25 de agosto de 2007

TARÔ & CINEMA




Audrey Tautou é Amélie Poulain.

Le Fabuleux Destin d´Amélie Poulain, filme francês produzido por Jean Pierre Jeunet em 2002, foi um sucesso inesperado na França. A história da garota surpreendeu a produção e o mundo, tornando a personagem principal um ícone da cultura pop. Camisetas, zines, comunidades no orkut, febre e ideologia entre designers gráficos, livres-pensadores, estudantes de Letras, escritores de cartas, fãs de filmes alternativos e até adeptos do kitsch, mesmo que inconscientemente. Ah, claro, e muito bem vindo entre os lúdicos, aqueles que gostam de jogos de figuras. Sim, exatamente como você e eu.

Como o próprio nome do filme sugere, o grande segredo é perceber o destino de Amélie se desvelando em cada cena, uma vez que os minutos iniciais enfatizam a infância de uma garotinha estranha, com doenças cardíacas imaginadas pelos pais. Quieta e reclusa em um mundo de imaginação e brincadeiras solitárias, Amélie dá margem à curiosidade de saber qual é o diferencial da personagem e o que faz de significativo e inovador durante o filme, durante a vida.



Amélie não é uma garota comum, apesar das brincadeiras. Ela mexe com os hábitos, conhece-os bem. Detalhista, vive cada momento. É meditativa, quieta e observadora. A eterna menina cuja inocência é séria e o romance que vive é antigo. Repleto de imaginação, de surpresas e desejos. Mundinhos particulares. Cachalote, seu peixe de estimação, era neurastênico e vez ou outra tentava suicídio. Uma criança com um peixe? Associação simbólica com o Pajem de Copas, certeira. A realidade a assusta, principalmente quando pensou que cada clique de sua Kodak causava acidentes ao redor do mundo. É dentro de casa, aliás, que os arcanos começam a aparecer. Na infância, Amélie vivia isolada das pessoas. Raphael Poulain, ex-médico militar e pai às vezes, só se aproximava quando era preciso fazer exames nela. Rei de Espadas puro.



O ator Rufus como Raphael Poulain – lábios contraídos: sinal de falta de coração.

Para completar a família, Amandine, sua mãe, tinha colapsos nervosos que só uma morte trágica nos portões da igreja iria deixá-la em paz: uma turista canadense se joga do topo do templo e cai em cima dela. Uma Torre para uma Rainha de Gládios.


Lorella Cravotta é Amandine Poulain (Fouet, em solteira) – tique nervoso: sinal de perturbação neurótica.
Os anos passam – Amélie prefere sonhar até ter idade para partir”. Sai do subúrbio e passa a trabalhar como garçonete numa cafeteria em Montmartre, o famoso Café Le Deux Moulins – hoje um dos pontos turísticos de Paris. Amélie gosta de procurar detalhes que ninguém vê. Não gosta de namorar, mesmo que cultive um gosto particular pelos pequenos prazeres, como:


Enfiar a mão bem fundo no saco de cereais;


Quebrar a cobertura do crème brulée com a colher;


E jogar pedras no canal Saint Martin.

Aliás, desde nova Amélie mantém contato com a água. Só o começo das analogias com o personagem mais novo da corte de Copas. Arrisco semelhanças físicas, até.



Falar em Pajem do tarô é o mesmo que falar em Princesa, a nova concepção do arcano a partir da “correção” do oráculo, segundo alguns artistas. Aqui se encaixa apenas uma noção de temporalidade à história, que se passa entre agosto e setembro de 97 – Lady Di morre na França.



Não, não é coincidência e muito menos uma troca de princesas da minha parte. O acidente serve apenas para situar a história na realidade. Mas claro, é a presença da própria Morte mexendo nas entranhas do acaso.



Em seu antigo apartamento, Amélie assiste à notícia pela TV. Perplexa, uma ironia do destino acarreta os próximos acontecimentos: encontra uma velha lata escondida em um buraco na parede do banheiro e descobre que as relíquias guardadas pertenciam a um ex-morador. Ao abrir, lembranças que nem eram dela pulam à sua frente. Amélie decide encontrar o dono, um tal de Dominique Bredoteau.

BreTodeu, e não BreDoteau. – o destino de Amélie começa a mudar quando conhece seu vizinho Raymond Dufayel, l’homme de verre. Com a ajuda do Eremita em pessoa, consegue devolver as preciosas memórias de infância de Bredoteau. Digo, BreTodeau.


Serge Merlin como Raymond Dufayel e o Eremita de Marselha.


