terça-feira, 3 de abril de 2012

MANUAL PRÁTICO DE COMBATE AO VALETE DE ESPADAS


Detalhe do Pajem de Espadas | Rider-Waite Tarot, U.S. Games, 1971.



INSTRUÇÕES SIMBÓLICAS INICIAIS
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Revisitei o baralho de Aleister Crowley e Frieda Harris na companhia do sensacional 'Understanding Aleister Crowley's Thoth Tarot' de Lon Milo DuQuette (Weiser Books, 2003). Me debrucei sobre o arranjo iconográfico das armaduras, dos tronos e piras das figuras da Realeza, em específico sobre o da Princesa de Espadas, uma das poucas personas que não olham para quem se dá à leitura de imagens. A pequena cabeça repleta de cobras no alto do seu elmo remete à Medusa, famosa criatura mitológica tantas vezes incompreendida tal qual este arcano menor, cujos atributos negativos se sobressaem e o mantém quase sempre indigno de qualquer elogio.

Princesa de Espadas e detalhe do elmo | Thoth Tarot, AG Müller, 1986.

Quase, pois representa a parte terrosa do ar, a materialização das ideias. Se em Waite a lâmina atua como um pára-raio, em Crowley (só) a posição da arma é outra: 'Fixation of the Volatile', a espada voltada para o chão. Destreza em tornar viável aquilo que imagina. Brainstorms consideráveis, se bem trabalhados. Mensageiro(a) de novidades importantes. Do imaginável ao palpável. Ponto para a górgona, aludindo ao poder de transformar em pedra aqueles que sucubem ao seu olhar penetrante. Mas sua atuação nefasta é mais nítida e frequente, não há como negar.

Fleishman’s “Medusa” | Dark Mysteries #9, Master Comics, 1952.

 
COMO IDENTIFICAR UM VALETE DE ESPADAS
 
Bom, aquelas criaturas traíras, invejosas, fofoqueiras, manipuladoras, vingativas e falsas a ponto de sorrir de satisfação no pior momento para alguma ou várias pessoas estão, certamente, regidas pela lâmina. Estas mesmas criaturas que são também carentes, medrosas, iludidas, vitimizadas, presunçosas e inseguras por trás de uma máscara de imponência estão sob a égide da pequena majestade de Espadas. Pela ótica oracular, se convencem do sucesso absoluto com a pretensão de serem Rei ou Rainha do elemento, se possível algo ainda maior e mais importante. Se alimentam de êxito e fracasso alheios e regurgitam veneno verbal. Olhos dissimulados de fúria e um pé na psicopatia. Ou os dois.

A lâmina empunhada é a bandeira das tentativas previsíveis de sedução e conquista e da convicção de que são espertos e infalíveis em seus empreendimentos egocêntricos e competições infundadas. Só que esperto é o ignorante que se acha inteligente. Daí a sensação de estarmos diante de um vilão brega cuja forma só esse tipo de caráter consegue projetar. Macumba sem nenhuma classe.


PREPARANDO-SE PARA O COMBATE


A Medusa só pode ser degolada pelo poder da imagem refletida, 
pois quem a contempla diretamente é sobrepujado pela própria escuridão que possui.

Liz Greene 


Luke Cage & Medusa | Marvel, 197?.

A melhor maneira de desarmar alguém sob os domínios desta carta [que se acha] tão afiada é encarando-a. Sim, olhando de frente sem medo de virar estátua! Um Valete desse naipe pode ser descompensado na medida em que você se vê livre de todo e qualquer medo de suas investidas. A atitude mais sensata é bancar um espelho silencioso para que o feitiço supreenda o(a) feiticeiro(a). Devolver na mesma retina. Afinal, o que é um Pajem de Espadas se não uma criança faminta por liderança, influência, segurança, carinho e atenção constantes? Em seguida, sugiro dar uma de Perseu e cortar relações, da mesma forma que o herói mítico separa do gélido pescoço a cabeça de serpentes num golpe de persistência, coragem e sabedoria (valha-nos, Athena). Pequenas atitudes, grandes reações: assim é que se torna possível abalar as estruturas do Trono do Ar.


