6 de setembro de 2011

O CAMINHO DA AUTOCONFIANÇA

Ontem a minha querida editora do Personare escreveu aos colunistas da Revista pedindo sugestões de artigos sobre autoconfiança. Fiquei pensando no meu instrumento de trabalho, nessa parte indivisível que me é o tarô e matutei sobre o tal conceito. Autoconfiança? De onde vem? Embaralhei os 78 arcanos e pedi, com toda a clareza possível, que o arcano MAIOR que a representa emergisse do leque. Veio O LOUCO, para o espanto de muitos e para o meu sorriso interno. Em dois tempos redigi o artigo e ele já está publicado AQUI. Depois, passeando pela minha biblioteca, me deparei com a Rachel Pollack no seu maravilhoso Tarot Wisdom - Spiritual Teachings and Deeper Meanings, editado pela Llewellyn. Nele ela propõe um rápido método de leitura especialmente baseado no famoso Arcano Sem Número, bem eficaz para elucidar os pontos em que ele surge em nosso caminho. Vamos jogar? Sugiro manter o arcano em questão acima, como se fosse a posição 0 do jogo. Embaralhe os 21 ou os 77 restantes. Ou então permita que o Louco esteja no maço para que ela possa surgir em alguma das posições e ressaltar o seu poder de reflexão. Você escolhe. Disponha os arcanos na ordem numérica [naturalmente] em coluna, de modo que a última casa seja o caminho, os pés do Louco: as dádivas que as andanças proporcionam.


1. Como tenho sido um Louco na minha vida?


2. Como é que isso me ajudou?


3. Como é que isso me machuca?


4. Em que área da minha vida eu preciso ser mais Louco?


5. Onde é que o Louco não me serve?


6. Onde é que eu posso encontrar o Louco fora de mim?


7. Que presentes ele me traz?


O tarô, enquanto extensão do tarólogo e do consulente, é também o próprio caminho caleidoscópico que ele propõe. Variado, polissêmico. Um verdadeiro RPG. E quem o ministra firmemente, creiam, é o Louco. Íntegro em sua sabedoria maltrapilha, fiel às suas capacidades. Lembrei de Joseph Campbell, sempre maravilhoso, que afirmava aos seus estudantes: Follow your bliss. Seguir a nossa bem-aventurança é o único caminho que, além de ininterrupto, nos leva aonde temos que chegar, de verdade.

Aproveitem esses presságios.
Eles são fantásticos para o próprio crescimento até chegarmos a mestres de nós mesmos.



Uma grande jornada,



L.



* o artigo na REVISTA PERSONARE
TAROT E O CAMINHO DA AUTOCONFIANÇA - Exercite sua capacidade de conseguir o que deseja com o arcano O Louco


* crédito das IMAGENS
The Fool - Morgan-Greer Tarot - www.taroteca.multiply.com
The Wanderer - The Wildwood Tarot - the wildwoodtarot.com

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4 de setembro de 2011

ARCANO TALISMÃ #1







Tem gente que ouve o meu nome

Gravado em rajada de vento


Porque furacão e ciclone


Me servem de cama e assento.









Paulo César Pinheiro | Atabaques, Violas e Bambus, Editora Record, 2000.
Cavaleiro de Espadas
| The Aleister Crowley Thoth Tarot, AGMüller, 1986.


Parte do projeto 'Tarô, Magia e Cultura Popular', em desenvolvimento.

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1 de setembro de 2011

5 ANOS



Já estamos em setembro. Assim que o mês virou tive um clic: nossa, o CAFÉ TAROT faz 5 anos. O tarô tem se desenvolvido cada vez mais e mostrado ao Brasil que veio pra ficar e ficar bem à vontade. Há 5 anos tenho visto de perto a evolução dos blogs e sites no país e no mundo. Tendo desde cedo a oportunidade de interagir com outros profissionais, sinto as mudanças na maneira como que o nosso instrumento de mundo é visto pelos outros profissionais do esoterismo e até mesmo pelos céticos, pelos lógicos, pelos medrosos. A aceitação tem sido maior. Já cabemos em certa normalidade, mas com muitas ressalvas, claro.

