30 de abril de 2016

THE NEW TAROT OF PRAGUE

Nietzsche affirms, in Ecce Homo: “When I look for another word for music, I only ever find the word Venice”. 
I say to you: if I look for another word to say arcane, I find only the word Prague. 

Angelo Maria Ripellino 
Magic Prague, 1973


The Tarot of Prague is one of the most luxurious decks that have ever been created worldwide. As a result of intense historical and iconographic researching and frequent photographic tours by Karen Mahony and Alex Ukolov, this deck is not only a tribute to the capital of the Czech Republic as well as a unique tool for oracular expression. It introduces us to the symbols of several centuries and reigns of Bohemia, all of them combined in an original way by one of Europe's largest art studios: the Baba Studio

There are two main reasons to the return of the Tarot of Prague: first, the Magic Prague Tour happened between 2016 april 16th and 22nd, which was developed by a partnership firmed between BabaStudio and the tourist guide Marketa Hradecka, from Prague Caput Regni Tours. Their idea attracted a restricted group of astrologers and Tarot readers from several countries (Brazil, France, Netherlands, Belgium, Australia, England and USA), which was conducted to one week of activities related to cabala, alchemy, astrology, tarot and the Czech culture. Handling the Tarot of Prague was absolutely necessary to understand better Mahony and Ukolov’s creative process and to visualize the city through the arcana, which are the better artistic tribute to the history and magic of Prague. Second, as the deck’s little white book expresses, “in part, a farewell to the city”. The BabaStudio moves to Ireland for the time being and changes it name to BabaBarock. 

I've been in Prague for the Tour. Before dreams and dreams about the city, the city is now so real. As a Tarot {of Prague} reader and lover, here's a spread inspired by that unforgettable week. It's entirely based on the places I visited, so the effect will be higher if used with the Tarot of Prague, of course. It could bring empowerment, inspiration and joy. It could be a taste for the second edition of the Magic Prague Tour, in April 2017. Let me know your impressions.





0 THE HOUSE AT THE BOOT / AT THE GREEN GRAPE HOTEL: the checkpoint; the significator; where you are; from where you start

1 THE HOLY LIGHT OF LORETA: intuition; what inspires you; what must be known

2 THE STRAHOV'S BOOKSHELF: beliefs and wisdom; your ideas; what you must to believe in

3 THE ROYAL CROWN IN THE PRAGUE CASTLE: responsibilities; how you must manage your life

4 THE GHOST OF MADAME DE THEBES IN GOLDEN LANE: social life; how you must deal with the day life, and habits

5 THE GOLEM AT YOUR SERVICE: strength; what you must protect right now; how you must protect yourself

6 THE WITCHING HOUR AT THE OLD TOWN SQUARE: how you must deal with time and opportunities; how you

7 THE GUARDS OF POWDER TOWER: resistance; what defends you; possible dangers and bad influences over you

8 THE BLESSINGS OF CHARLES BRIDGE: who you are now / who you will be after this reading

9 THE VLTAVA WHISPERS: what must be forgotten; what is done

10 THE FAIRIES OF PETRIN HILL: a summary of your life / situation

11 THE LIBUSE'S HEART AT VYSEHRAD: what must be taken in account about love; what must be remembered; the great advice

EXTRA POSITION [optional]

12 A MESSAGE FROM KUTNÁ HORA: how you must face death, loss and mistakes





3 de abril de 2016

O ARRANJO DAS FORÇAS

Para Edy, Rose, Humberto e Priscilla, 
o Café Tarot do Arouche

The Book of Shadows Tarot
LoScarabeo, 2012



E se houvesse um método para medir as energias do consulente? E se esse método especificasse as forças e as carências dos quatro planos principais da existência [material, emocional, mental e espiritual], de acordo com os quatro naipes do Tarô? Pois sim, este método existe. Aliás, existem métodos de leitura para quase tudo no universo da Cartomancia. A maioria deles é válida, desde que se conheça suficientemente bem a estrutura da disposição e, claro, o oráculo utilizado.

