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17 de setembro de 2013

ARCANOS E CRISTAIS

Crisocola, Ametista, Sodalita e Serpentina
Haindl Tarot | US Games, 1990.



































Desde bem pequeno os cristais me fascinam. As pedras preciosas, como via nos filmes, nos gibis e nos livros de aventura, eram um constante sonho de consumo. Fui colecionador daqueles fascículos que traziam amostras de vários minerais, os quais catalogava e acomodava cuidadosamente nos estojos apropriados, feito um geólogo aplicado. Mas nas jornadas esotéricas dos anos seguintes, as pedras não acompanharam o turbilhão bibliográfico que se colocava à minha frente — de Gerald Gardner a Aleister Crowley e seus muitos parênteses, adendos e extras. Exceto em alguns sonhos memoráveis, como aquele com uma coruja cravejada de pontas azuis conversava comigo sobre os ancestrais, meu tesouro continuava incólume no armário, longe das vivências, dos feitiços e dos oráculos. Até então, apenas artefatos de contemplação aos olhos fascinados de um menino. Até então.

Retorno agora de uma viagem visceral pelo Peru, onde encontrei drusas, estrelas e pontas de cristais em pleno contraste com o artesanato fabuloso dos pueblos que visitei. Folheava 'à toa' um livro sobre o assunto na livraria do aeroporto de Lima quando fui fisgado na hora: dei de cara com a descrição da Serpentina, um dos elementos que trouxe do mercado de Ollantaytambo na forma de uma pirâmide. Pronto, entendi o recado. Já em casa, me vejo garimpando na biblioteca todos os livros relacionados a pedras, independente do enfoque: do terapêutico ao geográfico, estudar as pedras é uma lição de mundo, não só de vida. Nos faz perceber que somos mesmo poeira brilhante numa distância de bilhões e tão perto pela retina em cores. Então o ABC dos Cristais, de Antonio Duncan, foi o seguinte a ser re-devorado. Os livros certos aparecem na hora certa, dizem. As drusas e as gemas também. Verdade.



PERFORMANCE CRISTALINA


























Percebi, no xamanismo ao redor de Cusco e no sagrado em Machu Picchu, que reconectar-se exige constância. Feeling para manter o corpo funcionando no ritmo do espírito. E tenho constatado que os cristais são chaves para destravar de vez algumas portas que julgamos abertas e até mesmo outras que nem supomos que existam. Uma delas, por excelência, a intuição. Digo que são constatações porque comecei a fazer uso direto das pedras em meus atendimentos, que até então livres de todo aparato que desvie a atenção dos meus confluentes — céticos e cartesianos em sua maioria. Mas no atendimento virtual, quando a mesa de trabalho é só nossa, tenho me permitido os símbolos programados. Assim me mantenho em conexão com essas vibrações específicas. Abertura ao que elas oferecem. Uma condição óbvia [para alguns] é que o trabalho com os cristais insufla uma conduta transparente, firme e segura para lidar com as questões que se apresentam. Ensinam, sobretudo, a nos darmos conta do termo 'energia' com um pouco mais de atenção.



PEDRAS DE CARTOMANTE

























É lidando com esses vidros naturais de força extrema que regulamos os ciclos e nos abrimos ainda mais à vida. Digo isso por sabermos, de antemão, alguns enigmas da existência pelo privilégio de viver a magia narrativa que é o Tarot. Unir as forças cristalinas às arcanas pode triplicar o desempenho diante de clientes e mesmo em trabalhos solitários de percepção e aguçamento dos próprios sentidos. Por isso que decidi elencar alguns dos cristais indicados para oraculistas. E para quem tem preguiça de lidar corretamente com as pedras, desde a purificação [expor ao tempo aberto em água filtrada com sal grosso, por exemplo] até a programação [meditar com a pedra ao som de um lounge, direcionando as vibrações que deseja e proferindo a função que ela terá], sugiro que simplesmente os traga consigo, junto ao corpo, ou mantenha sobre a mesa durante as leituras. 

