15 de dezembro de 2008

ARCANOS NA PINTURA MUNDIAL I

Ontem eu estive garimpando na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Encontrei tarôs novos, livros de astrologia pra alimentar meu renovado interesse no assunto e a "BRAVO! Especial 100 Obras Essenciais da Pintura Mundial" na revistaria, pra instigar meu gosto por arte.
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Antes de rasgar o lacre, já pensei no que ia fazer por aqui: elencar as obras que mais tem a ver com nossos amados arcanos. Não é um tarefa fácil, mas também nada impossível. Nesta parte da "mostra" estão as onze cartas iniciais, totalizando os 22 arcanos maiores ao lado das obras associadas. Cada uma traz tanto os atributos conceituais quanto às semelhanças visuais entre as figuras. Começo com a tela mais famosa do planeta, que obviamente ocupa o primeiro lugar no ranking da publicação:
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MONA LISA Leonardo Da Vinci
A SACERDOTISA
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Assim como a mulher retratada em 1500, o segundo arcano maior é digno de todos os mistérios que cercam sua identidade. Seu sorriso enigmático é a prova de que a pintura penetra com força e ao mesmo tempo sutileza o subconsciente do observador, convidando-o a adentrar em seus véus de significados prováveis, porém nunca conclusivos. As palavras-chave mais comuns aos que admiram La Gioconda são reclusão, segredo, charme , serenidade e até mesmo sensualidade - características encarnadas na papisa do tarô.
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AULA DE ANATOMIA DO DR. TULP Rembrandt
O MAGO
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Certo, eu inverti a ordem arcana justamente pela importância da primeira tela. Mas aqui, não menos importante, temos Rembrandt, que é capa do famoso A Hora das Bruxas, de Anne Rice. Ilustra, especificamente, os atributos do Mago com o florescimento da anatomia no campo da ciência, nos idos de 1632. O tabuleiro do prestidigitador no Visconti-Sforza se torna um cadáver experimental. E não é de experimentos que se faz um mago digno de fama? A escuridão dourada do antigo trunfo dialoga com a penumbra do pintor holandês. O Mago, assim como o anatomista, lida com as realidades - mesmo que internas - do ser humano.
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A VÊNUS DE URBINO Ticiano
A IMPERATRIZ
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Ticiano, o veneziano. Há quem não goste de suas telas, mas eu não nego: sou fã. Esta Vênus, com toda a sensualidade imperial possível, é digna de estar entre as 100 obras. Mostra a feminilidade com pureza e erotismo, características que espelham a carta do tarô. Não é a minha preferida, mas agrada. Contrastam as curvas do corpo com a figura de Frieda Harris, cujo escudo dá lugar ao cão e à empregada - símbolos puros de fidelidade e proteção. Entre tantas telas possíveis para este arcano, escolhi essa pela composição e pelas impressões causadas quando a lemos: majestade, conforto, poder e libido. Imperatriz, portanto.
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RETRATO DE CARLOS I DA INGLATERRA
Anthony Van Dyck
O IMPERADOR
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A tela de Van Dyck mostra o monarca Carlos I a frente de seu cavalo e diante de uma bela paisagem. Embora não tenha sido imperador, a tela de Carlos I desbravou a tradição dos retratos aristocráticos até o século 18 em seu país. O monarca acabava de voltar de uma caçada, mas ao lado do quarto arcano maior, pode-se vislumbrar que todo o local é de seu pleno domínio. Não é para o império que o governante fita do alto de seu trono? Van Dyck cristalizou o conceito de nobreza elegante ao versionar personagens da corte em posturas rígidas, altivas e confiantes - como um imperador deve ser.
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ESTUDO A PARTIR DO RETRATO DO PAPA INOCÊNCIO X DE VELÁZQUEZ Francis Bacon
O SACERDOTE
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Assusta, né? Mas aqui não vou apelar aos atributos maldignificados do arcano. Me limito a associar a carta à obra que consta na revista. Bacon, no último ano da década de 40, pintou o que chamava de realidade "crua", destoando da tela original de Velázquez. Afinal, não se importava com interpretações ou releituras, queria mesmo era criar. De tão desprendido de seus trabalhos, não ligava de desfazer-se deles. Os papas aqui dialogam na semelhança da posição - e só. O que Bacon considerava como crueza, se encontra por trás do arcano. Como nos dias de hoje, com o sumo-sacerdote do Vaticano que não expõe à toa seus ideais.
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O BEIJO Gustav Klimt
OS AMANTES
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Eu não podia deixar de usar o próprio Tarot de Klimt, publicado pela Lo Scarabeo, para ilustrar o sexto arcano maior. A tela marca o auge do Art Nouveau e está impressa em todo o tipo de material, no mundo todo. Klimt, como o tarô, é pop. Ao pintar indecências e mesclar indivíduos apaixonados, tornou-se um dos artistas mais conhecidos do Ocidente. Muito ouro, muito brilho e pouca modéstia ao criar os quadros mais impressionantes e atraentes que a Áustria já teve. Sua liberdade fala alto à carta do tarô: entrega, desejo, sedução, envolvimento - alguns dos atributos do arcano da encruzilhada amorosa.