A princípio chamei de MEDIDOR esta leitura que avalia QUEM o consulente representa no momento — clara referência às Cartas Reais {Pajem, Cavaleiro, Rainha e Rei} — e ONDE ele se encontra — as condições e os lugares simbolizados pelos Arcanos Menores Numerados {do Ás ao 10 de cada naipe}. Assim, sabendo quem ele é e aonde está no momento, pensei em avaliar os principais desafios e também as vantagens do consulente em determinado período. A primeira experiência que fiz com esta tiragem foi no primeiro CAFÉ TAROT no Arouche, um pequeno grande projeto em parceria com a amada Edy de Lucca. A sessão se desenvolveu com cinco arranjos abertos, analisados um a um. Depois da experiência, bastante interessante, comecei a analisar minhas cartas com a devida atenção. E os prognósticos, assim como as diretrizes, têm sido significativos.




COMO MEDIR 

Separe as 16 cartas que compõem as quatro Cortes do Tarô em quatro pilhas de acordo com seu naipe — uma de Paus, uma de Copas, uma de Espadas e uma de Ouros. 

Embaralhe as quatro pilhas separadamente e tire uma carta de cada uma. Faça o mesmo com os Arcanos Numerados, em mais quatro pilhas distintas. Assim, teremos duas cartas para cada naipe {arcano real, arcano numerado}, com 8 cartas no total.





PAUS
ARCANO REAL: quem sou agora
ARCANO NUMERADO: aonde estou
como está minha espiritualidade, minha força, minhas motivações

COPAS
ARCANO REAL: quem sou agora
ARCANO NUMERADO: aonde estou
como está o meu emocional, meus relacionamentos, meus anseios

ESPADAS
ARCANO REAL: quem sou agora
ARCANO NUMERADO: aonde estou
como está meu intelecto, minha comunicação, meus pensamentos

OUROS
ARCANO REAL: quem sou agora
ARCANO NUMERADO: aonde estou
como está meu poder aquisitivo, meus recursos, meus projetos



ATITUDES MAIORES

Não acabou! Conhecidos os oito Arcanos Menores, embaralhe e puxe quatro Arcanos Maiores, um para cada pilha. Eles desvelam as ATITUDES a serem tomadas para (re)estabelecer a harmonia nos quatro âmbitos. É prudente extrair conselhos nobres destes quatro Maiores, pois eles direcionam o consulente da maneira mais adequada possível, já que a orientação emerge contextualizada em cada um dos planos. Agora, o total é de 12 cartas.





PAUS 
que atitude se deve tomar em relação às motivações e à espiritualidade

COPAS 
que atitude se deve tomar em relação às emoções e aos relacionamentos

ESPADAS 
que atitude se deve tomar em relação à comunicação e aos pensamentos

OUROS 
que atitude se deve tomar em relação aos recursos e aos investimentos



TEMPORALIDADE

A validade da tiragem deve ser estipulada antes: mínimo de UM e máximo de TRÊS MESES. Depois do período escolhido, recomendo fazer outra leitura para analisar o rearranjo das forças.

Que tal? Gostaram? Monte o seu Medidor e analise os arcanos com cuidado. A clareza, o detalhamento e a orientação deste método podem impressionar você.




Leo

22 de março de 2016

#SOMOSTODOSCARTOMANTES


Há alguns dias, fiz uma chamada para discutir um artigo enviado por uma leitora do Café Tarot. O tema era a questão de gênero nas cartas, tão interessante quanto polêmico. Eis o enunciado:

Você lê Tarô? Que tipo de abordagem faz das mulheres e dos homens nas cartas? Enfim um artigo que pode gerar muita discussão — e deve, porque é bom discutir. É necessário. Para que haja menos retrocessos ambulantes [cartomantes] e mais reflexões sobre questões urgentes. Todos ganham. E até o esoterismo agradece.

