29 de abril de 2007

O SILÊNCIO ENTRE AS DUAS LÂMINAS


"Agora vai contar-nos o duelo, pensei, e de fato a carta colocada à mesa 
naquele momento foi o tilintante Dois de Espadas."

Italo Calvino 
O Castelo dos Destinos Cruzados, 1973


Imagem. Eis a força, a mensagem por trás do silêncio gritante do tarô. Narrações aos olhos libertos, mas não com as mãos vazias. As cartas sugerem movimento, seja mental, seja físico. E é no movimento que mora a mensagem, é na brisa sobre as águas que se faz a metáfora. O naipe de Espadas é complicado, concordam alguns. Talvez porque ele seja puro pensamento e não se abra aos mais efusivos. Exige reflexão, adora jogos de inteligência. É detestado e temido, até.

Se o Ás é o primeiro passo na formação do processo do entendimento, o Dois quebra expectativas. Ou melhor, as corta. Lentamente. São alianças, paradoxos, tensões. Conflitos que demandam tempo para serem assimilados e coroados por analogias. O céu mantém-se azul.


Na pintura de Frieda Harris, o arcano é bonito e leve. Equilibra a turbulência interna e causa serenidade, ponderação. Táticas pacíficas e justas. O descanso das armas sob o fundo verde e amarelo – sem patriotismo e conotações políticas, por favor. Astrologicamente, Crowley o concebe como Lua em Libra, que ajuda na explicação: o clima é propício a relacionamentos, ao culto do belo, da harmonia e da diplomacia. Interessante que um dos atributos é justamente o entendimento e reconciliações favorecidas. Aquele lance de ser correto, justo. A racionalização da vida. A influência dos Maiores é nítida – uma extensão do oitavo arcano, A Justiça? Ou seu conflito conceitual?

Na visão de Waite-Smith, é a guerra íntima. A venda nos olhos pode indicar cegueira neste arcano. O sentido é o de retiro interior. Há quem diga que cego é aquele que ignora a realidade, o irresponsável. A mulher retratada, portanto, descarta as aparências enganadoras do mundo, adquirindo o conhecimento de sua própria realidade. Coração fechado pra balanço, vale dizer. Lua Crescente, se vista pelo hemisfério norte – um outro contexto simbólico, que mostra até onde podem ir as emoções, o nível de lágrimas deixados para trás. Crescentes as barreiras, apenas.



Já na simbologia maçônica, duas espadas desembainhadas e cruzadas representam o Cobridor Interno. O cargo, que só é concedido a um mestre, nunca pode ser ocupado por um aprendiz ou companheiro. Outro termo para a função é “Guarda do Templo”, reforçando a semelhança imagética com o arcano 2, a Sacerdotisa: as duas velam pelo mistério das águas.

Mesmo desprovida de visão, nada fica imune aos seus sentidos: quem chega perto pode morrer. É assim que se resolvem quaisquer pendências emocionais – talvez por isso alguns enxergam uma tesoura sendo empunhada, jamais um “V” de vitória. V de Vingança? Desaconselhável. A lei tríplice é real. Perfura corações na tempestade. Pura (in)conseqüência.



Um símbolo sozinho não tem poder algum. É o povo que dá poder aos símbolos. O anti-herói dos quadrinhos de Alan Moore e David Lloyd espera anos para detonar, literalmente, seu glorioso plano. Talvez aqui haja a conversa entre o enredo e os sintomas da lâmina. Cada passo premeditado. A pressa sempre coloca tudo a perder. A desforra é plena. 

Entrando de cabeça na Matrix, mais coincidências pulam à vista. E aos outros sentidos, no caso. Neo e Thomas Anderson são duas pessoas, duas vidas paralelas. Thomas é o ser humano normal, vivendo horizontalmente (nasce, cresce, trabalha e morre), sem buscar o significado às perguntas e sem se preocupar com o despertar da consciência, de acordar o 'adormecido'. Já Neo é o rebelde, aquele que quer vencer as barreiras e as limitações físicas. Não é nítida a contradição individual?



