11 de maio de 2012

PEQUENO TRATADO DA HUMILDADE

Seis de Ouros | Rider Waite-Smith Tarot | U.S. Games, 1971
























HUMILDADE é um conceito batido, quase sempre deturpado. Uma virtude empobrecida pelo senso comum, infelizmente. É bem próxima de sua irmã Generosidade, bem falada entre os de boa fé e entre os interesseiros e aproveitadores de plantão, claro. Aliás, segundo Santo Agostinho, "aonde está a humildade está também a Caridade", outra irmã muito querida que por sua vez aparece acompanhada de mais duas, a Modéstia e a Simplicidade. Mas a jovem humildade, meio borderline, é como uma planta que brota num lugar absolutamente ermo e alcança proporções de beleza e significado inimagináveis. Tipo um cacto no deserto, feio e inútil a princípio, mas de perto florido e repleto de água para salvar os sedentos. Falando nisso, a sede por querer se mostrar humilde tem sido grande, percebe? A deturpação da famigerada humildade (até grafada com inicial minúscula, coitada) é tamanha que ela pode se travestir de falsidade, um dos vícios de quem saliva por querer parecer bom e/ou por tentar descobrir algum sentido à própria existência. 

Para ser realmente humilde, a pessoa não deve ter consciência de que se é. A pessoa que se acha humilde não se aguenta de orgulho. Por isso é que a humildade só pode ser alcançada por quem tem uma elevada auto-estima e, ao mesmo tempo, a profunda consciência da transitoriedade. É o rabino Nilton Bonder que conta, segundo uma lenda tradicional judaica, que deveríamos andar com dois bilhetes nos bolsos das calças. Num bolso estaria um deles com a frase "por nossa causa o mundo foi criado", enquanto que no papel do outro bolso estaria escrito "do pó vieste e a ele retornarás". Saber em qual deles meter as mãos na hora oportuna produziria em nós a chance de sermos verdadeiramente humildes.

É prudente saber que toda visão e leitura de mundo oscila entre a nossa grandeza e a nossa insignificância. Aceitando essa condição diante do espelho e diante dos outros é que pode haver um rastro, um toque de humildade. Vale muito ajudar a quem precisa, assim como vale muito saber receber ajuda quando for necessário. Via de mão dupla. A humildade é um processo: mente, corpo, espírito e coração flexíveis e certa naturalidade diante do belo e do horrendo. Por isso vale dobrar seis vezes a língua antes de cochichar ou bradar aos zéfiros o quanto alguém é metido ou  arrogante. Tanto que Spinoza concebe a humildade como "certa tristeza pelo fato de o homem ter em conta sua própria impotência ou fraqueza". 


HUMILTÀ | Iconologia, de Cesare Ripa. Roma, 1603
Não seria ela, então, uma virtude? Bom, na verdade ela é uma virtude rara. Sua pele é diáfana, quase transparente. As principais representações alegóricas a seu respeito a trazem pisando sobre uma coroa. Toda a atenção a este símbolo agora, pois ele constata que a delicada dama nunca prega a riqueza, mas sim uma negação da ostentação, a inutilidade dela. Afirma o grande filósofo que "aqueles que imaginamos mais cheios de humildade e de desestima por si mesmos são geralmente os mais cheios de ambição e inveja". Há de se ter cuidado. Flor [de cacto] que não se cheira. Mas 'humildade' tem raiz no latim humus, 'da terra'. Correspondência direta aos Ouros do Tarô. E o que vem dela pode ser grandioso, sem fazer alarde. Na Iconologia de Cesare Ripa, Humiltà traz uma esfera nas mãos, símbolo daquilo que roda pelo mundo e, se jogada aos céus, logo cai. Tudo o que sobe, desce. As above, so below. Axiomas arcanos convergindo. O senhor de nobres vestes, pintado por Pamela Colman Smith, sabe de suas posses e condições. Waite confere lhe um "bom coração"; não é só generoso. Por isso ajuda de modo igualitário, como bem mostra a balança em equilíbrio.


Aliás, qual Arcano Maior traz uma pequena grande lição de humildade? 
A TORRE. Sim, senhores. Tudo o que brota e o que se constroi sobre a terra vai perecer e ruir em algum momento.  Metáfora do status que se alcança, do poder que se conquista e da ruína que se evita. Fortuna.  Midas e a fome de ouro que o leva à destruição, por exemplo. Depois de o raio atingir a coroa [!] e dar-se conta da desgraça, há o nivelamento. A simples donzela batendo o pé: os ricos sobreviventes agora são pobres, quase indifentes e recebem auxílio de um rico. Assim segue o destino. Por diante. 

Tarot de Marseilles | Millennium Edition, 2011

























Ser humilde não é uma qualidade a ser ostentada, que fique claro. É sempre o outro é que a percebe. Não se projeta em nenhum espelho. Estreitando laços sinceros com a graciosa irmã Generosidade é que você chega ao simplíssimo reino da Humildade [agora em maiúscula]. Ler as imagens do Tarot ou ouvir o que elas dizem são atitudes que dão firmeza para trilhar o caminho até ela. Mas lembre-se: se você se acha humilde, então é porque ainda não a alcançou. 



Leo















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4 comentários:

Luciana Onofre disse...

concordo em gênero e número... É a Torre a alavanca da humildade contundente.

Pietra di Chiaro Luna disse...

Uma parte da humildade é saber receber também. Existem momentos nos quais somos agraciados pela boa vontade alheia. Humildade é agradecer e saber que, para nós, coisas boas aguardam também!

Quando o exagero do Diabo fica muito patente e as virtudes se calam... bem, 16...

Victor Guagliardi disse...

http://viajandonotarot.blogspot.com.br/


Gente, estou divulgando meu novo blog sobre Tarot =)

Humberto disse...

Leo, esse texto está primoroso!!! Adorei!