Me perguntaram agora o que eu quis dizer com 'retrocessos ambulantes [cartomantes]'. Em meio a tantos afazeres, pensei por um momento se deveria discorrer sobre a construção de um enunciado em que questiono especificamente profissionais de caráter rígido ou ultrapassado afiliados à Cartomancia, seja ela clássica, moderna ou contemporânea. O tópico me pareceu instigante e pertinente, então escrevi rapidamente algumas considerações. 
Existe um artifício linguístico, empregado especialmente na Arte Poética, chamado "rima". Quem tiver dicionário em casa — todos, presumo, principalmente os que se dão à leitura de imagens — sugiro consultar não só 'rima' mas também outros termos ligados à construção textual, às figuras de linguagem, às intervenções publicitárias como 'adjetivo', já que uma adjetivação foi empregada com o termo 'cartomantes' — mesmo sabendo da flexão cartomânticos', que não gosto e que soaria estranha no meu enunciado. Construir um texto se assemelha à leitura do Tarô: em ambos os casos nos valemos do processo narrativo, cada um com suas idiossincrasias. Construir um período também pressupõe algum domínio escrita. Porém, como sempre, os perigos de qualquer construção estão no entendimento, na reação que ele causa. E aqui, 'retrocessos ambulantes [cartomantes]', com este jogo de palavras rimadas, para algumas pessoas parece ter soado como menosprezo tanto pelo termo 'cartomante' quanto pela classe de cartomantes. Não e não.
Comecemos pelo retrocesso. Usei 'retrocessos ambulantes' do referido enunciado, em rima rápida com 'cartomantes' para me referir às personalidades cujas verdades inabaláveis provém de suas religiões, de suas posições políticas [geralmente fascistas] ou até de seus sistemas esotéricos rígidos e absurdos — aqueles que influenciam seus consulentes e mesmo seus alunos a seguirem uma cartilha específica de credos, de medos e de idiotices. 'Retrocesso', no grande Dicionário Larousse [Nova Cultural, 1999], é o 'ato de ou efeito de retroceder; o retorno à posição ou ao estado anterior; reversão, recuo. O termo vem do latim 'retrocessus' que, no Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (Lexicon, 2010), se dá como 'movimento para trás'. É bom, inclusive, que o cartomante tenha mais de um dicionário. Mais de dois. Em casa e na vida: dicionário de símbolos, dicionário de termos filosóficos, dicionário analógico, dicionários de tudo. A partir daí, a visão de mundo [e de texto] se amplia consideravelmente. Sim, reconheço que numa primeira leitura os 'retrocessos ambulantes', rimados com 'cartomantes' entre colchetes, parece especificar os cartomantes como retrocessos. Muitos são, que seja dita a verdade, mas a compreensão da minha construção vai paralela ao aproveitamento de uma leitura que fazemos das cartas: o consulente a compreende como bem quer ou consegue. Logo, o leitor da minha chamada compreende como quer ou como pode. Por mais que se esforce em uma interpretação simbólica — que é, ressalto, uma construção tão elaborada quanto a textual — o aproveitamento será de inteira responsabilidade dos clientes consulentes [outra rima!]. Sendo assim, o sentido de um simples enunciado pode ser deturpado por quem não conhece determinados mecanismos textuais ou por quem não se esforça em tentar desdobrar a interpretação do que se lê, coisa tão recorrente numa consulta às cartas. Ah, e o inegável: a discussão proposta sobre o artigo foi longe, como bem quisemos. Sem qualquer interpretação ofendida [pelo menos não declarada] dos tais 'cartomantes retrocessos'. Ressalto, então, que a chamada para o artigo foi construída sem qualquer conotação negativa direcionada a uma classe na qual me incluo com absoluto orgulho — eu, Leonardo Chioda, cartomante e escritor.