Sua cegueira também não é mera coincidência. Trata-se da constatação de que chegou a um alto nível alto de consciência no qual os sentidos não são mais necessários para se enxergar o essencial. Ele alcança a Terceira Visão, de fato. Talvez o objetivo maior da jornada do arcano. Se a realidade for definida apenas por aquilo que é processado pelos cinco sentidos, então ela é apenas o resultado do que é perceptível ao cérebro, ou seja, pode ser manipulada tanto por uma realidade virtual (a própria Matrix) como por meio de truques: a Terra parece estar em repouso, quando na verdade se move, assim como as estrelas parecem andar. 

Os olhos mostram uma coisa enquanto o conhecimento científico explica outra. O que se vê nem sempre é a realidade. As ilusões de ótica provam.



Tudo o que se vê, então, é o irreal. Ou não.
"O que é a realidade?" – a questão que perdura durante toda a saga, é a mesma que a filosofia ocidental tem feito nos últimos milênios. Enquanto a aparência do mundo é bela (a gigantesca e antiga civilização, sua política, economia e leis a serem seguidas), atualmente ele se mostra degradado (a violência, o egoísmo e o materialismo dominante), dando a entender que se deve cultivar a realidade interior, não a apresentada pela existência física.



Em termos semânticos, as atribuições do Dois de Espadas são demonstradas pela antinomia, isto é, o sentido dúbio na forma com a qual uma mensagem é transmitida e entendida. Guerra e paz, conflito e equilíbrio; a pura articulação das emoções, dos pensamentos que rasgam ou aliviam a mente. Outro fator importante é a falta do aspecto afetivo da figura feminina. O envolvimento é zero, pois há a negação fria e afiada dos sentimentos. Não se descarta a possibilidade de desilusões se colocada ao lado da segunda carta numerada de Copas. Mais ainda se ela for disposta decrescentemente no próprio naipe de Espadas: no Ás, o renascimento das idéias, da vontade.



A dama de branco no Rider-Waite, cuja comunicação externa é nula, passa a ser um indivíduo não identificável, em todos os sentidos. Sintomas de esquizofrenia, porque não? O rosto que não reage, a postura séria e rígida. Apenas as mãos determinam o golpe. Qualquer aproximação se traduz em sangue no aço, já que ela não se faz distinção dos que chegam perto do seu banco. Se a mulher que empunha firmemente suas armas for vista como princesa do reino de Espadas, outras possibilidades imaginativas se abrem em leque: a jovem passa pela iniciação, o puro duelo entre suas sombras e virtudes, entre o medo e a coragem para galgar o futuro trono. Porém, se levadas em conta atribuições familiares do naipe (rigidez, domínio, castração e frieza), a menina cresce duplo-vinculada, ou seja, com desequilíbrios emocionais decorrentes da comunicação de seus genitores; a desorganização do intelecto e a fuga da realidade. Valores contraditórios que tonificam o paradoxo, como elogios e cobranças simultâneas.



Segundo estudos anti-psiquiátricos, o duplo vínculo só funciona quando há uma forte relação afetiva. Mesmo sendo o casal mais tenebroso do baralho, o Rei e a Rainha têm (pelo menos um) coração. Só existem sintomas quando há a ameaça subjetiva da anulação do afeto, bem característico desses pais. Se o arcano é carregado de antinomias, como o amor e o ódio, duas leis em questão, inevitável cair no conceito da aporia que, retoricamente, diz respeito ao momento em que um personagem dá sinais de indecisão ou dúvida sobre a forma de agir ou expressar-se. A atenção ao seu silêncio é imprescindível.

Aliás, "qual é o som do silêncio?"

Em termos budistas tem-se o Koan, o paradoxo que o discípulo tem de decifrar. Sua beleza é que, como fenômeno tipicamente associado à linguagem do universo, ele provoca a mente retirando a ilusão de que há algum controle sobre a realidade. Um desafio à personagem: “você é capaz de enxergar além de sua noção de verdade, de sua concepção de mundo?”

