potenciais exigindo parte do controle sobre os negócios. O empresário não deixará valores e convicções de lado, mas passará a acatar as sugestões de quem olha para frente, de quem pensa aqui e agora para longe e mais além — sair do seu templo [Hierofante] e experimentar a caminhada [Eremita] até o horizonte vislumbrado pela sua soberana [Imperatriz]. De fato, meu consulente consentiu a respeito do comando de boa parte dos investimentos por parte da esposa, tanto pelos ideais de expansão do negócio e de uma aposentadoria tranquila quanto à carreira do filho, que pretende entrar para o mesmo ramo — aliás, ele próprio presente na carta (!) aos pés da mãe. Sucesso a caminho. Em família. 

O valor da leitura aumenta com as noções de Sangue e Leite. O consulente deve sacrificar [carta à esquerda] a irredutibilidade d’O Hierofante. Achar que a esposa não sabe ou não pode dirigir os negócios da família é uma postura típica de alguém soterrado pelas próprias convicções e pelo senso de moralidade que beira o machismo. À direita, a carta assegura o que deve ser alimentado: o respeito e os esforços d’A Imperatriz em querer administrar os caminhos profissionais, com sensatez, assertividade e previdência. Dar razão à esposa. Um panorama, uma sentença, um prognóstico. Um recorte do mundo em três cartas.

Virtuoso é perseguir a Quintessência, outro nome alquímico para o advento máximo — a Anima Mundi, tão estimada. No âmbito tarológico, alguns dão esse nome à soma da numeração das cartas presentes uma leitura. No caso desta, os arcanos 5, 9 e 3 resultam em 17, A Estrela. Providencial, não? 



O EREMITA SEGUINDO OS PASSOS DA NATUREZA
Musaeum Hermeticum

1625

O objetivo do estudo da Alquimia aliado ao Tarô é congruência, a adaptação mútua. Não se trata de uma linguagem rebuscada de imagens antigas em cima de imagens também antigas. É fazer e estar em contato. Receber mensagens. Tenho repassado alguns conceitos dos livros e baralhos criados por Place. Sua tese é repaginada a cada publicação, com adendos e revisões sistemáticas dos métodos de leitura e da teoria dos símbolos. Mergulhar em temas como o Neoplatonismo e a Cabala, por exemplo, tem sido seguro porque o escritor oferece caminhos bem neutros através das próprias ilustrações, sem preconceitos nem fatalismo. Os sistemas adotados ou desenvolvidos em vários de seus trabalhos convergem na figura d'O Mundo, que é a Grande Obra alcançada. O trunfo XXI é a Quintessência, o processo completo da Alquimia — a Anima Mundi absolutamente exposta. Recompensa. Coroamento. A Pedra Filosofal.

Tarot of the Saints — Llewellyn, 2001
Alchemical Tarot — Hermes Publications, 2007

The Tarot of the Sevenfold Mystery — Hermes Publications, 2012

O número 21 reduzido a três [2+1=3], conforme pontua Place, evoca a Senhora do Mundo Terreno — A Imperatriz. Três são faces da Grande Mãe. Três é o conceito que une o par e supera a polaridade. Três são os hieróglifos da alma sobre a mesa. Três cartas. Retomar conceitos práticos [e simples!] da linguagem simbólica é uma postura saudável diante de tantos verdades disponíveis e tantas ditaduras em relação aos significados e ao funcionamento do Tarô. Precisa-se de pouco para haver uma revolução simbólica. Com poucos recursos e muitos esforços se atinge a meta. Assumir uma postura disciplinada em relação ao que já existe na estante é o mesmo que descobrir aqui e agora o tesouro mais cobiçado de uma terra longínqua. E reaprender a olhar as imagens é tão desafiador e fascinante quanto mergulhar nas águas da Grande Imagem Primordial. É como voltar para casa e fazer uma lição esquecida, esperando por correção. E ter nos baralhos e nos livros um mestre generoso, iluminado pela eloqüência. Talvez Place tenha acatado à pérola de Pietro Bonus, alquimista italiano do século XIV:

Qual a utilidade, para o mundo, de diamantes escondidos ou de tesouros secretos? Qual a utilidade de uma vela acesa quando escondida? É o inato egoísmo do coração humano que faz essas pessoas buscarem um pretexto pio para manter esse conhecimento longe da humanidade. 

