14 de fevereiro de 2009

CONTRARIANDO HAJO BANZHAF


Three of Cups - Pamela Colman Smith
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O mais conhecido tarólogo da Alemanha, autor de vários livros publicados no mundo todo, é um dos preferidos que consta na minha estante, justamente pela obra O TARÔ E A VIAGEM DO HERÓI, lançado por aqui pela Editora Pensamento. Na introdução do livro, Banzhaf faz um panorama da origem, da estrutura e da simbologia das cartas, abordando o famoso tarô de Marselha e o Rider Waite, desenhado por Pamela Colman Smith - esta última digna de atenção por enriquecer o universo tarológico ao ilustrar os Arcanos Menores.
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Mas relendo esse capítulo, estranhei pelo seguinte comentário sobre o 3 de Copas, que passou despercebido na primeira leitura: "Por mais bem-vindo que seja esse enriquecimento, ele não nos deve impedir de ver a grande diferença que existe entre as imagens que surgiram no curso dos séculos do inconsciente coletivo da humanidade - como podemos supor pelos Arcanos Maiores - e as ilustrações que foram imaginadas por uma pessoa, ainda que ela fosse uma pessoa tão genial. Por certo, uma imagem imaginada é útil para se deduzir um significado, porém ela nunca alcança o conteúdo e a profundidade simbólica de uma imagem arquetípica. Por esse motivo, é pouco produtivo ficar analisando os detalhes das imagens dos Arcanos Menores. Elas simplesmente ilustram um tema. Assim, a carta Três de Taças nos mostra a dança da colheita, como se pode reconhecer pelas frutas caídas aos pés dos dançarinos. Quem entende esse enunciado nas ilustrações sabe o que a carta quer dizer: um desenvolvimento teve êxito, houve a colheita, a pessoa é grata e está satisfeita. A carta não revela mais do que isso. Qualquer especulação a respeito do fato de uma das dançarinas calçar sapatos dourados, enquanto os sapatos das outras são azuis, ou que tipo de frutas ou vegetais estão presentes, é algo sem importância, quando não inútil."
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Muito bem, Hajo. Até certo ponto eu concordo com você. Mas dizer que um Arcano Menor desenhado simboliza apenas um significado específico é um tanto limitador, não acha? Certamente o 3 de Copas não significa apenas êxito na colheita e satisfação pela fartura. E no plano afetivo, quando alguns estudiosos afirmam traição iminente, o famoso triângulo amoroso, por exemplo? Existe desenvolvimento favorável nisso? Ou uma conclusão definitiva? Duvido muito.
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Não puxo a sardinha pra brasa da Pamela ou do Waite e de ninguém que utiliza os baralhos inspirados no da dupla revolucionária. O que vale é a leitura da imagem. Limitar uma interpretação por meio de um conceito como esse é um desrespeito à profundidade da figura, independente de quem a concebeu. E é absurdo pensar que a imaginação de uma artista não se utilize de símbolos para compôr seus desenhos. Aliás, não é a imaginação uma ferramente essencial para a decodificação? É sim, desde que não hajam viagens homéricas na maionese, burlando a estrutura da carta em sua essência. Quem disse que imaginar não faz parte do ofício oracular? Quer dizer que nos meus cursos, quando chego na abordagem dos Menores, devo dar apenas duas ou três palavrinhas sobre o significado de cada um deles? E numa tiragem sofisticada, como na casa 8 do Mandala Astrológico, acompanhado da Temperança, por exemplo? O problema estaria em definir até que ponto uma figura é imaginada e onde é o campo arquetípico do inconsciente, então?
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Bom, as Copas respondem por si. A releitura, no seu mais amplo significado, é sempre válida.
E os sapatos podem indicar várias coisas, garanto.
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Leo

