sábado, 24 de maio de 2014

UM TARÔ PARA A BELA ADORMECIDA























Era uma vez um rei e uma rainha que, desejosos de uma criança para iluminar suas vidas, recebem um presente: a vinda de uma graciosa menina, nascida logo pela manhã. Uma grande festa é organizada e todos os reinos vizinhos são convocados para conhecer a pequena princesa. As fadas também são chamadas para as devidas bênçãos, concedendo cada uma delas um dom à criança. 

A primeira lhe confere o dom de beleza; a segunda, o dom de cantar; e a terceira, antes de anunciar seu presente, é interrompida por uma quarta fada que adentra o salão real. Temida por todos e constatando que não é bem-vinda na celebração, mesmo assim faz questão de agraciar a criança: "Ela crescerá em graça e beleza e amada por aqueles que a conheçam. Mas, antes do pôr-do-sol de seu décimo-sexto aniversário, ela picará o dedo no fuso de uma roca e morrerá!" 


É então que a terceira fada, fazendo o possível para que a tal desgraça não recaia sobre a menina, confere seu presente: "Gentil princesa, se por um desumano malefício num fuso picar seu dedo, como presente de bondade anularemos a maldade. A morte não a levará! Você adormecerá e de seu sono sairá: um beijo doce a despertará." 



O filme que mais vi até hoje foi A Bela Adormecida. Produzido pela Disney em 1959 a partir da versão de Charles Perrault, foi este o conto de fadas que pavimentou a minha imaginação. Posso, aliás, revelar sem vergonha alguma: foram mais de quarenta e cinco locações, segundo contabilizam meus pais, que por pouco não foram convencidos pelos atendentes das locadoras da cidade a me comprarem uma cópia do VHS. Mas nunca foi a princesa Aurora nem mesmo príncipe Felipe que fizeram a minha cabeça de menino bruxo — com Sol em Capricórnio na Casa 8 e Lua em Escorpião conjunta a Plutão, era Malévola que com orgulho povoava minha fantasia e que ainda hoje, confesso, reina soberana sobre qualquer outro vilão. É em forma de homenagem que apresento algumas das principais analogias entre a fábula imortalizada pela Disney e as imagens arquetípicas do Tarô. Caso não se lembre do clássico, eis o filme completo em uma das melhores dublagens já feitas. 

Confie. 
Não tenha medo. 
Aqui começa o nosso trajeto.



















É das Fadas a trama d'A Bela Adormecida. Tecida em absoluto por elas. E assim como existem várias versões deste e da maioria dos contos de fadas que conhecemos, também celebra-se as mais diferentes formas, conceitos e enigmas a respeito das eternas madrinhas. Fada vem do latim fata ou fatum, traduzido como 'fado' ou mesmo 'destino'. Sugere sobretudo 'aquilo que foi dito', referindo-se claramente a discursos proféticos. São elas que intervém no destino dos homens. E o tal destino, assim como conduz a vida sob a égide dos ciclos, transgride suas próprias leis: encanta. Costura os mais engenhosos feitiços durante o fio da nossa existência. Em uma das variantes do conto, são doze as fadas convidadas ao banquete e doze os lugares e pratos reservados à mesa. Quando faltava apenas o presente da décima segunda, surge a décima terceira que, sedenta pelo desejo de vingança por não ter sido convidada, amaldiçoa o bebê. A astróloga e psicóloga Liz Greene, no magistral Astrologia do Destino (Pensamento, 1980), confessa associar o incidente a uma escolha insensata do Rei: são doze os meses solares em um ano e treze os meses lunares. Optando por colocar a medida solar acima da lunar, cria-se um problema com o feminino. As treze figuras seriam, portanto, a personificação das Erínias trazendo a mais hedionda punição à Majestade.


Fala-se, portanto, de divindades. Uma roda de mulheres fiando as circunstâncias. Elas são três. E o três é sempre o número fatídico quando se adentra o universo plural das fábulas e dos oráculos. Quase imperceptível mas sempre presente é o vínculo entre o nascimento e o destino. A relação é tão estreita que pode ser vislumbrada na maioria dos mitos, das religiões indo-europeias e das literaturas. São as Três Aparições que assombram Macbeth e profetizam seu devir. Mas convém desvelar que As Parcas foram divindades oraculares ao mesmo tempo em que protegiam os nascimentos em Roma. Eram invocadas no dies lustricus, dia em quando a criança era purificada e recebia o praenomem, seu nome próprio. 

Assim, essas criaturas encantadas teciam valores e pormenores para toda a vida do recém-nascido. Sendo divindades de cunho profético, comprovado por testemunhos literários bastante antigos e inscrições latinas arcaicas, com o passar do tempo elas adquiriram funções de deusas do destino; deusas da geração e da predestinação transformadas em regentes da fatalidade. Sua gênese remonta ao conceito grego de Moira, que  com o passar do tempo foi associado a três velhas numa caverna, cada uma com o seu eterno ofício diante do Fio da Vida: Clotho {a que fia}, Lachesis {a que mede} e Atropos {a que corta}. É Moira a raiz conceitual d'As Parcas. Elas dão aos homens um fatum que nem sequer os deuses podem transgredir sem que a ordem universal seja colocada em xeque. São elas que decidem a sorte dos humanos. Sorte que dão a conhecer desde o primeiro dia, reservando a cada um o seu quinhão. Então acredite: as Três Fadas que acompanham a doce Aurora são uma delicada e predominantemente bondosa versão d'As Parcas.