Maurice Bénichou como Dominique Bretodeau. Comovida com a felicidade do homem, Amélie encontra um sentido para sua vida: ajudar as pessoas ao seu redor a partir de pequenos gestos, muitas vezes criativos e incomuns. Destaque para as descrições do cenário enquanto acompanha o homem cego pela rua, momento em que ela o faz enxergar, iluminar-se por um momento. Foi quando procurava referências sobre o antigo inquilino do apartamento que acabou conhecendo uma outra vizinha: Madeleine Wallace. Viúva, ela vive com seu gato e com o querido Leão Preto, um velho cão empalhado, há 40 anos sem receber notícias de seu marido desaparecido durante uma expedição. Bom, dizem mesmo é que ele havia fugido com a secretária.



Yolande Moreau como Madeleine Wallace e a Sacerdotisa de Marselha.

Seu nome lembra a própria Madalena e o sobrenome, as fontes Wallace da França: literalmente destinada às lágrimas, assegura a concierge. É a Sacerdotisa da história, claro. Amélie banca a boa samaritana e dá um jeito de escrever e enviar uma carta do falecido marido, se desculpando pela ausência e declarando, com todas as letras, que a amaria sempre. Milagre do Cupido. Ou uma tática da princesa Poulain.

A Rainha dos Enjeitados, portanto, acaba descobrindo que ainda lhe falta algo que lhe impede de se sentir feliz: um amor de verdade, alguém para jantar, um homem para dormir em seus ombros. Durante sua jornada secreta, acaba conhecendo Nino Quincapoix – o amor à primeira vista.


O Pajem de Copas do New Vision Tarot contrastando com os pés de Amélie.
E Matthew Kossavitz, como Nino Quincapoix
Nino foi também um garoto solitário, a chacota da escola. Chegou a colecionar pegadas no cimento fresco quando era guarda noturno. Agora trabalha num sex-shop e no trem-fantasma do parque de diversões. Também é sensível, imaginativo, quieto e até romântico. Um de seus prazeres é manter um grande álbum recheado de fotografias 3x4, todas encontradas no lixo ou embaixo da máquina instantânea da rodoviária. O grande enigma de sua coleção é o retrato de um homem que aparece sempre em todas as lixeiras, ocupando bastante espaço na preciosa galeria. Sem que se dê conta, ele está prestes a descobrir o amor.



A princesa de Copas torna-se amiga do homem de vidro. Ele tem pintado, nos últimos 20 anos, um quadro por primavera. O da vez é o "Almoço dos Barqueiros", em típicas pinceladas de Renoir. "O mais difícil são os olhares", confessa o artista. Aliás, o único que ele não consegue captar é o da moça com o copo d´água - referência direta ao arcano de Copas, a pura personificação de Amélie e seus sentimentos intocados. Ela está no centro e, no entanto, está fora. "Talvez seja diferente dos outros", justifica a garota, fazendo-o pensar. "Quando era pequena não devia brincar muito com outras crianças. Talvez nunca", deduz Dufayel, fitando a silenciosa companhia.














A moça do copo, em outros termos, prefere imaginar uma relação com alguém ausente do quadro a criar laços com os que estão presentes, que se justifica: "Ao contrário, talvez ela esteja tentando arrumar a bagunça na vida dos outros". E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr em ordem?

Gerd Ziegler, em seu livro Tarô - Espelho da Alma, destaca a Princesa de Copas pela sua grande ternura e delicadeza e, pela análise da lâmina de Crowley, segura a taça com a tartaruga, um símbolo da proteção amorosamente proporcionada a si própria e aos outros.


Detalhe da Princesa de Copas do Tarô de Thoth, pintada por Frieda Harris.
O braço esticado simboliza a distância que tomou dela mesma, ressaltando o perigo de anular-se, sofrendo pela solidão e pelo conformismo de fazer o bem aos outros. A carta prevê novos casos sentimentais, embora inicialmente delicados. Aqueles que surgem forma lenta ou mesmo despercebida.


Dominique Pinon como o ciumento Joseph e Isabelle Nanty, como Georgette.

Devido a isso, como o destino é fabuloso, o Cupido continua sobrevoando Montmartre - veja o caso de Georgette e Joseph que, literalmente, abalou as estruturas do Deux Moulins - e começa a entender o recado do Eremita quando se depara com uma chance ao amor: num encontro forçado pelas circunstâncias, ela acaba ficando com o álbum de Nino.