A espada é uma ferramenta de aperfeiçoamento físico-espiritual. Alquímica, portanto. O guerreiro não a usa para combater, mas pela disciplina do amor e da compaixão. Nas artes da espada japonesa, um dos estilos mais discutidos e menos compreendidos é o Niten Ichi Ryu, cuja técnica mais conhecida é a de duas espadas. Nada mais característico ao arcano, sobretudo se a imaginação permitir que a personagem seja inspirada no próprio criador do estilo, Musashi Miyamoto, o famoso samurai que venceu mais de 60 duelos e nunca foi derrotado. No seu "Livro dos Cinco Anéis", best-seller entre os executivos desde a década de 80 e até hoje editado na Europa e América, ele ressalta a importância do discernimento perceptivo, não apenas no caminho do guerreiro, mas em todas as posições sociais para adquirir uma compreensão objetiva dos mecanismos do sucesso e das oportunidades.

Imagem do filme Miyamoto Musashi: Nitouryuu Kaigen - Toei Video, 1963


Sob influência confucionista, estabeleceu a base teórica e prática para a evolução da mente como um todo, fundamental aos que carregam duas lâminas nas mãos:

Não pense desonestamente, pense no que é correto e verdadeiro. Desenvolva julgamento intuitivo e compreensão de todas as coisas, aprenda a ver tudo com cuidado. Note aquelas coisas que não podem ser vistas, tomando consciência daquilo que não é óbvio.

Segundo mitos, Musashi teria empunhado seu par de lâminas e lutado sozinho contra quase 100 oponentes, além de outros adversários que se surgiram pelo caminho. Sua saga pode ser saboreada em Vagabond, de Takehiko Inoue, um dos mangás de maior sucesso nos últimos tempos.

Utilizando apenas uma espada, 100% da energia se mantém nela. Utilizando o Niten Ichi Ryu, a energia distribui-se. A cooperação entre as duas espadas faz com que se supere o potencial de apenas uma delas. E ambas devem trabalhar em harmonia, buscando a abertura e mantendo a pressão.



Musashi deixa claro que "no início tudo parecerá difícil, mas a princípio tudo é difícil. Quando se acostumar ao manejo das duas espadas, você adquirirá a força do Caminho. Morrer com uma espada na bainha é indigno". O correto é utilizar todos os recursos para alcançar os intentos. Esse é o ensinamento das duas espadas, que pode ser aprendido e assimilado por todos durante a vida.

"A percepção é forte e a visão é fraca. É importante ver o que está distante como se estivesse perto e ter uma visão distanciada do que está próximo." Pronto, encerram-se aqui as analogias. Cortantes, como sempre. Falando em termos interpretativos, a proposta do Dois de Espadas não é evitar o dualismo, mas findar seu domínio, atingindo um único estágio mental. O duelo não é pra qualquer um. Quando se aprende a viver além da realidade, atinge-se a meta mais saudável: a liberdade incondicional da mente única, segundo a filosofia oriental.



Contradições. A serenidade só é abalada pelo equívoco entre as imagens. Ainda há tempo e razão pra meditar, sobre ambas as armas.

E o céu continua azul. Olhos livres nele.




Paz restaurada,



Leo

7 de abril de 2007

O 1º SIMPÓSIO DE TARÔ DE SÃO PAULO

Dedicar um tempo pra escrever sobre o evento estava nos meus planos já na noite de sábado, quando voltei pra casa feliz da vida. Horas e horas de abraços, trovoadas e muito riso - "energia muito louca", como disse Emily Harata, uma das alegrias do dia.


Uma sala repleta de pessoas "normais" opinando e discutindo desde vidência à Física Quântica e de Imagem Acústica à Neurociência e Fenomenologia nas cartas. Incrível, como a mais simples consulta de tarô. Amigos que concretizam laços, surpresas ao se deparar com verdadeiros parceiros em poucas horas e o clima tranquilo que só trincava pelo atraso básico nos horários. É, o tempo urge.
Mas quando é bem vivido, marca pra sempre.



O melhor foi trocar idéias durante o "coffee", quando o contato foi mais próximo. Próximo mesmo, pois o espreme-espreme nas fotos comprova e eterniza a lembrança. Desbanalizar, repensar, aplicar, relacionar, sentir e desenvolver o tarô. Verbos que fazem a diferença. A mesa redonda sobre ética instigou bastante. Cuidado com os "conselhos", saber ouvir, agir com o coração e com os pés no chão, característicos de um bom tarólogo.