Eventos como o mais recente Fórum Nacional de Tarô e Simbologia têm servido como divisores de água no que diz respeito à conscientização das pessoas por verem profissionais e interessados se reunindo. E também à dos próprios tarólogos, fazendo-se entender que ler as cartas não é uma profissão menos válida que a de ler os astros, por exemplo. A cartomancia não é marginal. Um crítico de arte lê imagens. Nós lemos símbolos. Combinamos e visbumbramos o infinito que há na moldura da combinatória. Transformações são sempre necessárias e uma repaginação, sobretudo mental, sempre é bem-vinda. A ignorância criativa é um dos problemas principais desse meio. Vale evoluir, mas inovando. Experimentando. A postura é de diálogo, de troca. De acréscimo e respeito de saberes. Estamos bem. Vamos bem.

E o CAFÉTAROT vai crescer ainda mais. Em breve cursos, palestras, atendimentos e encontros presenciais e virtuais serão divulgados. Hoje, mais que um blog, o CAFÉTAROT é uma marca. Desde 2007 fotografo canecas e baralhos sobre a mesa, unindo esses prazeres em total harmonia. Parece que estimula a leitura, o aprofundamento. Por isso é que é natural evoluir, a
final são cinco anos caminhando, sendo dez de envolvimento e dedicação aos arcanos.

Cada vez que subo num palco ou pego um microfone para falar em nome do tarô, ainda sinto o nervosismo, o "esqueci tudo" e o receio de não ser tão claro e direto como as cartas são pra mim. É que sei do quanto ainda tenho a caminhar.


Agradeço a todos os tarólogos, consulentes, amigos e curiosos que desde sempre prestigiam a evolução do meu trabalho. Registro aqui a minha felicidade por contribuir direta e indiretamente para o futuro cada vez mais promissor do tarô no Brasil.

Divido sempre com vocês
o êxtase dessa festa aqui em mim.




Ergamos as xícaras!
Muito obrigado.


L.



16 de agosto de 2011

DO DEMÔNIO



O Diabo é uma das figuras mais interessantes de todo baralho de Tarô. Uma genial criação católica e um sucesso de vendas, de público, de culpas. Celebridade tão bem consolidada que se mantém prostrada sobre um pedestal ornamentado de crânios, sangue, fogo e perfume. Ostentação. Raízes na terra dos homens, essa coisa que não é homem e nem mulher, mas é mulher e homem. Detalhes, importantes detalhes. A casa dele.

Os arcanos, enquanto números de um festival folclórico absolutamente vivo no âmago da humanidade, servem aos mais atentos leitores de mundo. Esse que agora desfila é um dos pilares do imaginário: vem pomposo, todo trabalhado num mosaico de animais peçonhentos, fogos e venenos. A carta XV é um exercício de monstruosidade. É ela o portal para os pais que assassinam os filhos, os filhos que destroem os pais e os bichos de estimação, os espectros que não descansarão antes de corroer a família dos vivos e também aqueles profanam a própria carne de modo bruto e consciente. Tortura é elogio. Freak show ininterrupto.


O demônio de Jacques Vieville, de 1650, desfilando seus maus modos e perversidades. Le Diable, de Etteilla, cuja concepção encabeça Baphomet no centro dos destinos

Só se engana pelo Diabo quem quer. Ou quem o nega. O próprio medo é como uma corrente que une a ele, perfurando a carne e a alma. Presenças estranhas na calada da noite não são gratuitas. Frente a tantas teorias sobre o seu papel, ele ri. Louca e estranhamente. De si e dos homens que um dia invejou. Mas agora é um dos soberanos entre eles. Na terra e no mar dos pesadelos, sua santidade faz miséria. Terrores noturnos. O tarólogo que se prostra diante de sua imagem o trata como um arcano a mais, mesmo sabendo que ali é a fossa dos complexos, dos arrependimentos, das ganâncias e do pior de cada um. Arcano que confunde. Pai do bizarro. A mão que chacoalha o berço dos pecados é negra. E as unhas são pontudas.

