11 de junho de 2007

Habemus Arcanum

OS PODERES DO PAPA




Impossível analisar uma carta de tarô se não houver uma verdadeira jornada por entre seus símbolos. E não basta apenas saber suas palavras-chave e contentar-se com as verdades dos inúmeros livros e manuais, mas sim pesquisar, aprender a observar os arcanos e a anotar impressões, como um verdadeiro leigo, como um eterno estudante. Enquanto instrumento de trabalho e obra de arte, o tarô conta com inúmeras associações, sejam de natureza humana e social, sejam de personificação dos conceitos cósmicos e religiosos, por exemplo. Valendo-se da figura do Papa Bento XVI, neste momento, seu representante no tarô fala mais alto em analogia com as questões cotidianas – especialidade dos que sabem ver o tarô com os olhos livres, sem precisar fugir do seu sistema.

O quinto arcano maior, polêmico desde os primórdios pelos conflitos religiosos e alterações simbólicas que sofria, hoje ainda está caracterizado em roupagem cristã, já que vinculado à iconografia medieval, quando as cartas eram desenhadas e influenciadas pela estrutura social e religiosa.

Depois da Reforma, Roma começa a desvincular seus símbolos sagrados antes estampados nas cartas de jogos populares, algo que poderia macular a imagem da igreja. Seria imprudente haver uma gravura do Papa em maços de cartas para jogadores de tavernas. Em 1725, a Igreja ordenou para que os impressores removessem o Papa e a Papisa, por serem figuras de poder e heresia, respectivamente.


O Papa dá lugar a outras figuras, como Baco e um Imperador neste tarô belga
e no Minchiate Etruria, ambos do século XVIII – www.tarothermit.com/pope.htm

O papado surge a partir das ruínas do Império Romano desintegrado em 746, herdando dele o autoritarismo, a língua latina e a independência dos monarcas. Levando em conta as duas expressões correntes na sociedade medieval (poder espiritual e poder temporal), percebe-se que nem sempre essas forças se mantinham separadas, pois muitas vezes se confundiam e conflitavam exaustivamente. Quando os monarcas converteram-se ao Cristianismo, a Igreja Católica tornou-se uma organização formal e de caráter sagrado.

Houve, então, uma pretensão por parte dos bispos em transformar sua autoridade religiosa em autoridade política universal. Quiseram triunfar sobre os reis, imperadores e senhores feudais, assim como estes reinavam sobre seus fiéis. Daí o conflito entre o poder eclesiástico – gerado como força supranacional – e o poder monárquico, que concedia à Igreja a ordem espiritual, além da política que perdura até hoje.

Etimologicamente, o “papa” italiano vem do latim “pater”, utilizada até o ano 500 para caracterizar todos os bispos ocidentais. Aos poucos esse tratamento ficou restrito aos bispos de Roma – capital do império desfeito e sede da Igreja. O poder do papa teve grande impulso a partir de dois fatos: por um lado, o declínio do Império Bizantino quando Roma se viu livre das amarras que a prendiam ao Império Romano do Oriente, passando a agir como soberano. Por outro, recebeu forte apoio dos francos, dando à Igreja um duplo papel: além de poder espiritual, ela passava também a deter o poder temporal sobre as regiões que lhe pertenciam.

Do período renascentista até os dias de hoje, não se questiona a idéia do Papa ser o representante humano de Deus na Terra, a mais alta autoridade mundana em estreita ligação mística. No tarô, ele ocupava o maior posto da sociedade e da religião predominante, assumindo um lugar natural e convencional entre os demais trunfos.

Para Waite, é o “caminho objetivo das igrejas e dogmas”, o summa totius theologiae. Como em todos os baralhos, o Papa sofreu inúmeras deformações em sua estrutura, que acabaram afastando-o do conceito medievo de bispo, cardeal e padre para conceitos modernos de guru, mestre e místico. Claro que todos carregam o poder do contato divino, mas várias concepções modernas deixam de lado detalhes importantes que só são percebidos quando se analisa a carta com atenção, e não se baseando apenas em manuais ou no contexto de um determinado baralho. As novas concepções ignoram vários atributos, entre eles os de instituição, bênção, fé, religiosidade e obediência – características do bom e velho Sacerdote desde quando o tarô é tarô.


O símbolo do poder papal no arcano do Da Vinci Tarot, de Atanassov & Ghiuselev e na colagem primorosa de Kat Black (www.goldentarot.com), concebida a partir da pintura de São Luís, bispo de Toulose, por Simone Martini, 1318.

Outro símbolo além da mitra, do báculo, das chaves e da luva papal é o Anel do Pescador, ausente na maioria dos baralhos. Desde sua origem, a jóia tem essencialmente a função de selo. É provável que seu uso entre os bispos antigos fosse motivado, além das razões simbólicas de união e casamento com a divindade, pela funcionalidade e autenticação de seus atos. Ainda no período feudal, tornou-se também a marca do poder temporal dos governantes.