A Morte traz o inesperado. Amélie vai até o Parque de Diversões para devolver pessoalmente o tesouro do rapaz. O sentimento vai se libertando como um suspiro. Ou melhor, como uma baforada próximo ao rosto.


A Morte do Tarô de Marselha com Amélie e Nino: mudanças e mudanças.

E ela está apaixonada. E ele gosta de estratagemas.
Ambos imaginam-se, cada um com suas fantasiosas expectativas.


Ambos estão tensos, mas Amélie permanece segura. Até o dono da quitanda (quase um Imperador; chato, mandão e dependente da mãe na hora de fazer as finanças) tem seu merecido susto e a certeza de sua loucura ao perceber invertidas as maçanetas do banheiro e escovar os dentes com o creme para os pés. Traquinagens de Amélie por destratar Lucien, o Louco - fiel entregador de compras e aluno de pintura de Dufayel. Pois é, Collignon. "Até as alcachofras tem coração".

Urbain Cancelier é Collignon, o dono da quitanda e Jamel Debbouze, o Lucien.

É Amélie quem facilita a resolução do enigma do fantasma a Nino, que vai até a cafeteria e encontra a garota arredia que desconversa com os gestos e vira água quando ele deixa o lugar.

Um toque do décimo oitavo, A Lua, arcano ilustra o ponto.
Ela imagina sua vida ao lado de Nino com todos os detalhes.


E um mal-entendido a faz desacreditar em milagres, pelo menos por um dia.
Amélie chora. Por amor.

Mas a mensagem de Raymond é clara - "Vá em frente, pelo amor de Deus”. Nino e Amélie, frente a frente. Eis os Enamorados, que se tocam no silêncio, no auge da história. A luz do Eremita indicou o caminho.


Cavaleiro e Pajem de Copas - Morgan-Greer Tarot

A Roda influenciou cada passo da história, que vai contra a mania de grandeza e demonstra o valor da pequenez ao ater-se aos detalhes. Aliás, quanto aos detalhes, deixo a dica: quando passear pelas cartas de um tarô, atente aos detalhes de cada uma delas. A cenografia, as texturas, o pano de fundo, as sombras, o jogo de cores e até a semelhança física entre os desenhos e os atores. Amélie é um filme mágico, riquíssimo tanto em mensagens sutis quanto em beleza visual, claro.

Esqueça a Nouvelle Vague”, sugere o diretor. O aspecto visual - e até mesmo ideológico - do filme é ambíguo. A atmosfera é irreal; a estética, atemporal. Mas aqui não há espaço para o tédio. Cada personagem tem papel crucial na rede de influências de Amélie. Não, não é nada blasé. A fotografia é belíssima e muito bem trabalhada, um dos grandes destaques. O vermelho e o verde dominam. A trilha sonora, concebida por Yann Tiersen, é perfeita: tonifica o estilo cenográfico utilizado por Jeunet temperando a comédia com boas doses de drama. O acaso acompanhou o roteiro, o elenco e as decisões da equipe técnica. Nas palavras de Bruno Delbonnel, diretor de fotografia, “Amélie é uma história feliz”.

O metrô, o velho cego e Amélie ao som de Edith Piaf.
Apresenta ainda o narrador que parece comentar um assunto simples, porém profundo; descontraído, mas com pitadas de suspense que prendem a atenção. Um toque incomum que faz qualquer pessoa esquecer do tempo, assim como a leitura de um velho livro da infância. Ou mesmo como brincar com as cartas de um baralho.

É inovador e cativante, recomendado a todos por ser extremamente polissêmico e aquecido pelos humores e paixões de uma criança. Curiosa a forma com que todos os coadjuvantes têm seus destinos transformados pelas atitudes dela. A inocência, conscientemente preservada e transmitida em todos os momentos, faz com que sejam validadas as emoções e os minutos preciosos de se render aos prazeres da vida. O destino se encarrega do melhor. Basta querer.





Leo



























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26 de julho de 2007

INDICAÇÃO DE ODIN



A astróloga, taróloga e rumenal Mirella Faur acaba de lançar seu mais novo livro.
MISTÉRIOS NÓRDICOS saiu do forno neste último mês pela Pensamento.

Um primor, assim como suas publicações anteriores - O Anuário da Grande Mãe e
O Legado da Deusa.
A idéia original da capa, esboçada por mim em julho de 2005, foi mantida pela produção artística da editora. Um super trabalho que, sem dúvida, é o maior e mais completo sobre o assunto em língua portuguesa.

