Esse adubar do instante vivo
em pequenos vislumbres de memórias,
as siglas pessoais da arte,
mnemónicas para reconhecer-me.
Fiama Hasse Pais Brandão | Canto dos meus pés, 1993.
Wooden Jigsaw Puzzle | da mostra 'Ciencias Naturales' de Juan Gatti,
o artista dos cartazes de Pedro Almodóvar.
Mais importante que o 31 de dezembro e o 1 de janeiro é o dia do Aniversário. O Retorno Solar é importantíssimo. Um encontro e tanto. Tanto quanto as tradicionais festanças em torno da virada do ano, quando a maioria mantém a hipocrisia geral de mudar mudar mudar e ser cada vez melhor melhor melhor e não dar chance para as complicações do ano desgastado. Não é bem assim. Não não não. O lance pertinente é reavaliar as situações. Deixo de lado a maioria das superstições. Só vou atrás dos rituais que brotam de mim.
Quando faço aniversário, penso logo no arcano 13, A Morte, acenando pra mim. Mas não como algo grotesco, "vou morrer, meus deuses", mas uma presença cujo intuito é fazer com que a cada ano me prepare pra ela em relação a tudo, não ao fim da carne, apenas. Morte é regeneração. E sim, há muita vida na morte. A pele enrijece (se você cuida dela). Os músculos pesam. A coluna pede cada vez mais postura. A vista exige cuidados. E a beleza (podem me chamar de grotesco, agora) também está n'A Morte. Com o passar dos anos há melhorias pessoais. E negligências, pra festa ficar completa.
E realmente há uma linguagem secreta dos aniversários, não? Sim, e muito proveitosa. 26 de Dezembro é o DIA DO INDOMÁVEL, segundo o livro de Gary Goldschneider e Joost Elffers*. Dia em que o truque de espelhos é tão bem realizado que pode passar em vão se não houver uma conduta simbólica, digamos, pra perceber até que ponto sigo a nossa bem-aventurança. O meu aniversário é um fato isolado, costumo dizer. Um dia fora do calendário. Não é nada mole celebrar logo depois do Natal, com a correria das comidas e das viagens a todo vapor. Calor demais. Saturno, meu velho, rindo da minha cara por me fazer ficar entre poucos: como planejar uma (outra!) festa numa época tão conturbada? Não dá, desde sempre é complicado. E nem sei se eu me dedicaria a algo do tipo, sabe? Tem sido o momento em que me retiro um tanto e reflito sobre o ano que passou. Mas reflito MESMO. Sobretudo em relação ao que não passou. Ou eu engulo nesse limiar de transformação ou eu trato, aquiagora, sem papas na língua e no coração. Um dia de poder pessoal. Sobre mim e sobre o mundo.
Sou adepto das Constelações do Tarô. Conhece? Temos um arcano na soma de nossa data de nascimento. O meu é o 8, A Justiça. O fator oculto dessa lâmina, que é outra, é a 17, A Estrela. Minhas lições de vida, digamos. Além de uma miríade de Menores que também ensinam, jogam na cara e fazem gozar.
O TAROT, UM DIÁRIO
Tarot Journal | Traci Bunkers, 2007.
Deixei os cadernos pautados há anos. Não registro quase mais nada. Só os arcanos. E os arcanos servem, sim, como páginas de um diário. Começo básico: tire uma carta por dia. Conselho com duração de 24 horas, ou menos. Registrá-lo tende a ser importante para avaliar, no final do dia ou do mês ( ou no aniversário!) o quanto você respeitou aqueles símbolos e, ainda mais, como eles se fizeram presentes naquele período. Páginas da vida. Mecanismos de papel encerado para tonificar a alma. O tarô aceita o papel de ossatura das crônicas de todos nós.
O aniversário pra mim, portanto, não é um dia triste ou preocupante. Sei das Moiras apalpando a textura do fio, claro que sei. Uma marcação temporal para o fatídico. Até porque o inefável dança entre nós. Aniversário é a data em que o que vale é trazer à consciência o peso das experiências pra jamais negar a vida, mas senti-la. De verdade! E afirmo, agora, que ninguém 'faz' aniversário. Ele é que faz a criatura. Instiga, entristece, encoraja, envelhece, enrola. Mas também enriquece. De experiência e de algum sabor que o pomo do tempo carrega. Talvez vários.
Sei dizer que encarar a Ceifadora como a Parteira é bem mais útil. Pelo menos a nível pessoal. Não por conformismo de que tudo acaba. Até porque isso não conforta ninguém: é uma verdade nua dura crua e necessária a ser assimilada todos os dias. Mas por ser possível administrar a existência com várias cores, cada vez mais diferentes. As responsabilidades e os significados estão aqui, por enquanto. Passar incólume e/ou inteiro por essa vida é um baita sintoma de preguiça e descaso. Gosto das minhas cicatrizes.
Presente? A capacidade de assumir as tolices, reconhecer as boas sacadas e saber o meu tamanho.
'Nem pra mais nem pra menos', já dizia Bethânia. 'O meu tamanho.'
'Nem pra mais nem pra menos', já dizia Bethânia. 'O meu tamanho.'
Drink your Bliss, 2011. | Instagram
Agora vou lá renascer um pouco - ler e escrever vertiginosamente, obrigado - e dar atenção aos telefonemas, e-mails, à campainha e às cartas. Ah, as cartas. Aproveito para fazer os votos de que você, que me lê e estuda o tarô com paixão, se comprometa ainda mais com ele. De verdade! E que o necessário, só o necessário, seja sinônimo de excelência. Que tal?
Gratidão.
Soul making. Always.
L.
*A Linguagem Secreta dos Aniversários. Editora Campus, 1999.
*A Linguagem Secreta dos Aniversários. Editora Campus, 1999.





8 comentários:
O melhor para vc, hj e sempre. E muitos textos inspirados como esse pela frente!
O melhor para vc, hj e sempre. E muitos textos inspirados como esse pela frente!
Maravilhoso!!!!
Beta
Meus parabéns pelo seu aniversário!
Novidade pra mim, saber que somos regidos por um arcano anual. Até hoje, achei que só tínhamos o pessoal.
Obrigada pela novidade!
Abrs,
Angélica.
Garoto, vc é foda! O aniversário é seu, mas o presente é de quem te lê! Obrigada.
Muito legal o texto. Felicidades :)
Você é um presente.
Para você.
E para nós.
Tocou meu coraçao, como sempre!! Obrigada
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