28 de janeiro de 2009

O PENSAMENTO TAROLÓGICO DE JODOROWSKY


O iPod, o caderno de desenho, o livro de consultas, o felino e a Via do Tarô que encontrei em Veneza.
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Alejandro Jodorowsky é cineasta, escritor, roteirista de quadrinhos, místico, terapeuta, psicomago e tarólogo. Mesmo louco e polêmico como muitos afirmam, sua obra em relação ao tarô merece destaque e respeito. Longe de suscitar mudanças radicais nas engrenagens da prática da leitura do tarô no mundo – o chileno crê, por exemplo, que nenhuma consulta deve ser cobrada –, destaca-se a restauração do famoso baralho de Marselha como seu ingresso na história contemporânea dos arcanos e sua importância simbólica para o ocidente. Do tarô e dele, propriamente. Enquanto tarólogo, sinto extrema satisfação de traduzir e trazer a público, por meio do Clube do Tarô, a conclusão da bíblia arcana que Jodorowsky criou ao lado da atriz e escritora Marianne Costa. Depois da extensa anatomia das lâminas retrabalhadas com o mestre de cartas Philippe Camoin em 1998, o artista multimídia discorre sobre a importância da relação leitor/consulente e o poder das cartas na vida de ambos. São lições valiosas que, se absorvidas com atenção e sem pré-julgamentos, podem expandir os conceitos de interpretação e visão do mundo através dos 78 portões de sabedorias e caminhos infinitos. Um ganho para o tarô.
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Boa leitura. E boas leituras.
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Leo
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O PENSAMENTO TAROLÓGICO DE ALEJANDRO JODOROWSKY.

Tradução livre a partir da quinta edição do livro La Via dei Tarocchi, de Alejandro Jodorowsky e Marianne Costa, publicado em fevereiro de 2008 pela Giangiacomo Feltrinelli Editore de Milão.

E MAIS um artigo sobre a restauração do Tarô de Marselha.


LEIA AGORA NO Clube do Tarô.

O EREMITA, OS BOTÕES E AS HORAS



Era uma vez uma criança que nasceu velha e se apaixonou por uma garota que queria ser dançarina.

Mas o amor entre eles só foi possível quando se encontraram ao meio-dia da vida.




Até que a morte, naturalmente, fez seu papel.
A moral da história é observar as oportunidades e decisões que a vida oferece e a aceitá-las como são, pois as diferenças não importam perto do amor. E a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, assim como só pode ser vivida olhando-se para frente.



O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON

Com Brad Pitt, Cate Blanchett, Tilda Swinton, Julia Ormond e Jason Flemyng. Baseado na obra de Scott Fitzgerald. Dirigido por David Fincher. Distribuído por Warner Bros e Paramount Pictures.

1 de janeiro de 2009

Cafezinho com Anaïs Nin


"A vida se contrai e se expande proporcionalmente à coragem do indivíduo."


2009 é agora.