Poderia elencar um cristal para cada arcano, embora as propriedades cristalinas terapêuticas ultrapassem em número as referências simbólicas das cartas, tornando tudo muito vago — como qualquer associação sistêmica meramente pessoal relacionada ao Tarot. E não, mais gororoba esotérica não. Já existe de sobra. Em vez disso, me atenho a peças facilmente encontradas em lojas especializadas, comuns em sua maioria mas indiscutivelmente belas e poderosas como a Ametista, a Sodalita, o Quartzo Rosa e o Ônix, instrumentos acessíveis a todo e qualquer cartomante. As mesmas que estão desde cedo expostas à tempestade lá no meu quintal. E saiba que estas são apenas algumas possibilidades e sugestões de associações. Fazer dos cristais um estudo constante é tão válido quanto trilhar o infinito caminho das cartas.













SODALITA 
Sendo a Pedra da Intuição, como às vezes é chamada, ter uma Sodalita por perto é sinônimo de canalização e fluência no discurso simbólico. Um cristal promotor de insights por estimular a visão de modo direto, sem se perder em meio a contradições e paradoxos trazidos por outras pessoas,  a Sodalita é uma das pedras oraculares de mais fácil acesso, mesmo que ainda nem tão conhecida pelo grande público. Favorece uma postura verdadeiramente intuitiva quando é necessário mergulhar no que o consulente deseja saber ou precisa fazer para resolver, agindo como uma facilitadora na arte de traduzir padrões arquetípicos. É o cristal de Sodalita que estimula uma compreensão significativa dos sinais apresentados pelo acaso ou mapeados. É um elemento de jornadas interiores precioso por instigar a integrar aspectos de modo sereno, fazendo com que se veja a realidade com a intuição aguçada e as palavras bem colocadas. 

CRISOCOLA 
A pedra que me encontrou em meio a tantos bruxedos em sua forma bruta e também na moldado em ovo. Alertando-me que era uma Turquesa Andina, a vendedora elogiou a pedra até me fazer comprá-la ao perceber o meu fascínio pelo tom. A Crisocola é um mineral considerado até mesmo superior à Turquesa em seus atributos esotéricos e terapêuticos. Sua força é estritamente feminina. Fortalece a força do corpo físico emanando gentileza e poder. É, literalmente, uma pedra da Deusa. Suas energias antigas, quando ressoam nas pessoas por meio de sua beleza, se fazem atuar logo de cara. Tenho percebido a diferença nos atendimentos por estar com a Crisocola por perto. Ela governa o fluxo de energia e comunicação e permite a canalização do conhecimento de modo claro e objetivo. Sendo uma aliada poderosa para quem fala para viver, ajuda a abrir um canal entre uma consciência mais elevada e a expressão verbal, concedendo discursos divinamente inspirados. Nada melhor para quem lida com imagens por meio da voz, não? Permite, ainda, que falemos sem máscaras, através da intuição da própria sabedoria, não por informações simplesmente adquiridas. Nos conscientiza da energia que dispomos ao mundo. Tanto a palavra quanto o silêncio, diante desta pedra, estão bem dignificados.


SERPENTINA 
Esta pedra simboliza, literalmente, o Poder da Serpente. Serve para ativar e elevar as forças da Kundalini e é ideal para quem dança, encanta, sibila. Celebra a condição de oráculo por meio do encantamento. Ajuda a eliminar energias bloqueadas e permitir que a saúde e a beleza fluam, havendo reequilíbrio sempre que necessário. É uma pedra poderosa para curadores, magos e aqueles que trabalham com energia e conhecimento nada convencionais. Calmante para o corpo emocional, ela permite que eliminemos todo e qualquer medo de mudanças e de dificuldades. Tem este nome por ser semelhante à pele ofídica, o que me atraiu logo de cara, numa terra de constantes jornadas e reconhecimentos de animais aliados.

AMETISTA 
Uma das pedras mais comuns mas não menos poderosas e importantes do nosso país, a majestade roxa que é a Ametista vem a ser um instrumento indispensável para todo e qualquer oraculista que se preze. Famosa por ser usada em jóias e talismãs desde o Antigo Egito e passando pelo mito relacionado a Baco e a Diana, este cristal é símbolo de proteção espiritual e purificação. Aglomerados e geodos deste elemento são chaves para uma rotina tomada por beleza, tranquilidade e lucidez. Oferece a chance de criar um escudo energético contra a maioria das forças nocivas de quem vem até nós, especialmente quando a consulta é pautada em ansiedade e rancor. Ideal para harmonizar ambientes, na real, todos os cômodos de uma cada merecem uma Ametista. Recomendada a todos, é um belo artefato de meditação e geração de energia para reciclar atitudes e sentimentos. Desordens nervosas e outros desequilíbrios podem ser controlados a partir do uso dedicado de uma drusa de Ametista, além de ser um estimulante para manter a saúde física, mental e espiritual em dia. 


