5 de agosto de 2011

UM ORÁCULO EM DELFOS


Acordei e disse para mim mesmo: estou na Grécia, onde tudo começou,
se é que as coisas, diferentemente dos artigos da enciclopédia sonhada, têm início.

Jorge Luis Borges



Arcanos sobre pedras do Santuário de Apollo em Delphi, na Grécia.


Peregrinar. Verbo que traduz bem o ofício de todo e qualquer leitor de imagens. Quando destrinchamos um lugar, estamos lendo os sinais do tempo, as conversas e as situações, boas e terríveis. É um trabalho silencioso porque toda leitura é assim. Não se admite barulho externo quando se está imerso num mundo que implora pela sua atenção. E pelo Mediterrâneo tenho, pois, peregrinado.

30 dias desbravando caminhos - alguns, bem conhecidos. Outros, totalmente inimagináveis pelo trajeto mental de viajante, ao escolher hotéis e programar passeios. Rotas sagradas de leitura. Ir à Grécia seria um dos meus maiores sonhos se realizando em pleno verão. Dos seis grandes sítios arqueológicos visitados, Delphi seria o mais difícil de se chegar. Imaginei que seria assim. E foi. Mas a experiência de peregrinar descalço sobre aquela terra sagrada, em honra a uma divindade luminosa pela qual tenho especial apreço, foi revelador. No mínimo.




Apollo "arcanizado" no dito Tarocchi di Mantegna e n'O Sol do originalíssimo Tarocchini di Mitelli.


Apollo é o padroeiro dos poetas e, em sua natureza pítica, senhor das profecias. Levei o Tarô para receber essas energias e abençoar palavra e imagem, pedindo que se estendesse a todos os que realmente se dedicam e merecem a serenidade desencadeada pelo oráculo. A mesma serenidade forjada no rosto majestoso do Auriga encontrado quase intacto em Delphi, o correspondente direto d'O Carro. Os cavalos se perderam nas pedras do tempo, mas o protótipo do trunfo está lá. Intacto e à vontade. Quem o guiava, talvez, eram os cisnes sagrados do deus.




Who´s in the Chariot? O auriga délfico e O Carro do Tarot de Paris.
Apolo e os cisnes habitando o arcano.




Entendi que a resposta à Esfinge depende muito do Conhece a ti mesmo. Esse mandamento ecoa sobre todo e qualquer maço de cartas. Quem somos, enquanto tarólogos? Somos os arcanos? Quem são os nossos monstros e quem são os nossos heróis? Respondi de olhos fechados, agradecendo pela primeira oportunidade de prostrar-se diante dela. E entendi que, revendo toda a odisseia mediterrânea, a mensagem estava dada.



A Esfinge, um presente de Naxos para demonstrar respeito ao oráculo.


Me veio à memória a época em que morei na Itália. Houve o contato marcante com Ludovica, uma verdadeira strega que perambulava pelas vielas de Perugia, conversando com os gatos. Me disse, numa das vezes em que nos encontramos, que os filhos del Dio della Luce se reconhecem pela verdade e pela justeza. "La giustizia, Leonardo. La vita è magia. E la magia si può con la verità". A partir da experiência na Sicília, onde encontrei o oitavo arcano em frente a uma cafeteria {encontro devidamente registrado aqui}, tudo começou a ter um novo sentido. Serendipidade. Então a Pitonisa falou por ela.



A sibila délfica em pleno diálogo iconográfico com o segundo arcano maior.


Conhecer cada vez mais os meandros de mim mesmo. Conhecer o profundo das imagens. Mergulhar nas palavras e extrair delas o que é essencial, o que surte efeito. Não a quantidade; a qualidade. E espiritualizar-se com verdade, permitindo que o medo se dissolva, mas aos poucos. O famoso μηδεν αγαν (Nada em excesso) vale. E ainda nos remete à simplificação necessária do estudo e da prática do Tarô. 

Do alto do Parnaso, com os arcanos em leque, pude compreender Ludovica. Conhecer-se primeiro para depois conhecer o outro a partir do oráculo. E perceber, pela apodrecida Píton, que as sombras também são importantes e merecem luz. As intempéries tão divinas quanto a própria peregrinação. As leituras truncadas, o receio de interpretar erroneamente uma carta ou mesmo de orientar sem ver com exatidão também são partes importantes do processo tarológico. Nenhum templo nasce pronto.