24 de dezembro de 2008

ARCANOS NA PINTURA MUNDIAL II

Continuo agora com as associações entre os arcanos maiores e as mais importantes telas da história da Arte eleitas pela revista BRAVO! Especial 100 Obras da Pintura Mundial, publicada pela editora Abril. Se você chegou agora no Café Tarot e não viu a primeira parte da galeria, desça até a postagem anterior. No final desta, lanço os devidos créditos bibliográficos. Então, mãos à(s) obra(s).
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O PESADELO Henry Fuseli
O PENDURADO
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Aclamada e considerada por Goethe a obra que motivou a consagração artística do pintor e literato suíco Henry Fuseli, O Pesadelo esbanja obscuridade e traduz, pelo macabro, a atmosfera conflituosa e complexa da psique humana - a imaginação, o sonho, a visão turva da realidade pelo inconsciente. Eis a expressão quase corporal do arcano 12, O Pendurado. Se assemelham pela postura desconfortável de um aprisionamento, seja ele onírico ou real.
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O TRIUNFO DA MORTE Pieter Brueghel
A MORTE
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Tendo por inspiração a "dança da morte", manifestações dramáticas que tratavam dos castigos do mundo como a peste negra na Europa, por exemplo, a tela de Brueghel ilustra os episódios de uma chacina causada por esqueletos que, além de plebeus, esquartejam e judiam de reis, nobres e cristãos. Metáfora mais que nítida do "arcano sem nome" do fim garantido para todos os homens, independente de sua classe ou função social. Penso até que a carta pode ser um quadro resumido que sugere toda a coreografia e devastação da inominável. Se na obra temos os tons rubros evocando os campos infernais, a sangria usada pelo ilustrador espanhol Luis Royo no Labyrinth Tarot também dá essa idéia. Não só em tons mas em significado as pinturas dialogam. Osso por osso.
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NO SALÃO DA RUE DES MOULINS Toulouse-Lautrec
A TEMPERANÇA
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As analogias aqui parecem absurdas num primeiro momento. Porém, analisando mais de perto a expressão boêmia do francês Lautrec em retratar prostitutas afeta os atributos da Temperança no que diz respeito ao tédio, à rotina e aos movimentos ensaiados de braços e pernas, todas as madrugadas. A alquimia do arcano 14 se dá na mistura de cores e impressões móveis da obra, que transcende o marasmo dos bordéis. Rosa la Rouge, a ruiva ao centro da pintura, seria a mulher que verte os jarros da decadência parisiense que consumiu o pintor - em um deles, o álcool e no outro a sífilis, fluidos letais ao seu talento. A temperança é a Arte, em todos os sentidos, tons e cheiros. A justa medida entre o belo e promíscuo: Lautrec no tarô.
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O SABÁ DAS BRUXAS Francisco de Goya
O DIABO
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Os que conhecem a Bruxaria sabem o que estão vendo. E quem não domina as Artes Negras como as feiticeiras da pintura, podem ver o harém diabólico de prazeres deturpados e oferendas de rebentos ao deus do gozo. "Aquelarre", o prado do bode, ilustra o imaginário do povo espanhol que testemunhou durante tempos a perseguição inquisitorial de bruxas e sacerdotisas do Diabo. Mais que um desejo de obter poderes sobrenaturais, Goya pincelou os ignorantes apelando aos rituais para acabar com a miséria. A pintura do Thoth Tarot é o deus dos prazeres, aquele da malícia e do poder da vontade sobre o mundo. Mais real que se pensa, os bodes conversam entre si e com seus "escravos". Maior fracasso é não acreditar neles.
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TORRE EIFFEL Robert Delaunay
A TORRE
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A Torre Eiffel, símbolo máximo de Paris, é destruída por Delaunay. A palavra de ordem aqui, clara tanto na obra quanto no baralho Morgan-Greer, é fragmentação. As estruturas metálicas se desintegram pelo sol assim como o fogo, os raios e as bravas ondas tratam de corroer o esquema interno da construção. O pintor francês é considerado o criador do "cubismo órfico", tendência que agrega uma faceta lírica às exatidões do movimento tradicional.