Detalhe de The Devil | Swiss IJJ Tarot

A blasfêmia é uma especialidade. Os detalhes lhe servem sempre. Segue no céu o ritual do nojo, porque voa. Asas e tocha. Seria mesmo uma tocha o que carrega na mão esquerda? O fogo que pode incendiar a Terra. Ou ainda, por ser o pai da mentira, nos faz ver que esse o tal objeto é a lâmina de uma espada, manuseada sem nenhum cuidado. Cócegas na carne demoníaca. Voltemos os olhos, com cuidado, aos registros visuais históricos. São inúmeras as diferentes manifestações do mal. Gastrocéfalo, na maioria delas. Um rosto no abdome indica o deslocamento da sede intelectual (cabeça), agora posta ao serviço dos apetites mais baixos. Uma homenagem à Gula — uma de suas virtudes favoritas.
O gastrocéfalo na antiguidade do tarô e na recriação de Camoin e Jodorowsky

Também se vê que ele vê. Demais, por ser o mercador do excesso. Olhos nos joelhos para enxergar em todos os níveis da existência. A língua exposta é a reação rebelde às boas normas. Blá, blá, blá. Dane-se. Diálogos possíveis e recheados de palavrões com as pranchas de Mitelli. As orgias simbólicas é que trazem sentido ao Tarô.

Le Diable de Jean Dodal entre CVRIOSITA e ARPIA de Giuseppe Maria Mitelli

A curiosidade é um mal porque faz procriar a fofoca, a inveja, a pichação da tela harmônica que mantém as melhores famílias, as boas relações e os produtivos negócios. Deturpa tudo, não deixa nada como antes. As alegorias do grande bolonhês, acima, falam por si. Convergências tão altas que fazem doer os olhos. E os ouvidos, percebe?

La serpente magique de Etteilla lembra que é importante escolher bem para escolher sempre. Ele é o desdobramento do sexto arcano, Os Amantes. Depois do “sim”, a prisão pode ser pra sempre. A estrutura é triangular. E o que os olhos veem o coração pode sentir, de algum modo. Curioso é que ele pode mesmo assumir o papel do Anjo do Amor. Quando laços afetivos são regados com ciúmes, cobranças e carências exacerbadas, o fim é iminente. O ódio tomar lugar no culto. Ou não. Quando pensa na loucura, filha predileta às normalidades do Anjo de Trevas, percebe-se tardiamente que o caos reina. Exemplo já clássico das artimanhas desse evento divino é ANTICRISTO, do perturbado Lars Von Trier. Lição demoníaca obrigatória.

O aprisionamento afetivo iminente na lamina The Lovers, de Pamela Colman Smith. Cartaz de ANTICRISTO, de Lars Von Trier (2010)

Maldito és entre nós, profanador de almas. Perditorvn Raptor. Os altos e baixos apetites não poupam ninguém. Posterior ao sabbat é o ato de devorar. Agente mágico empregado para o mal por uma vontade perversa, segundo os passos de Eliphas Levi. Feitos os pedidos, paga-se o que deve. Caso contrário, o Contrário o caça. Encarna o sequestrador das almas [perdidas]. Uma brisa mitológica: provavelmente Plutão, deus do submundo, emerge de carruagem e deixan rastros de chamas após ter sequestrar uma certa jovem. Cena propícia a terrores noturnos.

14, Perditorvn Raptor – Rouen Tarot, século XVI

Falando na estrutura do ambiente, tem-se o submundo, a masmorra inacessível que Pamela Smith pintou bem abaixo dos lençóis freáticos d’A Temperança. Na verdade – se é que há alguma aqui – a fotografia primordial do arcano enquadra o próprio ritual em homenagem à abominável criatura. Ali é hotpoint dos pecadores e desesperados. A sombra fala através do espelho e o cenário é digno de Gustave Doré ao imaginar a obra prima de Dante Alighieri.