Porque a tua luz, Apollo,
É a que aproxima todos os destinos



Somos andarilhos sobre imagens. As pedras são do mesmo material dos desenhos. As mensagens têm texturas semelhantes às dos augúrios das Sibilas. A metáfora se descomplica e desabrocha no entendimento de quem nos ouve. Sobre as imagens. E assim eu traço os paralelos entre Delphi e a confirmação da minha escolha e do meu caminho. O arcano 19 marselhês encena Apollo e seu irmão Dioniso: uma aproximação sutil entre a beleza e o deleite. A presença das duas crianças sob o rei dos astros está secretamente relacionada ao conceito de "Sol sempre jovem" que os antigos mantinham. Baco era considerado "o mesmo que o Sol". E é Febo, o eterno jovem, quem lhe estica o braço.



O arcano muda quando você diviniza a visão sobre ele.


O Tarô é povoado pelos deuses. 
Todos norteados pelo Ônfalo, a pedra saturnina conservada no museu délfico, o centro inspirador de todos os oraculistas. No centro do Mundo, a Sibila dança nas palavras e reconfigura a nossa linguagem arcana. A cada instante. Tenho, portanto, peregrinado. E também constatado, ao longo do meu ofício de trajeto por entre tantos campos sagrados, que a poesia que anima os símbolos permite até mesmo que a pobre coroa de penas [de cisne?] d´O Louco seja tão sagrada quanto a de louro. 



Os deuses irmãos se encontram também na iconografia tarológica. Olhos livres para vê-los.
Um close n'O Louco do Visconti Sforza e em Apollo do grande pintor Gianbattista Tiepolo, 1757.



Voltando ao Brasil é que pude me dar conta do quanto tem sido importante essa visita aos deuses. Essa visita deles em mim, turbinando a fome de pesquisa e vivência desses 78 mapas de locais de poder. E desejo o mesmo a quem trilha esse caminho de descoberta do mundo, dos homens e dos arcanos. 


Aprendamos a ler nas entrelinhas. Entre os traços. Perceber que o Tarô é um instrumento de aproximação de ideias e pessoas. Nada mais que o próprio umbigo do mundo fragmentado em lâminas afiadíssimas de sabedoria, norteadoras a quem for digno de seus augúrios.





Lembro de Ludovica com todo o carinho que se pode lembrar de uma avó querida que nos faz odiar A Morte por estar tão próxima dela. Por consequência, recordei as palavras da escritora Frances Mayes que no delicioso Sob o Sol da Toscana provou ser absorvida pelos sussurros apolíneos das coisas e dos lugares. (...) Como se estivesse arejando um baralho, minha cabeça percebe de relance os milhares de chances, desde as triviais às profundas, que convergiram para recriar este lugar. Qualquer desvio arbitrário ao longo do caminho, e eu estaria em outra parte; seria uma pessoa diferente. De onde é que veio a expressão "um lugar ao sol"? Meus processos de pensamento racional sempre se apegam à ideia do livre arbítrio, do acontecimento aleatório. Meu sangue, porém, acompanha facilmente a corrente do destino. 

E assim é. E que os justos e conhecedores de si mesmos
ouçam {até o fim} a música de Apollo.






Com afeto e Verdade,

Leo

19 de julho de 2011

UMA ODISSÉIA MEDITERRÂNEA

Para ler ouvindo Loreena Mckennitt - A Mediterranean Odyssey.
Clique nas imagens para vê-las no tamanho original.



O Tarô é uma grande e longa viagem. Quem desconhece essa afirmação desconhece a própria natureza dos arcanos, que num vislumbre rápido pode sugerir o galope dos cavalos d´O Carro, por exemplo. Ou do próprio Louco, andarilho por excelência, aquele que desfruta dos caminhos como se fossem pêssegos suculentos num dia quente entre o sol e a sombra de uma árvore sábia. Estou há quinze dias na Europa e me dei conta do quão o itinerário traçado é exótico. Mediterrâneo.

Valete de Ouros do Scopa, jogo tradicional italiano, em Siracusa.
Il Sole, loja arcana na Taormina.