Completo minha opinião: profissionalismo e caráter. Impressiona quem faz, mas transcende quem faz bem feito. Respeito ao consulente, (a grande experiência que o cartomante adquire) e ainda o respeito ao tarô, o fantástico instrumento que tanto amamos. Baseado no esforço dos amigos que organizaram o evento, saúdo e agradeço a oportunidade de beber das idéias e conceitos para um único bem comum: a real dedicação à arte de jogar cartas, ou à técnica de ler símbolos, ou a maravilha de fazer amigos em nome do tarô.


A vida passa a ter grandes significados a partir dele.
Se alguém discorda, não faz mal. Cada um vê aquilo que os olhos podem perceber.

Até o próximo,


Leo



_________________________________________________
MAIS FOTOS E INFORMAÇÕES SOBRE O EVENTO, CLIQUE AQUI.

18 de março de 2007

A CASA DO TARÔ

OU A ARTE DE MORAR PELAS CARTAS


Ficar em casa é uma tentação – o silêncio e a umidade da varanda, o ar bucólico que respiro ao curtir a rede, o som no ipod, e as páginas de um livro. E claro, um café passado na hora completa essa minha Arcádia.

Um dia desses, com uma revista de bons fluidos nas mãos, várias idéias brotaram. Absurdas, de imediato. Analogias entre o tarô e a arquitetura, que vão da planta da casa até o alicerce, dos tijolos até a pintura. Uma amistosa articulação dos naipes.


Nos Maiores, é nítida a ligação entre O Mago e o arquiteto.
Riscos, rabiscos, colocações necessárias e outras não, além dos vários palpites que vão pro papel. Muito depende do gosto do cliente, o casal arcano Imperador e Imperatriz. Sem ela não há vida na obra, o feeling dos cômodos e o futuro aconchego da morada. O Imperador constrói. Arrisca-se como mestre de obras, o engenheiro que supervisiona o empreendimento.

Claro, A SACERDOTISA, a primeira figura feminina, tem papel importante também. Atua na decoração, no combinar das paredes e dos tecidos que serão utilizados. Cortinas e adornos – pilares, por exemplo – que dependem de estudo e intuição para a perfeita colocação. Sem os dois, nada flui.



A magia de morar passa pela sexta lâmina, O Enamorado – escolhas, indecisões, opinião de terceiros, referências. Não dá pra curtir um espaço sem os sentimentos, que dão acesso direto ao patamar de Copas. Viver a casa difere (e muito) de apenas morar dentro dela. É sentir o perfume familiar assim que se chega da rua, perceber aquele algo mais impregnado a cada batente. Ah, as lembranças.

Fontes derivam do Ás de Copas, no prazer de fluir com o som da água. Relaxante, inspirador e romântico para muitos, já que também fazem alusão às estátuas úmidas e lodosas. Aqui cabe a Estrela.



O dois deixa explícito o amor pela estrutura, a relação apaixonada, o típico desejo de estarem a sós. Dois, em qualquer cômodo.



Quando deixo de sair, sinto os detalhes – plantas, cadeiras, rede, sofás, gramado, canteiros e bancos. Sempre que posso, driblo programas nada atraentes que solicitam minha presença só pra curtir o entorno. As paredes do refúgio sustentam minha preguiça e me dá inspiração para agregar conhecidos, parentes e paixões. Seriam os tais guás do Feng Shui? Esta é a área dos Amigos, com certeza.



“Um verdadeiro lar se constrói sem pressa”, ouvi dizer. Justo. Perde-se a conta das tantas vezes que o alicerce e as primeiras paredes são visitadas. Planos e novas idéias que brotam só de olhar pro chão. A promessa do aconchego.
Bases do 4 de Ouros.




Outra parte importante é a limpeza, claro. Às vezes dando espaço ao novo, o passado caindo por terra e todo aquele papo de alquimia interior: terreno limpo é oportunidade, um sinônimo para liberdade.



Móveis, tintas, cores. Acomodar cada objeto, pensar em diferentes possibilidades – há, então, uma pontada de Espadas. É bom saber combinar. Não só aludindo à Temperança (que também se encontra na cozinha), mas como numa leitura de cartas: a beleza das estampas sugerindo diferentes presságios. Auspiciosa comparação.