New Vision Tarot - Lo Scarabeo

Tão confundido, tão mal dignificado, tão desprezado. Mestre dos disfarces, o Diabo acaba sujando o nome dos deuses que lhe deram os protótipos de imagem e conceito. Pobre Pã. Pobres faunos. Mas eles servem, ricos, às aproximações simbólicas tão caras à diversidade de temas e tarôs espalhados por aí. As palavras-chaves são quase sempre as mesmas: obstáculos, condicionamentos, perda da liberdade, obsessão, materialismo. E também, graças a Deus(?), potencial criativo, humor. Muito humor, negro ou não. Sedução não falta na passagem da literatura pagã ao inferno dos clássicos depois de Cristo.


Famiglia di satiri che compie un sacrificio a Pan, de Bernardo Luini
Pinacoteca di Brera, Milão


Pã é um dos favoritos. Nessa pintura de Barnardino Luini se vê a mais que nítida associação dos escravos acorrentados com os sátiros. Essas aproximações arcanas só são produtivas quando se entende a natureza do trunfo, que é vária. Disforme. Polissêmica. Sempre nos chamando e pressupondo amor e dedicação. Exatamente como os seus outros 77 membros, tão queridos. Tão subjetivos. 


Baphomet, sua mais popular faceta, embebida em ocultismos e desinformações, se alimenta de cultura pop


Sexo, drogas e cartomancia. O underground é válido. E é válido falar da voz da Cabra Mística e de suas poses sombrias, do medo que só ele causa e só ele cura, da obsessão e da competitividade e também da criatividade que tonifica os perversos. A fonte de sangue e vísceras da qual bebe o Diabo é inesgotável, como as suas formas ao longo da escrita e da imagem, sobre ele e suas danças. A leitura do tarô informa e recruta os sentidos. E no caso dessa lâmina, tão afiada, a transformação pode ser inimaginável. É a possessão possível. E o inferno é tão simbólico e animador que continuamos dançando à luz dessas imagens e desses detalhes. Nós, os seus feiticeiros – todos acorrentados à poesia escarrada no corpo, ofuscados pelo brilho da Estrela da Manhã.

























O inferno somos nós,
sempre.


Leo

5 de agosto de 2011

UM ORÁCULO EM DELFOS


Acordei e disse para mim mesmo: estou na Grécia, onde tudo começou,
se é que as coisas, diferentemente dos artigos da enciclopédia sonhada, têm início.

Jorge Luis Borges



Arcanos sobre pedras do Santuário de Apollo em Delphi, na Grécia.


Peregrinar. Verbo que traduz bem o ofício de todo e qualquer leitor de imagens. Quando destrinchamos um lugar, estamos lendo os sinais do tempo, as conversas e as situações, boas e terríveis. É um trabalho silencioso porque toda leitura é assim. Não se admite barulho externo quando se está imerso num mundo que implora pela sua atenção. E pelo Mediterrâneo tenho, pois, peregrinado.

30 dias desbravando caminhos - alguns, bem conhecidos. Outros, totalmente inimagináveis pelo trajeto mental de viajante, ao escolher hotéis e programar passeios. Rotas sagradas de leitura. Ir à Grécia seria um dos meus maiores sonhos se realizando em pleno verão. Dos seis grandes sítios arqueológicos visitados, Delphi seria o mais difícil de se chegar. Imaginei que seria assim. E foi. Mas a experiência de peregrinar descalço sobre aquela terra sagrada, em honra a uma divindade luminosa pela qual tenho especial apreço, foi revelador. No mínimo.




Apollo "arcanizado" no dito Tarocchi di Mantegna e n'O Sol do originalíssimo Tarocchini di Mitelli.


Apollo é o padroeiro dos poetas e, em sua natureza pítica, senhor das profecias. Levei o Tarô para receber essas energias e abençoar palavra e imagem, pedindo que se estendesse a todos os que realmente se dedicam e merecem a serenidade desencadeada pelo oráculo. A mesma serenidade forjada no rosto majestoso do Auriga encontrado quase intacto em Delphi, o correspondente direto d'O Carro. Os cavalos se perderam nas pedras do tempo, mas o protótipo do trunfo está lá. Intacto e à vontade. Quem o guiava, talvez, eram os cisnes sagrados do deus.




