5 de outubro de 2011

SOBRE A NATUREZA DA LEITURA

“Everyone probably thinks that I’m a raving nymphomanic,
that I have an insatiable sexual appetite, when the truth is I’d rather read a book.”


Madonna


'Madonna reading books' em montagem minha sobre moldura do Thoth Tarot, AGMuller, 1986.


De um e-mail recebido ontem:
"Quero MUITO aprender tarot. Mas tenho que ler muita coisa?"

Sim, tem MUITA. E vai ter sempre. Mas se você tem preguiça de ler, não se aproxime do tarô. Feche esse blog, inclusive. O maquinário do Tarot é a leitura, não um raio divino sobre as figuras que lhe concede a honra de falar sobre o passado e o futuro das nações ou sobre os rumos da vida alheia. Quando consultamos, lemos os movimentos dos arcanos, o que se pode fazer, para onde se pode ir e como se posicionar frente a essas possibilidades. A combinatória é articulada porque a leitura é crucial, justamente. Eis o alimento da metáfora. O primeiro passo para qualquer leitor (!) de tarô.

Aliás, decorar um livro ou apenas esquematizar um quadro com os atributos-chave de cada arcano não faz de ninguém um leitor. Quem memoriza alguns poucos significados não possui habilidade o suficiente para realizar uma leitura profissional. Aliás, só na posição de consulente é que se sabe do poder do tarólogo, como bem disse minha amiga Zoe de Camaris outro dia, durante uma inspirada conversa sobre livros. É ali, diante dos espelhos que são as cartas, que a leitura se dá. Eterna arena. As provas de sucesso ou fracasso são do cliente, daí.


Statue reading - tumblr

Enquanto você encarar a leitura dos livros como algo tediante, chato, cansativo, difícil ou mesmo dispensável, lhe peço: não se aproxime do tarô. Pelo menos por ora. Há bastante a se fazer por esses mares virtuais. Só lembre que para falar com propriedade você precisará da leitura. Certo refinamento é preciso. Mas antes o letramento simbólico, por favor.


Né?

E esse é só um começo sobre uma série de reflexões sobre o poder da leitura - a primeira e eterna premissa para toda e qualquer resposta que você deseja obter por meio das cartas. O gozo da analogia. Até porque o oráculo não tolera o leitor perverso, sedento de um poder tal sobre a narrativa que se tece a cada lâmina virada, mas que no fundo nunca pensa no mecanismo dos signos. Insignificante. Esse sempre cai na breguice. Naquele esquisoterismo que paga de fino. Sai um patchwork de auto-ajuda infalível e logo desaparece, thank Gods. Quem não se rende à palavra não se liberta na imagem.

Tarô, ou tarot, ou tarocchi, é uma biblioteca que é um labirinto de espelhos que é infinito. Em possibilidades e em significados. A educação pelos olhos é que configura o homo ludens. Apreensão, interpretação e reflexão compondo um equilátero, talvez. Fiquemos então com essa ideia: a da Mãe dos Livros, a soberana das páginas. Paredes projetadas de dentro pra fora.


Jean Noblet

Já volto com os patronos.
Boas leituras por aí,


L.

4 comentários:

Pietra disse...

Ah, Sacerdotisa... oq vc anda lendo?

Juliana disse...

Olá Leonardo!

Sou sua coelga no Personare! : )

Em nossos tempos as pessoas querem saber de tudo, mas só se for de maneira instantânea. E sabedoria não se constrói assim.

Gostei da reflexão e das indicações.
Estou encantada com o tarot, tenho estudado sua simbologia - ainda engatinhaaaando!

Anônimo disse...

Senti que deveria persistir nos estudos sobre Tarô depois de conseguir enxergar que a Apolo também fala a Pítons e Pitonisas que habitam em cada um de nós, através dos livros, das conversas com outras pessoas entendidas no assunto, observando o dia-a-dia e a nós mesmos, e através de blogs como o seu. Superar a angústia da espera pelo raio divino, como você diz em seu texto, se manifestando no momento da leitura foi um grande passo. Nada mais encanta que algo cuja compreensão total é impossível. E que a senhora de turbante no recinto infestado de incenso pode não passar de cortina de fumaça. Seu blog é excelente!

Anônimo disse...

Senti que deveria persistir nos estudos sobre Tarô depois de conseguir enxergar que a Apolo também fala a Pítons e Pitonisas que habitam em cada um de nós, através dos livros, das conversas com outras pessoas entendidas no assunto, observando o dia-a-dia e a nós mesmos, e através de blogs como o seu. Superar a angústia da espera pelo raio divino, como você diz em seu texto, se manifestando no momento da leitura foi um grande passo. Nada mais encanta que algo cuja compreensão total é impossível. E que a senhora de turbante no recinto infestado de incenso pode não passar de cortina de fumaça. Seu blog é excelente!