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TAMARA NO BUGATTI VERDE Tamara Lempicka
O CARRO
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Contemporânea de Picasso, Gide e Cocteau, Lempicka nasceu na Polônia e mudou-se para a França ainda jovem. Pintada para a capa de uma revista de moda, a tela associada ao sétimo arcano maior garantiu sua permanência entre os maiores nomes da art déco. É a imagem da mulher independente que guia sua vida como bem entende. Assim também ocorre no Housewives Tarot, escolhido especialmente pela cor do carro em ambas as figuras: as duas mulheres fazem suas compras e, mais que donas de casa, são donas dos seus próprios narizes. A ousadia do poder feminino na década de 50, com tantas revoluções, pode também dialogar com a época de Lempicka, bem antes, em 1925, com sua liberdade. Vivenciou a boemia cubista parisiense e surpreendeu o meio pelo seu hedonismo. Livre, como o auriga do Carro se sente.
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FIGURA DE MULHER Juan Gris
A JUSTIÇA
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Outro nome do cubismo, desta vez analítico, é o espanhol Juan Gris. Conhecido por suas expressões puramente intelectuais, longe de convenções artísticas batidas, sua tela se equipara à oitava lâmina especialmente pelo seu caráter mental de concepção. Trabalhando dedutivamente do abstrato para o concreto, é nítida a característica da Justiça: o pensamento, a intuição que se cristaliza em razão. As imagens conversam pela posição, como no Papa. A espada que a mulher empunha no tarô Morgan-Greer se confunde com alguma das linhas retas que dão impressão de corte, de justeza. Criador do cubismo "sintético", Gris incentivou as pesquisas sobre esta escola com toda a consciência de um artista que se basta. E claro, de uma carta que fala por si.
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A CIGANA ADORMECIDA Henri Rosseau
O EREMITA
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Relutei por um momento em "arcanizar" A Cigana Adormecida, mas a gama de pinturas que a publicação oferece me obrigou a isso. Pensei nela como arcano 11 devido ao leão, mas aqui não há situação de força ou domínio braçal de feras. A tela, que já foi ridicularizada e também chamou a atenção de Picasso, está fora de qualquer escola ou movimento artístico. Ela expressa sua visão particular do mundo, sugerindo toda a fantasia noturna que permeia o solitário do tarô - que também não se encaixa em vanguardas. A não ser, é claro à sua própria e íntima verdade. Os montes da imagem do Secret Tarot parece ligar-se aos da cigana, dando uma idéia de continuidade.
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O PARAÍSO Tintoretto
A RODA DA FORTUNA
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Outro veneziano, desta vez conhecido pelo tradicionalismo renovado e impactante, Tintoretto é dono da única obra do acervo que sussurra a circularidade e a idéia de hierarquia da carta do tarô. Influenciado por Michelangelo e Ticiano, o pintor conseguiu criar magnificamente o turbilhão de emoções das almas que ascendem ao paraíso. Toda a jornada de Dante Alighieri e toda a jornada humana, em suas voltas, seus altos e baixos. Outra aproximação do arcano seria refletir sobre a boa fortuna de poder alcançar as moradas eternas. Não é pra qualquer um.
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RETRATO DE MARIE-THÉRESE WALTER Pablo Picasso
A FORÇA
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Picasso conheceu Walter na saída das Galerias Lafayette, convidando-a para ser modelo de algumas telas. Mesmo casado, com 45 anos, o artista se apaixona pela garota de 17 que se torna sua amante. O diálogo com a carta do tarô se dá, antes de tudo, pelas semelhanças - a lemniscata camuflada nos chapéus, as roupas requintadas e o rosto pacífico. Em seguida, se associam pelo caráter erótico da pintura e os atributos sexuais que a lâmina carrega. A atmosfera da época, para o artista e para a jovem, era de luxúria, prazer e distorção de formas, como vemos aqui de forma serena no retrato. Deu-se o florescimento de Picasso, desabrochado espontaneamente, quando a jovem surgiu em seu caminho criativo e o fisgou. No fim, Marie-Thérese disputou o homem com outra mulher e enforcou-se aos 68 anos. Mas esse detalhe não diz respeito ao arcano em questão - que inspira a beleza, a diplomacia e o domínio silencioso sobre a fera - no caso, o gênio dos pincéis.
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Tarô é arte, indiscutivelmente. Quando leitores, estudantes ou curiosos me perguntam sobre a importância de associar as cartas à cultura popular, às cenas cotidianas e mesmo às obras de um museu, eu digo que é justamente para aprender a enxergar a vida - porque as cartas são espelhos da realidade que conversam com as cores, com as fantasias e com as idéias que temos por trás dos olhos. Faz bem. Por isso eu continuo em breve.
Aguarde.
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Leo