Who´s in the Chariot? O auriga délfico e O Carro do Tarot de Paris.
Apolo e os cisnes habitando o arcano.




Entendi que a resposta à Esfinge depende muito do Conhece a ti mesmo. Esse mandamento ecoa sobre todo e qualquer maço de cartas. Quem somos, enquanto tarólogos? Somos os arcanos? Quem são os nossos monstros e quem são os nossos heróis? Respondi de olhos fechados, agradecendo pela primeira oportunidade de prostrar-se diante dela. E entendi que, revendo toda a odisseia mediterrânea, a mensagem estava dada.



A Esfinge, um presente de Naxos para demonstrar respeito ao oráculo.


Me veio à memória a época em que morei na Itália. Houve o contato marcante com Ludovica, uma verdadeira strega que perambulava pelas vielas de Perugia, conversando com os gatos. Me disse, numa das vezes em que nos encontramos, que os filhos del Dio della Luce se reconhecem pela verdade e pela justeza. "La giustizia, Leonardo. La vita è magia. E la magia si può con la verità". A partir da experiência na Sicília, onde encontrei o oitavo arcano em frente a uma cafeteria {encontro devidamente registrado aqui}, tudo começou a ter um novo sentido. Serendipidade. Então a Pitonisa falou por ela.



A sibila délfica em pleno diálogo iconográfico com o segundo arcano maior.


Conhecer cada vez mais os meandros de mim mesmo. Conhecer o profundo das imagens. Mergulhar nas palavras e extrair delas o que é essencial, o que surte efeito. Não a quantidade; a qualidade. E espiritualizar-se com verdade, permitindo que o medo se dissolva, mas aos poucos. O famoso μηδεν αγαν (Nada em excesso) vale. E ainda nos remete à simplificação necessária do estudo e da prática do Tarô. 

Do alto do Parnaso, com os arcanos em leque, pude compreender Ludovica. Conhecer-se primeiro para depois conhecer o outro a partir do oráculo. E perceber, pela apodrecida Píton, que as sombras também são importantes e merecem luz. As intempéries tão divinas quanto a própria peregrinação. As leituras truncadas, o receio de interpretar erroneamente uma carta ou mesmo de orientar sem ver com exatidão também são partes importantes do processo tarológico. Nenhum templo nasce pronto.



Porque a tua luz, Apollo,
É a que aproxima todos os destinos



Somos andarilhos sobre imagens. As pedras são do mesmo material dos desenhos. As mensagens têm texturas semelhantes às dos augúrios das Sibilas. A metáfora se descomplica e desabrocha no entendimento de quem nos ouve. Sobre as imagens. E assim eu traço os paralelos entre Delphi e a confirmação da minha escolha e do meu caminho. O arcano 19 marselhês encena Apollo e seu irmão Dioniso: uma aproximação sutil entre a beleza e o deleite. A presença das duas crianças sob o rei dos astros está secretamente relacionada ao conceito de "Sol sempre jovem" que os antigos mantinham. Baco era considerado "o mesmo que o Sol". E é Febo, o eterno jovem, quem lhe estica o braço.



O arcano muda quando você diviniza a visão sobre ele.


O Tarô é povoado pelos deuses. 
Todos norteados pelo Ônfalo, a pedra saturnina conservada no museu délfico, o centro inspirador de todos os oraculistas. No centro do Mundo, a Sibila dança nas palavras e reconfigura a nossa linguagem arcana. A cada instante. Tenho, portanto, peregrinado. E também constatado, ao longo do meu ofício de trajeto por entre tantos campos sagrados, que a poesia que anima os símbolos permite até mesmo que a pobre coroa de penas [de cisne?] d´O Louco seja tão sagrada quanto a de louro. 



Os deuses irmãos se encontram também na iconografia tarológica. Olhos livres para vê-los.
Um close n'O Louco do Visconti Sforza e em Apollo do grande pintor Gianbattista Tiepolo, 1757.