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A EXPULSÃO DE ADÃO E EVA DO PARAÍSO Tommaso Masaccio
A TORRE
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Não podia deixar de mostrar essa outra obra devido à semelhança gritante com os antigos baralhos minchiate. O portão do paraíso é curiosamente parecido à saída lateral das antigas lâminas da Torre. Os raios acima do casal da pintura, representação clássica da voz do Criador e o Gabriel empunhando a espada dão lugar, respectivamente, às chamas internas e ao fogo que vem do alto - representado em outros baralhos pelo tradicional raio de fogo que destrói a cúpula do edifício. O termo A Casa Deus, portanto, tem uma provavél comprovação devido ao afresco italiano de 1425.
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O NASCIMENTO DE VÊNUS Sandro Botticelli
A ESTRELA
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Êxtase pode ser, com certo exagero, a palavra que descreve a reação ao observar a mais famosa tela de Botticelli na Galleria degli Uffizi, em Florença. Falo por mim, é claro, mas não há como discordar que toda a delicadeza da tela abençoa o arcano 17, A Estrela, com o que os artistas e poetas há séculos chamam de Beleza. Se a deusa mitológica nasce das espumas do mar, o arcano, por sua vez, verte suas ânforas na água. Ambas dialogam de forma sublime pela total dependência do elemento para que possam florescer ao mundo. A carta do tarô suspira renovações, criatividade e esperança. Acaba-se o tédio da Temperança e os líquidos são despejados, assim como as vestes. Se Vênus cobre suas intimidades, Estrela despreocupa-se com elas: é como ver a verdade em sua mais pura existência. Puro êxtase.
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A NOITE ESTRELADA Vincent van Gogh
A LUA
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Van Gogh, o lunático, marca presença na galeria arcana com a cena noturna mais bela que a França já viu. O incrível é que ele teve uma relação íntima com a noite desde que se mudou para Arles, cenário que serviu de inspiração para as mais belas obras de seu acervo. Mas foi essa que semeou os traços do Expressionismo devido à sua mente perturbada - atributo da Lua do tarô, óbvio. Pintou-a durante o dia, apenas com a lembrança da noite em que passeava com o enfermeiro após ter sido internado no sanatório de Saint-Paul-de Mausole. O ambiente do arcano tonifica as semelhanças com a tela: as torres da figura tradicional do tarô, como na do Ancient Italian, dialogam diretamente com o alto cipreste da esquerda e a torre pontiaguda da igreja lá embaixo na cidade. Alguém que observava os céus e dizia "Assim como tomamos um trem para Rouen, tomamos uma estrela para chegar à morte", só pode ter influência do arcano da madrugada. Loucura. Melancolia. Lua.
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OS GIRASSÓIS Vincent van Gogh
O SOL
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Se antes era perturbadoramente noturno, agora vê a luz do arcano 19 e pinta o vaso de flores mais famoso da história da arte. A tristeza é subtraída e a luminosidade é adicionada, criando uma verdadeira alegoria da vida e da morte em miríade amarelada de metáforas. Respeitando o ciclo da natureza, a essência da tela está na necessidade da existência irradiar beleza, fazendo com que o maquinário da vida não prevaleça sobre o ser humano. E é de relações humanas que trata o arcano 19 ao mostrar duas figuras se encontrando com os olhos e se tocando em sinal de reconciliação e acordo, como no Morgan-Greer. Em ambos a vitalidade explode. As cores se combinam em harmônica efusão. Como se fosse um jardim aberto. Um campo ensolarado de girassóis movimentando a vida.
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O ENTERRO DO CONDE ORGAZ El Greco