12 de dezembro de 2008

MOMENTO PERSONARE

Não é de hoje que eu adoro o Personare. Ele é o melhor portal sobre astrologia e tarô desse país, já alcançando o mundo todo pela qualidade dos produtos e pelo investimento sério na evolução pelo conhecimento.
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Neste exato momento é lançada a Revista Personare, reunindo ótimos profissionais de diversas áreas da saúde, dos oráculos e do bem-estar.
Um mundo de artigos, dicas e testes para turbinar sua vida com o que há de melhor. Confira!
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Nos vemos por lá, com toda a Estrela.
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Leo

9 de dezembro de 2008

MOMENTO ASTROLOGIA



Em Sampa, mais uma vez.
Aqui, na cidade-tudo, as coisas acontecem. Vim assistir ao evento de lançamento do livro Segredos & Estilos - A arte da interpretação do horóscopo, ministrado por sete dos melhores astrólogos do país. O resultado? Bom, não há resultado, apenas projeções pra lá de positivas de que o livro alcançará um belo espaço ao Sol nas livrarias e estantes de profissionais e estudiosos da área. Aliás, foi nesses dias que o impulso astrologia tomou conta do capricorniano aqui com força - Sasportas e Greene saindo dos armários!


De quebra, fui conferir a nova Gaia, a super escola de astrologia onde estreei meu lado palestrante com todo o nervosismo que tive por direito. Ficou maravilhosa! Um show de lugar com o melhor astral possível. Fica na Vila Mariana. Preciso dizer mais alguma coisa?

Ah, preciso: meus parabéns aos astrólogos pelo livro e a Robson e Luiza pelo novo espaço da Gaia. As pessoas acontecem também - valeu Marilene Lucchesi e Alexandra, cariocas pra lá de queridas que badalaram nossos dias com trânsitos, táxis e progressões. Adorei!


Até a próxima!
Meu beijo,
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Leo
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P.S.: Prometo, gente. Além das cartas, os mapas estarão ao lado da caneca. Como sempre ouço, "astrólogo sem Capricórnio não dá"!


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Gaia - Escola de Astrologia

5 de novembro de 2008

A ONDA DO NOVO IMPERADOR


Estava nas cartas: campanha da escritora e taróloga Kris Waldherr.

A vitória veio dia 4 de novembro, dia do Imperador. É sempre bom lembrar que esse é o número da ordenação do mundo material e do exercício político – são quatro os cantos da Terra, são quatro os anos de um mandato e são quatro as virtudes cardeais que um governante deve desenvolver, disseminar e aprimorar constantemente ao longo de sua gestão (justiça, prudência, temperança e força). Aliás, é o dia de Barack Obama, nascido no dia 4 de agosto de 1961, puramente leonino que se impõe, fazendo jus ao arcano de seu dia.





O Imperador Barack Obama: leonino, ígneo, líder.

Até a posição das pernas do desenho formam o número, dando a entender que ele não só conhece com a mente mas também compreende de modo mais básico, arraigado, as responsabilidades que incorpora como portador da consciência humana, afirma Sallie Nichols, a comentadora jungiana mais famosa entre os tarólogos.

Ah, e são quatro os elementos que coordenam e dirigem o universo. Falando nos Estados Unidos, fala-se também desses elementos unidos, de arcanos sintetizados – O Mundo, óbvio. Símbolo da maior realização que o tarô pode apresentar, esta carta congrega toda a estrutura do baralho. Um espelho em que se reflete e se resume toda a organização espacial e simbólica possível. Posso ver claramente a figura central, alegoria da anima mundi, como a famosa Estátua da Liberdade que, quando era apenas um conceito abstrato, ganhou uma iconografia de acordo com as circunstâncias políticas em mutação – assim como as cartas de tarô têm mudado de acordo com o talento dos artistas e com a visão de mundo dos tantos idealizadores.