Voltando ao Brasil é que pude me dar conta do quanto tem sido importante essa visita aos deuses. Essa visita deles em mim, turbinando a fome de pesquisa e vivência desses 78 mapas de locais de poder. E desejo o mesmo a quem trilha esse caminho de descoberta do mundo, dos homens e dos arcanos. 


Aprendamos a ler nas entrelinhas. Entre os traços. Perceber que o Tarô é um instrumento de aproximação de ideias e pessoas. Nada mais que o próprio umbigo do mundo fragmentado em lâminas afiadíssimas de sabedoria, norteadoras a quem for digno de seus augúrios.





Lembro de Ludovica com todo o carinho que se pode lembrar de uma avó querida que nos faz odiar A Morte por estar tão próxima dela. Por consequência, recordei as palavras da escritora Frances Mayes que no delicioso Sob o Sol da Toscana provou ser absorvida pelos sussurros apolíneos das coisas e dos lugares. (...) Como se estivesse arejando um baralho, minha cabeça percebe de relance os milhares de chances, desde as triviais às profundas, que convergiram para recriar este lugar. Qualquer desvio arbitrário ao longo do caminho, e eu estaria em outra parte; seria uma pessoa diferente. De onde é que veio a expressão "um lugar ao sol"? Meus processos de pensamento racional sempre se apegam à ideia do livre arbítrio, do acontecimento aleatório. Meu sangue, porém, acompanha facilmente a corrente do destino. 

E assim é. E que os justos e conhecedores de si mesmos
ouçam {até o fim} a música de Apollo.






Com afeto e Verdade,

Leo

19 de julho de 2011

UMA ODISSÉIA MEDITERRÂNEA

Para ler ouvindo Loreena Mckennitt - A Mediterranean Odyssey.
Clique nas imagens para vê-las no tamanho original.



O Tarô é uma grande e longa viagem. Quem desconhece essa afirmação desconhece a própria natureza dos arcanos, que num vislumbre rápido pode sugerir o galope dos cavalos d´O Carro, por exemplo. Ou do próprio Louco, andarilho por excelência, aquele que desfruta dos caminhos como se fossem pêssegos suculentos num dia quente entre o sol e a sombra de uma árvore sábia. Estou há quinze dias na Europa e me dei conta do quão o itinerário traçado é exótico. Mediterrâneo.

Valete de Ouros do Scopa, jogo tradicional italiano, em Siracusa.
Il Sole, loja arcana na Taormina.


Houve a Andaluzia, onde
 João Cabral de Melo Neto me cantou os poemas da Sevilha e me vi bêbado com a magia flamenca dos azulejos coloridos. Na Itália a eterna Roma e depois a Umbria e a Calábria, até provar os perfumes de Sorrento em cada limão, sorvete e prato típico. Já foi a vez da Sicília, em que Taormina recebe os turistas com seus arcanos em riste, tal como é a cidade. Falo dos arcanos porque em cada ponto dessa viagem eles aparecem. Foi lá que avistei o bar IL RE DI BASTONI, onde do lado de fora havia uma placa toda estilizada e, dentro, uma camiseta vermelha com o arcano em destaque. Pirei na hora. Era a última sendo vendida e veio parar nas minhas mãos.




Il Re di Bastone, um pub na Taormina, com direito a camiseta.

De lá, uma boa história pra contar pros sobrinhos-netos: mais uma peregrinação até a boca de um vulcão. Desta vez o Etna, o maior do continente. Caminhar sobre as pedras frias de lava e dar-se conta da atmosfera marciana do ambiente, é possível ir aos limites do que se pensa enquanto viajante. Enquanto arcano vivo. O Louco ali.



O Etna que explode a todo instante e faz o coração vibrar.

Depois de visitar os templos de Jupiter, Zeus e Hércules em Agrigento, onde colhi pedras e azeitonas para uso mágico posterior, foi a vez da caótica cidade de Catania me surpreender. Na entrada do Caffè Pepe, encontro um arcano no chão: LA GIUSTIZIA. Um estado de serenidade logo tomou conta de mim naquele calor de 38 graus. Ofício e caminho validados pela portadora da balança.