O anel indica elo, um vínculo. Vale como signo de aliança, voto e comunidade religiosa. Um destino compromissado, até. Ele une e isola ao mesmo tempo, sendo irreversível a postura que o cardeal assume diante de Deus – sua própria vocação, o fato de tornar-se esposo da Igreja – e ainda o símbolo do mistério nupcial de Cristo.



Tu és Pedro, e sobre essa pedra edificarei minha igreja”. Até o início do pontificado de Bento XVI, o Anel do Pescador tem sido a insígnia referente ao primeiro homem que, segundo a tradição cristã, foi a “pedra” fundamental na fundação da Igreja – Simão, a priori, era um humilde pescador da Galiléia e discípulo de Cristo.

A jóia sofreu várias transformações até ser constituída de ouro puro e trazer a imagem de São Pedro sobre uma barca, lançando sua rede. Mantém-se como testemunho da origem e do significado do poder papal, pois quem o usa é apenas o sucessor do apóstolo Pedro. Atualmente, é o símbolo mais forte na mão de Joseph Ratzinger.

Aliás, falando no atual pontífice, sua autoridade e importância pode ser analisada sob o prisma temporal e espiritual, combinados na figura de chefe de Estado do Vaticano e claro, na de sucessor de João Paulo II. Pra qual lado da balança pende sua influência?

O cristianismo reaprendeu a lição da modéstia durante os últimos suspiros de Karol Wojtyla. Passou a conviver em harmonia com outras formas de sentimento religioso e se preparou para uma nova fase de sua história.
Apoiada na solidariedade e não no autoritarismo, buscou estimular o diálogo ecumênico e inter-religioso, mesmo que timidamente. Houve, porém, adversários a essas transformações dentro do próprio Vaticano – o ainda cardeal Ratzinger, afirmando convictamente que as outras igrejas, assim como todas as demais religiões, não têm acesso legítimo ao mundo divino.

Tal declaração denota o caráter individualista e monopolizado do antigo bispado. Pra quem pensava que o novo papa romperia com as velhas tradições e conceitos morais do catolicismo, enganou-se. Ele já afirmou com total propriedade que a religião católica é melhor que as outras e só se pode atingir a verdade por ela, que deve seguir intacta quanto aos valores cristãos.

O que importa é não perder sua identidade, sempre fiel ao que prega, mesmo com menos praticantes nas missas. Bento XVI ainda ressalta a oposição clara e sucinta aos modismos e novidades perante a Igreja. Nítida analogia com os atributos políticos do Imperador, agora ainda mais sólidos. É o árbitro de todas as questões morais e inquisitoriais, claro. Atenhamo-nos às cartas, então:



Historicamente, a mescla de atributos entre o dois arcanos é nítida. O papa é uma poderosa figura, tanto religiosa quanto simbolicamente. É a face humana de Deus, aquele que torna acessível o mundo transcendental por meio da crença, da moral e da política de ordem. Antes de um líder é um servo, já que separados o plano da matéria e o do espírito, atua como ponte entre o homem e o divino, dando origem ao termo “pontífice”. Intermedeia, ensina e mantém a palavra do seu Evangelho.

O Imperador lidera no plano material como autoridade direta. Ele cuida das terras vastas do horizonte ao seu redor enquanto o Hierofante (de hieros, sagrado e phantes, ensinar) comunica-se com seus fiéis. Aqui se encaixa a idéia de que a massa de católicos está distribuída por todos os lados, enquanto Bento XVI preza por uma Igreja centralizada, dando de ombros para o afastamento de católicos diante de suas posições dogmáticas. Vendo no mundo uma ameaça iminente à religião, tende a reforçar a identidade eclesiástica, mesmo que a conseqüência seja o distanciamento de boa parte do rebanho. Qualidade, e não mais a quantidade.

Espero, neste curto reinado, ser um homem de paz”, pondera Ratzinger aos 78 anos, logo após sentar-se no trono. Já enfrentou um derrame hemorrágico na década de 90 e outros problemas de saúde em 2004. Sendo considerado um papa de transição – e o mais velho eleito até então –, o mundo provavelmente assistirá à sua decadência em alguma consonância com o arcano 13, A Morte. Ainda nos traços de Pamela Smith, vemos o religioso aos pés da Ceifadora — uma possível renúncia ao posto ou o fatídico fim do corpo terreno.




Enquanto isso, Bento XVI se depara com três objetivos importantes que, segundo o teólogo Leonardo Boff, farão toda a diferença durante seu papado:

Assumir o Vaticano com toda a agenda, recolocando a Igreja dentro do mundo moderno e dentro do mundo dos pobres;

Dialogar com os templos locais e torná-los mais descentralizados;

Retomar o diálogo entre a Igreja e as outras religiões para juntas ouvirem o drama que aflige a humanidade – o drama da fome, da miséria e da guerra.