ÔNIX 
Foi também no Peru que encontrei [ou fui encontrado por] uma pirâmide desta pedra, em sua variação negra. A beleza de uma das pedras mais utilizadas em rituais de magia veio às minhas mãos por um meio de uma señora bastante enigmática aos pés do santuário de Machu Picchu: — La piedra de las brujas, amigo. Tomado pela suntuosidade do objeto, acabei trazendo sobretudo pelo fascínio com que a mulher tratava o produto, como se houvesse alguma relação muito antiga com ele. Indicada para estudantes, professores, advogados e psicólogos, é ideal para quem deseja manter o autodomínio intacto diante dos desafios cotidianos. Tradicionalmente associada a Capricórnio e refletida n'A Justiça por alguns — meu signo solar e arcano pessoal, surpreendente e respectivamente — é desde sempre uma das minhas favoritas. A pedra cor-de-noite guarda ainda o segredo da materialização de tudo o que se deseja. Consolida o poder de outros cristais em vez de aumentá-los, como um carimbo a constatar a força suscitada dos outros. Mágica por excelência, instiga o oraculista a fazer uso harmonioso de sua intuição e a narrar os eventos com os pés no chão, inclinando-se à objetividade e à sinceridade frente aos símbolos das combinatórias.



ENTRE CARTAS E CRISTAIS

Embebendo um cristal nos mistérios d'A Sacerdotisa
Vision Quest Tarot | AG Müller, 1998.

Purificar, tonificar, energizar, imantar, fortalecer, expandir. Alguns poucos grandes verbos que fazem a diferença antes, durante e depois de ler as cartas. 

● Programar um cristal, como costumam dizer, significa carregá-lo com alguma função. Profira, enquanto segura a pedra escolhida, tudo aquilo que você deseja que a pedra viabilize. 


● É indicado deitar o cristal escolhido em cima do seu baralho de uso para 'zerar' as energias entre uma leitura e outra. Uma drusa atenua ou intensifica tensões, desde que respeitados seus atributos. Para descarregar um Tarô, sugiro que você tome uma pedra devidamente purificada e programada para este fim. 



Limpando e protegendo o oráculo
Aleister Crowley Thoth Tarot | AG Müller, 1986.

● Segure o cristal minutos antes de começar uma leitura, tanto para interpretar atentamente as cartas que serão sorteadas quanto para ouvir uma interpretação. As pedras oferecem foco às questões, além de ampliar intenções e harmonizar a atmosfera em que você se encontra — seja diante de um cliente, presencial ou virtualmente, seja diante da pessoa que lerá para você. 

● Uma das práticas mais fantásticas envolvendo esses dois universos e que merece um texto a parte, é a que eu chamo de INFUSÃO: ato de programar um ou vários cristais com determinada imagem arquetípica. Se quero, por exemplo, ter um cristal d'O Sol para levar comigo por onde for, é bem possível se tenho um cristal devidamente purificado. Esta prática, um verdadeiro encantamento, pode ser feita a partir da fusão entre o arcano escolhido e a peça destinada a ser o 'recipiente' imagético. Cristais, sobretudo os de quartzo, são perfeitos para esse tipo de trabalho. Visualize, com o devido preparo mental, a carta sendo gravada dentro da pedra. Sinta-o pulsando em consonância com a imagem. Se o cristal for transparente, o trabalho pode ser ainda mais nítido: coloque a lâmina atrás da pedra e visualize a amálgama. Essa medida pode se estender a outros oráculos como runas ou mesmo hexagramas e exige, naturalmente, que você seja responsável com as energias a serem trabalhadas. Sempre.




+ DICAS PRECIOSAS

























 A estética, fator muitas vezes apagado da perfomance do tarólogo, é essencial para um atendimento gratificante, já que nem só de acertos e erros se faz a cartomancia. Saiba, no mínimo, quais são cristais que você tem ou quer ter por perto.