O Mundo de Frieda Harris e a Liberdade americana.
Mais que uma imagem, mais que uma estátua.

E esta Liberdade, rodeada de poderes, deve iluminar a nação, o que permite uma aproximação estética ao nono arcano maior, O Eremita. Aliás, Obama é o que acorda os antigos exemplos de democracia, de sonho e de realização. Não está sozinho. Com o apoio incondicional de celebridades, políticos e da comunidade negra como um todo, seu sucesso nas urnas era previsível. Ouvi comentários astrológicos de que venceria um representante de minorias: ou Hillary, por ser mulher (já que são poucas os nomes femininos no poder), ou Obama, que dividiu e isolou a opinião pública como o favorito da vez. Falando em poder, destaca-se a torcida mais que notável da apresentadora de TV mais famosa que existe: Oprah Winfrey.



Michelle fica por trás. Por enquanto.

Eleita uma das 100 pessoas mais importantes do século 20 pela TIME, ela é a Imperatriz americana que abre o bolso quantas vezes forem necessárias pelo novo presidente. É a primeira negra bilionária da história de mãos dadas com o primeiro presidente americano negro. A América é negra. O mundo é negro.




Os Imperadores e a Terra Prometida. Hora de sonhos e ideais se tornarem realidade.
Tarot Visconti-Sforza.



"I have a dream."
Considerado o político pós-Martin Luther King, Obama impõe a erradicação das diferenças. É a tentativa de mudança da mentalidade da nação mais poderosa do planeta por meio de sua própria imagem – o negro que alcançou o pódio. O fim de uma era de trevas para um renascimento.



Com o fim do governo Bush, a chama se mantém acesa.
Arte de Alex Ross e estampa da campanha Obama 2008.


“Yes, we can!” Várias são as teorias místicas sobre a vitória de Obama, o messias que eu exponho ao Sol. A promessa, o divino, a mudança.

O Sol de Crowley e o Sonho da América.



TRÊS ARCANOS PARA OBAMA
POR MARTIN LUTHER KING


A Justiça
“Sonho com o dia em que a justiça correrá como água e a retidão como um rio caudaloso.”

O Julgamento
“As pessoas oprimidas não podem permanecer oprimidas para sempre.”

A Estrela
“Com esta fé nos poderemos cortar da montanha do desespero uma pedra de esperança.”




Estrela que renova.



“Que de cada localidade, a liberdade ressoe.”
Eis o sonho americano - o arcano Barack Obama.



Leo

18 de outubro de 2008

A PEDRA DO REINO (de Copas)



"O Ás de Copas da Paraíba"
"Coração na Mão", arte de J. Borges (clique aqui para conhecer sua obra).


"A PEDRA DO REINO" é um romance do escritor paraibano Ariano Suassuna,
transformado em microssérie pela Rede Globo em 2007.







SITE OFICIAL

4 de outubro de 2008

DEMÔNIO



Funda luz cegadora de matéria rangente,
luz oblíqua de espadas e mercúrio de estrela,
anunciavam que o corpo sem amor chegava
por todas as esquinas dum aberto domingo.

Forma da beleza sem nostalgias nem sonho.
Rumor de superfícies libertadas e loucas.
Medula do presente. Fingida segurança
de nadar sobre a água com o torso de mármore.

Corpo de beleza que palpita e que se escapa.
Um momento de veias e ternura de umbigo.
Amor entre paredes e beijos limitados,
com o medo seguro da meta incendiada.

Belo de luz, da mão que tateia, oriente.
Vendaval e mancebo de riços e moluscos.
Fogo para a sensitiva carne que se abrasa.
Níquel para o soluço que busca Deus voando.



Federico García Lorca, 1928.

Tradução de Oscar Mendes.