Por vezes a Justiça traduz-se em um ambiente mais clean – o tal Minimalismo que já foi e ainda é moda entre os sensatos – com poucos móveis e mais espaço livre. O justo e o necessário que contribuem para o equilíbrio da morada e do espírito. Na cozinha, Copas e Ouros se misturam. Aqui sim o anjo das ânforas comanda, como na pintura barroca.



A vida fica mais gostosa com a comida caseira. Não que o fast-food da correria seja ruim, mas utilizar a cozinha evita a monotonia e faz vibrar a energia da casa, sem jamais se comparar ao ritual dos elementos, às panelas próximas borbulhando, ao vapor e à mesa posta. Moderadas combinações. Há quem diga que cozinhar dá trabalho. Deve dar, mas se for com vontade, não cansa muito e nem faz tanta sujeira. O que vale é a intenção, como nas vezes que alguém decide dar uma geral no jardim.

A manutenção não se resume aos móveis internos, mas também aos vasos, à poda dos arbustos e mesmo ao barulho infernal do cortador de grama. Há ainda sentimentos e lembranças de infância, como descobrir o contato com a terra. Ouros vem aí.



O naipe de terra evoca paisagens, plantações, fachadas. Reuniões.
Ele exige a projeção das sensações em toda a estrutura, caso contrário ela fica dura, sem vida. Não cumpre a função de “lar, doce lar”. É a posse da propriedade, como no quarto arcano prenunciado pelas fundações, mas antes o coração da família. Copas, ainda.



É também nítido o conceito artesanal que as cartas proporcionam – a confecção, a customização, o ateliê em casa, os deveres domésticos – que exige os detalhes e a criatividade, naturais dos naipes de Copas e de Espadas.



Mas que fique claro: nada dentro de uma casa funciona se não houver presença de espírito fluindo a cada porta e corredor. É característica de Paus a energia do ambiente, o fogo que aquece os corações e as relações de moradores e hóspedes. Em cada cantinho um tipo de lembrança, as conversas de outros anos e a paisagem que transmite bem-estar, como um terraço. Só é melhor se for de frente pro mar, com a vista do Pão-de-Açúcar.



Posses. O senhor das Moedas se alegra com posses. Já foi falado sobre a manutenção – sem dinheiro, sem casa. Por isso ele controla tudo de bom grado. É generoso. O “paizão” do naipe telúrico tem os pés no chão (ou esticados numa confortável espreguiçadeira), e não consegue deixar os investimentos em segundo plano. Inquilino, mas antes dono. O proprietário. Rei.



Já a esposa permanece nos fundos. Água de Terra, a Rainha é lama, a que deixa os filhos se sujarem –“por que se sujar faz bem”, já diz anúncio. Nada como curtir a varanda ou a estufa. Amor de Mãe (-Terra), que cuida e mantém a beleza do verde.



A construção e a harmonização dos ambientes nascem da observação da natureza, claro. Assim como os chineses da Escola da Forma, o entendimento do tarô também é uma questão de visão – das cartas, das pessoas, das casas. Imaginação e flexibilidade, pura sintonia com a geografia do imaginário, a cenografia do cotidiano sempre mudando. Construindo conceitos e ampliando resultados, um trabalho que não cabe a quem já caiu da Torre, por exemplo - aquele arquiteto eu dispenso. Enquanto lhes escrevo, tomo café na minha rede, perto das heras. Ah, e vejo que cai uma folha bem próxima à cara do Louco.



Voltem sempre. Vocês já são de casa.


L.


FONTES VISUAIS:
Google Imagens
Taroteca

24 de fevereiro de 2007

A Consagração do Tarô



Mais um texto de Alejandro Jodorowsky. Mesmo sendo auto-explicativo, não expressa a opinião e a concepção geral dos tarólogos quanto ao tema. Qual é a sua?

As 78 cartas que compramos em uma loja não têm nenhum valor sagrado, nenhum poder: não são mais que cartas impressas. Para que elas atuem em e sobre nosso espírito, devemos carregá-las de nossos fluidos, fazer com que se tornem um pedaço de nós mesmo e de nosso corpo, ligá-las instintivamente ao nosso inconsciente.