As Três Fadas | Disney, 1969
Parcae | Tapeçaria do século XVI




Seus nomes na versão Disney são bastante significativos: Flora, Fauna e Primavera (Merryweather, no original). Seguindo o mesmo raciocínio de Liz Greene, Rei Estêvão opta pela vida em sua profusão, ou seja, pelas três estações do ano em que a existência se regozija, deixando de fora justamente o Inverno — tempo de longas noites de frio, escassez e a treva, que Malévola personifica e tão bem representa.


The Masque of the Four Seasons
Walter Crane, 1903

Celebra-se a grandeza da Bona Dea, o aspecto provedor da Grande Mãe, e refuta-se sua sombra. "As fadas boas jamais estão desacompanhadas de sua versão maligna", pontuam Diana Lichtenstein e Mario Corso no livro Fadas no Divã: Psicanálise das Histórias Infantis (ArtMed, 2006). É a fada negra, Malévola, parte indissociável das outras três — o aspecto terrível da Tria Fata — que acompanham Aurora desde o princípio e determinam os passos de cada personagem. Estamos nos domínios pagãos de todo clássico infantil que se preze. Um costume grego era receber a visita das Moiras a cada parto para determinar o futuro da criança. Prendiam-se os cães, abriam-se as portas e dispunha-se de boa comida para manter as Fadas em humor e bondade. Seria a Roca de Fiar, elemento magno da fábula, a própria A RODA DA FORTUNA no filme: um símbolo de predestinação. Tocar o fuso — o espinho envenenado — é o mesmo que cumprir o que foi traçado pelas forças do Destino.




The Mythic Tarot | Fireside, 1986
Imagens de Sleeping Beauty | Disney, 1969

Quando dies adveniet quem profata Morta est? 
Para driblar o malefício da antagonista, as Flora, Fauna e Primavera disfarçam-se de humanas e criam a princesa num harmonioso chalé no Bosque Encantado, longe de ameaças e de toda e qualquer roca de fiar. É lá que, ao longo de  quinzes anos, torcem para que o dia predito pela Rainha do Mal não chegue.

A alusão à MORTE, décimo terceiro Arcano, é previsível. Malévola é quem estraga a felicidade de todos os presentes — alteza, realeza, cortesãos e até a ralé — ao predeterminar o tempo de vida da pequena Aurora. É Morta, nos meandros conceituais d'As Parcas romanas, a faceta d'aquela que corta o fio tecido pelas outras duas, Nona e Decima que regem o nascimento e profetizaram os dons.

De quê é feita Malévola? Dos símbolos que rondam a Rainha do Mal, destaca-se Diablo, o corvo que jamais a abandona. Animal bastante caro aos deuses ligados à profecias e à sabedoria como Apolo, Odin e mesmo Athena, não registros de reclamação  sobre a companhia nem dúvidas a respeito de sua lealdade. O corvo, saibamos, tem uma simbologia tão vasta quanto a fantasia de uma criança. Carrega sentidos de mau agouro devido ao grasnido indiscreto desde os tempos babilônicos, quando regia o décimo primeiro mês do calendário — não à toa, pelo número 13 é que assume o Arcano Sem Nome como seu habitat natural.


Malévola, A Morte | Disney, 1969
Tarot of the Sevenfold Mystery & Alchemical Tarot, de Robert M. Place

O mascote de Malévola é, sem dúvida, a parte obscura da psique que exige absoluta coragem para ser enfrentada. Putrefactio, falando na linguagem das pranchas alquímicas. E é o único que desempenha brilhantemente sua tarefa de sobrevoar todos os reinos que sua vista pode alcançar para encontrar Aurora, até então feliz no Bosque com as três camponesas. Pode ser, ainda, o pássaro negro que espreita a donzela d'A ESTRELA.


Aurora, A Estrela | Disney, 1969
Tarot de Marseille

A versão Disney, como a maioria de seus clássicos, é absolutamente dualista. Confere às Três Fadas a essência da mais pura bondade, ao passo que a bruxa — pois Malévola encarna exaustivamente os atributos simbólicos das feiticeiras míticas — é tão má a ponto de proclamar-se Rainha de todo o Mal. 












Aliás, tem tantos que até se perdem no tempo. Uma das origens da fada que não fora convidada está associada a ninguém menos que Tchaikovsky. Foi com o ballet Spyashchaya krasavitsade 1890, que brotaram vários dos elementos aproveitados pelas adaptações subsequentes do conto de Perrault, como o próprio nome da princesa: Aurora. No espetáculo, tanto quanto em diversos livros antigos, a fada que o Rei esqueceu de convidar para o batizado é a poderosa Carabosse, the wicked fairy godmotherFoi Marc Davis, um dos maiores animadores dos Estúdios Disney — responsável também por dar vida à Alice, Sininho e Cruella DeVil — que concebeu a versão definitiva da antagonista d'A Bela Adormecida






Primeiras concepções de Malévola. 
Marc Davis | Disney, 1969

Na edição comemorativa de 50 anos do filme, o ilustrador revela que imaginava a vilã como um grande morcego-vampiro. A atriz Eleanor Audley foi quem serviu de molde e também conferiu voz a Malévola, que só perde para a dublagem brasileira — sim, a nossa versão de A Bela Adormecida está entre as melhores do mundo — feita por Heloísa Helena, cantora e também atriz. Óbvio dizer que Audley, que também serviu de molde para trazer à luz Lady Tremaine, a madrasta de Cinderella, também inspirou a performance de Angelina Jolie no filme de Robert Stromberg, que propõe uma arqueologia da personagem [naturalmente produzido pelos Estúdios Disney]. Do que talvez os animadores não se deram conta foi do impacto simbólico causado pelas entradas triunfais, pelos trejeitos pontiagudos e mesmo pelo figurino único de Malévola, que conquistou gerações e promete ainda mais. 