17 de setembro de 2008

ARCANOS EM BRANCO

UM ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA NAS CARTAS DE TARÔ



"Um motorista, parado no sinal, subitamente se descobre cego. É o primeiro de uma 'treva branca' que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos vão descobrir reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas". Esta é descrição inicial do livro Ensaio sobre a Cegueira, livro de José Saramago publicado em 1995 e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura. Neste ano, mais precisamente na última semana, foi lançado BLINDNESS, filme do brasileiro Fernando Meirelles baseado na obra do escritor português. Pode parecer impossível, num primeiro instante, analisar obras literárias e suas adaptações cinematográficas sobre o prisma do tarô. Impossível, no entanto, é deixar de fazer associações e encontrar pontos comuns que dialogam com os sentidos – principalmente com a visão, a primeira e a mais importante necessidade dos que se propõem a mergulhar no âmago das cartas.

Comecemos refletindo. E se todos os personagens das cartas forem cegos? Tentadora proposta: Na carta d´O Sol, duas pessoas se tateiam para constatar que se conhecem. Mãos errantes. O Eremita, obviamente, é aquele que movimenta a bengala a fim de saber por onde pisa. O Papa não vê aqueles que abençoa, percebe? Não imagina onde estão os tais fiéis e nem nota a mão de um dos cegos, estendida aos seus pés. O auriga d´O Carro é guiado pelos animais sabe-se lá para onde e até quando.



Após a explosão d´A Torre, os sobreviventes apalpam o solo para, talvez, encontrar abrigo dos destroços esféricos. A mulher banhada pel´A Estrela não saberia, portanto, que verte as ânforas em lugares impróprios – mas se todos estão cegos, ou melhor, são cegos, qualquer lugar é oportuno. A terra não é de mais ninguém, é de todos. Eis o paradoxo (do) invisível. A fome aumenta progressivamente e com ela a sujeira e o medo. Daí as andanças erradas d´O Louco, todo maltrapilho, seguido por um cão – esses sim, os animais, continuam vendo – dando espaço a qualquer conforto até que a chuva possa ser vista pela pele e as orações aos céus, clamando pela cura, possam ser ouvidas por alguma coisa, como no dia d´O Julgamento. Enxergam, sim, os cegos.





Essa viagem às trevas, talvez providenciada pelos olhos atentos do Diabo, seja uma oportunidade de resgatar a essência de cada um. O mar de leite é como o papel em que esboçam reis, luas e bufões. É nele que são reduzidas as pessoas, as coisas os mundos e suas visões. Sem nomes. A leitura se dá pelo tato e pela audição. Aprimoramento de sentidos em meio à miséria, ao vazio, ao alheio particular. Aliás, "quantos cegos são necessários para fazer uma cegueira?" O contágio é a forma de atingir a todos os humanos, um requisito imposto e aceito sem discussão à nova forma de vida e visão de si. E do Mundo, obviamente. Aqui se vê, o motivo de todos os protagonistas – da obra e do tarô – permanecerem de olhos abertos em direções distintas, independente da seqüência ou cena escolhida. Cada arcano olha. Nós reparamos. A Justiça nos olha e O Sol nos ofusca, jogando por terra a convencional escuridão. O branco é denso e uniforme, metáfora da iluminação súbita do homem e sua atitude a partir dessa novidade. Ambos os arcanos encaram quem se dispõe a manusear o baralho. Mas nos cega ou nos clareia a visão do enigma?


“O mundo está aqui dentro.” Aprisionados num manicômio – rapidamente associado às masmorras perturbadoras do 15º arcano ou mesmo a sinistra construção do próximo, a Casa Deus, espreitada por soldados do governo – a tela clara seria, então, um despir de máscaras do homem que, mesmo sem ver, ainda mascara sua desumanização, sua real cegueira. Despida, aparece brutal, animalesca. A narrativa tece os limites da necessidade, da paciência, da racionalidade.


A Torre de Aleister Crowley e Saramago, aquele que tudo vê.

O elenco não podia ser melhor. Gente branca como Julianne Moore e Mark Ruffalo, negra como Danny Glover, oriental como Sandra Oh, trabalhador comum, vivido por Gael Garcia Bernal e até prostituta, na pele de Alice Braga, estrelam a variedade de raças, idades, ocupações, nacionalidades e classes sociais. Variedade que deixa de existir quando a onda precipitada do mar de leite bate em suas vidas. Tais diferenças mostram que o inexplicável alcança a todos, aproxima e iguala as coisas. As pessoas. Boa sacada. Tanto do gênio português quanto do diretor fiel, já que no livro o leitor é inicialmente cego quanto à verdadeira natureza desses personagens.


Amparo natural: A Estrela e a prostituta (Alice Braga) vendo a chuva com a pele.