Quem se diz 'tarólogo', 'tarotista', 'leitor de sorte' ou mesmo 'fortune-teller', sabe-se cartomante. É um fato, não é uma escolha. É a nossa natureza. Profissão aprendida — ou condição herdada, de acordo com alguns. Mas quem deturpa um enunciado sem entendê-lo de verdade, julgando a partir de uma primeira leitura sem considerar a ironia ou os jogos de palavras empregados, pode ser um exemplo de retrocesso. A quem não conhece nada de comunicação poética, achando que se trata apenas da parte bela e inútil das bibliotecas e dos cursos de Letras, creio que seja auspicioso saber que o Tarô floresce na literatura italiana com destaque em passagens fabulosas de Petrarca e de outros poetas de tamanho indiscutível. As cartas são linguagem. Quem se dói por uma construção desse tipo, de rima proposital, deveria rever ou aprender alguns conceitos. Que vá ler Décio Pignatari, Alberto Manguel, talvez Borges e também Barthes para aprender algo sobre fruição e o que é erigir um texto, por menor que ele seja. Aposto, também, que as leituras oraculares serão tonificadas consideravelmente. Porque ser cartomante é, entre tantos verbetes, estruturar o intelecto, compreender as emoções e desenvolver a intuição. Cartomante, filho de Fortuna. Cartomante [estudante]. Duvido que o leitor de cartas exista para alimentar qualquer ignorância, ainda mais a respeito de leitura. Embora exista, tranquilamente, o cartomante petulante, se debatendo no inferno da própria rima.
Aliás, existe palavra mais linda, neste nosso recorte léxico, que 'cartomante'? E existe palavra mais temida entre tarólogos? É bom que digamos a verdade. Mesmo havendo frequentes avanços na história do Tarô brasileiro, com esforços consideráveis de desmistificação da profissão e da prática da Cartomancia, ainda ressoa o mistério, o fascínio, o encantamento da personagem de Machado de Assis. E há ainda, infelizmente, o preconceito entre os próprios cartomantes que tentam fugir do termo devido à associação com pessoas que valem de processos intuitivos ou religiosos para ver o futuro, aquelas que 'olham as cartas' e aquelas de profissionalismo duvidoso com seus feitiços, amarrações e o slogan 'não diga nada que revelo tudo'. Para refutar qualquer ranço, valorizemos o termo pela via da etimologia: o sufixo ‘mante’, que nos veio pelo grego ‘mantike’ e ‘manteía’, estão ambos relacionados à tecnologia ['techné'] da profecia, à adivinhação e ao oráculo, segundo Junito Brandão no Dicionário Mítico-Etimológico [Vozes, 1992]. Cartomante, independente das roupagens e dos mal entendidos, é um mecânico do acaso. Um adjetivo e tanto.
Talvez coubesse aqui me desculpar pela interpretação equivocada por parte de quem não se debruça devidamente sobre o que lê. Ou dar de ombros, porque escrever é muito mais do que uma conversa — é uma engenharia que se aprende com tempo, humildade, revisão e leitura. Dedicação verdadeira, sobretudo. Assim como a Cartomancia e o seu funcionamento. Então prefiro os ombros, que já suportam bastante, a ter que me responsabilizar pelo nível de leitura aparentemente raso de alguns. Que fique o registro sobre um termo pouco usado mas muito amado por mim — que aplico com toda a licença [poética, com certeza], sempre honrando minha profissão e minha condição de cartomante. Que fique livre esta palavra, minha e sua, repleta de signos tão antigos quanto o ato de 'intuir à maneira dos deuses'. Contra os retrocessos.
Porque cartomantes somos todos, Atlas da combinatória, dicionários vivos. 
Ambulantes. [Cartomantes].