Houve a Andaluzia, onde
 João Cabral de Melo Neto me cantou os poemas da Sevilha e me vi bêbado com a magia flamenca dos azulejos coloridos. Na Itália a eterna Roma e depois a Umbria e a Calábria, até provar os perfumes de Sorrento em cada limão, sorvete e prato típico. Já foi a vez da Sicília, em que Taormina recebe os turistas com seus arcanos em riste, tal como é a cidade. Falo dos arcanos porque em cada ponto dessa viagem eles aparecem. Foi lá que avistei o bar IL RE DI BASTONI, onde do lado de fora havia uma placa toda estilizada e, dentro, uma camiseta vermelha com o arcano em destaque. Pirei na hora. Era a última sendo vendida e veio parar nas minhas mãos.




Il Re di Bastone, um pub na Taormina, com direito a camiseta.

De lá, uma boa história pra contar pros sobrinhos-netos: mais uma peregrinação até a boca de um vulcão. Desta vez o Etna, o maior do continente. Caminhar sobre as pedras frias de lava e dar-se conta da atmosfera marciana do ambiente, é possível ir aos limites do que se pensa enquanto viajante. Enquanto arcano vivo. O Louco ali.



O Etna que explode a todo instante e faz o coração vibrar.

Depois de visitar os templos de Jupiter, Zeus e Hércules em Agrigento, onde colhi pedras e azeitonas para uso mágico posterior, foi a vez da caótica cidade de Catania me surpreender. Na entrada do Caffè Pepe, encontro um arcano no chão: LA GIUSTIZIA. Um estado de serenidade logo tomou conta de mim naquele calor de 38 graus. Ofício e caminho validados pela portadora da balança.


Arcano VIII do 'Tarocco Indovino' (Dal Negro)

aparentemente lançado pelo jornal italiano La Repubblica.

Uma
strega me disse que quando uma imagem se repete, o espírito do que ela representa se perpetua. É, tem sido assim. Trunfos em cada lugar que visito. Aliás, as cidades são mensageiras. Aonde quer que você esteja, sinta o lugar. Nem sempre pode ser agradável, mas a experiência é que faz a diferença. O tarólogo, assumindo o seu papel de Andarilho, tem o poder de (re)conhecer os arcanos em uma manifestação folclórica, na decoração de um ambiente e também na estrutura social e no modo como as pessoas se comportam. As figuras das quatro Cortes condensados em cada um de nós.


Nos jardins do Real Alcázar, em Sevilha.

Sigo com meus arcanos de viagem.
Aliás, quais são os seus?


L.

5 de julho de 2011

MAIS ARCANOS PELO MUNDO



Café Tarot está na Espanha, chicos. E como não podia deixar de ser, visitei a Santería Milagrosa, uma franquia especializada em instrumentos esotéricos que conta com um catálogo maravilhoso de decks - alguns até pensei que nunca mais seriam vendidos, como o Margarete Petersen Tarot, o Baroque Bohemian Cats ou o Tarot de Paris, mas encontrei por lá. Parada obrigatória para quem se perde pelas maravilhas de Madri. Os próximos passos serão bem intensos, volto aqui pra contar.

Abrazos,
muchos.



L.

29 de maio de 2011

FORTUNA CRÍTICA DO DÉCIMO QUINTO ARCANO

PARTE PRIMERA




O demônio esbarra manso mansinho, se fazendo de apeado, tanto tristonho, e, o senhor pára próximo - aí então ele desanda em pulos e prezares de dansa,
falando grosso, querendo abraçar e grossas caretas - boca alargada.
Porque ele é - é doido sem cura.




...o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem - ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum.



O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver - a gente sabendo que ele não existe,
aí é que ele toma conta de tudo.




João Guimarães Rosa | Grande Sertão: Veredas, 1956.


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19 de maio de 2011

FRAGMENTOS DE UM TRATADO DE LEITURA DE IMAGENS

ou Impressões de leituras de um tarólogo esboçadas num moleskine velho.



[...]

É preciso dar-se conta de que somos criaturas de imagens. Seres de figuras. As imagens nos informam, assim com as histórias. Elas são a matéria da qual somos feitos.


Se as narrativas existem no tempo, as imagens se constatam no espaço.