Eleanor Audley — Maleficent
Disney, 1959


Entre estudiosos, praticantes e entendidos de Magia, nunca se pergunta o nome de alguém, mas sim como esse alguém é chamado. Maleficent, seu nome no idioma original, vem do latim maleficia: a prática de uma negativa — e até mesmo letal — bruxaria. E por falar nela, a palavra consta no título de um dos livros mais obscuros relacionados às práticas mágicas: o famoso Malleus Maleficarum, um manual de procedimentos de execução dos ditos hereges, compilado pelos inquisidores James Sprenger e Heinrich Kraemer, lançado pela primeira vez em 1487 na Alemanha. As táticas de tortura descritas dispensam todos os adjetivos. E por falar neles, deve-se ter em conta que 'maledicente' é quem provoca malefícios. 'Maléfico', por sua vez, é quem traz, desenvolve e causa danos. E 'malévolo' é o que ou quem é mau, que possui má índole. 

Mas o óbvio pode às vezes passar longe. Maleficent é um feitiço gramático para que se tenha em mente outro termo à altura da vilã: Magnificent, 'grandioso', 'formidável', 'excelso'. Tendo por base única e exclusivamente o clássico Disney de 1969, Malévola encarna majestosamente a ideia da maldade. Uma análise profunda de sua carismática figura faz com que seja associada às tradicionais figuras demoníacas: alta, esguia e elegante, de pele levemente esverdeada e modos delicados, ostentando um longo vestido negro em tons de roxo, um cetro [alusão ao poder triplicado de uma simples varinha mágica] e um par de chifres. A vilã oferece, sem sombra de dúvida, uma imagem sofisticada do Arcano XV.

Malévola, O Diabo
Tarot of the Sevenfold Mystery | Robert M. Place, 2012.

E não haveria um quê de Medeia em quem amaldiçoa uma criança? Malévola carrega atributos de uma fada negra, de uma assombração indesejada, de uma mulher ressentida e de uma bruxa muito poderosa. E não há motivos maiores para causar o sono eterno de Aurora e a desgraça de todo o reino senão a ofensa gravíssima por um convite de batismo jamais feito, correto? Há controvérsias. Malévola, enquanto aspecto sombrio da Fada-Madrinha, parece desconhecer o amor, ou mesmo desconsiderar a afeição dos humanos. 

Além do corvo Diablo, a malvada vive na companhia dos Goons, seus imprestáveis capangas: abutres, morcegos, jacarés e, em maior número, porcos e javalis. Em determinado momento do filme, todos eles dançam e cantam ao redor de uma fogueira — o sabá da grande maga. E por falar nisso, não teria alguma semelhança com Circe, a feiticeira que transformou em suínos quase todos os argonautas que aportaram em sua ilha?


Circe (gravura anônima) 
Os Goons | Disney, 1969


Mas Malévola não é, definitivamente, uma mera feiticeira. Difere bastante da Rainha Má, por exemplo, a amada antagonista de Branca de Neve e os Sete Anões, de 1937. A Madrasta é humanamente ambiciosa e ambiciosamente humana a ponto de fazer com que a Magia lhe confira o mais horrendo aspecto — o de uma velha mendiga, sua verdadeira essência — para colocar em prática seu tão egocêntrico plano. Voltando à Fada Má, nota-se que ela não pode ser enfrentada tão facilmente. A guarda real jamais se atreve a prendê-la. É intocável pelos homens. Apesar de frequentar o calabouço de sua fortaleza quando consegue capturar Príncipe Felipe, não há como passar batida outra referência ligada à grande feiticeira dos mitos: o aprisionamento de Ulisses. E é por cem longos anos que Malévola pretende manter preso o jovem apaixonado, perdendo o viço como sua amada Aurora, caída desde então no mais profundo sono. 

É notável também, neste ponto, que Malévola faz as vezes do Senhor do Tempo — bebe de Saturno os atributos nítidos de sua natureza e postura. Determina a passagem das horas de cada personagem. Cronos que, semelhante às Moiras, determina a duração de tudo. Todos em suas mãos.


Malévola e Felipe  | Disney, 1969.
Chronos, Deus do Tempo | Fraz Ignaz Günther, 1775.

Sweet Sixteen and Never Been Kissed?

E por falar no tempo de vida da jovem Aurora, as escritoras e sacerdotisas Z. Budapest e Diana Paxson trazem definições consideráveis a respeito do décimo sexto aniversário. No livro em que escreveram juntas, Celestial Wisdom For Every Year of Your Life (Weiser, 2003), é dito que nesta idade se constata o florescimento de Vênus. A puberdade, no mundo da fantasia, se revela de maneira doce, ainda que veemente — a identidade é desafiada pelo mundo de fora, que a chama. Valores internos começam a se transmutar a partir de desejos maiores e de forças nunca antes sentidas. Aniversário em que se reconhece a urgência do crescimento. O desabrochar da florÉpoca, inclusive, em que se deve aprender a Ética do Coração. Colher flores no bosque, por exemplo, é a forma de colocar Aurora à mercê do Amor. E também do porvir.