O JULGAMENTO
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Eu sei bem que O Julgamento encena um novo começo, uma nova realidade de uma outra era, com o momento de acertar as contas, independente de quem você é. Por isso que, limitado ao que a revista me oferece, associo O Enterro ao arcano 20. Um dos argumentos mais visivelmente comprovados na comparação é que ambos retratam o terreno e o celeste. O conde se desprende do corpo físico e ascende aos céus revendo toda a sua vida pelas esvoaçantes nuvens do tempo. Nessa "sinfonia fúnebre" que é o arcano do Juízo, vemos até mesmo os santos Estêvão e Agostinho virem buscar o maior nome da cidade espanhola de Toledo, assentuando sua importância em receber o julgamento. Não se pode esquecer que o cenário tradicional da carta é um cemitério, várias vezes concebido com vários túmulos abertos para o momento crucial da existência, que eu sei (e que você também sabe) qual é.
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A DANÇA Henri Matisse
O MUNDO
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Assim que bati os olhos em Matisse, vi O Mundo. Sua tela mais famosa encerra com maestria a associação das cartas numeradas às obras de arte. Nesta, em especial, o artista engloba toda a expressão humana em uma celebração artística da poesia, da pintura, da música e da dança - as próprias verdades do tarô e o resumo conceitual do arcano 21 do tarô Rider Waite, que mostra a dançarina provida dos quatro elementos que viabilizam a existência. O solo é o horizonte da Terra, o azul a profundidade do espaço sideral e, as figuras em festa, o elo definitivo entre o chão e o céu - efetivando a relação terreno-celeste da lâmina anterior. O quadro "é a síntese de símbolo e realidade corpórea", segundo o Giulio Carlo Argan, crítico de arte. Eis a realidade cósmica de uma carta de tarô e uma tela pintada a óleo. Eis o mundo.
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O FILHO DO HOMEM René Magritte
O LOUCO
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Para alguns, O Louco é tudo no tarô. Para outros, é um mero arcano sem número e, por isso, sem lugar e importância nos jogos e nos estudos. Ainda bem que essa segunda turma é bem pequena, pois mesmo sendo o arcano sem número definido, ele é o mais enigmático símbolo em meio a tantas páginas soltas desse livro da vida. De tão louco, pelo sutil ele chega a ser surreal. Daí a deixa importantíssima para Magritte marcar presença. "O Filho do Homem", obra famosa por ser uma verdadeira incógnita, é a única tela da publicação que faz o bufão rir e espelhar semelhanças. O mais incrível é que não há nenhum significado metafórico para a maçã verde cobrir seu rosto ou estar contra um muro baixo que o separa das águas. Ele evoca o mistério, segundo a explicação do pintor. E o mistério, assim como a identidade do Louco, é irreconhecível. Basta nos atermos à imagem do Thoth Tarot, por exemplo, é cercar algum traço de racionalidade. Mesmo se houver, para quê serve? Ele é questionado, mas sempre questiona quem o observa. Sutilmente.
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No fim, cada arcano acabou tendo uma pintura que corresponde à sua natureza em algum momento. Não que sejam as únicas a espelharem o tarô, muito pelo contrário. Elas são apenas sugestões do que pode ser visto através das figuras mais misteriosas do mundo. Futilidade para alguns, a disciplina "Arte e Tarô" merece respeito e reconhecimento. É um caminho de identificação; um ingresso definitivo para desvendar as semelhanças e segredos do museu arcano. Viva a liberdade visual. É ela que amplia - caso respeitemos a estrutura simbólica do baralho - a nossa capacidade de ler o mundo. Pés no chão. Olhos em tudo.
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Novidades a caminho.
Um super Natal,
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Leo
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CRÉDITOS
Pinturas - Google Imagens www.google.com.br
Tarôs - Taroteca www.taroteca.multiply.com