O tarólogo sabe que as imagens se apresentam à sua consciência por meio de uma moldura, que é sempre uma superfície exclusiva em o milagre da leitura acontece. Ler uma imagem é imbui-la de um caráter estritamente temporal que é o narrar.


Essas imagens exercitam o intelecto. É um caminho para a inteligência do mundo, ou seja, para uma concepção menos assustada da realidade e da fantasia, mas não menos encantada.


O passado e o futuro, então, é uma ampliado através das limitações da moldura, que é também o portão, o ponto de partida.


O compromisso com as imagens é o da interpretação. É ele que espelha a ética do leitor, a índole da sua função, o coração do caminho que o leitor escolheu trilhar com os olhos.


18 de maio de 2011

UM ARCANO PARISIENSE


Fontaine de Médicis - Galatée dans des bras d'Acis le berger
|
Le Diable

A analogia começa nos olhos, constato isso sempre. Nas minhas andanças por Paris, me deparei com um arcano esculpido nos Jardins de Luxemburgo: Ácis e Galateia, pastor e ninfa se amando enquanto Polifemo, cíclople, os espreita para dar fim ao romance de forma trágica. Ali vi 'O Diabo'. Mas só quando me dei conta do mito, porque antes eram apenas 'Os Amantes'. Uma deturpação. Um lençol embolado antes do gozo.

O demônio, na capital francesa, espreita todo mundo a toda hora. Mal se percebe.
E é exatamente aquele que tantos chamam de Cupido.

26 de abril de 2011

O LOBO, A CAPA VERMELHA E O TARÔ




Há quem critique os filmes da saga Crepúsculo tanto quanto são criticados os best-sellers que lhes deram origem. E há quem pense que A Garota da Capa Vermelha seja uma droga por ser assinado pela diretora desses filmes. Mas na verdade o filme é bom e bonito, muito bonito. Arregalei os olhos quando Claude, o nítido Louco entre os personagens, faz um truque de mágica em que brota o décimo sexto arcano em suas mãos. E logo depois o décimo quinto. Bruxaria, Inquisição. Amanda Seyfried, Gary Oldman. Uma trilha sonora estonteante, uma repaginação muito feliz da fábula dos Grimm, cujas almas devem agradecer pelo feito, aonde quer que estejam. A grande sacada para nós, tarólogos, é o aplicativo que a Warner criou para o site oficial da película: os 22 Maiores exclusivos do filme, com a possibilidade de serem explorados e ainda um jogo de três cartas a escolher. Bem, bem feito.



Depois do cinema, saí pensando que realmente vale a pena a leitura mais atenta dessas estórias que nos contam desde sempre. Fábulas, estudantes de tarô, são um prato cheio para o enriquecimento analógico pessoal. A moral dialoga com a metáfora, em algum ponto da floresta negra do simbolismo. Adentremos ainda mais, pois. Assistam e critiquem depois.

Qem tem medo?

18 de abril de 2011

PARIS, CIDADE ARCANA



Cidade Luz

Cidade Festa
Cidade Eterna.

Estou em Paris, santuário regido por Vênus e Apolo, garimpando referências - simbólicas, geográficas e bibliográficas - ao "tarrô", como eles dizem por aqui. E não são poucas, já adianto. Em breve novidades. Tempo curto.


Au revoir,

L.

7 de abril de 2011

GATTO, GATTO




E não é que Alexandrino, meu gato, foi parar num blog de tarot italiano?
Já está famoso pelo flickr, conhecido no mundo todo, mas sem as cartas por perto. Até então. Visitem a página, é bem agradável.

Miale!

www.tarocchiweb.com

19 de março de 2011

RAINHAS DE ALMODÓVAR









Reveladas.
Teço noutra hora, chicos.

HÃ?!

O Tarot é surpreendente, sabemos.
Mas o que as pessoas escrevem sobre ele é sempre mais.


O TAROT: Herança dos Cátaros e de Maria Madalena

A minha curiosidade agradece.

14 de março de 2011

ARCANO VIGÉSIMO

As imagens valem mais que as palavras, às vezes.
Então vamos apostar um pouco nisso.



Vera, Alex, Nei e Gian,
obrigado pela companhia, pela amizade, pela revolução de ideias em torno da nossa paixão.




