25 de junho de 2010

MICHAEL JACKSON II


Archangel Michael | David Lachapelle

Mas já?! Um ano passa voando, meus deuses. Mais rápido que o Homem de Espadas.
Vejam bem, não quero que esse blog vire um cemitério arquetípico, mas foi impossível deixar esse aqui passar batido.
Pelos poderes do incrível David Lachapelle, o mártir da vez ganha vida.
Ainda mais.


Peace, Michael.
You need it.


L.

18 de junho de 2010

Fecha-se o caderno.



Para ti, saberás, não há descanso,
A paz não é contigo nem fortuna:
O signo assim ordena.
Pagam-te os astros bem por essa guerra:
Por mais curta que a vida for contada,
Não a terás pequena.

SIGNO DE ESCORPIÃO | José Saramago
(1922 - 2010)
in Os Poemas Possíveis
Editorial Caminho, Lisboa, 1982.


Foi um susto.
Anteontem descobri os poemas dele.
Vasculhei a internet e soube que Os Poemas Possíveis e Provavelmente Alegria, os dois volumes de poesia, não estão nas prateleiras do Brasil. Pela Einaudi, casa de livros italiana, saiu o Le Poesie, reunião dos dois títulos que trazem ainda os originais em português. Minha chance. Ontem fui correndo até a livraria antes que fechasse. Voltei feliz pra começar a entranhar os escritos hoje. Hoje, justo o dia em que Ela foi visitá-lo.


É, são as intermitências.
Por que as coincidências, tsc tsc, não acredito nelas.


L.



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O ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA NO TARÔ
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7 de maio de 2010

MATERNIDADE


Fernand Khnopff & Joséphin Péladan - Istar, 1888.

Uma mãe de ponta cabeça é espelho de infinitas injustiças.

Ainda mais pra quem nunca foi uma.

Inútero. Treva.



Charles Maurin - Maternity, 1893.

Privada das dores do parto. Mas apenas dessas.


Que loucura, meus deuses.


L.

28 de abril de 2010

QUATRO MULHERES DE NINA SIMONE



Quase me esqueço e deixo passar. Foi num dia 21 de fevereiro que ela veio e num 21 de abril que deixou o mundo. Ela, o arcano 2 da música negra. O título não é meu; era e ainda é conhecida assim. Firme na luta contra o racismo, apanhava da vida.



Rainha, além disso. Rainha no plural, quatro vezes. Basta sentir “Four Women”, escrita por ela na década de 60 para denunciar a tristeza das mulheres negras. Foi proibida nas rádios americanas por ser considerada um insulto à raça. É, não me pergunte o porquê. Mas para Nina, a força desses arquétipos cantados fez com que ela não parasse mais. Uma Papisa sempre debruçada sobre seus propósitos, tecla por tecla. Carregava, em cada célula, um pouco das quatro Rainhas. Um naipe a cada nota. Até emprestou a voz ao enterro de Martin Luther King, numa época de preconceito, de perigo e de muito medo.

Sob a égide d´A Justiça, Nina não cantaria; lutaria com outras armas.
Ao invés disso, encarnou a tonalidade mais forte da sábia com o livro - várias as páginas em que escreveu igualdade, respeito e amor. Morreu dormindo em casa, na França. 70 anos completos de performances e figurinos. De sereia que assusta. Yeah, I put a spell on you.


FOUR WOMEN / N I N A S I M O N E




My skin is black
My arms are long
My hair is wooly
My back is strong
Strong enough to take the pain
Its been inflicted again and again
What do they call me
My name is Aunt Sarah



My skin is yellow
My hair is long
Between two worlds
I do belong
My father was rich and white
He forced my mother late one night
What do they call me
My name is Siffronia



My skin is tan
My hairs alright, its fine
My hips invite you
And my lips are like wine
Whose little girl am I?
Well yours if you have some money to buy
What do they call me
My name is Sweet Thing




My skin is brown
And my manner is tough
Ill kill the first mother I see
Cos my life has been too rough
Im awfully bitter these days
because my parents were slaves
What do they call me
My name is Peaches





Forever,
little one.

Peace,



L.


P.S.:
Andaram me perguntando como se começa a ler o tarô. Respondo: lendo imagens, lendo pessoas, lendo música. É só fazer um esforço, com o mínimo de criatividade. É, pode-se pensar que uma vida é sempre pouco para compreender todo esse mapa dividido em 78 partes, assim como é pouco para lutar por uma causa, com tanta injustiça e covardia por aí - e me vem agora Nina cantando It´s cold out here. É interpretando essas figuras, no sentido teatral do termo, que se encontra a humanidade. Depois - esperamos - a consciência se encarrega do resto.

22 de abril de 2010

A COMPANHIA

QUEM TEM MEDO DO ARCANO 13?

Todo mundo, né? Ah, é sim.
Lá no fundinho, no cotovelo da alma, você também tem.


Aqui na Itália tenho pensado bastante nisso. No clichê da transformação, então, nem se fala.
Tenho medo de avião cair, sim, fazer o quê? Mas sempre voo sem problemas, entrego minha vida à sensatez dos pilotos. Segurança, aonde nesse mundo? E pra quê? Mas há um prelúdio para a morte, por assim dizer. Não só prelúdio, mas uma das verdades absolutas da vida: a solidão.