E as rimas ficam.

1 de março de 2016

AS ÁGUAS DE MARÇO



El temps i la natura es passen llibres,
i l'aigua rega el cine amb una altra aigua.

Joan Brossa



Março é a TEMPERANÇA — o ofício da água. Um verso catalão a Tarkovsky. O que destoa; o que completa. O Espelho. Março dos dias do ouro. As cartas se mantém numa sua estrutura fechada, intocada em todas as línguas — impassível no coração dos ateus e no infinito mistério. Corpus hermeticum vestido a cores. Um poema. Mas sua paisagem é móvel, em reajuste incessante. O oráculo é água em Março: uma janela em Veneza, escancarada ao Canal Grande. Uma ponte, um suspiro rearticulado no abdome do destino. Ás de Circe transbordando veneno — copa de amor, que mata na mesma intensidade. 

TEMPERANTIA para latinos letrados. Dos gregos a vasta Sophrosyne. É o mês de fechar o verão; de renovar as próprias águas. Heráclito de si diante de quem não presta e do que segue o percurso do abismo. Dignificar as chances de rojar o melhor jarro — enxergá-lo, bebê-lo. O Graal nas mãos de Março. De saber a justa medida em meio a críticas equivocadas, opiniões capazes e fôlego faltante. Os dias de fortificar a mão que brinda e mistura: ser concomitante, como Clarice em 'Água Viva', que reúne em si o tempo passado, o presente e o futuro. A profusão e seu verbo líquido. Ânfora absoluta na moldura, já que 'o mais profundo é a pele', segundo Valéry. Na água. Animal fluido, indomável — as patas devem estar na paciência. Todas.


Medir, aliás, o quanto se deixa levar pelo fluxo em vez de coordenar o rio por inteiro. O quanto se prende a algo ou a alguém em vez de bramar pela liberdade. TEMPERANZA, amore mio. A flor do amor próprio. A oxigenação dos meandros. Agir um tanto mais pela beleza do acaso — abraçar e agradecer — sem dar ouvidos ao horror do estrito estipulado. Veracidade na amálgama, na lida: o maremoto e o orvalho pressupõem coragem constante. Fazer bem e bem além do compreensível. Do comum. Além do aquém. Arcano de cura para cicatrizes doces, para tecer o mês conforme deságua a mágoa — há de se ler, nas pedras lavadas, um vislumbre de excelência. Sol & Fama. E comer muito bem em Março. Perseverar na delícia, na correnteza. Diluir-se para alcançar a solução do mundo. 
Sim. As cartas se aglutinam em livro aberto. Contam tudo o que não se quer ver, emaranham as paisagens e gozam — um poema. O conúbio e o próprio gozo. Quem batiza é a água. La TEMPLANZA. É o magma no cinema oceano. É o coração de Frida: um animal que ferve. 

As águas de Março. Uma outra água.


© Leo Chioda para Café Tarot
Le Tarot de Jacques Viéville {1650} ● Bibliothèque Nationale de France

14 de fevereiro de 2016

CARTAS DE AMOR

CONIUNCTIO 
capa do álbum New Skin for fhe Old Ceremony
Leonard Cohen, 1974




















Uma carta de amor nunca é inocente. É com essa verdade que Alberto Manguel fundamenta um ensaio homônimo. Nele o escritor argentino sugere encarar a correspondência amorosa como gênero literário nunca dantes navegado: estipular suas regras, seus labirintos de rosas regadas a tinta esferográfica e suas revelações — de quem lê e de quem é lido, já que cartas de amor descortinam identidades ao longo do mundo. Identidades floreadas de loucura, de desejo, de tristeza e de pertencimento. Sim, pois sendo amantes provamos gozar da faculdade de nos apaixonarmos: Homo amans por natureza. 

The Love Letter
Carl Spitzweg

Cartas de amor. Por toda a história da leitura há cartas de amor. Entre os primeiros vestígios de escrita estão relatórios contábeis e, claro, correspondências amorosas. Não à toa. De procedimentos mágicos a fórmulas químicas, o homem até tenta reduzir atração física e afetiva a cálculos, produtos e problemas cada vez mais insolúveis. Desde a Antiguidade é frequente o apelo aos meandros da superstição para trazer a pessoa amada ou mesmo para afastar quem não é do agrado. 

Ovídio já se indagava a respeito dos conjuros de amor. Palavras seguidas de diversos protocolos sombrios. As defixionum tabellae, ou 'maldições romanas'Teria sido algum veneno tessálico que tornou assim fraco aquele homem? Ou alguma feiticeira teria gravado seu nome em tábuas de cera vermelha e cravado agulhas no desenho cordiforme? Desde o sempre dos tempos existe a relação entre a magia e a poesia. Faz parte dos privilégios humanos tentar manipular elementos mais inusitados para rearranjar a Harmonia Macrocosmica a seu favor. Dentre os mais óbvios, estão as palavras. Palavras são flechas que se pode lançar, certeiras.  Dardos cupidos que ferem ou afagam. 
A escrita é feitiçaria. 