Analogia, a musa absoluta do cartomante, não tem fim. Ainda mais quando se trata de um conto de fadas — imensurável o seu tamanho e sua riqueza simbólica. Rosa, identidade que Flora, Fauna e Primavera dão à princesa Aurora durante os anos na Floresta, é mais que um nome de flor. Fala-se de uma espécie de microcosmo diante dos atalhos da narrativa. E dos talhos também. Delicadeza, suavidade, beleza, amor e inocência são os atributos da mais delicada arquitetura floral, segundo magos de todos os tempos. O perfume e a cor que fazem sombra aos espinhos negros pelo caminho. 

Enquanto a rosa representa a pureza, a leveza, o amor verdadeiro e o sublime da vida, também traz consigo a ideia de perenidade e fenecimento. É a flor dos alquimistas, dos rosacruzes, dos poetas e da morte, já que sua beleza transcende a vida. Desabrocha na companhia do sol e despetala ao crepúsculo. Da virgindade ao pecado, se descermos ao caule. E é nesta plataforma de emblemas que Príncipe Felipe deve enfrentar um longo trajeto de espinhos.






Prunus spinosa — abrunheiro, como também é conhecido — é uma planta do Inverno. Bendito é o fruto entre as deusas negras e Malévola. Considerado um estandarte tradicional da Bruxaria, carregava conotações de má sorte por onde fosse avistado. Seus espinhos podem ferir seriamente e até causar infecções bastante dolorosas. Além de serem utilizados para espetar bonecos de cera, são ainda usados para entalhar sinais, pedidos e conjuros em velas. Presente em adivinhações e maldições, seus galhos mostram-se resistentes para confeccionar varas e cetros de poder — não à toa, o cajado de Malévola deve ter essa composição. O nome gaélico do Abrunheiro é Straif, que mantém conexão com o termo strife: 'luta', 'contenda' ou 'discussão' em inglês. Nada mais profético.

The Green Man Tree Oracle
John Matthews &Will Worthington | Connections, 2008

Associado à dor, ao dano, ao ressentimento e ao desejo de causar o mal: um símbolo clássico d'A Morte. É o espinho que, no âmbito cristão, se torna o vetor do pecado e do sofrimento. Fonte de vingança e negatividade, sua especialidade mágica é ferir. Reforça, então, que a 'marca da bruxa' era providenciada por entidades sombrias que usavam pontas e utensílios talhados com essa planta, assim como armas sacrificais presentes em antigos círculos de feitiçaria.

A forest of thorn shall be his tomb,

Born through the skies on a fog of doom!

A Floresta de Espinhos é uma referência direta à clássica Floresta Negra dos contos de fadas tradicionais. Uma outra arena de perigos mortais para que o jovem teste a si próprio e cresça — eis o grande obstáculo que Malévola faz brotar nas adjacências do Castelo quando o Príncipe foge do cárcere para dar o beijo de amor em Aurora. A selva de trevas providenciada pela vilã nada mais é que uma extensão do seu poder. Inegável.












A Bela Adormecida, sabemos, é uma estória sobre o destino. Antes e depois de qualquer hipótese. E são justamente as três faces bondosas do destino que ajudam o Príncipe e a Princesa a passarem por seus respectivos ritos de iniciação. Felipe, apaixonado e prometido a Aurora, é auxiliado a todo momento por elas para vencer as imposições da vilã e quebrar o feitiço do sono eterno. Essas proezas exigem grande atenção, já que são os dois pólos da estória literalmente erigidos aos olhos: Malévola opera seus conjuros a partir da mais alta torre de seus domínios, na Montanha Proibida. E Aurora, por sua vez, repousa na mais alta Torre do Castelo de seus pais.

São duas as Torres que se colocam entre o Príncipe-Cavaleiro: o puro perigo que emana d'A Montanha Proibida e O Reino Encantado, tomado pela floresta de espinhos que tonificam o desafio. Mais que um simples par de edifícios, mergulhamos aqui no cenário mais escuro da jornada do Tarot: A LUA


A Lua | Tarot de Marseille
A Montanha Proibida e O Castelo Encantado | Disney, 1969


Com o que sonha A Bela Adormecida?
A Lua, no clímax da estória, também representa o estado da Princesa: está oculta a sua própria sua luz. E tem-se o inconsciente, a indefinição e a incapacidade diante das águas negras do sono. Vênus em pausa. Once upon a dream.




A Bela Adormecida no Bosque | H Gerlins
The FairyTale Tarot | Llewellyn, 2009
The Rose Bower | Edward Burne-Jones, 1890


Felipe deve passar pelos desafios que Malévola coloca em seu caminho: A Lua é a noite das trevas em que se apresenta o arcano XV na forma de um dragão negro — a face animalesca da vilã, proporcionando ao Príncipe o teste derradeiro de sua bravura e de seu amor. Para isso, em suas mãos nada menos que o Escudo da Virtude e a Espada da Verdade, arsenal concedido pelas Fadas. O Ás do Cavaleiro que se apresenta. O Mal que acaba derrotado do alto d'A TORRE, o próprio arcano XVI.  Um confronto entre o humano e o terrível só é possível aqui através da magia. Tanto que destruir o dragão requer conhecer o seu ponto fraco. 