Vale a pena conferir. Seja leigo, estudante ou verdadeiro conhecedor das runas.
Grato pelo exemplar autografado e pela magia compartilhada.


Sucesso e beijo grande,


Leo


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6 de julho de 2007

DIÁLOGOS E CICLO DE LEITURAS

TAROT EM SÃO PAULO

CICLO DE LEITURAS de 9 a 13 de julho

com Alexey Dodsworth (SP), Leonardo Chioda (SP) e Zoe de Camaris (PR).




Agenda de horários ou maiores informações: (11) 3205-1787

11 de junho de 2007

Habemus Arcanum

OS PODERES DO PAPA




Impossível analisar uma carta de tarô se não houver uma verdadeira jornada por entre seus símbolos. E não basta apenas saber suas palavras-chave e contentar-se com as verdades dos inúmeros livros e manuais, mas sim pesquisar, aprender a observar os arcanos e a anotar impressões, como um verdadeiro leigo, como um eterno estudante. Enquanto instrumento de trabalho e obra de arte, o tarô conta com inúmeras associações, sejam de natureza humana e social, sejam de personificação dos conceitos cósmicos e religiosos, por exemplo. Valendo-se da figura do Papa Bento XVI, neste momento, seu representante no tarô fala mais alto em analogia com as questões cotidianas – especialidade dos que sabem ver o tarô com os olhos livres, sem precisar fugir do seu sistema.

O quinto arcano maior, polêmico desde os primórdios pelos conflitos religiosos e alterações simbólicas que sofria, hoje ainda está caracterizado em roupagem cristã, já que vinculado à iconografia medieval, quando as cartas eram desenhadas e influenciadas pela estrutura social e religiosa.

Depois da Reforma, Roma começa a desvincular seus símbolos sagrados antes estampados nas cartas de jogos populares, algo que poderia macular a imagem da igreja. Seria imprudente haver uma gravura do Papa em maços de cartas para jogadores de tavernas. Em 1725, a Igreja ordenou para que os impressores removessem o Papa e a Papisa, por serem figuras de poder e heresia, respectivamente.


O Papa dá lugar a outras figuras, como Baco e um Imperador neste tarô belga
e no Minchiate Etruria, ambos do século XVIII – www.tarothermit.com/pope.htm

O papado surge a partir das ruínas do Império Romano desintegrado em 746, herdando dele o autoritarismo, a língua latina e a independência dos monarcas. Levando em conta as duas expressões correntes na sociedade medieval (poder espiritual e poder temporal), percebe-se que nem sempre essas forças se mantinham separadas, pois muitas vezes se confundiam e conflitavam exaustivamente. Quando os monarcas converteram-se ao Cristianismo, a Igreja Católica tornou-se uma organização formal e de caráter sagrado.

Houve, então, uma pretensão por parte dos bispos em transformar sua autoridade religiosa em autoridade política universal. Quiseram triunfar sobre os reis, imperadores e senhores feudais, assim como estes reinavam sobre seus fiéis. Daí o conflito entre o poder eclesiástico – gerado como força supranacional – e o poder monárquico, que concedia à Igreja a ordem espiritual, além da política que perdura até hoje.

Etimologicamente, o “papa” italiano vem do latim “pater”, utilizada até o ano 500 para caracterizar todos os bispos ocidentais. Aos poucos esse tratamento ficou restrito aos bispos de Roma – capital do império desfeito e sede da Igreja. O poder do papa teve grande impulso a partir de dois fatos: por um lado, o declínio do Império Bizantino quando Roma se viu livre das amarras que a prendiam ao Império Romano do Oriente, passando a agir como soberano. Por outro, recebeu forte apoio dos francos, dando à Igreja um duplo papel: além de poder espiritual, ela passava também a deter o poder temporal sobre as regiões que lhe pertenciam.

Do período renascentista até os dias de hoje, não se questiona a idéia do Papa ser o representante humano de Deus na Terra, a mais alta autoridade mundana em estreita ligação mística. No tarô, ele ocupava o maior posto da sociedade e da religião predominante, assumindo um lugar natural e convencional entre os demais trunfos.

Para Waite, é o “caminho objetivo das igrejas e dogmas”, o summa totius theologiae. Como em todos os baralhos, o Papa sofreu inúmeras deformações em sua estrutura, que acabaram afastando-o do conceito medievo de bispo, cardeal e padre para conceitos modernos de guru, mestre e místico. Claro que todos carregam o poder do contato divino, mas várias concepções modernas deixam de lado detalhes importantes que só são percebidos quando se analisa a carta com atenção, e não se baseando apenas em manuais ou no contexto de um determinado baralho. As novas concepções ignoram vários atributos, entre eles os de instituição, bênção, fé, religiosidade e obediência – características do bom e velho Sacerdote desde quando o tarô é tarô.