Devemos atuar em sua companhia, fazendo do baralho um objeto de poder carregado de nossa afetividade. A primeira coisa a fazer consiste em manusear delicadamente o baralho e misturar as cartas incansavelmente durante horas sem pensar, sem olhar e sentir nada além, apenas deslizando as imagens entre os dedos. Isso nos permitirá saber que misturá-las é deixar-se influenciar. Então o tarô se torna um instrumento útil, musical, expressivo e receptivo, tão sensível quanto um pêndulo.

É recomendável passar cada carta lenta e pacientemente sobre cada parte do corpo para que se unam às vibrações de nossa matéria e se carreguem de fluídos biológicos, enquanto que recebemos de volta as ondas de suas formas. Levar as cartas a nossa boca e nariz: inspirar profundamente sua essência para, em seguida, expirar – exercícios que devem ser realizados nas duas faces de cada lâmina. É necessário dormir com cada arcano, um por um durante 78 noites e sempre com a presença do tarô próximo do corpo, de preferência na região do coração.
Com este tarô, não devemos nunca fazer uma demonstração para chamar a atenção ou admiração, ou mesmo utiliza-lo para fins que não tenham a ver com a prática da leitura.
Todos estes atos não possuem outra finalidade que atuar sobre o inconsciente. A falta de amor para com este modesto baralho de 78 pedaços de papel impresso, que deve ser visto como o mais belo diamante ou obra preciosa, proibirá a quem o possui de dominar totalmente a leitura.
É como uma gestação comparada a de um guerreiro que garimpa em busca de um mineral. Este anonimato permite a quem queira tornar-se seu autor, o que também explica a existência de tarôs poderosos, vulgares e delicados. Quanto mais sutilmente for esculpido o violino, mais bela será sua música.


Volto logo, com o lounge funcionando e mais cartas.
Bênçãos (sobre elas).
Zeke

8 de fevereiro de 2007

O Desenvolvimento do Imaginário

Alejandro Jodorowsky




O Tarô é um sistema que se constrói essencialmente com a imaginação. Ela introduz voluntariamente enigmas, distorções de formas, deixa alguns aspectos voluntariamente inacabados, recusa-se a acentuar alguns traços, faz sair os desenhos do quadro, rompe a simetria e coloca detalhes invisíveis a olho nu.
Os arcanos possuem o poder de evocar, por associação, outras imagens. Por exemplo, se observarmos a perna esquerda do personagem da Estrela, poderemos ver o avesso de um menino.

Na margem inferior da Lua, à esquerda da carta, aparece a cabeça de um dromedário, talvez. Isso tem, por objetivo, funcionar como uma atividade semi-onírica.

O investigador imagina o resto do desenho além do retângulo, em cada um dos arcanos maiores. A mesa do Mago se dá num triângulo. Quais outros elementos ela possui? Como é o seu quarto pé? Há um término da mesa ou é infinita? E o pé que se introduz no centro da mesa, até onde vai? Ao centro da Terra? Tem raízes? Comunica-se com o mundo subterrâneo? Até onde vai a parte amarela do chapéu que se
perde no céu? Como continua seu formato? O que toca o cotovelo do braço esquerdo? O que ele está olhando? Como é o resto da paisagem?

Imediatamente, a imaginação se ocupa de responder os enigmas que se encontram na carta.
O cinturão pode ser uma serpente? As mechas brancas podem ser de alguma luz do chapéu ou qualquer coisa que emerge de sua cabeça? O que o Enforcado segura em suas mãos? Esconde uma arma? Um livro secreto? Têm os punhos algemados, cortados?
Quais as energias que estão contidas na Torre? Que encontramos em seu interior? As chamas saem de dentro dela ou entram? É fogo? Uma entidade? Um ruído? Como é o corpo do personagem nu? Que há por trás do véu da Sacerdotisa?

O condutor do Carro é um príncipe, um hermafrodita, um anão sobre uma cadeira? Tem a potência dos dois cavalos? Ele está dirigindo?
Teria o Carro raízes? As colunas chegam até o céu? Os rostos sobre seus ombros falam? De onde vieram? Até onde vão?
O Eremita levanta uma lamparina cheia de sangue?