E qual seria o ponto fraco de Malévola? O coração, é claro, que todos acreditam ser — ou estar — vazio. 




O beijo de amor verdadeiro, possível somente após enfrentar o perigo apresentado pela Escuridão, quebra o malefício. O SOL, arcano XIX, é o prenúncio do despertar, a luz que volta a dar vida ao reino — a Aurora em si. 
















A Bela Adormecida, antes e depois de qualquer coisa, é um conto sobre o destino. Malévola, indignada por não ter tido sinal algum de Aurora durante quinze anos, revela uma intrínseca ligação com a Princesa. Por quais motivos ela deseja saber do paradeiro da menina ao longo deste tempo se sua maldição infalível foi proferida desde o princípio? É o aspecto negro da Mãe que acompanha a jovem desde o seu nascimento — mesmo que por meio de uma maldição em vez de um dom — por não ter sido reconhecida nem assimilada à vida da menina, como foram as outras Fadas. 



Moira, enquanto força natural, jamais esquece um insulto. É o advento da húbris que causa a ira dos deuses. Do grego hybris, pode ser traduzida como 'desmesura'. E num vislumbre, a antagonista se assemelha a um conceito grego não menos importante: Nêmesis, a deusa do inevitável, cujo papel é perseguir e punir aqueles que transgridem a húbris, condição diretamente relacionada às senhoras tecelãs. Ela denota o erro daquele que deseja mais do que foi concedido pelas três irmãs. Assim, orgulho, arrogância e presunção exagerados merecem a punição das forças do destino. A húbris do rei Estêvão, ao deixar de reconhecer a importância e a inerência de Malévola em seu reino, é justamente o desejo de um pai que esperou ansiosamente por uma criança: que nunca cresça, que não passe por provações muito árduas ao longo da vida e, por fim, que nunca morra. É o desejo, então, de que a Princesa, a aurora, nunca se torne crepúsculo. Tampouco noite.

Embora notável o espectro de Malévola em várias divindades, todas elas cruciais à manutenção da existência, há uma lição bastante clara: não se pode jamais deixá-la de fora. O lado negro da força, por assim dizer, é indissociável do claro. O Dia conta com a presença da Noite. E ela vem, mesmo indesejada. Mesmo sem ser convidada. A Mãe Terrível, portanto, também deve agraciar a criança. Assim pode haver noção de que a vida é, realmente, um ciclo. Desdenhar o destino apenas faz com que ele se torne ainda mais presente, dando provas do seu poder. Ele, ressentido, intervém por conta própria, mesmo não sendo bem-vindo. É o destino que sempre se apresenta na figura de uma velha no escuro profundo de uma floresta. Ele que tem seu rosto rearranjado indefinidamente nas cores e nas formas de setenta e oito cartas espalhadas sobre uma mesa. E que jamais nos esqueçamos: é ele, o destino, cobrando o que ele mesmo é — o seu quinhão.


Malévola {Angelina Jolie} agraciando a criança.
Maleficent, filme de Robert Stromberg.
Disney / Buena Vista, 2014

Desde que lancei meu primeiro livro, Moira tem surgido com frequência em associações, imagens e referências literárias. Quando soube da proposta do filme 'Maleficent' — um investimento que mesmo fantástico e com uma proposta válida jamais se sobreporá  à animação de 1959 — decidi escrever esta homenagem às figuras da minha infância. Confesso ter feito votos às Três Senhoras — não me esqueço que caminhamos na direção delas, segundo suas especificações, seus caprichos, suas verdades. E que fugir à realidade é uma afronta a elas, que não são boas nem más. Elas, que apenas são. Do início ao fim, até o recomeço de todos os tempos, tecendo a poesia de cada dia. Uma homenagem ao rosto que jamais ousamos encarar. Rosto, aliás, que me fascina desde sempre.

Malévola, assim como Tarot, se define pelos seus próprios símbolos. O mesmo que acontece com as fábulas. São elas que através dos séculos têm reverberado para nos encantar, no pleno e vasto sentido do termo. 
E também, com a devida importância, para ajudar a descobrir ou a definir quem somos. 

Fata viam invenient.





































Um baú de associações e roupagens. A fábula de Charles Perrault é um cristal que sempre suscita muitos rostos e símbolos ao redor d'Aquela-Que-Não-É-Bem-Vinda. A seguir, uma pequena e vasta coleção de referências para complementar a fantasia.



A BELA ADORMECIDA
Shelley DuVall's Faerie Tale Theatre, 1982 

Quer ressuscitar de vez algumas memórias? Reveja essa adaptação do seriado CONTOS DE FADAS, dirigido pela atriz Shelley DuVall e exibido por muitos anos pela TV Cultura, com grande aceitação do público. Destaque para Vanessa Redgrave e Christopher Reeve no elenco.




SLEEPING BEAUTY 
Cannon Movie Tales, 1987

Testemunhe a poderosa Red Fairy quebrando os pratos de ouro por não ter sido convidada para o batismo da princesa Rosebud — uma adaptação bem rica em simbologia por incorporar personagens e elementos fantásticos até então pouco associados à fábula. O destaque vai para a performance furiosa de Sylvia Miles ao lançar seu malefício. Filme no mesmo estilo do seriado Contos de Fadas.