 Gostou de uma pedra? Pesquise sobre ela TAMBÉM a nível geológico. Saiba de onde ela vem, os mitos que a envolvem, como é extraída, qual sua dureza e outras características relevantes de sua composição. Ah, e pergunte-se porque você gosta tanto dela. As respostas, vindas bem lá de dentro, vão surpreender você.

● Tire as pedras do bolso! Oxigenar esses elementos é crucial para que eles 'respirem' de acordo com você. Para haver proteção, não adianta manter a Turmalina perdida em algum canto inacessível da bolsa. Se mora em apartamento, coloque seus cristais na janela. Se mora em casa, mande a preguiça dar uma volta e exponha cada um deles à chuva, ao sol e à lua. As pedras são jóias de Gaia e merecem o contato constante e variado com suas forças.


● Estude as formas de cristais que você já tem em casa ou deseja adquirir. Geradores, biterminados, arquivistas, aglomerados, guardiões, transmissores e canalizadores são apenas alguns dos variados tipos que encontramos ao longo do caminho. Um exército mineral ao nosso dispor para tomar ciência do quão rica é a existência, seus arcanos e meandros.

Muito cuidado com as lojas em que você pretende em comprar seus cristais. Certifique-se de que fazem um bom serviço e, no caso de estabelecimentos virtuais, saiba se as imagens são mesmo do item que você está comprando.

● Não acredita em nada disso? Nem eu. Não se crê numa pedra, constata-se. Ela existe, assim como a energia. Somos energia; cristais são energia. Mas se preferir não se dedicar a prática alguma de purificação ou programação, faça uso da beleza dos cristais elencando os que você realmente gosta para testemunhar suas atividades. Invariavelmente as forças tendem a ser favoráveis aos seus propósitos.


Por fim, espero ter sido claro ao apontar alguns conceitos, mesmo que rapidamente, sobre os cristais lado a lado com os arcanos. Assim como os cristais me ajudaram perceber que são eles os ancestrais mais antigos do qual falava a coruja azul. E enquanto recolho meus tesouros lá no jardim, desejo que você tenha boas surpresas com suas pedras — as que já possui e as que virão. E que faça da sua condição de oráculo e/ou consulente uma realidade cada vez mais brilhante, refletindo suas próprias cores no assombro das horas. Na formação mágica que é nossa vida.

Arcana, por excelência. 



L.




B I B L I O G R A F I A

DUNCAN, Antonio. ABC dos Cristais. Círculo do Livro, 1992.
SIMMONS, Robert; AHSIAN, Naisha. The Book of Stones. North Atlantic Books, 2007.
WALKER, Barbara G. The Book of Sacred Stones. Harper&How, 1989.

19 de agosto de 2012

INSTRUMENTO DE CAMINHOS

A estranheza do LARO TAROT, que me encontrou na Anatólia.


Viajar não é só arrumar as malas e sair por aí. Não é só olhar, fotografar. Não é bancar o turista faminto a cada coisa bonita sendo vendida. Viajar é um ofício. Quando se entra num ônibus, num avião, num barco ou num livro, a condição é de leitor. E o que faz um leitor se não ler, que é contemplar palavra, imagem e sentido?

O escritor Gonçalo M. Tavares foi brilhante ao mapear o conceito de contemplação numa crônica da revista da TAP, lida a caminho de Lisboa. Contemplar é trabalhar o futuro, uma aprendizagem do que vem por aí. É preparo intelectual para os dias seguintes. Eis o que é contemplar. 

Eu bato sempre nessa tecla: peregrinar é ler. Ler é viajar. Eu não consulto as cartas, eu as leio. Claro que CAFÉ TAROT não é um blog de viagem [como se houvesse algum problema se o fosse] mas o Tarô é, sim, um instrumento de caminhos. Indiscutivelmente. Me poupo de perguntas espantosas do tipo "pra quê serve essas associações entre leitura e arcanos?". Precisa-se de quilômetros de textos e paisagens para gerar associações coerentes entre as lâminas e a cultura de um povo, suas manifestações artísticas, as cidades, o café.  

Ler o sabor dos meandros de mim mesmo. 

