5 de agosto de 2011

UM ORÁCULO EM DELFOS


Acordei e disse para mim mesmo: estou na Grécia, onde tudo começou,
se é que as coisas, diferentemente dos artigos da enciclopédia sonhada, têm início.

Jorge Luis Borges



Arcanos sobre pedras do Santuário de Apollo em Delphi, na Grécia.


Peregrinar. Verbo que traduz bem o ofício de todo e qualquer leitor de imagens. Quando destrinchamos um lugar, estamos lendo os sinais do tempo, as conversas e as situações, boas e terríveis. É um trabalho silencioso porque toda leitura é assim. Não se admite barulho externo quando se está imerso num mundo que implora pela sua atenção. E pelo Mediterrâneo tenho, pois, peregrinado.

30 dias desbravando caminhos - alguns, bem conhecidos. Outros, totalmente inimagináveis pelo trajeto mental de viajante, ao escolher hotéis e programar passeios. Rotas sagradas de leitura. Ir à Grécia seria um dos meus maiores sonhos se realizando em pleno verão. Dos seis grandes sítios arqueológicos visitados, Delphi seria o mais difícil de se chegar. Imaginei que seria assim. E foi. Mas a experiência de peregrinar descalço sobre aquela terra sagrada, em honra a uma divindade luminosa pela qual tenho especial apreço, foi revelador. No mínimo.




Apollo "arcanizado" no dito Tarocchi di Mantegna e n'O Sol do originalíssimo Tarocchini di Mitelli.


Apollo é o padroeiro dos poetas e, em sua natureza pítica, senhor das profecias. Levei o Tarô para receber essas energias e abençoar palavra e imagem, pedindo que se estendesse a todos os que realmente se dedicam e merecem a serenidade desencadeada pelo oráculo. A mesma serenidade forjada no rosto majestoso do Auriga encontrado quase intacto em Delphi, o correspondente direto d'O Carro. Os cavalos se perderam nas pedras do tempo, mas o protótipo do trunfo está lá. Intacto e à vontade. Quem o guiava, talvez, eram os cisnes sagrados do deus.




Who´s in the Chariot? O auriga délfico e O Carro do Tarot de Paris.
Apolo e os cisnes habitando o arcano.




Entendi que a resposta à Esfinge depende muito do Conhece a ti mesmo. Esse mandamento ecoa sobre todo e qualquer maço de cartas. Quem somos, enquanto tarólogos? Somos os arcanos? Quem são os nossos monstros e quem são os nossos heróis? Respondi de olhos fechados, agradecendo pela primeira oportunidade de prostrar-se diante dela. E entendi que, revendo toda a odisseia mediterrânea, a mensagem estava dada.



A Esfinge, um presente de Naxos para demonstrar respeito ao oráculo.


Me veio à memória a época em que morei na Itália. Houve o contato marcante com Ludovica, uma verdadeira strega que perambulava pelas vielas de Perugia, conversando com os gatos. Me disse, numa das vezes em que nos encontramos, que os filhos del Dio della Luce se reconhecem pela verdade e pela justeza. "La giustizia, Leonardo. La vita è magia. E la magia si può con la verità". A partir da experiência na Sicília, onde encontrei o oitavo arcano em frente a uma cafeteria {encontro devidamente registrado aqui}, tudo começou a ter um novo sentido. Serendipidade. Então a Pitonisa falou por ela.



A sibila délfica em pleno diálogo iconográfico com o segundo arcano maior.


Conhecer cada vez mais os meandros de mim mesmo. Conhecer o profundo das imagens. Mergulhar nas palavras e extrair delas o que é essencial, o que surte efeito. Não a quantidade; a qualidade. E espiritualizar-se com verdade, permitindo que o medo se dissolva, mas aos poucos. O famoso μηδεν αγαν (Nada em excesso) vale. E ainda nos remete à simplificação necessária do estudo e da prática do Tarô. 

Do alto do Parnaso, com os arcanos em leque, pude compreender Ludovica. Conhecer-se primeiro para depois conhecer o outro a partir do oráculo. E perceber, pela apodrecida Píton, que as sombras também são importantes e merecem luz. As intempéries tão divinas quanto a própria peregrinação. As leituras truncadas, o receio de interpretar erroneamente uma carta ou mesmo de orientar sem ver com exatidão também são partes importantes do processo tarológico. Nenhum templo nasce pronto.



Porque a tua luz, Apollo,
É a que aproxima todos os destinos



Somos andarilhos sobre imagens. As pedras são do mesmo material dos desenhos. As mensagens têm texturas semelhantes às dos augúrios das Sibilas. A metáfora se descomplica e desabrocha no entendimento de quem nos ouve. Sobre as imagens. E assim eu traço os paralelos entre Delphi e a confirmação da minha escolha e do meu caminho. O arcano 19 marselhês encena Apollo e seu irmão Dioniso: uma aproximação sutil entre a beleza e o deleite. A presença das duas crianças sob o rei dos astros está secretamente relacionada ao conceito de "Sol sempre jovem" que os antigos mantinham. Baco era considerado "o mesmo que o Sol". E é Febo, o eterno jovem, quem lhe estica o braço.



O arcano muda quando você diviniza a visão sobre ele.