THE SLEEPING BEAUTY 
L'Opera National de Paris, 1999

Confira o ballet completo ao som de Tchaikovsky. E neste espetáculo de peso, o destaque vai para Clotilde Vayer, a bailarina que dá vida a Carabosse, e seu belo cortejo de trevas.






É verdade: os livros certos surgem no devido momento. 
Aqui vai uma lista breve dos títulos que As Moiras me trouxeram na hora mais auspiciosa. 
Vale uma leitura atenta.

BEYERL, Paul. A Compendium of Herbal Magick. Phoenix Publishing, 1998.
BUDAPEST, Z. PAXSON, Diana. Celestial Wisdom. Weiser Books, 2003.
CORSO, Diana L. CORSO, Mário. Fadas no Divã. Artmed, 2006.
FARRAR, Janet & Stuart. A Witches' Bible. Hale, 1997.
FRANZ, Marie-Louise. A Sombra e o Mal nos Contos de Fadas. Paulus, 2003.
GREENE, Liz. Astrologia do Destino. Cultrix/Pensamento, 1989.
KYNES, Sandra. Llewellyn's Complete Book of Correspondences. Llewellyn, 2013.
ILLES, Judika. The Element Encyclopedia of Witchcraft. HarperCollins, 2005.
RICKLEF, James. Tarot Tells the Tale. Llewellyn, 2004.
WALKER, Barbara G. The Woman's Encyclopedia of Myths and Secrets. HarperCollins, 1996.





sábado, 12 de abril de 2014

BONS FLUIDOS

E na edição de aniversário da revista BONS FLUIDOS, já na capa uma matéria sobre Tarô. 

Leo Chioda e outros profissionais falam a respeito da prática oracular 
nas diferentes fases de quem procura as cartas. 

O Tarot é sempre.
Confira. Nas bancas!


domingo, 1 de dezembro de 2013

OSSOS DE AÇÚCAR



Em uma de minhas viagens ao México, conheci Leonora Carrington, poeta e pintora surrealista que durante a guerra civil espanhola viveu uma história de amor com Max Ernst. Quando o prenderam, Leonora sofreu um ataque de loucura, com todo o horror que isso significa, com todas as portas que esse mal abre na mente racional. Convidando-me a comer um crânio de açúcar com meu nome gravado na testa, me disse: "O amor transforma a morte em doçura. O esqueleto do Arcano XIII tem os ossos de açúcar". Ao me dar conta de que Leonora utilizava em suas obras os símbolos do Tarô, pedi a ela que me iniciasse. Me respondeu: "Tome estas 22 cartas. Observe-as uma por uma e em seguida me diga o que significa para você o que vê". Dominando a timidez, obedeci. Ela anotava rapidamente tudo o que lhe dizia. Ao término da descrição d'O Mundo, eu estava empapado em suor. A pintora, com um misterioso sorriso, sussurrou: "O que acaba de me ditar é o "segredo". Cada arcano, sendo um espelho e não uma verdade em si mesma, se converte no que se vê nele. O Tarô é um camaleão". Logo em seguida me presenteou com o jogo criado pelo ocultista Arthur Edward Waite, com desenhos no estilo mil novecentos, que logo estaria na moda entre os hippies. Pensava que Leonora, a que eu vi como uma sacerdotisa, me havia outorgado a chave do luminoso tesouro que estava no centro do meu escuro interior, sem me dar conta de que esses arcanos atuavam como excitantes do intelecto.



Alejandro Jodorowsky

La Via del Tarot | Sudamericana, 2005

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A COR DO SÍMBOLO

Proserpina
Dante Gabriel Rossetti, 1874
Tate Britain, Londres


Mas la granada es la sangre,
sangre del cielo sagrado,
sangre de la tierra herida
por la aguja del regato.
Sangre del viento que viene
del rudo monte arañado.
Sangre de la mar tranquila,
sangre del dormido lago.

Canción Oriental | Federico García Lorca, 1920



Qual é a cor predominante do fruto d'A Sacerdotisa?

O segundo arcano maior é uma imagem de grande poder no Tarot. A Mãe Celestial. Pudica, permanece prostrada entre as colunas mais famosas de toda a literatura esotérica — B e J, o chiaroscuro dos dentros. Madame da polaridade, senhora do presságio. Shekinah, misticamente falando. The higher and the holiest of the Greater Arcana, segundo o próprio Waite. Claro que todos os arcanos são fortes em suas potencialidades simbólicas, é sabido. Confesso que A Sacerdotisa é uma das minhas figuras arquetípicas prediletas. Precedendo A Temperança e A Força, é a feiticeira mais poderosa do círculo, justamente por sustentar as colunas do mistério. Oráculo em carne e espírito. Diáfana. Noiva-enigma do mundo. Musa impassível [feito o mármore de Brecheret].

Dentre os ornamentos clássicos mais inquietantes, vejo eu, está a cortina em The High Priestess de Arthur Waite, concebida pela genial Pamela C. Smith. Não simplesmente por ocultar o mar às suas costas, mas principalmente pela estampa do tecido — uma tapeçaria ornamentada de romãs.


The High Priestess | Waite-Smith Tarot
U.S. Games Inc.

Romã no quintal. Romã no própolis. Romã nos livros.
Romã nas lembranças da avó. Romã nas pinturas. 
Romã nos oráculos. 
Romã na poesia. Romã nos sonhos. 

Romã. Escrever sobre.
Entendi.