Arcano VIII do 'Tarocco Indovino' (Dal Negro)

aparentemente lançado pelo jornal italiano La Repubblica.

Uma
strega me disse que quando uma imagem se repete, o espírito do que ela representa se perpetua. É, tem sido assim. Trunfos em cada lugar que visito. Aliás, as cidades são mensageiras. Aonde quer que você esteja, sinta o lugar. Nem sempre pode ser agradável, mas a experiência é que faz a diferença. O tarólogo, assumindo o seu papel de Andarilho, tem o poder de (re)conhecer os arcanos em uma manifestação folclórica, na decoração de um ambiente e também na estrutura social e no modo como as pessoas se comportam. As figuras das quatro Cortes condensados em cada um de nós.


Nos jardins do Real Alcázar, em Sevilha.

Sigo com meus arcanos de viagem.
Aliás, quais são os seus?


L.

5 de julho de 2011

MAIS ARCANOS PELO MUNDO



Café Tarot está na Espanha, chicos. E como não podia deixar de ser, visitei a Santería Milagrosa, uma franquia especializada em instrumentos esotéricos que conta com um catálogo maravilhoso de decks - alguns até pensei que nunca mais seriam vendidos, como o Margarete Petersen Tarot, o Baroque Bohemian Cats ou o Tarot de Paris, mas encontrei por lá. Parada obrigatória para quem se perde pelas maravilhas de Madri. Os próximos passos serão bem intensos, volto aqui pra contar.

Abrazos,
muchos.



L.

29 de maio de 2011

FORTUNA CRÍTICA DO DÉCIMO QUINTO ARCANO

PARTE PRIMERA




O demônio esbarra manso mansinho, se fazendo de apeado, tanto tristonho, e, o senhor pára próximo - aí então ele desanda em pulos e prezares de dansa,
falando grosso, querendo abraçar e grossas caretas - boca alargada.
Porque ele é - é doido sem cura.




...o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem - ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum.



O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver - a gente sabendo que ele não existe,
aí é que ele toma conta de tudo.




João Guimarães Rosa | Grande Sertão: Veredas, 1956.


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19 de maio de 2011

FRAGMENTOS DE UM TRATADO DE LEITURA DE IMAGENS

ou Impressões de leituras de um tarólogo esboçadas num moleskine velho.



[...]

É preciso dar-se conta de que somos criaturas de imagens. Seres de figuras. As imagens nos informam, assim com as histórias. Elas são a matéria da qual somos feitos.


Se as narrativas existem no tempo, as imagens se constatam no espaço.


O tarólogo sabe que as imagens se apresentam à sua consciência por meio de uma moldura, que é sempre uma superfície exclusiva em o milagre da leitura acontece. Ler uma imagem é imbui-la de um caráter estritamente temporal que é o narrar.


Essas imagens exercitam o intelecto. É um caminho para a inteligência do mundo, ou seja, para uma concepção menos assustada da realidade e da fantasia, mas não menos encantada.


O passado e o futuro, então, é uma ampliado através das limitações da moldura, que é também o portão, o ponto de partida.


O compromisso com as imagens é o da interpretação. É ele que espelha a ética do leitor, a índole da sua função, o coração do caminho que o leitor escolheu trilhar com os olhos.


18 de maio de 2011

UM ARCANO PARISIENSE


Fontaine de Médicis - Galatée dans des bras d'Acis le berger
|
Le Diable

A analogia começa nos olhos, constato isso sempre. Nas minhas andanças por Paris, me deparei com um arcano esculpido nos Jardins de Luxemburgo: Ácis e Galateia, pastor e ninfa se amando enquanto Polifemo, cíclople, os espreita para dar fim ao romance de forma trágica. Ali vi 'O Diabo'. Mas só quando me dei conta do mito, porque antes eram apenas 'Os Amantes'. Uma deturpação. Um lençol embolado antes do gozo.

O demônio, na capital francesa, espreita todo mundo a toda hora. Mal se percebe.
E é exatamente aquele que tantos chamam de Cupido.