O símbolo do poder papal no arcano do Da Vinci Tarot, de Atanassov & Ghiuselev e na colagem primorosa de Kat Black (www.goldentarot.com), concebida a partir da pintura de São Luís, bispo de Toulose, por Simone Martini, 1318.

Outro símbolo além da mitra, do báculo, das chaves e da luva papal é o Anel do Pescador, ausente na maioria dos baralhos. Desde sua origem, a jóia tem essencialmente a função de selo. É provável que seu uso entre os bispos antigos fosse motivado, além das razões simbólicas de união e casamento com a divindade, pela funcionalidade e autenticação de seus atos. Ainda no período feudal, tornou-se também a marca do poder temporal dos governantes.

O anel indica elo, um vínculo. Vale como signo de aliança, voto e comunidade religiosa. Um destino compromissado, até. Ele une e isola ao mesmo tempo, sendo irreversível a postura que o cardeal assume diante de Deus – sua própria vocação, o fato de tornar-se esposo da Igreja – e ainda o símbolo do mistério nupcial de Cristo.



Tu és Pedro, e sobre essa pedra edificarei minha igreja”. Até o início do pontificado de Bento XVI, o Anel do Pescador tem sido a insígnia referente ao primeiro homem que, segundo a tradição cristã, foi a “pedra” fundamental na fundação da Igreja – Simão, a priori, era um humilde pescador da Galiléia e discípulo de Cristo.

A jóia sofreu várias transformações até ser constituída de ouro puro e trazer a imagem de São Pedro sobre uma barca, lançando sua rede. Mantém-se como testemunho da origem e do significado do poder papal, pois quem o usa é apenas o sucessor do apóstolo Pedro. Atualmente, é o símbolo mais forte na mão de Joseph Ratzinger.

Aliás, falando no atual pontífice, sua autoridade e importância pode ser analisada sob o prisma temporal e espiritual, combinados na figura de chefe de Estado do Vaticano e claro, na de sucessor de João Paulo II. Pra qual lado da balança pende sua influência?

O cristianismo reaprendeu a lição da modéstia durante os últimos suspiros de Karol Wojtyla. Passou a conviver em harmonia com outras formas de sentimento religioso e se preparou para uma nova fase de sua história.
Apoiada na solidariedade e não no autoritarismo, buscou estimular o diálogo ecumênico e inter-religioso, mesmo que timidamente. Houve, porém, adversários a essas transformações dentro do próprio Vaticano – o ainda cardeal Ratzinger, afirmando convictamente que as outras igrejas, assim como todas as demais religiões, não têm acesso legítimo ao mundo divino.

Tal declaração denota o caráter individualista e monopolizado do antigo bispado. Pra quem pensava que o novo papa romperia com as velhas tradições e conceitos morais do catolicismo, enganou-se. Ele já afirmou com total propriedade que a religião católica é melhor que as outras e só se pode atingir a verdade por ela, que deve seguir intacta quanto aos valores cristãos.

O que importa é não perder sua identidade, sempre fiel ao que prega, mesmo com menos praticantes nas missas. Bento XVI ainda ressalta a oposição clara e sucinta aos modismos e novidades perante a Igreja. Nítida analogia com os atributos políticos do Imperador, agora ainda mais sólidos. É o árbitro de todas as questões morais e inquisitoriais, claro. Atenhamo-nos às cartas, então:



Historicamente, a mescla de atributos entre o dois arcanos é nítida. O papa é uma poderosa figura, tanto religiosa quanto simbolicamente. É a face humana de Deus, aquele que torna acessível o mundo transcendental por meio da crença, da moral e da política de ordem. Antes de um líder é um servo, já que separados o plano da matéria e o do espírito, atua como ponte entre o homem e o divino, dando origem ao termo “pontífice”. Intermedeia, ensina e mantém a palavra do seu Evangelho.

O Imperador lidera no plano material como autoridade direta. Ele cuida das terras vastas do horizonte ao seu redor enquanto o Hierofante (de hieros, sagrado e phantes, ensinar) comunica-se com seus fiéis. Aqui se encaixa a idéia de que a massa de católicos está distribuída por todos os lados, enquanto Bento XVI preza por uma Igreja centralizada, dando de ombros para o afastamento de católicos diante de suas posições dogmáticas. Vendo no mundo uma ameaça iminente à religião, tende a reforçar a identidade eclesiástica, mesmo que a conseqüência seja o distanciamento de boa parte do rebanho. Qualidade, e não mais a quantidade.