15 de dezembro de 2008

ARCANOS NA PINTURA MUNDIAL I

Ontem eu estive garimpando na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Encontrei tarôs novos, livros de astrologia pra alimentar meu renovado interesse no assunto e a "BRAVO! Especial 100 Obras Essenciais da Pintura Mundial" na revistaria, pra instigar meu gosto por arte.
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Antes de rasgar o lacre, já pensei no que ia fazer por aqui: elencar as obras que mais tem a ver com nossos amados arcanos. Não é um tarefa fácil, mas também nada impossível. Nesta parte da "mostra" estão as onze cartas iniciais, totalizando os 22 arcanos maiores ao lado das obras associadas. Cada uma traz tanto os atributos conceituais quanto às semelhanças visuais entre as figuras. Começo com a tela mais famosa do planeta, que obviamente ocupa o primeiro lugar no ranking da publicação:
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MONA LISA Leonardo Da Vinci
A SACERDOTISA
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Assim como a mulher retratada em 1500, o segundo arcano maior é digno de todos os mistérios que cercam sua identidade. Seu sorriso enigmático é a prova de que a pintura penetra com força e ao mesmo tempo sutileza o subconsciente do observador, convidando-o a adentrar em seus véus de significados prováveis, porém nunca conclusivos. As palavras-chave mais comuns aos que admiram La Gioconda são reclusão, segredo, charme , serenidade e até mesmo sensualidade - características encarnadas na papisa do tarô.
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AULA DE ANATOMIA DO DR. TULP Rembrandt
O MAGO
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Certo, eu inverti a ordem arcana justamente pela importância da primeira tela. Mas aqui, não menos importante, temos Rembrandt, que é capa do famoso A Hora das Bruxas, de Anne Rice. Ilustra, especificamente, os atributos do Mago com o florescimento da anatomia no campo da ciência, nos idos de 1632. O tabuleiro do prestidigitador no Visconti-Sforza se torna um cadáver experimental. E não é de experimentos que se faz um mago digno de fama? A escuridão dourada do antigo trunfo dialoga com a penumbra do pintor holandês. O Mago, assim como o anatomista, lida com as realidades - mesmo que internas - do ser humano.
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A VÊNUS DE URBINO Ticiano
A IMPERATRIZ
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Ticiano, o veneziano. Há quem não goste de suas telas, mas eu não nego: sou fã. Esta Vênus, com toda a sensualidade imperial possível, é digna de estar entre as 100 obras. Mostra a feminilidade com pureza e erotismo, características que espelham a carta do tarô. Não é a minha preferida, mas agrada. Contrastam as curvas do corpo com a figura de Frieda Harris, cujo escudo dá lugar ao cão e à empregada - símbolos puros de fidelidade e proteção. Entre tantas telas possíveis para este arcano, escolhi essa pela composição e pelas impressões causadas quando a lemos: majestade, conforto, poder e libido. Imperatriz, portanto.
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RETRATO DE CARLOS I DA INGLATERRA
Anthony Van Dyck
O IMPERADOR
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A tela de Van Dyck mostra o monarca Carlos I a frente de seu cavalo e diante de uma bela paisagem. Embora não tenha sido imperador, a tela de Carlos I desbravou a tradição dos retratos aristocráticos até o século 18 em seu país. O monarca acabava de voltar de uma caçada, mas ao lado do quarto arcano maior, pode-se vislumbrar que todo o local é de seu pleno domínio. Não é para o império que o governante fita do alto de seu trono? Van Dyck cristalizou o conceito de nobreza elegante ao versionar personagens da corte em posturas rígidas, altivas e confiantes - como um imperador deve ser.
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ESTUDO A PARTIR DO RETRATO DO PAPA INOCÊNCIO X DE VELÁZQUEZ Francis Bacon
O SACERDOTE
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Assusta, né? Mas aqui não vou apelar aos atributos maldignificados do arcano. Me limito a associar a carta à obra que consta na revista. Bacon, no último ano da década de 40, pintou o que chamava de realidade "crua", destoando da tela original de Velázquez. Afinal, não se importava com interpretações ou releituras, queria mesmo era criar. De tão desprendido de seus trabalhos, não ligava de desfazer-se deles. Os papas aqui dialogam na semelhança da posição - e só. O que Bacon considerava como crueza, se encontra por trás do arcano. Como nos dias de hoje, com o sumo-sacerdote do Vaticano que não expõe à toa seus ideais.
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O BEIJO Gustav Klimt
OS AMANTES
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Eu não podia deixar de usar o próprio Tarot de Klimt, publicado pela Lo Scarabeo, para ilustrar o sexto arcano maior. A tela marca o auge do Art Nouveau e está impressa em todo o tipo de material, no mundo todo. Klimt, como o tarô, é pop. Ao pintar indecências e mesclar indivíduos apaixonados, tornou-se um dos artistas mais conhecidos do Ocidente. Muito ouro, muito brilho e pouca modéstia ao criar os quadros mais impressionantes e atraentes que a Áustria já teve. Sua liberdade fala alto à carta do tarô: entrega, desejo, sedução, envolvimento - alguns dos atributos do arcano da encruzilhada amorosa.