Pedro, queridíssimo, obrigado pelas piadas, pela alegria da sua presença.
Ao Lívio, gratidão pela ajuda na aflição e pela amizade.
Ao Pellegrini, a minha admiração. Estou descobrindo que meu Oásis está bem aqui no meu peito. Obrigado, queridos.





Leiloca, uma delícia ver você soltando as feras, todas elas.




Alex, Ratnabali, Alex,
obrigado pela música que me faz rir e celebrar.



Iris, Mob, Vini, Nildo,
obrigado pela oportunidade de poder ser testemunha dessa conquista tão maravilhosa. Parabéns a vocês pela garra e pela esperança que faz Campina Grande vibrar com tanta emoção, comunhão e satisfação pessoal.

É um privilégio ter presenciado e construído esse evento porque acabo me sentindo parte da história dele. Um arcano de novas promessas, de um renascimento pessoal a cada ano.


Vista de Campina Grande capturada pelo grande Waldemar Falcão.
Saudade rimando felicidade, Mazinho!


Um viva à Nova Consciência.
Cada vez mais.

Amor,

Leo

19 de fevereiro de 2011

CISNE NEGRO [E ARCANO]





"...Um vasto conjunto de mitos, de tradições e de poemas celebra o cisne, ave imaculada, cuja brancura, cujo poder e cuja graça fazem uma viva epifania da luz. Há, todavia, duas alvuras, duas luzes: a do dia, solar e máscula; a da noite, lunar e feminina. Segundo o cisne encarne uma ou outra, seu símbolo inflete num sentido diferente. Se ele não se fragmenta e se quer assumir a síntese das duas, como é, por vezes, o caso, torna-se andrógino e, além disso, carregado de mistério sagrado. Finalmente, assim como existe um sol, e um cavalo negros, existe um cisne negro, não dessacralizado, mas carregado de um simbolismo oculto e invertido."

Chevalier e Gheerbrant são consultores para tarólogos no delicioso Dicionário de Símbolos. Delicioso é quando você lê críticas sobre determinado filme e acaba descobrindo que tudo não passa de um olhar espiritual e simbolicamente pobre de quem se preocupa com as indicações ao Oscar desse ano. CISNE NEGRO é o filme do momento. Li por aí que é um ritual mágico poderoso a ponto de livrar o espectador de todas as teorias furadas que levam a uma reflexão pessoal intensa. E válida, que é o mais importante. E é. Dá medo. Inspira o reconhecimento do inimigo interno, se querem bem saber. Aronofsky acertou em cheio.

Já assistiu? Prossiga. Não? Pare por aqui, se quiser.
Deslizo as considerações iniciais de uma discussão que ensaio agora.

Três arcanos pontuam, até o momento, o meu palco analógico. Nina confronta-se, é fato. A sombra furtando a cena. Dançam as penugens. Dita-se o DIABO nas instruções do mestre: o estímulo tonificado pela sensualidade. "Lição de casa: masturbe-se um pouco", permita-se o demônio da técnica. Nada tenso; tudo puramente sentido. Dentro. A legião oferta a noite à bailarina. Todo o tempo. A cor do cisne no lago revela a LUA. E é ali, no espelho, que a ferida é dúbia: quem, senão ela? A esquizofrenia impera nos detalhes. Lindamente. The little girl.

O balé de sangue é a poesia limítrofe ao corpo. Lá vem a sweet mom sapatilhar a incapacidade de Nina aguentar a pressão do Mundo... Até parece. É dela é que vem a perfeição. O MUNDO é da dançarina. É a dança. Completa em todo o seu esforço em ser ela mesma, de alguma forma entre o delicado e o selvagem. E superar-se, sentir a plenitude do perfeito, exige a morte. Mas seguida da luz dos aplausos.



Se você chegou até aqui e não viu o filme, tudo bem. Não deve ter entendido muita coisa. Se você chegou até aqui e viu, o que entendeu? A ideia é essa. A postagem é provisória. O lance é degustar o filme até surtir novos insights e captar aquela miríade de Menores ao longo das tomadas. Vamos lá.

Comente aqui no CAFÉ TAROT e também no Fórum LEITURA DE IMAGENS do Clube do Tarô, clicando aqui.




