28 de janeiro de 2012

DESCOBRINDO E ENCARANDO A SUA NÊMESIS

Eu tenho a intuição, Aramis, de que os monstros
são as tentativas mais puras do Universo.
«Olha-os, e não os mates.»

Maria Gabriela Llansol



Galeria Real: de quem você mais gosta?
E de quem não gosta nadinha?


Bom, jogo rápido. Ando aprimorando um exercício que considero absolutamente importante para lidar com as cartas da Corte e também para traduzi-las em nós mesmos: a escolha do Arcano Significante. Vi pela primeira vez a menção há alguns anos no livro Understanding the Tarot Court*, assinado por Mary Greer e Tom Little, publicado pela Llewellyn. Embora seja apenas incentivada a escolha do Arcano Sombra, decidi ir mais a fundo na ideia de perseguição desse arcano indesejado e confesso que tem sido revigorante entrar em contato com o melhor e, principalmente, com o pior de mim. Incorporar o mais inofensivo ou insignificante [termo inevitável] integrante da realeza é um exercício de reflexão e transformação quase instantâneo. Bem apropriado para leigos e tarólogos.

Pegue o tarô que você mais gosta e retire as 16 cartas reais do resto do maço. Disponha e organize todas elas com as faces para cima, de modo que você possa ter um panorama bem nítido do mosaico de personalidades.

Esqueça as posições, os cargos, as nomenclaturas e até mesmo o gênero. Escolha a pessoa que mais lhe atrai, a carta que mais lhe "chama" neste momento. Este é o seu Significante, ou seja, o arcano que muitos usam em leituras para representar o consulente. Mas por que este arcano específico? Pronuncie suas qualidades e o motivo por tê-lo escolhido.

Agora escolha a carta que você MENOS gosta, a mais desinteressante, sem graça. Feia, até. E atenção aos motivos. Profira a razão por tê-la escolhido. Pronto? Esta carta é sua Nêmesis.


Nêmesis, pintura do romeno Georghe Tattarescu (1820-1894).

Nêmesis? Sim, a deusa grega da indignação, famosa por atributos mal dignificados. Apesar de vir da estirpe dos deuses trevosos, vive no Olimpo figurando a vingança divina. Filha de Gaia e irmã de Têmis, foi criada e educada por Cloto, Láquesis e Átropos, as famosas Moiras. Enquanto Têmis vem a ser a personificação da ética, Nêmesis acaba sendo a da vingança. Em outras versões do mito, difundidas por publicações neopagãs, por exemplo, Nêmesis surge como Adrasteia, a inevitável, por ser a divindade da retribuição.

Na obra O Livro e o Baralho Wicca*, de Sally Morningstar, a deusa aparece retratada como a portadora das lições, cuja visita (o surgimento da carta em alguma leitura) sugere que o leitor está tendo suas atitudes e intenções observadas por ela. A representação é agradável e até serve ao propósito: Nêmesis é o arcano que lhe persegue. O que você evita ver no espelho e jura de pés juntos que não tem nada a ver com você. As baixarias do show, as manchas no seu currículo interno.


Nêmesis pintada por Danuta Mayer
integrante do Baralho Wicca, de Sally Morningstar.


Face your fear! Fazendo uma menção bastante digna [pelo menos para quem gosta de videogames e filmes de monstros], Nêmesis é a máquina mortífera que persegue a policial Jill Valentine por Raccoon City que por sua vez persegue zumbis. Não há escapatória a menos que a moça encare de vez a criatura programada para destrui-la. A referência a Resident Evil foi inevitável também. Até porque jogos eletrônicos reconfiguram alegorias e instauram mitologias entre gráficos renderizados e o deleite constante do expectador.

Na verdade, esse sério trabalho com a sua personalidade ilustrada pela Nêmesis demonstra responsabilidade para com sua própria sombra. Bem-aventurado o que enfrenta a horta de desagrados internos, não? O modo como você aborda esta carta é crucial para reconhecer comportamentos absurdamente perversos e também algumas atitudes ridículas que podem ser transmutadas por meio de uma postura cada vez mais coerente com o seu autoconhecimento. Conviva um pouco com a sua Nêmesis. Indo além da ignorância você pode achar o antivírus para os padrões mais nocivos de existência. Refletir é a matéria e o ofício principal dos arcanos. Ainda mais quando é a sua imagem nesses espelhos.

Enfrente[-se].
E bons sustos,


L.





*
GREER, Mary K. LITTLE, Tom. Understanding the Tarot Court.
Special Topics in Tarot. Llewellyn, 2004.

MORNINGSTAR, Sally. O Livro e o Baralho Wicca. Ilustrações de Danuta Mayer.
São Paulo: Editora Pensamento, 2002.

6 comentários:

Emanuel disse...

Salam, Leo. Estou lendo um livro que assusta, justamente por falar d'Ela, Sombra. Ctônica.
Chama-se "O Lado Sombrio dos Buscadores da Luz", de Debbie Ford (Cultrix). Medonho.
Leio um capítulo, escondo-me debaixo da cama, de um bicho papão que, paradoxalmente, dizem que mora lá.
Capítulo a capítulo, vou descobrindo que a casa dele é minha casa também.
Vamos com cartas, agora. Me sentindo em casa... De vez.

gianeportal disse...

Emanuel, no universo binário em que vivemos, quanto maior a Luz, maior a Sombra. É fato.

gianeportal disse...

Leo, amei, amei... mas agora que li o artigo, será que terei isenção na hora de escolher os Arcanos?

Anônimo disse...

Catártico! Parabéns e obrigado por compartilhar.

Pietra di Chiaro Luna disse...

Understanding the tarot courts... Um must read

Alexsander disse...

Ótimo texto, Leo! Foi, com certeza, o tarô que me ajudou a ter consciência do meu lado sombra. A perfeita mídia de autoconhecimento, as janelas da nossa alma. Aquilo que a gente não quer ou não consegue ver, ele mostra. Bjus