De Frida Kahlo para Diego Rivera



Escrevi pra ela, mas não sei se leu. Não me respondeu. 
Ela vai voltar pra mim? 

É esperado que o apaixonado escreva. Quando não aventura a pena pelas páginas, todas promissoras diante da grandeza incabida no peito, ele deseja saber de algum modo dos sentimentos de sua paixão — aquele ser vivente que arde aos seus olhos, carne amadíssima, o doce mais delicado, um anjo enquadrado para sempre. Especula-se a recíproca. Apaixonados são especuladores vivazes que recorrem aos conhecedores do destino. E tem-se o tema clássico de toda a vastidão da Cartomancia, o favorito e mais rentável entre os adeptos. O amor que escrevo. Amor que faz querer saber de cada passo dado. Interesse abrupto. Mil perguntas aos leitores de símbolos. Afinal, estamos sob a mesma abóbada conceitual da combinatória quando falamos dos extensos bilhetes deixados no meio caderno, no chão da garagem ou na caixa de correio e quando tratamos dos arcanos. A analogia funciona com o Tarô: são cartas de amor. Seja por sonetos arquitetados na madrugada ou por imagens arquetípicas embaralhadas à luz de velas, o apaixonado busca os dois lados do mesmo ouro: dizer o indizível; saber do palpável. 


The Chelsea Lenormand
MALPERTUIS

O que nos revela, então, uma carta de amor? Indagação preciosa a todo e qualquer oráculo que se preza à verdade. Nos revela a voz de quem lê a voz de quem se espera. Mais que isso, uma carta de amor revela a terceira pessoa, a pessoa amada na qual se transforma o amante. O conúbio alquímico de substâncias desiguais. CONIUNCTIO — a união de opostos, a geradora de um novo membro. Da alma e do corpo ao papel. E o Grande Senhor d'OS ENAMORADOS que a tudo preside.


ALCHIMIE
Nicolas Flamel

É a Copa o receptáculo da substância primordial por excelência. Água. Em várias civilizações e cosmogonia, precede a própria criação — o primeiro componente. Fonte geradora da matéria. Liga-se ao naipe de Copas pela fluidez: inspira e também respeita as curvas do vaso sagrado. Mãe da Estética. Regente do potencial criativo. Senhora absoluta das emoções. E se cabe um breve tratado etimológico do naipe, 'copa' vem do latim cupa. Precisamente 'vasilha grande'. Estamos diante do Cálice, o recipiente passado de mão em mão quando se bebe e se brinda. Símbolo da amizade e sugestão de solidariedade. Il Sangue di Cristo. Ambivalente por remeter tanto à ira quanto à alegria, na Bíblia. Taças diversas para expressar os humores de Deus. Os nossos.





Estamos, pois, na plataforma dos líquidos. Sangue, saliva, sêmen, lágrima. Tinta com que se escreve. O recinto do mênstruo. E como nada é à toa no Tarô, em Copas se celebra o Grande Rito. E Copas é coração, por sua vez. The Suit of Hearts. A redoma, o centro de onde irradia a ação do indivíduo. Centro para onde convergem as informações recolhidas dos órgãos dos sentidos. Não à toa, os egípcios embalsavam os mortos mantendo o coração em seu devido lugar. A sobrevivência no Além era impensável sem o coração.



Love Letters in Hakone
Tamiko Braun

Se as Copas aludem aos fluidos subterrâneos — àquilo que se brota, viceja e se prolifera nos recônditos — na estrutura do Tarô elas descrevem e enaltece nosso universo interior: alma, desejo, fantasia, aspiração. Os planos de vôo passam pelo delírio e são por ele consentidos. Tudo o que envolve o âmbito sentimental está em Copas, inclusive aquilo que não conseguimos mensurar em atos prudentes ou mesmo expressar em palavras. O gozo, a saudade, a satisfação da pele. Frente à necessária postura prática para realizar aquilo que tanto se quer, os valores pessoais se suplantam. Inabalável a busca pela felicidade verdadeira. É a casta sirênica. Estrada Real de toda a Lírica. Justifica-se como o naipe dos poetas. 