Outra "novidade" trazida pelo sacerdote é a do papel do demônio no mundo, chegando a afirmar que o enviado do Diabo estará sob a máscara de um pacifista ou ecologista. Possivelmente herdado de João Paulo II, o conceito de oposição entre o Espírito Santo e o espírito mundano e diabólico tem papel aprimorado na teologia agostiniana de Ratzinger – uma leitura negativa da cultura e dos interesses que desencadeiam conflitos entre as duas cidades, a de Deus e a do Diabo.



Afinal, qual o sentimento que o povo teve por Bento XVI no início? Aversão, medo e desesperança. Enquanto o quinto arcano abençoa, o Diabo aprisiona. Essa seria a postura ética que vem sendo aplicada por Ratzinger, a de que o homem nasce mau e é imperfeito estruturalmente. Apenas a religião e o temor a Deus são necessários para uma vida digna. Muitos discordam e preferem ver o jogo de outra forma: o próprio Papa é o Diabo disfarçado.
Quando mal dignificado, pode sugerir excomunhão ou até pacto com o mal. Argumentos não faltam, basta notar as semelhanças entre as duas imagens.


Aquele que dá a bênção é o mesmo que amaldiçoa, como se pode ver pela sombra projetada na forma do bode.
Gravura de Eliphas Levi, no seu "Dogma e Ritual de Alta Magia".


O tarô sofre de polissemia aguda, mas é sempre bom parar e ver o que está literalmente estampado nas lâminas. Analogias com o cotidiano dependem de atenção e pesquisa. Muitas das invenções surrealistas e pessoais do tarô não preservam os atributos tradicionais do Papa, e esse é o grande perigo. Não é necessário ser católico para manter-se a figura do sacerdote cristão, apenas fazer valer sua moral de ordem, de contrato, de vocação, de fé e de rigidez mental, como se sente no atual representante do catolicismo.
Crenças a parte, o Papa é um símbolo vivo. Qual a razão de perder esses valores para uma nova roupagem, seja essa mitológica ou talvez mais de acordo com o famigerado movimento da Nova Era? Tais mudanças não se reportam ao estado perceptivo da lâmina, mas à coerência muitas vezes utópica de querer “tirar o Hierofante do pedestal”, explícita em uma publicação americana. Particularmente, fico com o aprofundamento dos símbolos tradicionais que perduram há tantos séculos.


O contraste entre o simbolismo tradicional e uma nova concepção artística do quinto arcano.
(Eatpoo Tarot Card Project, www.tarot.eatpoo.com)


Que a imagem fale por si enquanto o conceito se mantenha fiel. As versões antigas do quinto arcano em contraste com as modernas continuam gerando opiniões e sentimentos ambivalentes, assim como a sociedade vem nutrindo por Joseph Ratzinger. A imagem da lâmina não é o próprio Papa do Vaticano, mas Bento XVI encarna o Papa do tarô. Essa associação, baseada em símbolos semelhantes de poder, denota capacidade perceptiva e compreensão da realidade que o tarô sugere.

Nada, portanto, passa batido se a alma for grande e os olhos livres.
Está tudo nas cartas. Alguém duvida disso?
Então é heresia.


Amém,

Leo



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Imagens:
http://www.taroteca.multiply.com/
http://www.google.com.br/

8 comentários:

Thiago disse...

Há anos desenvolvo meus conhecimentos em Tarot e Numerologia e considero esse Blog um dos melhores em termos de qualidade de artigos!
Realmente o autor se mostra um pesquisador.. show..!

grande abraço,
Thiago Altoè

André disse...

Parabens. Continuação do bom trabalho.

Alexsander disse...

Leo, mais uma vez vc nos agracia com um texto maravilhoso.

Adorei e achei super bacana!

A descrição da sua simbologia, o papa no contexto histórico e sua relação com o imperador...

Hoje me dia, com o crescente surto de esquizoterismo as pessoas não querem saber de entender os arcanos e outras vezes nem sabem estudá-lo fixando-se meramente em aspectos divinatórios e decorando palavras-chava para amor, trabalho e dinheiro.

E é num texto como esse que se consegue ver o caráter universal dos arcanos. O arcano no simbolismo mas também na história. O arcano refletindo a realidade humana e ligando-a ao divino.

Parabés!!!

Bisognin's disse...

Essas sao as melhores ligaçoes do há no real e no sobrenatural, se é que isso pode ser conssiderado sobrenatural. As formulas entre oque se ve e o que se cre!
;*

Bisognin's disse...

É sempre bom ligar oque há entre oque se ve e o que se cre.
;*

Wanda disse...

Caramba esse texto está muito bom!!
Adoro taro e a cada dia estou adorando ainda mais esse blog!! Vc joga com as cartas de maneira muito legal estou adorando as sacadas! estou aprendendo cada dia mais, continue assim e poste mais vezes por mês!! Parabéns!!!!!

Diannus do Nemi disse...

Belo blog, cara. Inspecciona e vive o Tarô como Arte - como deve o ser.

Muito bom mesmo.

Abraço! XD

Raphael Hammoud disse...

Realmente muito bom !!!