Mas digo isso porque ainda estou chocado. E não vou me demorar em tentativas de descrever o que vivenciei. Minha odisseia mediterrânea ultrapassou os limites da beleza e da distância; atingiu certeiro meu espírito. Assistir a uma cerimônia dos dervixes, trilhar de balão os céus da Capadócia de São Jorge, flanar pelos auspícios da borra do meu próprio café e cruzar o mapa de Istambul por meio das cores e dos cheiros é mais que jornada.  Foi na Turquia que percebi o quanto viajar é importante. Alimento e condenação, porque não existem fronteiras para o que chamamos de amor, simpatia, hospitalidade e honestidade. Um baralho raro me encontrou num oásis chamado Kusadasi, a poucos minutos de Ephesus, onde encontrei a grande Artemis. E onde suspirou pela última vez Maria, mãe do profeta e filho de Deus. Sinais de rotas que não estão em guias e revistas de turismo. 


Perdido no harém de seda na Capadócia.

Contemplar, para os gregos, significa separar e dividir algo num setor e cercá-lo, circundá-lo. Contemplari. Mais interessante é associá-la à latina templum, 'que se recorta do céu e da terra'. É neste perímetro que os profetas realizam suas observações para saber o futuro. Tavares diz, então, que "contemplar é recortar uma parte do mundo, da terra e do céu, mas não uma parte do mundo qualquer - é selecionar a parte do mundo que nos pode ensinar, que nos pode dar indícios sobre o futuro. Contemplar é estar pois com o templo, é fazer de uma parte do mundo o nosso tempo, o lugar que nos faz pensar e perceber o futuro.

Contemplar as cartas, confesso, é fazer templos; é ser digno de fazer, de um arcano, um quadro, um templo. É ter um olhar atento e profundo para fazer, daquilo que observo, algo sagrado. E sagrado é aquilo que só se esquece quando se perde a humanidade. E humano é aquele que jamais esquece o que é sagrado. 


Aurora nos céus de Göreme, quando esqueci o medo de altura.

Deixei um pedaço do meu coração na Turquia. E vim com um pedaço dela no peito. Em meio a sincronias e caminhos de poemas, mantenho a serenidade e sigo lendo. Lendo as entranhas das circunstâncias, sem desejar nada. Só contemplando. De corpo fechado com tantos olhos [turcos] me rondando e mãos de Fátima afagando às vistas. À própria deusa, as devidas reverências. A gratidão. 


Artemis Ephesia, abundando fertilidade e proteção.

Quem tem olhos, que veja. Que questione e anseie menos e contemple mais e sempre. A excelência do oráculo deve muito às percepções. Ao quanto de coração se põe no caminho e no ofício.

 O corpo é breve. O que nos eterniza são os passos.



L.

14 de julho de 2012

E NO TARÔ ESTÁ ESCRITA UMA CIDADE.




Kublai Khan: – Fale-me de outra cidade – insistia.
Marco Polo: – ...O viajante põe-se a caminho e cavalga por três jornadas entre o vento nordeste e o noroeste... prosseguia Marco, e relatava nomes e costumes e comércios de um grande número de terras. Podia-se dizer que o seu repertório era inexaurível, mas desta vez foi ele quem se rendeu.
Ao amanhecer, disse: - Sire, já falei de todas as cidades que conheço.
– Resta uma que você jamais menciona.
Marco Polo abaixou a cabeça.
– Veneza – disse o Khan.
Marco sorriu.
– E de que outra cidade imagina que eu estou falando?


ITALO CALVINO | As Cidades Invisíveis, 1972.




Minha relação com cidades costuma ser sempre visceral. Alguns amam pessoas ou livros e passam a vida tentando decifrá-los, publicar sobre gente ilustre ou filme e até obter doutorado para falar com toda a propriedade sobre determinado evento ou criatura. Já eu tenho com cidades, mesmo. Sei que é interminável esse trabalho, mas ele se mantém. Como se elas fossem personificações, se é que não são. E Veneza é minha preferida. Quem me conhece bem, bem sabe. Uma cidade que é uma pintura. Mise en abyme absoluto, confunde os olhos e as verdades interiores. Aperta o coração. Mesmo depois de três viagens feitas até lá, não consigo descrever o que senti. E não falo devido à beleza indiscutível e à pompa que o turismo confere ao Vêneto todo, mas pela atmosfera e pela história. Pelo enigma.



Marco Polo deixa Veneza em 1271. Iluminura do século XIV.