P.S: Valeu, Gi.
Ideias poderosas.


12 de fevereiro de 2011

A ARTE DE MANEJAR COLUNAS E LEÕES


The Force - Waite-Smith Tarot

Não existe arcano melhor ou pior, nem mais fraco ou mais forte. Existe o poder de cada um que nos toca de acordo com a nossa leitura de mundo. Com a nossa poesia pessoal. Tenho descoberto n´A Força uma grande aliada para solucionar problemas, sabe? Uma espécie de feiticeira que coloco em prática mentalmente. Dependendo do humor do leão, o olhar dela furta toda a atenção e joga o encantamento. Aí está feito. As mãos hábeis na mandíbula, as pupilas no alvo. Eis o controle. Coragem, palavra de ordem aqui.
La Force - Gringonneur
Outro dia, ao telefone com meu amigo Nei Naiff, conversamos sobre o que há de obrigatório para se ver sobre Tarot em Paris, já me programando pra viagem. Anotadas as dicas, me peguei questionando qual era mesmo aquele baralho em que O Louco é gigante e faz malabares e que a Força não tem leão, mas uma coluna – representação de uma das Virtudes cardeais, sempre presentes. Aquele que a LoScarabeo lançou com o nome de Tarot of the Renaissance, com bordas douradas e frufrus. Charles VI, outro nome famoso dele. “É o Gringonneur!”, bradou o Nei, “é o que chamam de Gringonneur”, e tudo me veio à mente. Passada a amnésia, fiquei com a A Força na cabeça. A coluna havia se quebrado há alguns dias, mais precisamente na minha resistência, quando passei por umas experiências nada agradáveis com mudança de casa e trâmites de fim de contrato. O arcano da vez, saquei, era mesmo A Força, exigindo de mim uma posição física e mental voltada totalmente para a ação. Mesmo com a gripe [a exemplar reação ao medo da mudança, segundo os metafísicos da saúde] mais forte que já peguei, temperada com nervosismo e uma longa viagem até a cidade em que eu estudo, comecei a mudança de casa e a mentalização da carta – plasmando na minha mente o sorriso indiferente da dama diante dos meros detalhes do cotidiano e assimilando toda a destreza necessária para concluir os compromissos sem tanta alterações de humor – e de saúde, né? Mimetizar o esforço da domadora, curvar-se para arrastar móveis e carregar livros a coluna da vez – para tomar consciência do meu corpo e do meu estado mental diante dos problemas e também das novidades. Uau, espelhar as lâminas é uma técnica mágica. O feitiço possível da imagem.
Tarocchi di Mantgna - FORTEZA XXXVI
Hoje, uma semana depois, sarei dos olhos vermelhos e da coriza: aceitei a minha vulnerabilidade. Percebi, compreendi e imitei internamente a serenidade que existe nos olhos daquela feiticeira de leões; a firmeza dos olhos tranqüilos daquela dama de véu negro, ciente de que o peso do pilar depende do quanto ela acredita que pode agüentar. Entendi que acreditar somente no que desejamos ou tememos não é muito saudável. O que vale é penetrar no caos e mostrar as garras. Assim resolvi todas as burrocracias junto de pessoas queridas e já não penso “ah, tá louco, não quero nunca mais passar por isso”, mas sim “ótimo, eu consegui. Agora extraio sabedoria dessa situação para enfrentá-la com toda a coragem se algo parecido ou pior me acontecer”. Aprendi a ter segurança diante da incerteza e do improvável. Enaltecer sincera e coerentemente a magia pessoal é opção e responsabilidade cada um. Por isso o trabalho com o arcano felino já faço há anos, mas sob a égide da virtude começo agora. Em mãos o meu Tarocchi di Mantegna.

Um beijo corajoso aí,
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L.
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P.S.: Nei, vi o link do Renaissance da Lo Scarabeo que você mandou, mas eu queria mesmo é uma réplica do original. Nada bobo eu, né?
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IMAGENS | galerias do Clube do Tarô. Aliás, clique aqui e saiba mais sobre o Gringonneur que não é o Gringonneur.