Retificar, pela Alquimia, a linguagem dos símbolos. Compartilhar o conhecimento. Se essa arte é uma experiência de transmutação, como bem sabe Robert Place, o Tarô é o instrumento mais adequado às mãos do buscador. Através das cartas, revela-se. Tudo tem alma, dos metais elementais aos Arcanos Menores. Porque é bem assim: quem lê as cartas pode não ter tudo o que quer, mas tem tudo o que precisa — tanto para suscitar a sua própria evolução quanto para operar a transmutação nas pessoas. 

O Universo nas mãos. 





 Para conhecer e encomendar os títulos de Robert M Place, acesse o blog Tarot & Divination.
✦ Para leituras com o Alchemical Tarot, confira horários e condições AQUI.

11 de junho de 2016

AS CARTAS DE ANA CRISTINA CÉSAR


Quando a poesia encontra o oráculo, o mundo se abre. É um reflexo. A partir de 1975, a poeta carioca se dedicou a diversas traduções. Dentre elas está o livro do poeta, ensaísta e editor Alberto Cousté, publicado pela Editora Ground em 1977. Tarô ou a Máquina de Imaginar é um manual sobre a leitura de imagens baseado nas obras de importantes ocultistas franceses como como René Guénon, Paul Marteau e Éliphas Lévi. Escrito com clareza apaixonada sobre as imagens 'deste livro que pode ser todos os livros' o volume tem como mote a frase do também francês Oswald Wirth, proeminente divulgador do Tarô: "Adivinhar é imaginar com justeza". A partir dela Cousté especifica três abordagens de e para um estudioso dos arcanos: a mágica, a esotérica e, por fim, a poética. O símbolo é uma engrenagem do verso.

O Tarô conta a história de alguém que está procurando escrever a história do que não sabe. Obra-prima do pensamento analógico, a leitura dessa história é interminável: não só por seu caráter perpetuamente referencial, mas também porque cada leitura a transforma em outro livro cada que a consulta.

"As cartas/ não mentem/ jamais", como bem sabe a poeta no seu Pour Mémoire, de 1982: o livro de Cousté, que passa batido nas estantes dos sebos, já é um clássico. Tanto pela importância do autor quanto da tradutora, que fecha o livro com a sua versão impecável d'O Poema do Tarô, na íntegra a seguir.  Cada verso corresponde à essência de cada um dos 22 Arcanos Maiores.


1 Tudo anuncia uma causa de inteligência ativa
2 Afirma o número que é a unidade viva
3 Por que nada limita o que tudo contém

4 Antes ainda do princípio Solitário
está presente em toda parte
5 É o mestre único, o único adorável
6 Que revela aos limpos de coração o dogma puro, sim-
                                                                 [ples e verídico
7 E nomeia o único chefe que fará cumprir a sua obra
8 Pois não temos outro altar
nem há outra lei além desta para todos os homens
9 não mudará o Eterno seu pedestal jamais
10 Ele regula seus dias e a mudança dos tempos e os
tempos e o dia que nos toca
11 Rico em misericórdia, potente no castigo
12 Um rei ao seu povo dará no porvir

13 A tumba é a passagem para a terra nova
só a morte morre a vida é imortal

14 Este é o anjo bom que acalma e concilia.
15 O mau é este espírito de cólera e de orgulho
16 Mas Ele comanda o raio e faz brotar o fogo
17 A estrela matutina e a água obedecem a ele

18 Como um mudo vigia anda em nossos caminhos a
                                                       [lua que Ele coloca

19 e seu sol é a fonte onde tudo renasce
20 O sopro da sua boca germina entre as tumbas
0 ou 21 Onde habita o rebanho calado dos mortos
21 ou 22 Coroou o céu com o propiciatório
               mais alto que os anjos se vê planar a sua
               glória.

Fico pensando na obrigação de traduzir um livro sobre Tarô. Penso em uma poeta traduzindo um livro de Tarô. Na relação de uma poeta com o Tarô. Na relação desta poeta o Tarô. Independente de ser um livro nada falado pela classe esotérica atual — embora bem popular há quase 40 anos atrás — este livro merece releituras frequentes. Um livro fundamentado "na desconfiança das definições; e em homenagem à reiterada proposta do imaginário."

O presságio na língua de Ana C.
O livro. O Mundo.

