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26 de julho de 2015

PRUDÊNCIA



'Prudentia', observa Cícero, vem de 'providere', que significa tanto 'prever' como 'prover'. Virtude da duração, do futuro incerto, do momento favorável (o 'kairós' dos gregos), virtude de paciência e de antecipação. Não se pode viver no instante. Não se pode chegar sempre ao prazer pelo caminho mais curto. O real impõe sua lei, seus obstáculos, seus desvios. 

A prudência é a arte de levar tudo isso em conta, é o desejo lúcido e razoável. Prudência é o que separa a razão do impulso, o herói do desmiolado. Ela determina o que é necessário escolher e o que é necessário evitar. Assim, no homem, a prudência faz as vezes do que é, nos animais, o instinto — e, dizia Cícero, do que é, nos deuses, a providência.


André Comte-Sponville
Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, 1999


The Tarot of Prague | Baba Studio, 2004



11 de maio de 2012

PEQUENO TRATADO DA HUMILDADE

Seis de Ouros | Rider Waite-Smith Tarot | U.S. Games, 1971
























HUMILDADE é um conceito batido, quase sempre deturpado. Uma virtude empobrecida pelo senso comum, infelizmente. É bem próxima de sua irmã Generosidade, bem falada entre os de boa fé e entre os interesseiros e aproveitadores de plantão, claro. Aliás, segundo Santo Agostinho, "aonde está a humildade está também a Caridade", outra irmã muito querida que por sua vez aparece acompanhada de mais duas, a Modéstia e a Simplicidade. Mas a jovem humildade, meio borderline, é como uma planta que brota num lugar absolutamente ermo e alcança proporções de beleza e significado inimagináveis. Tipo um cacto no deserto, feio e inútil a princípio, mas de perto florido e repleto de água para salvar os sedentos. Falando nisso, a sede por querer se mostrar humilde tem sido grande, percebe? A deturpação da famigerada humildade (até grafada com inicial minúscula, coitada) é tamanha que ela pode se travestir de falsidade, um dos vícios de quem saliva por querer parecer bom e/ou por tentar descobrir algum sentido à própria existência. 

Para ser realmente humilde, a pessoa não deve ter consciência de que se é. A pessoa que se acha humilde não se aguenta de orgulho. Por isso é que a humildade só pode ser alcançada por quem tem uma elevada auto-estima e, ao mesmo tempo, a profunda consciência da transitoriedade. É o rabino Nilton Bonder que conta, segundo uma lenda tradicional judaica, que deveríamos andar com dois bilhetes nos bolsos das calças. Num bolso estaria um deles com a frase "por nossa causa o mundo foi criado", enquanto que no papel do outro bolso estaria escrito "do pó vieste e a ele retornarás". Saber em qual deles meter as mãos na hora oportuna produziria em nós a chance de sermos verdadeiramente humildes.

É prudente saber que toda visão e leitura de mundo oscila entre a nossa grandeza e a nossa insignificância. Aceitando essa condição diante do espelho e diante dos outros é que pode haver um rastro, um toque de humildade. Vale muito ajudar a quem precisa, assim como vale muito saber receber ajuda quando for necessário. Via de mão dupla. A humildade é um processo: mente, corpo, espírito e coração flexíveis e certa naturalidade diante do belo e do horrendo. Por isso vale dobrar seis vezes a língua antes de cochichar ou bradar aos zéfiros o quanto alguém é metido ou  arrogante. Tanto que Spinoza concebe a humildade como "certa tristeza pelo fato de o homem ter em conta sua própria impotência ou fraqueza". 


HUMILTÀ | Iconologia, de Cesare Ripa. Roma, 1603
Não seria ela, então, uma virtude? Bom, na verdade ela é uma virtude rara. Sua pele é diáfana, quase transparente. As principais representações alegóricas a seu respeito a trazem pisando sobre uma coroa. Toda a atenção a este símbolo agora, pois ele constata que a delicada dama nunca prega a riqueza, mas sim uma negação da ostentação, a inutilidade dela. Afirma o grande filósofo que "aqueles que imaginamos mais cheios de humildade e de desestima por si mesmos são geralmente os mais cheios de ambição e inveja". Há de se ter cuidado. Flor [de cacto] que não se cheira. Mas 'humildade' tem raiz no latim humus, 'da terra'. Correspondência direta aos Ouros do Tarô. E o que vem dela pode ser grandioso, sem fazer alarde. Na Iconologia de Cesare Ripa, Humiltà traz uma esfera nas mãos, símbolo daquilo que roda pelo mundo e, se jogada aos céus, logo cai. Tudo o que sobe, desce. As above, so below. Axiomas arcanos convergindo. O senhor de nobres vestes, pintado por Pamela Colman Smith, sabe de suas posses e condições. Waite confere lhe um "bom coração"; não é só generoso. Por isso ajuda de modo igualitário, como bem mostra a balança em equilíbrio.