Alejandro Jodorowsky é cineasta, escritor e dramaturgo. Restaurou o Tarô de Marselha em parceria com Philippe Camoin, mestre em cartas e descendente do último tipógrafo do baralho. Além de seus filmes e trabalhos envolvendo a “Psicomagia”, mantém sua rotina intelectual escrevendo histórias em quadrinhos (destaque para Bórgia, de Milo Manara), novelas e obras para o teatro. Nasceu em 1929 no Chile e atualmente vive em Paris.


Que tal esfregar as cartas na pele?
Volto já, com mais uma tradução.

Zeke

13 de janeiro de 2007

LOUCO MESTRE – Osho fala aos seus arcanos (I)


Vários anos se passaram desde a primeira vez em que me deparei com livros e vozes citando Osho. Pra quem não sabe, ele foi e é Bhagwan Shree Rajneesh: o guru indiano que alimentou o coração de seguidores (ou melhor, renunciadores) em todo o mundo. Temido, amado e espiritualmente incorreto. Devido aos seus discursos nada comuns, a identificação com a ideia de renúncia foi clara — fisgou minha atenção e todo o resto.

Tempos depois, enquanto garimpava alguns decks numa livraria, coloco as mãos no Osho Zen Tarot, pintado pela artista plástica Ma Deva Padma que também se embriagou com seus ensinamentos. Desenvolvido ao longo de cinco anos, o projeto fora iniciado com a aprovação do próprio mestre e hoje consiste num belo e enigmático instrumento oracular. A arte da vida em cartas. Nas lâminas, várias representações de seus insights que assustam e encantam buscadores há mais de cinco décadas. Mesmo que sua visita à Terra tenha terminado em janeiro de 1990, a mensagem ainda permanece vivíssima, cada vez mais arrecadando dinheiro. Uma herança espiritual criativa, com metáforas e analogias sempre inovadoras. Não, não é pra qualquer um.


Pois bem, com o maço em mãos, me lembro de suas palavras: “Transforme as pequenas coisas em celebração”. Tiro duas cartas e abro um sorriso pela surpresa, O Louco e A Solitude (o tradicional Eremita). Irmãos de Espírito que me jogam aos olhos suas semelhanças.




Ambos estão à beira de um penhasco. O Ermitão — quase sempre parado em terra firme — aqui caminha na escuridão, próximo a um abismo. O Louco, inebriado, deve saber que sua jornada se estende às gélidas montanhas do fundo da paisagem. É lá que se encontra o velho monge, talvez numa caverna fria, iluminada apenas por sua presença. Alongando as comparações, vemos a irmandade entre esses arcanos e os concebidos por Pamela Smith: o dia ensolarado contrasta com os montes nevados do Louco, enquanto o Eremita vê bem onde pisa, mesmo com a lamparina. No topo, puro controle e rigidez.




Esse mundo onde encontramos o velho sábio do tarô Rider-Waite representa o nível de conhecimento que ele conquistara, o qual o Louco ainda tem de alcançar. Ambos os cajados simbolizam o poder, o comando intelectual e espiritual. A dança em direção ao penhasco é contínua, como a experiência que Osho oferece. “Não é esse o caminho para o saber – o conhecimento não é o caminho para o saber.” – contradiz o mestre do primeiro par de arcanos. Questionando-o sobre qual é o caminho, os dois logo escutam: “A admiração. Deixe que seu coração dance maravilhado. Encha-se de admiração: pulse com ela, inspire-a, expire-a. Por que tanta pressa para conseguir a resposta?”


Os Loucos sentem a mensagem. Eles nada esperam, nada planejam. A cabeça diz: “Pense antes de saltar.” E o coração diz: “Salte antes de pensar.” O Eremita e o Louco. A cabeça e o coração, respectivamente. Seu andarilho está aprendendo que “a vida é um fim em si mesmo. Ela não é um meio de se chegar a um fim, ela é um fim por si só. O pássaro em pleno vôo, a rosa ao vento, o sol nascendo pela manhã, as estrelas à noite, um homem apaixonando-se por uma mulher, uma criança brincando na rua... Não existe propósito algum. A vida é simplesmente usufruir dela, deleitar-se com ela. A energia está transbordando, fluindo, sem absolutamente propósito algum.”