Espero, neste curto reinado, ser um homem de paz”, pondera Ratzinger aos 78 anos, logo após sentar-se no trono. Já enfrentou um derrame hemorrágico na década de 90 e outros problemas de saúde em 2004. Sendo considerado um papa de transição – e o mais velho eleito até então –, o mundo provavelmente assistirá à sua decadência em alguma consonância com o arcano 13, A Morte. Ainda nos traços de Pamela Smith, vemos o religioso aos pés da Ceifadora — uma possível renúncia ao posto ou o fatídico fim do corpo terreno.




Enquanto isso, Bento XVI se depara com três objetivos importantes que, segundo o teólogo Leonardo Boff, farão toda a diferença durante seu papado:

Assumir o Vaticano com toda a agenda, recolocando a Igreja dentro do mundo moderno e dentro do mundo dos pobres;

Dialogar com os templos locais e torná-los mais descentralizados;

Retomar o diálogo entre a Igreja e as outras religiões para juntas ouvirem o drama que aflige a humanidade – o drama da fome, da miséria e da guerra.

Outra "novidade" trazida pelo sacerdote é a do papel do demônio no mundo, chegando a afirmar que o enviado do Diabo estará sob a máscara de um pacifista ou ecologista. Possivelmente herdado de João Paulo II, o conceito de oposição entre o Espírito Santo e o espírito mundano e diabólico tem papel aprimorado na teologia agostiniana de Ratzinger – uma leitura negativa da cultura e dos interesses que desencadeiam conflitos entre as duas cidades, a de Deus e a do Diabo.



Afinal, qual o sentimento que o povo teve por Bento XVI no início? Aversão, medo e desesperança. Enquanto o quinto arcano abençoa, o Diabo aprisiona. Essa seria a postura ética que vem sendo aplicada por Ratzinger, a de que o homem nasce mau e é imperfeito estruturalmente. Apenas a religião e o temor a Deus são necessários para uma vida digna. Muitos discordam e preferem ver o jogo de outra forma: o próprio Papa é o Diabo disfarçado.
Quando mal dignificado, pode sugerir excomunhão ou até pacto com o mal. Argumentos não faltam, basta notar as semelhanças entre as duas imagens.


Aquele que dá a bênção é o mesmo que amaldiçoa, como se pode ver pela sombra projetada na forma do bode.
Gravura de Eliphas Levi, no seu "Dogma e Ritual de Alta Magia".


O tarô sofre de polissemia aguda, mas é sempre bom parar e ver o que está literalmente estampado nas lâminas. Analogias com o cotidiano dependem de atenção e pesquisa. Muitas das invenções surrealistas e pessoais do tarô não preservam os atributos tradicionais do Papa, e esse é o grande perigo. Não é necessário ser católico para manter-se a figura do sacerdote cristão, apenas fazer valer sua moral de ordem, de contrato, de vocação, de fé e de rigidez mental, como se sente no atual representante do catolicismo.
Crenças a parte, o Papa é um símbolo vivo. Qual a razão de perder esses valores para uma nova roupagem, seja essa mitológica ou talvez mais de acordo com o famigerado movimento da Nova Era? Tais mudanças não se reportam ao estado perceptivo da lâmina, mas à coerência muitas vezes utópica de querer “tirar o Hierofante do pedestal”, explícita em uma publicação americana. Particularmente, fico com o aprofundamento dos símbolos tradicionais que perduram há tantos séculos.


O contraste entre o simbolismo tradicional e uma nova concepção artística do quinto arcano.
(Eatpoo Tarot Card Project, www.tarot.eatpoo.com)


Que a imagem fale por si enquanto o conceito se mantenha fiel. As versões antigas do quinto arcano em contraste com as modernas continuam gerando opiniões e sentimentos ambivalentes, assim como a sociedade vem nutrindo por Joseph Ratzinger. A imagem da lâmina não é o próprio Papa do Vaticano, mas Bento XVI encarna o Papa do tarô. Essa associação, baseada em símbolos semelhantes de poder, denota capacidade perceptiva e compreensão da realidade que o tarô sugere.

Nada, portanto, passa batido se a alma for grande e os olhos livres.
Está tudo nas cartas. Alguém duvida disso?
Então é heresia.


Amém,

Leo



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Imagens:
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