L'amante nel'amato si transforma

Uma carta de amor nunca é inocente. Tanto que é copiada de modo ininterrupto ao longo dos tempos. Eis o princípio da imitação, também caro à literatura clássica. Molde que se transmuta aos poucos. Alguns dos mais belos versos da língua portuguesa, por exemplo, obedecem ao mesmíssimo princípio. Camões que bebe de Petrarca. Embora se mantenha algum racionalismo. Quem se escreve não se abandona totalmente ao fluxo emocional. Mesmo que uma seja escrita sob a égide do coração inflamado, a Razão parece sondar cada parágrafo. Tal processo também ocorre no Tarô: um baralho novo em folha pode trazer roupagens diversas de um mesmo arcano. Acontecem várias deformações simbólicas, mas aos olhos atentos de estudantes e colecionadores, essas novas visões das cartas tendem a acrescentar algo ao arcabouço de experiências. 



Ace of Vessels
The Alchemical Tarot

ROTEIRO AUSPICIOSO pelas cartas de amor

Estamos em Copas. Se é este o jardim encantado de Eros, podemos nos servir das cartas para inspirar os períodos mais significativos. Guiados pelas suas mãos de flechas, é quase certo chegar a grandiosas investidas na comunicação escrita.  Debrucemo-nos sobre o protótipo a seguir, um básico-clássico-anônimo:


Amor,

Te escrevo para demonstrar o quanto você é importante para mim. Eu te amo e quero estar com você. Casar, ter nossa família, nossa vida juntos. Quero estar cada minuto da minha vida ao seu lado, celebrando tudo o que a vida oferece. Quero estar com você para o que der e vier.Assim como quero dar conta das situações que se mostram todos os dias, sem deixar passar nada, porque só penso em estar bem com você. Sei que talvez seus sentimentos já não sejam os mesmos de antes, por tudo o que tem acontecido entre nós. Mas sei de uma coisa: quero que tudo volte ao que era, pois não há nada mais puro do que meu sentimento por você. Quero, de verdade, que sejamos o casal que desde o começo fomos destinados a ser. Sair conhecendo o mundo, vivendo intensamente nossas emoções, nossos desejos. Sem olhar para trás. Deixando todos os erros no passado. Esperando o melhor, dando o melhor para você e para nós. Você é minha felicidade. E eu só quero te fazer feliz. Quero ficar com você até o fim dos tempos. Você é a minha vida. 

Te amo para sempre.


As cartas numeradas de cada naipe do Tarô representam uma série de processos. Agora pode-se fazer uma incisão no texto, de acordo com cada arcano. Tem-se assim vários atributos das respectivas cartas na sua ordem numérica crescente. Duvida? Siga o acróstico.


The Tarot of Prague
Baba Studio

Ás. Te escrevo para demonstrar o quanto você é importante para mim. 

2. Eu te amo e quero estar com você. Casar, ter nossa família, nossa vida juntos.

3. Quero estar cada minuto da minha existência ao seu lado, 
celebrando tudo o que a vida oferece. Quero estar com você para o que der e vier.

4. Assim como quero dar conta das situações que se mostram todos os dias,
sem deixar passar nada, porque só penso em estar bem com você.

5. Sei que talvez seus sentimentos já não sejam os mesmos de antes, 
por tudo o que tem acontecido entre nós.

6. Mas torço para que tudo volte ao que era, 
pois nada na minha vida é mais puro do que meu sentimento por você.

7. Quero, de verdade, que sejamos o casal que desde o começo fomos destinados a ser. 
Sair conhecendo o mundo, vivendo intensamente nossas emoções, nossos desejos.