9 de fevereiro de 2011

4 de fevereiro de 2011

TRABALHANDO COM O JULGAMENTO




Há alguns dias recebi um e-mail bastante verdadeiro de uma leitora.
Clara* é mãe de dois filhos, trabalha e não tem marido. Comentou do contato com o Tarot e com a Astrologia que mantém há 20 anos, do jogo de cintura para dar conta do trabalho e da doença do filho e ainda da dificuldade em se abrir para um novo romance, uma nova empreitada pessoal. Para entender melhor o momento, Clara escolheu um arcano. Veio O JULGAMENTO. Alegou que não tinha encontrado muita coisa aqui no Café e me pediu algumas palavras para meditar um pouco.

Pois bem. O Julgamento. Desde 2005 tenho desenvolvido uma prática bastante eficaz para o treinamento da intuição: O TRABALHO COM O ARCANO, ou DIÁLOGO COM O ARCANO. Nesses seis anos pude vislumbrar a pluridimensionalidade de cada um por meio da conversação e da meditação, ouvindo as vozes e as mensagens tão certeiras e precisas. Mas sempre, claro, com os pés no chão. Sem nenhum tipo de devaneio esquisotérico que me jogue longe da coerência simbólica e pessoal. Aliás, incoerência é o que tenho visto por aí com a maioria dos interessados no assunto se mostrando verdadeiros consumistas de baralhos bonitinhos e diferentes, abarrotando as redes sociais com informações vazias e achismos sobre o que um arcano faz ou deixa de fazer. Mas isso é outro assunto.

Surgite ad judicium. É prudente trazer o arcano pra você, Clara. Mesmo já respondido o seu e-mail, fiquei pensando que a sua experiência com o Tarot poderia lhe ajudar a entender melhor o que este arcano escolhido exige de você e também o que ele lhe oferece. Primeiro, analise a imagem. Para "abri-la", é preciso familiarizar-se com ela. O trabalho começa quando você se dispõe a lê-la, a ouvi-la. Como um livro repleto de figuras, em que a narrativa está plasmada nas cores e formas. Pense num arcano isolado como uma página crucial para o entendimento do livro.

O que vem primeiro à mente? A imagem fala, o que você ouve?

Intuitive Tarot, Cilla Conway.

O Renovador, o Renascimento, o Juízo... Anote tudo o que a figura está mostrando e parta depois para o que você sente, que é um passo da interpretação. Ela exige, num primeiro momento, uma postura emocional ainda mais forte e confiante de que tudo pode ser extremamente positivo e diferente daqui pra frente. Você acredita em você? Então está na hora de reconhecer e respeitar a sua intuição. Respire fundo sempre que tiver alguma folga. Sinta o seu corpo. Sinta o seu coração batendo. Atitudes simples como essas lhe ajudam a redefinir contato com você mesma. Sem esse contato, sem aceitar a si mesma, incondicionalmente, nada funciona bem. Reconheça o seu corpo, aceite o amor e abrace as novidades. Unir o Céu e a Terra: um equilíbrio possível entre adversidade e descanso, prazer e esforço. É o que O Julgamento lhe traz de início.

O TRABALHO COM UM ARCANO é uma técnica poderosíssima de diálogo, de interação e sobretudo de humildade diante dos arcanos como mestres. Lá na
Revista tenho mostrado a intrínseca relação entre a imagem e o leitor, que somos nós - tarólogos ou consulentes. É importante também, durante uma consulta, deixar que a pessoa veja e/ou toque as cartas escolhidas, mesmo se não tiver nenhum conhecimento do assunto e estiver interessada apenas nos resultados. É difícil tentar definir a variedade de efeitos que uma imagem pode surtir no inconsciente humano, mas o contato é sempre necessário. É assim que podemos perceber nossas próprias fábulas e nossas alegorias mais secretas sobre nós mesmos. A sabedoria e a bem-aventurança vêm daí.



Sei que a mensagem foi positiva para você, Clara. Continue com ela. Um arcano é inesgotável, como a vida em todas as suas páginas. Com o maior respeito e gratidão, desejo que o seu caminho seja repleto de significado e verdade.

Leo



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* Nome fictício.

2 de fevereiro de 2011

ODOYÁ, MINHA MÃE




A todas as suas faces, mistérios, trunfos e bênçãos.
Que a tua magia seja sempre a água das palavras e dos gestos de amor.
Sempre grato, sempre seu,

L.