Um dos meus livros favoritos de Italo Calvino é justamente um dos seus mais famosos: As Cidades Invisíveis. Marco Polo é o veneziano que tece as cidades em frente ao Grande Kublai Khan, imperador de tudo, a fim de ilustrar as maravilhas de seus próprios horizontes. É Veneza a raíz das narrativas de Polo, sempre será. O eterno viajante jamais esquece suas origens. Assim com o tarólogo, que nunca se perde de onde vem. O primeiro baralho é crucial ao desempenho futuro, acredite.

Aspettando l'Ariuo di Marco Polo | Juarez Machado, pintor brasileiro.

E por falar nelas, nas origens, Veneza era o link entre a Europa e o Oriente. É Dai Léon, em seu tortuoso Origins of the Tarot (Frog Books, 2009), que afirma ter sido a jóia do Adriático o maior centro italiano de importação de cartas. Graças ao comércio dos mercadores venezianos que as cartas de jogar se tornaram conhecidas nas cortes do Norte da Itália. Veneza foi forçada a se tornar o sultanato mameluco em Alexandria para então poder ser agraciada com os bens do Oriente. Também fez escambo com Istambul. Competição acirrada com Portugal. Portos e portos, negociações. A nobreza, as iguarias. O tempero de Veneza é alquímico. Era o umbigo cravejado de encantamentos do Velho Mundo. Lenda viva, nunca afunda. Poderíamos dizer, a partir das teorias de Léon, que sem Veneza não seríamos nada. Os arcanos teriam tomado outros rumos, talvez. Ou não. Ou sim.

Qual é a sensação de embaralhar uma cidade? Quebras das linhas dos mapas, contornos. Variações de becos e flashes de praças e bairros e vias. Quando se embaralha Veneza, no entanto, difere em tudo.



Vi o Tarocchi di Venezia há alguns anos quando navegava pelos mares do Aeclectic, maior catálogo virtual de baralhos e resenhas, absolutamente confiável. Procrastinei tanto  a compra que por fim, logo depois da minha palestra na II Confraria Brasileira de Tarot, decidi acabar com a distância e o recebi das mãos de Priscilla Lhacer, do Amor Próprio, a melhor importadora de baralhos do Brasil. Felicidade por ter Veneza mais perto. Concebido por Davide Tonato, pintor surrealista veronês, o projeto teve a idealização de Giordano Berti, uma das maiores referências italianas em história do Tarô. A partir desse fato [já que sou um ávido devorador do trabalho de Berti], acabei constatando o empenho e a coerência do projeto ao elencar personalidades venezianas em cada uma das setenta e oito molduras. O passado configurando o presente e o futuro. Quer melhor oráculo que a própria História?


Il Matto, o nosso querido Louco que estampa a embalagem consistente que só a Dal Negro faz, é nada menos que um Arlecchino, ícone da Commedia dell'Arte, que por sua vez serve de base para o estudo dos 'arquétipos' cenográficos. Va bene, se fosse só isso seria bonita a associação entre a figura cômica e o Arcano Sem Número. Ponto. Mas o augúrio vai além e se ramifica na paisagem: o Arlecchino se equilibra sobre um barril sobre o mar, bem à frente da ilha de San Servolo, o manicômio de Veneza. A partir daí, a coisa fica séria.

 


Il Bagatto, ou Mago, é Giordano Bruno. O cenário? Piazza San Marco, o chão feito de memória e poemas. Portia, a juíza d'O Mercador de Veneza, encarna o oitavo Arcano. É Shakespeare eternizado junto à Ponte dos Suspiros. A matemática Elena Cornaro Piscopia rege La Fortuna sob a torre do relógio astrológico, foto obrigatória a qualquer visitante. La Morte surge esvoaçante na igreja de San Rocco lançando seu manto negro metáfora da peste de 1603.



Galileu Galilei, n'A Estrela, mostra ao doge Leonardo Donato um novo instrumento de observação: o telescópio, em 1609. Carlo Goldoni, que tive o privilégio de estudar durante o curso de Storia del Teatro quando morei na Itália, aparece divinamente homenageado no Sol: Zanetto e Tonino ainda meninos, protagonistas da peça I Due Gemelli Veneziani, fazem alusão aos tarôs clássicos. A iconografia veneziana dialoga com a tradicional. Grande sacada dos compositores do maço.