Aliás, qual Arcano Maior traz uma pequena grande lição de humildade? 
A TORRE. Sim, senhores. Tudo o que brota e o que se constroi sobre a terra vai perecer e ruir em algum momento.  Metáfora do status que se alcança, do poder que se conquista e da ruína que se evita. Fortuna.  Midas e a fome de ouro que o leva à destruição, por exemplo. Depois de o raio atingir a coroa [!] e dar-se conta da desgraça, há o nivelamento. A simples donzela batendo o pé: os ricos sobreviventes agora são pobres, quase indifentes e recebem auxílio de um rico. Assim segue o destino. Por diante. 

Tarot de Marseilles | Millennium Edition, 2011

























Ser humilde não é uma qualidade a ser ostentada, que fique claro. É sempre o outro é que a percebe. Não se projeta em nenhum espelho. Estreitando laços sinceros com a graciosa irmã Generosidade é que você chega ao simplíssimo reino da Humildade [agora em maiúscula]. Ler as imagens do Tarot ou ouvir o que elas dizem são atitudes que dão firmeza para trilhar o caminho até ela. Mas lembre-se: se você se acha humilde, então é porque ainda não a alcançou. 



Leo















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3 de março de 2012

A FONTE DA TEMPERANÇA




À destra cristalina fonte murmureja,
numa clareira margeada de gramíneas.
Aqui a deusa sempre descansa da caça
e banha os membros virginais em água límpida.
Quando na gruta entrou, deu a uma das Ninfas
o escudo, o dardo, a aljava e o arco distendido;
outra nos braços recolheu a sua roupa;
duas lhe descalçaram os pés; a mais sábia,
a ismênide Crócale ata-lhe os cabelos ,
antes à nuca, embora ela os seus soltasse.
Néfele, Ránis, Híale, Fíale e Pseca
apanham água e vertem-na com grandes ânforas.

Ovídio | Metamorfoses, Livro III.

La saletta di Diana e Atteone | Parmigianino, século XV.



O tarô vai muito além daquilo que mostra e ainda mais longe daquilo que esconde. Para se ter ideia do poder da metáfora, um trunfo pode sugerir muito mais relações iconográficas do que uma leitura de imagens pode imaginar alcançar. Uma operação alquímica se estabelece entre fontes pictóricas de várias naturezas e possibilidades. A arte das cartas é, por excelência, a arte da combinação.

Tenho visto há alguns anos um trunfo curioso em diversos fóruns e publicações importadas. Ele faz parte do dito tarocchi de Alessandro Sforza, do século XV, preservado na coleção do Museo Castello Ursino em Catania, na Sicília. Debruçando-se sobre a lâmina a partir de um olhar simbólico, pode-se perceber que a figura feminina está bem acomodada sobre um cervo. Em suas mãos, prováveis ânforas tendo seus conteúdos misturados. TEMPERANZA, como bem se conhece. A dinâmica dos braços confirma o protótipo do décimo-quarto Arcano Maior.


La Temperanza | Tarocchi di Alessandro Sforza di Maestro Ferrarese (1450-1480). Museo di Castello Ursino, Catania.



Existem certos códigos aparentemente inacessíveis nestas pranchas antigas. Por ora deixo Sophrosyne (o conceito de moderação para os gregos), assim como os elefantes de Cesare Ripa e Etteilla. Somente um banho de pesquisa pode desencadear certa coerência de significado. Ou no mínimo um encantamento visual: pode-se configurar de tudo nestas cartas. Ater-se à mulher nua como uma representação de uma deusa é um mergulho no rito combinatório de atributos e sentidos. Um Olimpo pode ser escavado nos arcanos, mas com a necessária distância para não conjurar o caos simbólico. Assim o caráter divino dessas figuras nômades toma forma e complementa o esboço histórico.

Temperantia | Cesare Ripa, 1603.
La Temperance
| Grand Etteilla II, 1838.