O caos que se instala na cidade anônima é o mesmo da cidade invisível em que atuam os arcanos do tarô. Um mundo de possibilidades num só olhar. Daí a importância da advertência escolhida pelo grande Saramago no espaço inicial da obra, retirado do Livro dos Conselhos de El-Rei Dom Duarte. Mais que uma premissa a uma leitura atenta do livro, é um mandamento ao estudo do tarô em toda a sua plenitude. “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” Reparar é libertar-se da superficialidade da visão para então aprofundar-se no interior daquilo que é o homem e, por fim, conhecê-lo. A cegueira é uma alegoria para a crise progressiva das sociedades capitalistas do século XX em diante, aproveitando o caráter atemporal da obra. Mostra os limites entre civilização e barbárie, rompidos pela nova ordem do todo. Pode, ainda, ser entendida como sintoma ou desencadeamento final da alienação do homem em relação a ele próprio.


Tato e dependência: detalhe do arcano O Sol e Julianne Moore com Mark Ruffalo.

A história também gera reflexões a respeito da inconsciência humana à ligação entre verdade e mecanismos de poder propostos pelo imponente Imperador, o arcano quatro que tudo vê de seu trono absoluto. As regras humanas são quebradas pelo abuso da força daquele que ousa enxergar, fazendo com que o instinto de sobrevivência tome conta dos demais. Repagina-se a corrupção, o adultério, a raiva e a insensibilidade, elementos também constantes no novo mundo. E claro, “em terra de cego, quem tem olho é escravo”. Ou dos outros ou da moral que lhe resta, até o dia da desforra que cega e liberta. “Organizar-se é, de certa maneira, começar a ter olhos.” Há um momento em que se faz possível a chance de uma reorganização. A realidade foi modificada pelo fenômeno e agora os que resistiram a ele devem lapidar mais uma vez sua visão de mundo. Os valores de respeito mútuo e igualdade são então deturpados, mas não extintos. A mulher do médico, a única que enxerga, conserva compaixão e preocupação – talvez derivados do amor ao marido.



A Justiça é cega. Ou finge ser, como a personagem de Moore. Empunha uma espada (aqui no caso uma necessária tesoura) e uma balança, metáfora da justa medida, do equilíbrio entre extremos – enxergar ou não, agüentar ou ceder e a violência. Ou moral. Nudez da alma. A ausência de localidade e época específicas eterniza a amplitude narrativa, já que qualquer cidade regida pelas políticas e desigualdades pode servir de palco a esses contrastes gritantes. O autor faz um necessário convite à revisão de conceitos e uma nova consciência do ser humano enquanto cidadão do mundo. E se pensarmos no tarô como um conjunto indissolúvel, em que cada lâmina não é nada sozinha – e é tudo, por ironia simbólica –, podemos parafrasear com os protagonistas que, ao permanecerem juntos, experimentam momentos fraternos. Humanos de destinos incertos.



Retirantes - O Louco, o destino e os passos da rainha que tem olho.

Entre as suposições científicas sobre a causa da treva branca, está a agnosia (a-gnosis, perda do conhecimento), a deterioração da capacidade de reconhecer ou identificar pessoas, objetos, formas e símbolos a partir de um sentido físico – uma alteração intermediária entre as sensações e a observação, no caso. Já a amaurose, a perda parcial ou total da visão sem lesões no olho em si, apenas com afecções do nervo óptico ou mesmo dos centros nervosos, é cogitada durante a narrativa como a possível razão do fenômeno inesperado. Cor do leite. Essas trevas brancas que assombram os personagens iluminam suas percepções e a história acaba sendo não só num registro da sobrevivência física das multidões cegas, mas também de suas vidas espirituais e da dignidade que tentam manter. Mais do que olhar, importa reparar no outro. Só assim humanizam-se, ajustam-se.


Fiquemos em quarentena com as cartas. Eis o ensaio da vida, estampado no branco. A cegueira humana que carrega mil segredos e motivos a serem vistos por qualquer um e qualquer coisa. Branca, como a razão. Negra, como as sombras.
Vejamos o melhor e o pior de nós.
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Viu?
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Leo
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3 de setembro de 2008

NOTA DE PARABÉNS



FELIZ ANIVERSÁRIO,
CAFÉ TAROT !


Se o último ano foi bom, esse novo promete. Obrigado a todos por estarem sempre por aqui. Que cada letra e imagem sirva de inspiração ao estudo e à prática do tarô, a arte que espelha a vida. Vida longa!

22 de agosto de 2008

9 de agosto de 2008

ERA SÓ O QUE FALTAVA





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AGUARDE.