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TAMARA NO BUGATTI VERDE Tamara Lempicka
O CARRO
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Contemporânea de Picasso, Gide e Cocteau, Lempicka nasceu na Polônia e mudou-se para a França ainda jovem. Pintada para a capa de uma revista de moda, a tela associada ao sétimo arcano maior garantiu sua permanência entre os maiores nomes da art déco. É a imagem da mulher independente que guia sua vida como bem entende. Assim também ocorre no Housewives Tarot, escolhido especialmente pela cor do carro em ambas as figuras: as duas mulheres fazem suas compras e, mais que donas de casa, são donas dos seus próprios narizes. A ousadia do poder feminino na década de 50, com tantas revoluções, pode também dialogar com a época de Lempicka, bem antes, em 1925, com sua liberdade. Vivenciou a boemia cubista parisiense e surpreendeu o meio pelo seu hedonismo. Livre, como o auriga do Carro se sente.
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FIGURA DE MULHER Juan Gris
A JUSTIÇA
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Outro nome do cubismo, desta vez analítico, é o espanhol Juan Gris. Conhecido por suas expressões puramente intelectuais, longe de convenções artísticas batidas, sua tela se equipara à oitava lâmina especialmente pelo seu caráter mental de concepção. Trabalhando dedutivamente do abstrato para o concreto, é nítida a característica da Justiça: o pensamento, a intuição que se cristaliza em razão. As imagens conversam pela posição, como no Papa. A espada que a mulher empunha no tarô Morgan-Greer se confunde com alguma das linhas retas que dão impressão de corte, de justeza. Criador do cubismo "sintético", Gris incentivou as pesquisas sobre esta escola com toda a consciência de um artista que se basta. E claro, de uma carta que fala por si.
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A CIGANA ADORMECIDA Henri Rosseau
O EREMITA
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Relutei por um momento em "arcanizar" A Cigana Adormecida, mas a gama de pinturas que a publicação oferece me obrigou a isso. Pensei nela como arcano 11 devido ao leão, mas aqui não há situação de força ou domínio braçal de feras. A tela, que já foi ridicularizada e também chamou a atenção de Picasso, está fora de qualquer escola ou movimento artístico. Ela expressa sua visão particular do mundo, sugerindo toda a fantasia noturna que permeia o solitário do tarô - que também não se encaixa em vanguardas. A não ser, é claro à sua própria e íntima verdade. Os montes da imagem do Secret Tarot parece ligar-se aos da cigana, dando uma idéia de continuidade.
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O PARAÍSO Tintoretto
A RODA DA FORTUNA
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Outro veneziano, desta vez conhecido pelo tradicionalismo renovado e impactante, Tintoretto é dono da única obra do acervo que sussurra a circularidade e a idéia de hierarquia da carta do tarô. Influenciado por Michelangelo e Ticiano, o pintor conseguiu criar magnificamente o turbilhão de emoções das almas que ascendem ao paraíso. Toda a jornada de Dante Alighieri e toda a jornada humana, em suas voltas, seus altos e baixos. Outra aproximação do arcano seria refletir sobre a boa fortuna de poder alcançar as moradas eternas. Não é pra qualquer um.
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RETRATO DE MARIE-THÉRESE WALTER Pablo Picasso
A FORÇA
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Picasso conheceu Walter na saída das Galerias Lafayette, convidando-a para ser modelo de algumas telas. Mesmo casado, com 45 anos, o artista se apaixona pela garota de 17 que se torna sua amante. O diálogo com a carta do tarô se dá, antes de tudo, pelas semelhanças - a lemniscata camuflada nos chapéus, as roupas requintadas e o rosto pacífico. Em seguida, se associam pelo caráter erótico da pintura e os atributos sexuais que a lâmina carrega. A atmosfera da época, para o artista e para a jovem, era de luxúria, prazer e distorção de formas, como vemos aqui de forma serena no retrato. Deu-se o florescimento de Picasso, desabrochado espontaneamente, quando a jovem surgiu em seu caminho criativo e o fisgou. No fim, Marie-Thérese disputou o homem com outra mulher e enforcou-se aos 68 anos. Mas esse detalhe não diz respeito ao arcano em questão - que inspira a beleza, a diplomacia e o domínio silencioso sobre a fera - no caso, o gênio dos pincéis.
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Tarô é arte, indiscutivelmente. Quando leitores, estudantes ou curiosos me perguntam sobre a importância de associar as cartas à cultura popular, às cenas cotidianas e mesmo às obras de um museu, eu digo que é justamente para aprender a enxergar a vida - porque as cartas são espelhos da realidade que conversam com as cores, com as fantasias e com as idéias que temos por trás dos olhos. Faz bem. Por isso eu continuo em breve.
Aguarde.
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Leo