8. Sem olhar para trás. 
Deixando todos os erros no passado.

9. Esperando o melhor, dando o melhor para você e para nós. 
Você é minha felicidade. E eu só quero te fazer feliz.

10. Quero ficar com você até o fim dos tempos.
Você é a minha vida. Te amo para sempre.


Pois é. Nada à toa.
Quem disse que as Copas não são didáticas? Não, elas não se resumem a uma receita única, pronta. Escrever uma carta de amor é como uma leitura oracular: tem-se os símbolos à disposição; os contextos, as medidas e a performance são variáveis. Infinitas possibilidades. Se do Ás ao Dez temos cada etapa do processo da paixão — o rompante, a delícia, a quebra de expectativas, o desejo de consertar as coisas e ainda o ressurgimento da harmonia no coração —, as quatro figuras da corte é que de fato encenam o arrebatamento erótico. Toda destreza de uma performance querubínica. É a família de Copas que nos interessa e nos revela. As cartas numeradas estipulam sucessivos itinerários do sonho, mas são eles os regentes do Amor. Quatro vetores, quatro emissários. A realeza do âmago. O grande poder que insufla a Musa camoniana.













Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.




Pajem é aquele que anuncia. 
O primeiro, o mais novo, aquele que se entrega às emoções. Sincero, prestativo, delicado, passional. Se não é quem escreve, é quem entrega. Modelo de pombo-correio. Tem em si todos os sentimentos do mundo, ainda em gestação. O portador da mensagem. 












Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está ligada.



Cavaleiro é aquele que leva. 
O caminhante determinado a vivenciar o trajeto — aquele que alça vôo no próprio desejo. Sincero galante a galope, transmuta a vontade em performance. Leva a mensagem mas pode fazer-se remetente para enfeitiçar algum destinatário que lhe avassale o sexo e o peito.












Mas esta linda e pura semidéia,
que, como um acidente em seu sujeito,
assim como a alma minha se conforma,



Rainha é quem recebe. 
Imagem arquetípica da bruxa que ostenta seus filtros. É Circe, quase deusa.  E é Penélope — a que espera a mensagem, a que retém os segredos. Flana descalça pela praia, absorta no próprio amor. Ela faz um brinde aos mistérios. Senhora dos fluidos. 












está no pensamento como idéia:
[e] o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.




Rei é quem manda. 
Quem escreve e ordena que a mensagem chegue ao objeto amado. E, transformado nele, é a estrutura dos próprios sentimentos. Senhor e vassalo do coração devastado, do prazer definido, do romantismo administrado na carne. Embriaga-se, investe e demonstra.


Ainda entre os egípcios, acreditava-se que aconselhando, tonificando ou mesmo censurando o coração, ele se torna um ser independente, como se a essência divina aflorasse — o deus que habita em cada ser humano. E é em Copas que damos por esse caminho iniciático. 




Carta-puzzle de John Keats para Fanny Brawne
em
Brilho de uma Paixão, filme de 2009


Todas as cartas de amor são ridículas. Mas são tão sérias a ponto de revelar quem somos, o que desejamos e como vivenciamos o melhor da vida. Por isso mesmo não se deve subestimar as cartas de amor. Jamais. As primeiras que recebi ainda guardo, a seis chaves, no baú das correspondências mais puras. Talvez porque cada pedaço de afeto sobrevive no papel com mais destreza que na catedral da memória. E existindo nela, o coração se descobre mais forte, fazendo jus a si próprio. 


Uma carta de amor é o próprio Graal. 
A busca primeira, a magna condição da saga humana. Um poema condenado. O papel fundamental. 
O nácar da alma.





Nada é à toa nos braços do Amor. 
Nem no Tarô.












BIBLIOGRAFIA apaixonada


CENTENO, Yvette K. A Alquimia do Amor. A Regra do Jogo, 1982.
KING, Francis X. The Encyclopedia of Fortune-Telling. Gallery Books, 1988.
MAHONY, Karen. The Tarot of Prague. Xymbio, 2003.
MANGUEL, Alberto. História da Leitura. Companhia das Letras, 1997.
OVÍDIO. Amores & Arte de Amar. Penguin Companhia, 2011.
ROOB, Alexander. O Museu Hermético. Taschen, 2006.