O Tarô é povoado pelos deuses. 
Todos norteados pelo Ônfalo, a pedra saturnina conservada no museu délfico, o centro inspirador de todos os oraculistas. No centro do Mundo, a Sibila dança nas palavras e reconfigura a nossa linguagem arcana. A cada instante. Tenho, portanto, peregrinado. E também constatado, ao longo do meu ofício de trajeto por entre tantos campos sagrados, que a poesia que anima os símbolos permite até mesmo que a pobre coroa de penas [de cisne?] d´O Louco seja tão sagrada quanto a de louro. 



Os deuses irmãos se encontram também na iconografia tarológica. Olhos livres para vê-los.
Um close n'O Louco do Visconti Sforza e em Apollo do grande pintor Gianbattista Tiepolo, 1757.



Voltando ao Brasil é que pude me dar conta do quanto tem sido importante essa visita aos deuses. Essa visita deles em mim, turbinando a fome de pesquisa e vivência desses 78 mapas de locais de poder. E desejo o mesmo a quem trilha esse caminho de descoberta do mundo, dos homens e dos arcanos. 


Aprendamos a ler nas entrelinhas. Entre os traços. Perceber que o Tarô é um instrumento de aproximação de ideias e pessoas. Nada mais que o próprio umbigo do mundo fragmentado em lâminas afiadíssimas de sabedoria, norteadoras a quem for digno de seus augúrios.





Lembro de Ludovica com todo o carinho que se pode lembrar de uma avó querida que nos faz odiar A Morte por estar tão próxima dela. Por consequência, recordei as palavras da escritora Frances Mayes que no delicioso Sob o Sol da Toscana provou ser absorvida pelos sussurros apolíneos das coisas e dos lugares. (...) Como se estivesse arejando um baralho, minha cabeça percebe de relance os milhares de chances, desde as triviais às profundas, que convergiram para recriar este lugar. Qualquer desvio arbitrário ao longo do caminho, e eu estaria em outra parte; seria uma pessoa diferente. De onde é que veio a expressão "um lugar ao sol"? Meus processos de pensamento racional sempre se apegam à ideia do livre arbítrio, do acontecimento aleatório. Meu sangue, porém, acompanha facilmente a corrente do destino. 

E assim é. E que os justos e conhecedores de si mesmos
ouçam {até o fim} a música de Apollo.






Com afeto e Verdade,

Leo

12 comentários:

Katia Bueno disse...

"espiritualizar-se com verdade, permitindo que o medo se dissolva... E perceber, pela apodrecida Píton, que as sombras também são importantes e merecem luz".
Fiz uma viagem mágica e poética por suas lindas e sábias palavras! Parabéns por esta maravilhosa peregrinação e gratidão por compartilhar a sua luz!
Beijos apolíneos,
Kátia

Euclydes Cardoso Jr .'. disse...

Nossa Leo!
Maravilhoso este post...
Esclarecedor, magnífico e acima de tudo muito interessante!

Parabéns pela postagem.
um grande abraço.

Alberto de Moraes disse...

Adoro seus textos e fotos... aliás, adoro você. Que Apolo te ilumine!

Alexsander disse...

"Conhecer cada vez mais os meandros de mim mesmo. Conhecer o profundo das imagens. Mergulhar nas palavras e extrair delas o que é essencial, o que surte efeito. Não a quantidade; a qualidade. E espiritualizar-se com verdade, permitindo que o medo se dissolva, mas aos poucos."

19 em Delfos... 8 nos caminhos.

o sol + a Justiça = 27 (carro e papisa) = 9.

Essa conta basta por si só, né Leo?

Lindo, perfeito...

arcano!

bjus

Pietra disse...

Vou ali enxugar as lágrimas e comento mais tarde...

Emanuel disse...

Estar entre amigos é como estar em casa.

Diannus do Nemi disse...

Acho tão fantástico o fato de ser o Sol e a Luz símbolos do Detentor da Profecia que, erroneamente, muitas vezes é relacionada ao oculto e ao sombrio...

Parabéns pela viagem. Bela postagem.

Ricardo Pereira disse...

Leonardo,

Suas impressões sobre Delfos emocionaram, tenho certeza, além de nós, seus leitores e fãs, todas as divindades oraculares, arcaícas e as divinamente modernas ...

Belíssimo artigo! Parabéns!

Grande abraço,

Ricardo

Giancarlo Kind Schmid disse...

Meu amigo, suas experiências em forma de artigo nos tocaram profundamente. Que Apollo sempre o guie e o acompanhe. Γνώθι σ 'αυτόν!

Inês disse...

Como devota de Apollo e deu seu sagrado ofício do oráculo, seu texto me tocou profundamente.

Imagino como deve ser estar entre memórias e ruínas de onde as pítias e sibilas cantaram seus versos. E como um verdadeiro filho do Longínguo, você expressou com uma inspiração sublime essa vivência no seu texto.

Lindo!

E só pra não deixar de comentar a citação ao meu livro preferido: Sob o Sol da Toscana é uma das coisas mais magníficas que já li (e reli, reli e li de novo)...

Leonardo Chioda disse...

Obrigado a todos vocês por estarem aqui. Esses encontros fazem parte dos planos de Apollo. Um abraço!

Katharina Dupont disse...

este post é antigo e eu mesma seguidora do seu blog, nunca o havia lido.
Gratidão Leo, por partilhar conosco sua jornada , pro nos fazer sentir tão próximos dos Deuses como você ficou e em especial..
Gratidão por todos os lampejos e vislumbres que seus textos tem me dado!