7 de maio de 2016

ARCANOS E VELAS

The Tarot of Prague
BabaBarock, 2016

Uma dos meus hábitos mais antigos é acender uma vela antes de uma leitura de Tarô. Diante de um consulente, durante uma consulta virtual e mesmo à luz do dia, garanto a chama acesa no ambiente. O motivo é simples e significativo: como leitor de imagens, tenho a função de contar histórias — histórias que se desvelam conforme desvelo as cartas, histórias desconhecidas por mim e mesmo pelos meus clientes. Histórias deles. Histórias que podem ser minhas. Então me ponho como facilitador dessas histórias. O que faço é engendrar as palavras a partir das imagens: construo uma narrativa, seja longa ou concisa, tanto com o baralho inteiro quanto com uma carta apenas. E para caminhar no desconhecido dessas tramas — no escuro do exercício simbólico — é necessário uma lamparina, uma lanterna. Por isso as velas assumem o papel de geradoras da inspiração e da intuição. É a luz do oráculo. Quem lê os arcanos tem o dever de gerir o calor dessas histórias. 

Evoluíram as lâmpadas dos contos de fadas para a haste moldada na cera das abelhas. E nela ainda o gênio. Uma alquimia milenar. A chama deve ser implementada e respeitada como fonte de clareza em relação aos símbolos analisados: a faísca mais antiga incidindo sobre a simbologia. Força vertical, que toca as alturas. Ao lado das cartas, uma vela aquece o ambiente e a relação das pessoas ou dos instrumentos envolvidos na leitura do Tarô. E ela prende a atenção de modo discreto — é uma forma simples e ao mesmo tempo poderosa de tonificar a consulta. De ascensionar cada presságio. 


The Tarot of Prague
BabaBarock, 2016


Em vez de maldizer a escuridão, acender uma vela. Que é trazer o fogo para si — o elemento ligado à produção do alimento e à transformação da vida antiga em uma nova. Essa medida reforça o que uma leitura pode fazer por nós e por nossos consulentes: resgatar o dínamo interior, reavivar a autoconfiança e suscitar uma postura decidida frente ao que exige atitude ou ao que está por vir. Em poucas palavras, traz luz a um modo diferente de ver e viver as circunstâncias; abre o apetite em relação ao mundo, tão vasto quanto se imagina. 

Uma vela, por mais simples que pareça, assegura esses propósitos de forma serena e até mesmo charmosa. Minha sugestão é optar por velas pequenas e aromáticas, especialmente as que vêm ou caibam em vidros. Evite velas votivas ou muito compridas que podem atrapalhar ou poluir sua performance oracular. Siga a faísca da intuição. Ela se alastra.




PROLEGÔMENOS PARA O VATICÍNIO LUMINOSO 

A chama de uma vela condensa todo o fogo dos céus, das terras, dos mares de todos os tempos. Uma vela acesa honra as sacerdotisas, os contadores de histórias, as adivinhas e os leitores do passado, do presente e do futuro. Peça, antes e depois de cada leitura das cartas, que haja eloquência e sensatez ao lidar com as imagens de cada carta e boa vontade com cada um dos seus consulentes. Quando se lê o Tarô, você está se dedicando a outra pessoa ou a um objetivo. A vela serve como lembrete para haver consciência, tranquilidade e responsabilidade diante do oráculo. 




Este procedimento recebe conotações variadas de profissional para profissional, dentre elas a religiosa e a decorativa. Por isso deixo absolutamente claro que a eficácia do Tarô não depende de nenhum aparato sobre a mesa de leitura. Uma consulta significativa pressupõe estudo, dedicação e sincero respeito às cartas e aos consulentes. Ressalto ainda que trazer uma vela à mesa da leitura é uma medida arbitrária e não uma condição para as cartas responderem às perguntas. A segurança está na prática. Os recursos estéticos são parte de uma ritualística pessoal, mas não são condições para um bom atendimento. A beleza de uma consulta de Tarô parte do oraculista. E a excelência, tão buscada, depende do seu preparo — sua luz, suas velas interiores. Jamais dos instrumentos ao redor do baralho. Em vez de maldizer a oráculo, manter o bom senso.

Porque acender uma vela é se deixar inspirar pelo Eremita, que caminha — com pés e cajado firmes no chão da realidade — pelo campos ensolarados e pelos vales sombrios de todos os tempos. Uma vela é a prova de querer vencer o medo do mundo. Alumiar. É a confiança na luz de si. É a branda proteção dos escudos celestes. 

A emulação da Estrela.



The Tarot of Saints
Robert M Place — Llewellyn, 2002





                                                                
LEIA TAMBÉM
para saber mais sobre instrumentos 
e objetos associados à leitura do Tarô