Esta mulher sobre o gamo é Diana, a inspiradora deusa da caça. A virgem donzela que corre no Nemi. Embora não haja resquícios do crescente lunar sobre sua testa, a analogia é absoluta e perdura.
Diana sorpresa al bagno da Atteone | Cavalier D'Arpino, século XVI.




Acteon era um excelente caçador que se aventurava pelas florestas. Filho de Aristeu e neto de Cadmo, teve um destino nada invejável: ao cometer a indiscrição de admirar Diana se banhando junto ao seu cortejo de ninfas, pagou caro pela ira da grande deusa, que o transformou em um cervo. Logo em seguida, seus cinquenta cães não o reconheceram e o devoraram. Eternizada nas Metamorfoses de Ovídio, a fábula serve quase de atalho para o conceito que hoje se atribui ao décimo-quarto Arcano Maior. Em Camões também se dá o caso, o que tonifica o poder do mito indo além das Belas Artes.

Enquanto aí, à linfa, se lava a Titânide,
eis que o neto de Cadmo, deixando o trabalho
e errando em bosque ignoto com incertos passos,
chega ao recanto sacro; assim quis o destino.
Tão logo entrou na gruta úmida de fontes,
as ninfas nuas, vendo o homem, tal como estavam,
os peitos batem, e de súbito alarido
enchem o bosque, e rodearam a Diana,
cobrindo-a com seus corpos. Porém, é mais alta
a deusa que elas e ultrapassa-as, colo acima.
A cor, que sói tingir as nuvens quando o sol
as fere pela frente ou a da aurora púrpura,
foi a do vulto visto sem véu de Diana.
E ainda que o seu séqüito a rodeasse,
ela mostrou-se oblíqua e virou a cabeça
para trás; desejando ter à mão as setas,
a água que havia asperge no rosto do homem.
Molha os cabelos dele com água ultriz,
e lhe anuncia assim a iminente ruína:
“Agora, conta que me viste sem a veste,
se puderes.” Sem mais ameaças, espalha
na úmida testa chifres de cervo longevo,
estica-lhe o pescoço e aguça-lhe as orelhas,
muda em patas as mãos, e os seus braços em pernas
longas e com manchado pelo o corpo cobre-lhe;
e lhe põe medo. Foge o herói autonoéide
e admira-se de ser tão veloz na corrida.
Quando deveras vê o rosto e os chifres n’água,
“Infeliz de mim” quis dizer, e a voz não veio;
gemeu, e a voz foi isso; e em face alheia lágrimas
fluíram. Só sobrou-lhe a primitiva mente.


Acteon e Diana | Detalhes do afresco de Parmigianino.



Ainda sobre o arcano de Alessandro Sforza, Diana verte o cálice sobre o seu próprio sexo, coberto bela mão esquerda. Essa passagem serviria de ensinamento devido à práxis da época, quando se pretendia basear-se na mitologia para aplicar uma filosofia moral. A imagem mostra que o conceito da virtude vai além de domar a sensualidade e os prazeres carnais. Essa concepção iconográfica tonifica o conceito do rito de Anados, quando a deusa emerge anualmente e enaltece a própria virgindade banhando-se em uma fonte sagrada. O gesto talvez esteja longe de ser uma tentativa de controlar os ardores do sexo, mas sim a expressão clara da renovação da sua pureza virginal ao ligar os líquidos da terra com os seus próprios fluidos. Água e Água.



Temperantia | Gravura de Hans Collaert, 1557.



O final trágico de Acteon dialoga com a ideia da deturpação da virgindade de uma deusa por um mortal. E sendo o cervo a personificação do “esposo divino” sempre em busca de pretensas esposas e da fonte em que possa matar a sua sede, a transfiguração do homem em animal tem sua razão poética. Entende-se que foi uma atitude coerente a de Diana, dada a ousadia do caçador em profanar seu rito de purificação partilhado apenas entre as ninfas. A face cristalina da deusa se impõe.


Diana e Atteone | Matteo Balducci, século XVI.


Circundam-no e enfiam-lhe o focinho ao corpo,
dilacerando-o sob falsa imagem de cervo,
até que por feridas mil morrendo, dizem,
a ira de Diana Arqueira saciou-se.
A opinião se dividiu: a uns a deusa
pareceu mais cruel que o justo; a outros, digna
de austera virgindade. A razão tem dois lados.