E lá vai o radiante bufão, confiante, seguindo até o fim. Uma grande diferença entre os colegas "sem número" é que o de Waite carrega sua trouxa de experiências, enquanto o de Osho leva somente uma rosa branca. A pureza em si, a cor do silêncio absoluto ou ainda da Sabedoria, na iconografia sufi. A mão esquerda vazia despede-se do que viveu. Ou acaba de deixar em terra sua pequena bagagem para distrair o cachorro insistente. Ele quebra o hábito e questiona o todo, corre o risco e continua, pois “ninguém sabe o que pode acontecer. A pessoa deixa de lado tudo o que conquistou; tudo com o que tem familiaridade e parte para o desconhecido, sem nem ao menos saber ao certo se existe alguma coisa na outra margem – ou se existe outra margem.”

De fato, ser louco fere muitas pessoas. “Elas não aceitam a idéia de que você tenha alcançado alguma coisa que elas perderam. Elas tentarão, de todas as maneiras, torná-lo infeliz, tentarão te trazer de volta ao rebanho”. Não é essa a função do animal? Mas o Eremita não quer voltar ao rebanho, mesmo que possa. “Solidão é quando você está sentindo falta do outro”, Osho explica a ele, enquanto sua própria luz o guia. "Solitude é quando você está encontrando a si mesmo”, rebatizando-o então.


“A mente comum sempre joga as responsabilidades nos outros, diz sempre que é o outro quem faz você sofrer”, mas não há culpados, pois ambos estão sozinhos. Seus passados já congelaram, petrificaram no tempo. Aqui não lhes cabe culpar alguém, esse venenoso hábito. Aliás, Osho alerta que, “na verdade, toda malandragem e trapaça deste mundo servem para nos deixar conscientes.” Eis o Grande Rito. Da consciência. À consciência.


“Você está só no mundo: você veio ao mundo só, você está aqui só, e você deixará este mundo só.” A trouxa vazia e a flor à Existência, pois “todas as opiniões alheias ficarão para trás; somente os seus sentimentos originais, somente as suas experiências autênticas o acompanharão até mesmo além da morte.” Apenas as qualidades, sem o peso sobre o ombro.



Osho como o nono arcano de Waite

Pura maturidade, que não tem nada a ver com a tal rigidez. Ao contrário, ela deve traduzir a flexibilidade que o Louco possui, assim como o Eremita carrega a loucura. São os únicos opostos, as únicas qualidades que devem se mesclar. É a troca possível. A vida alheia nunca lhes interessa, pois vislumbram que “a causa da infelicidade está no apego que temos aos outros, na expectativa em relação aos outros, na esperança de ganhar felicidade dos outros.” Sozinhos por opção, não por sina. Nem missão.


Quanto à vida de Osho, várias situações remetem aos dois arcanos, como o fato de jamais conseguir se relacionar profundamente com alguém desde a infância. Sobre a perda seus avós, as pessoas que mais amou, revela que "a condição era de total escuridão. Era como se eu tivesse caído no fundo de um poço escuro. Naquela época, eu sonhava muitas vezes que estava caindo, caindo, e entrava cada vez mais num poço sem fundo. Ficam nítidas as semelhanças com as lâminas: "Não havia mais nada além da escuridão e da queda, mas aos poucos fui aceitando até isso. Senti muitas vezes que precisava concordar com alguém, devia me segurar em alguma coisa ou aceitar qualquer resposta, mas isso não estava de acordo com minha natureza. Nunca fui capaz de aceitar o pensamento de ninguém.”


Esse louco pulou. Esse velho tornou-se iluminado. E ambos jamais ouvirão os outros. Caso contrário, a loucura e a maturidade estariam perdidas. “Essas qualidades são suas únicas companheiras. Elas são os únicos valores verdadeiros, e as pessoas que as alcançam, somente estas vivem. As outras fingem viver.”


A jornada continua.

As semelhanças e os diálogos também.


L.




LEIA A CONTINUAÇÃO AQUI

Santo Mestre: Osho fala a seus arcanos II