Sofiko Chiuareli | The Colour of Pomegranates, 1968



A Musa do cartomante é a analogia 

Sempre que revejo A Cor da Romã [1968], meu filme-poema predileto do armênio Sergei Paradjanov sobre as vidas e as mortes de Sayat Nova, um trovador do século XVIII, me certifico da importância do estudo simbólico. Do ritual da imagem e do conceito, por assim dizer. A predisposição à pesquisa e à prática com absoluto cuidado e alguma demora. Uma performance exemplar durante a leitura do oráculo requer alimentação artística e histórica constante.

Letramento, interesse, disposição. Fúria. Assim, embriagado pela beleza do simbolismo bizantino temperado com magia poética, reuni alguns baralhos e comecei a garimpar a presença da infrutescência na simbologia arcana. Já via A Maga do Crescente Lunar na minha mente quando então passei aos outros arcanos até chegar em The Empress, do mesmo Rider-Waite Tarot: Vênus que veste as romãs. The fruitful mother of thousands. Daí para lembrar do famigerado Tarô Mitológico foi um pulo: estamos entre Mulher e Donzela, com o ventre de vastos códigos e significados.


Perséfone e Deméter
The Mythic Tarot
Fireside, 1986.

A única filha de Zeus com Deméter era agraciada pelos deuses. Koré, a virgem cuja beleza cintilava a ponto de suscitar o desejo de Hades: desposá-la, mesmo que sem o consentimento da mãe. Assim concedeu Zeus o pedido de seu irmão que, impaciente, a raptou enquanto colhia narcisos. Deméter, inconsolável, passou a se tornar cada vez mais relapsa em suas funções. Trouxe a esterilidade aos campos ao rarear os alimentos, suspendendo o ouro dos trigais. Enquanto isso, no Hades, Perséfone rebelava-se com uma greve de fome, logo começando a enfraquecer. Temerosos pela reação de Deméter, os deuses recusavam-se a revelar o paradeiro de sua filha. Depois de uma longa jornada, descobriu que a jovem deusa havia sido levada às profundezas. Decidida a manter a escassez na terra enquanto não reavesse Koré, a mãe é atendida por Zeus, que ordena ao irmão a devolução de sua filha. Porém, tendo a garota provado das sementes de romã dos campos de Hades, conclui-se que ela não havia rejeitado com veemência o seu raptor. Quebrar o jejum com um fruto do submundo significava prender-se a ele. Criou-se um elo, já que Hades de fato seduziu Koré pela doçura de suas sombras. Concedeu à esposa os caminhos ocultos por meio da infrutescência. Assim, estabeleceu-se um acordo entre as famílias: ela passaria uma parte do ano com sua mãe e uma outra com Hades, tornando-se Perséfone, a dos olhos negros. Regula, ao lado de Deméter, os ciclos de cada ano. A vida que brota e fenece. A fertilidade e também a esterilidade da terra.

Perséfone e Hades banqueteando.
Atenas, 440-430 a.C.

Brincando de bibliomancia enquanto relia o delicioso As Núpcias de Cadmo e Harmonia, caí na página do rapto, tecido com tanto esmero por Calasso: Core, a pupila, estava portanto no umbral de um olhar em que teria visto a si própria. Estava estendendo a mão para colher aquele olhar. Mas irrompeu Hades. E Core foi colhida por Hades. Por um instante, o olhar de Core teve de desviar-se do narciso e encontrar-se com o olho de Hades. A pupila da Pupila foi acolhida por uma semelhante, na qual viu a si própria. E aquela pupila pertencia ao invisível.



As sementes quando são desveladas

Sofiko Chiuareli | The Colour of Pomegranates, 1968
















Nem todos os mistérios que encerram a romã estão no papel. Até porque o exercício visual é necessário. Sempre. Percebe-se, com absoluta atenção aos detalhes, que no arcano II as romãs estão atrás da figura principal, enquanto que no arcano III, o fruto está sobre a figura — envolto em seu corpo. É nítido que A Sacerdotisa não indica necessariamente nem gravidez nem esterilidade, já que encarna a virgindade, persona casta que preserva seus mistérios e segredos. Inaptidão sexual. Desconhecimento ou silêncio dos próprios desejos. Já n'A Imperatriz, discretamente as romãs saltam aos olhos, confirmando os sintomas clássicos de prosperidade. Na primeira, o potencial [de sexualidade e fertilidade]; na seguinte, a latência. 



A Sacerdotisa e A Imperatriz
Waite-Smith Tarot | US Games Inc.




É do rastro de Afrodite, no Chipre, que nasce a romã. A primeira dádiva de seus passos. A composição carnosa da planta passa a ser associada à vagina, à condição intrínseca de fertilidade. Um estimulante — o afrodisíaco primordial. Em meio ao caos dos fragmentos míticos, o pomo púnico acaba se conectando à Maria [e à Igreja, já que a profusão de sementes representa a união, os fiéis em torno de Cristo, a vida que pulsa]. Em algumas catedrais e museus, principalmente na Itália, a representação se mantém. La Vergine. La Madonna della Melagrana. Nem todos os mistérios estão no papel mas também nos caminhos cíprios. Nas artes. Nos próprios mistérios. Artefato. Víscera da Musa.


Sandro Botticelli | Madonna della Melagrana, 1487.
Galleria degli Uffizi, Firenze, Itália.