Perseu (Sam Worthington) com a cabeça da Medusa | Fúria de Titãs, Warner Bros, 2010.

Porém, peço encarecidamente para não culpar o Tarot quando você se deparar com Medusas por aí. Como todos os outros 77, este arcano tem suas qualidades asseguradas em diferentes níveis de atuação e contexto narrativo. Há muito tempo, durante uma leitura, a consulente elencou a Princesa de Espadas ao ter escolher um arcano sobre ela mesma. Levando em conta que Medusa é uma figura intimamente associada à menstrução e aos poderes obscuros de toda mulher, confirmei que ela descobriu sozinha e com desconforto o próprio corpo e seus mistérios.
Cresceu praticamente desamparada, teve apenas um apoio básico pra se tornar adulta e confiante em seus passos. The Winding Way. Mas rege também aquelas pessoas criativas, de imaginação livre leve e solta. Aquelas que sonham alto e muitas vezes são tachadas de ambiciosas e irresponsáveis por não medirem consequências. Aqueles que seguem passos de tiranos que se deram bem. Garotas que massacram garotos por pensarem só com a cabeça de baixo. Meninos que repreendem as namoradinhas por serem melosas e sentimentais e que humilham os amigos por não serem tão firmes no que dizem e fazem. Crianças que dominam a linguagem e moldam um brilhante perfil intelectual. Superdotados infantilizados pelas influências do meio que resolvem equações cúbicas mas não sabem arrumar a cama ou espremer um limão.

Um mundo de possibilidades em uma carta só, como acontece com todas as demais. Diferentes pontos de vista são necessários, daí a analogia enriquece. O combate só adianta se for contra o preconceito pelo que a imagem carrega, denuncia ou sugere. Melhor vê-la como um amuleto que petrifica quintas intenções alheias e afasta o malocchio, como tem sido perpetuado o poder da Medusa entre os que respiram Magia. Ícone de proteção. Justamente por esses motivos afirmo que encará-la sempre como uma carta "encardida" é o mesmo que limitar o seu desempenho simbólico. Se você não vai com a cara dela, vale o conceito de Nêmesis: ela deve estar brincando de reinar em algum beco da sua personalidade. Ou nos céus.


Looks can kill.

EPÍLOGO
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Não, não publiquei este singelo manual pensando em alguém especificamente. Mesmo assim, em algum momento da vida, a carapuça nos serve. Não importa o tamanho do elmo. Nem o formato.


Gorgoneion,

8 comentários:

AugustoCrowley disse...

Verdade, em certos momentos podemos ser nós mesmos a nos comportar como um valete de espadas.

Monica disse...

Muito bom o texto, esclareceu dúvidas de alguns jogos e tiragens pessoais.
Obrigada por compartilhar!

Emanuel disse...

Excelente diálogo, lá fui eu com ela, de novo, dar uma volta por aí.

Jordan disse...

Excelente análise. Lembrando que a cabeça decepada de Medusa está na égide de Atena, e passou a ser usada como proteção pelos gregos, como uma espécie de espelho que prontamente nos desarma por refletir como estamos enxergando as coisas, talvez cheios da fumaça em volta da Princesa de Espadas, e também como estamos nos portando. Não adianta repelir somente nossos detratores se estamos cheios do que chamarei de impurezas que até dão abertura para as más ações dessas pessoas. Atrevo-me a tomar a Princesa (Valete ou Pagem, dentre outras denominações) de Espadas como uma "dura iniciadora".

Regina Guigou disse...

perfeita análise.

Odir Fontoura disse...

Excelente. Nem sempre esse cara vem com boas notícias, e fazer de conta que não ver que ele está passando é a pior coisa que se pode fazer.

juliana diniz disse...

Adoro quando o lado positivo dele também é mencionado!

Cintia Macena disse...

Interessante análise, ótimas referências. Tenho bem pouca intimidade com o Pajem de Espadas, felizmente é uma carta rara nas minhas tiragens. Seu post foi uma bela lição; vou lembrar quando surgir esta lâmina na minha frente. Espero que demore. rs