 

Por isso digo que não é apenas um Tarô para marcar nome. É uma obra de Arte que é homenagem que é coerente. Coerência simbólica, bato nesta tecla. O respeito à estrutura convencional do Tarô, hoje em dia, tende a ser o diferencial. Quando há, que felicidade. Quando não, cuidado. Sempre muito cuidado. Analogias são bem-vindas, mas como possibilidades, nunca verdades absolutas. Assim o artístico se mantém. Alimenta o lúdico, o humano.

Mas estar em Veneza é estar em casa. Literalmente. E nos Menores, a prudência de Tonato e Berti se mantém. Marco Polo vestido com armadura encabeça o Valete de Paus, prestes a embarcar para combater a frota da República de Pisa. Aretino, poeta de luxúrias e veneziano por adoção, surge no Quatro de Ouros. Casanova, o libertino mais famoso de Veneza, circundado de belas moças num jardim, alegra o cenário delicioso do Nove de Copas. Nas Espadas, surge o leão alado de São Marcos portando o estandarte da cidade. Ás: VENETIA VINCIT. No 10, Napoleão Bonaparte como o libertador do povo se faz presente matando a República de Veneza, quando em 1797 a dá de presente à Áustria. Um espetáculo analógico que passa por Murano, Lido e faz de toda a laguna o Universo. Anima mundi.

O começo da aventura: desbravando o deck. | Instagram @leochioda


E as personalidades continuam. Pesquisa histórica bastante nítida e sugestão de leituras. Sempre mais leituras. Difícil acreditar em quem lê o Tarô pelas vias da facilidade a qualquer custo. Alguém conhece uma cidade inteira em apenas um dia? Nunca.

Primeira jornada: julho 2008.


Ler o Tarô, qualquer Tarô, requer dúvida, coragem e atenção. O poder das narrativas é tão forte como sair em plena solidão pelas vielas de uma cidade. Perder-se pelos becos da interpretação, sugerir atalhos, reconfigurar o mapa interno. O sangue fala mais alto quando você descobre que um dos seus tataravôs era gondoleiro. Daí que meu caso de amor com Veneza é visceral. Penetrar as fondamenta com o ímpeto de desbravador e tornar a cada calle do caminho convencional permitindo um olhar mais generoso. Tarefas de um viajante, não de um mero turista. O viajante lê cidades. E nunca diz, com propriedade inabalável, que as conhece de fato. Afirma que as tem, no entanto. No coração, na imaginação.

Carta Alta | Maschere Veneziane. Que tal uma com Visconti-Sforza? 


O Tarô é um exercício de raízes.
E mesmo depois de três longas visitas a Veneza e dos sonhos constantes [com os mercados, os cafés, os vidros, os mouros, os barcos, os leões, as caravanas e os espíritos], eu a tenho agora em minhas mãos, como espelhos de exato diâmetro e espessura. Cidade é reflexo. O símbolo máximo do homem. Contém tudo. Todos.


Marco Polo Voyage | O trajeto até Kublai Khan em selos franceses.


O Tarô, ele próprio, é uma cidade. Difícil acreditar em quem o lê pelas vias da facilidade a qualquer custo. Alguém conhece uma cidade inteira em apenas um dia? Nunca. Ler o Tarô, qualquer Tarô [que fique claro] sob qualquer sistema, requer dúvida, coragem e atenção. O poder das narrativas é tão forte como sair em plena solidão pelas vielas de uma cidade desconhecida. Perder-se pelos becos da interpretação, sugerir atalhos, reconfigurar o mapa interno exige ousadia. Aventura. Atentar às paisagens dos baralhos favoritos desemboca em novas cidades, já percebeu? Invisíveis, a princípio. Mas íntimas. Mundanas. Humanas em sua extensão e perímetro. Tal qual um coração. 

Somos Marco Polo quando abrimos as cartas sobre uma mesa: desbravamos símbolos de nós mesmos aos outros, traduzimos o desconhecido. O Tarô é uma viagem, uma procissão, um carnaval, uma frota, uma companhia de teatro. E nós somos os escritores, os roteiristas, os poetas das circunstâncias. Atores, dramaturgos, pintores. Cabe a nós os registros das Rotas, desde as origens até depois dos destinos.


E Veneza é meu coração. De vidro e água.
Outras cidades surgirão.
Ah, sempre.



L.


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AONDE ENCONTRAR O TARÔ DE VENEZA?