La Papisa prepara una eclosión. Espera que Dios venga a inseminarla. Me lembro bem de Jodorowsky falando do processo de incubação do segundo Arcano Maior. Se ela pode traduzir-se como gestação, na próxima carta numerada temos o afloramento. Nasce e desenvolve-se o fruto. E James Frazer, famoso historiador entre os adeptos da Bruxaria, propõe Deméter como a colheita madura do ano enquanto Perséfone encarna a semente. A catábase de Koré seria uma expressão da semeadura. Seu reaparecimento então significaria o despontar do novo cereal. Assim, a Perséfone de um ano seria a Deméter do seguinte. Parir associações, sempre com o devido cuidado, faz com que as cartas tenham ainda mais sentido quando colocadas em evidência. O êxtase da leitura é a performance do olhar. Teoria e prática num ramo [de ouro e narcisos] bem consistente.




Uma descida aos infernos (da imagem)

Sofiko Chiuareli | The Colour of Pomegranates, 1968















Gosto de jogos imagéticos. Dos véus. Hologramas. Tanto que agora, descobrindo o Petit Lenormand depois de duas sabatinas com Alexsander Lepletier em Curitiba e em São Paulo, as combinações tem sido uma divina diversão. São feitiços. Pelo fato de nem sempre serem percebidos a olho cru, tonificam a voz do oráculo. A capacidade de versificar as figuras e compor um poema cada vez mais bonito e rico de significado. Interpretação de símbolos. E confesso que faço cara de origami quando me dizem que gostam da 'facilidade' que o Tarô Mitológico proporciona [ainda vigora esse tipo de argumento], mesmo que não consigam fazer dos mitos ali encarnados apenas uma sugestão à compreensão do arcabouço em vez de lindas, rápidas e definitivas roupagens aos arcanos, que por sua vez existem e significam por si próprios; como se o símbolo fosse um organismo hermeticamente exato e indiscutível a ponto de se sobrepor ao que o arquétipo cansa de caracterizar. Mas gosto de jogos imagéticos, gosto mesmo. E se às vezes vejo Perséfone n'A Papisa, devo ter toda uma bagagem de pesquisa para apropriar minhas impressões e constatar possíveis associações. Sair dizendo que a mulher n'A Estrela aparece nua porque está debilitada devido à destruição d'A Torre soa tão taxativo quanto absurdo. Mas este é um outro caso.

Faço de conta que uso o Tarô Mitológico e sorteio A Sacerdotisa numa leitura sobre o paradeiro de algum objeto, pessoa ou animal [vide experiências de Zoe de Camaris e de Giane Portal]. Devo dizer que o elemento procurado se encontra abaixo de uma escadaria escura? Não, não necessariamente. Mas preserva-se a ideia de oculto, escondido, praticamente inalcançável a olhos nus — o Hades é o invisível que está ali, não?

As cores das Musas
instagram.com/leochioda


Uma ode ao bom senso. Um hino homérico. Os degraus infernais de Greene e Sharman-Burke são uma novidade simbólica, mesmo que a ideia de ocultação, mistério, perda e desencontro mantenha A Papisa guardando seu templo, reino tão rico em segredos. Ou nas alturas do Capitólio presididas por Juno, rodeada de pavões e  romãs, uma antiga representação do arcano. Tão inatingível aos que não se permitem enxergar [o] além. E é a partir do mergulho nos ornamentos e atributos, sempre respeitando e preservando a estrutura clássica do conjunto de cartas, que posso vislumbrar os véus de Perséfone no segundo arcano maior. Até mesmo usando um Marselha.



A romã d'A Sacerdotisa
El Gran Tarot Esoterico | Fournier, 1978

Que haja coerência, portanto. Não só simbólica, respeitando cada sistema [astrologia é astrologia, mitologia é mitologia e tarô é tarô, mesmo que possam dialogar entre si], mas também interpretativa. E que os mitos, os dicionários de iconologia e as referências folclóricas sejam ingredientes à compreensão e à fortificação do poder de analogia dos símbolos. Não verdades inquestionáveis proferidas pelas bocas do achismo nem bengalas para se entender a dinâmica dessas imagens há tanto plasmadas em nossa cultura. Apenas afrodisíacos disponíveis para refletir o poder dos símbolos. As cores de cada um deles diante das mil faces da analogia.


O poeta morre, mas não a sua Musa, deixou o armênio Sayat Nova em um dos seus versos. 
E qual é a cor do símbolo? Pesquisa, fúria, atenção e qualidade. O sangue da excelência, vertido de todo árduo submundo. Só assim para que haja luz sobre todas as tonalidades de nossas cartas e palavras.

L.


The Colour of Pomegranates, 1968



Os livros no colo
BIBLIOGRAFIA SUGERIDA

CALASSO, Roberto. As Núpcias de Cadmo e Harmonia. Companhia das Letras, 1991.
FAUR, Mirella. O Legado da Deusa. Rosa dos Ventos, 2003.
GRAVES, Robert. O Grande Livro dos Mitos Gregos. Ediouro, 2008.
LAO, Meri. Musica Strega. Edizione delle Donne, 1977.
LORCA, Federico García. Poesía Completa. Galaxia Gutenberg, 2011.
NAIFF, Nei. Tarô, Vida e Destino. Best Seller, 2013.
SHARMAN-BURKE, Juliet. Os Segredos do Tarot. Editorial Estampa, 1998.