O valor moral do episódio denuncia, portanto, uma postura temperante necessária: o homem deve domar os próprios instintos para atingir as águas da moderação. O cervo também assume a suavidade animal, que prefere a solidão aos tumultos da floresta. Serenidade, parcimônia e medo, outro atributo do temperante – o exagero é indigno. E a ira da deusa não pode ser confundida com perservidade tal como foi encarada por artistas e poetas desde a época de Parmigianino. A cada um aquilo que lhe cabe, simples e justo assim. Diana, mesmo em plena delicadeza prateada, é a regente do selvagem. Depois, preterida essa possível ligação da deusa para as futuras representações pictóricas da virtude cardeal (ao lado da Força, Justiça e Prudência), a Temperança assume o anonimato da alegoria, ainda que feminino. É todas elas, então.




Afresco encontrado na Hungria nos anos 2000, atribuído a Botticelli.



Diana, a caçadora. Diana, a deusa lunar. A de muitos seios, conforme define a antiquíssima fonte italiana baseada na escultura encontrada em Éfeso. Por vezes a alegoria surge com um peito à mostra: a castidade dando lugar à abundância. E assim, com as mamas à mostra, Frieda Harris concebe uma das lâminas mais lindas e enigmáticas do Tarô de Thoth idealizado por Aleister Crowley, que por sua vez conecta à Sagitário a deusa alquimista: o Centauro lança um sorriso a Ártemis. Logo abaixo de suas faces, recebe uma flecha perfurando o arco(-íris) de seus ombros. A referência garante a presença da deusa na modernidade do Tarô. Uma homenagem da Besta às gerações futuras. A Senhora da Arte prevalece, definitivamente.


Fontana di Diana Efesina a Tivoli, Villa D'Este | Itália, século XVI.
Art | Crowley-Harris Thoth Tarot. AGMüller, 1986.




A Temperança é um ritual. Opera alchimica. A fonte de cura das atitudes, a oportunidade de administrar a vida de acordo com um código intuitivo de conduta, visualizando as reações para toda e cada empreitada. Só a intenção de misturar os fluidos já requer habilidade. E implica a contenção sobre os resultados. Mesmo que em algumas representações seja possível ver Diana em pose sexual com o caçador-cervo, definindo-o como o seu consorte, na maior parte das versões ele se contém. Consente o erro pela tentação ao assumir sua condição de animal.


Diana and Actaeon | Balthus, 1954.




Mas o tarô é humano, assim como os deuses em suas emoções e fervores. Vieram de nós na mesma medida que os Trunfos vieram da poesia. Esse aparente resgate da fonte divina das lâminas vale tanto para ressaltar sua força simbólica quanto para exigir respeito ao que foi e continua sendo sagrado. Em cada enigma de tinta embaralhado a esmo. Em cada um que o lê. Vida longa às referências históricas e literárias. Elas são fontes de analogias para embebedar o homo ludens sedento por velhos novos saberes.

Aliás, fechando com Crowley, essa fonte de sabedoria pode ser vislumbrada pelo aforisma Visita Interiora Terrae Rectificando Invenies Occultum Lapidem: visitar o interior da terra é a metáfora possível para o cerne de si mesmo. Retificar o controle absoluto dos próprios verbos, das próprias ações. Combinações da própria história. Mesmo que a narrativa se perca com o tempo e só um fragmento possa vir a sugerir suas relações mitológicas. A pedra filosofal é cristalina na justa medida dos jarros. Tanto quanto a face da deusa.





BIBLIOGRAFIA CONSULTADA


CROWLEY, Aleister. The Book of Thoth. Weiser Books, 1996.

FRAZER, Sir James George. O Ramo de Ouro. Círculo do Livro, 1986.

GRAVES, Robert. A Deusa Branca. Bertrand Brasil, 2003.

GRIMASSI, Raven. Italian Witchcraft. Llewellyn, 2000.

RIPA, Cesare. Iconologia. TEA, 2008.
REFERÊNCIAS | internetIl Parmigianino a Fontanellato: La favola di Diana e Atteone | Primo Casalini
http://www.arengario.net/momenti/momenti25.html
La saletta di Diana e Atteone nel Castello di Fontanellato | Raffaela Terribile
http://rebstein.wordpress.com/2011/02/28/diana-e-atteone/

'Metamorfoses' em tradução | Raimundo Nonato Barbosa e Carvalho
http://www.usp.br/verve/coordenadores/raimundocarvalho/rascunhos/metamorfosesovidio-raimundocarvalho.pdf