E do arcano 9, ninguém tem medo?
Opa, se duvidar até mais.
Alone in your own. Ou a sabedoria dos anos lhe confere uma companhia agradável? Bom, o senhorzinho encara o esqueleto, não tem medo. Joga luz aos ossos. Ambos da mesma altura. Olho no olho. Reconhecem, com as corcundas do tempo, que são irmãos tão próximos, tão naturais. E me sentir velho, com a configuração astrológica que carrego e ainda mais nessa terra, é só o começo pra trabalhar essas noções. Ah, essas máximas...

Qual a relação que vocês têm com a Morte? E com o Eremita? Me lembro que desmaiei três vezes (por motivos e em dias diferentes) enquanto escrevia um artigo sobre a Sem Nome. E vou guardá-lo ainda por mais um bom tempo.

Fiquem bem.


L.

2 de abril de 2010

MINCHIATE DI FIRENZE

E no tarô eu vi escrito uma cidade.
Vi mesmo.



Giudizio - Duomo di Santa Maria del Fiore

29 de março de 2010

UNA BELLA DOMENICA



Estou morando em Perugia, na Itália. Aqui a vida é do jeito que eu gosto, com seus horários, tempos vagos pra preencher com caminhadas, estudos e trabalho no conforto que me é concedido. Vim também com a intenção de pesquisar e garimpar material sobre tarô pra acrescentar uns temperos a mais no que se anda produzindo no Brasil.

Confesso que os meus compromissos e também a fotografia consomem tempo demais pra me dedicar especificamente a essas ideias. Mas existe a fúria. E existem os acasos e as surpresas, que me fazem ainda mais feliz nesta terra tão capricorniana já enraizada no meu peito.



Outro dia tive um sonho: viajava até San Marino, onde existe a loja física da Alida Store pra comprar um Minchiate Fiorentine, um dos tarôs mais cobiçados pela minha pessoa. Dias se passaram e eu pensei em como usaria o baralho quando o tivesse mesmo em mãos, levando em conta que são 97 arcanos.

Ontem, passeando pela feira de antiguidades no centro histórico, parei pra ver os livros velhos numa bancada. Claro que o primeiro título que me veio à cabeça foi o procuradíssiimo I Trionfi de Petrarca, um documento precioso pra quem estuda o tarô. Me assustei quando vi uma caixa dourada do Visconti Sforza. Uma edição bonita e bem manuseada, do jeito que o meu signo gosta. Mas fiquei arrepiado quando vi uma outra ao lado, toda vermelha. Sim, caros. Era um Minchiate! Quase soltei um "cazzo!" em voz alta, mas me contive. Peguei e pedi pra me deixar ver as cartas. Todas inteiras, maço completo.



"Quanto viene? 12?" - perguntei, cuidadoso, por não entender o preço na etiqueta.
"No, 10 euro!" disse o vendedor, um verdadeiro sózia de Salvador Dalí.

Fiquei mais eufórico ainda! Não, não foi nada surreal, foi um momento de conquista. Anos e anos de procura que acabaram ali, em três minutos de contagem das lâminas, de pagamento e de 'Grazie a te'. Continuei passeando em busca da famigerada criação de Petrarca, tomando o melhor sorvete do planeta e muito grato pela surpresa que a Itália me fez. A vida é bela. Mais ainda com esses pequenos detalhes.

Abbraccio,

Leo

18 de fevereiro de 2010

CARTAS DE VENEZA




Veneza é a minha favorita, toda de Copas e de Ouros.

Depois de uma semana em Roma, acabei indo conferir o famoso Carnevale: SENSATION, tema deste ano, foi realmente sensacional. Baseado nos 6 sentidos humanos, os festejos foram espalhados em alguns regiões: San Polo - VISTA . San Marco - MENTE . Castello - TATTO (tato) . Dorsoduro - UDITO (audição) . Santa Croce - OLFATTO (olfato). Cannaregio - GUSTO (paladar). Mas os encontros mais badalados aconteciam na memorável Piazza di San Marco. Shows, insetos gigantes no meio do povo e o momento do beijo no dia 14, o Dia dos Namorados aqui na Itália, em louvor a San Valentino.



Lá também encontrei as colombinas, o cortejo de turistas vestidos de Commedia dell´Arte e também as cartas de tarô, sejam em máscaras ou em placas, que sempre me seguem. O leão alado que me espreita é o mesmo do arcano XX.






Uma festança na cidade mais charmosa do mundo.
Um baralho despetalado sobre o Adriático.

31 de janeiro de 2010

NOTA DE VIAGEM



Caros,
a partir do mês que começa amanhã, o badalado fevereiro, estarei na Itália. E é de lá, até o começo de agosto, que lhes escreverei. Aguardem novidades arcanas. Todas banhadas no mais legítimo macchiato.

Adoro vocês.

Ci vediamo!

Leo

24 de janeiro de 2010

TARÔ E POESIA



PLANTIOS


planta em mim
dos pés
o peito de flores

guirlanda sobre este teu solo lírico
pomares contidos
cheiros teus, húmus humores

onde caiba a raiz
a percorrer o território inteiro
de heras e amores

a tua seiva-luz, geração
do mar do cultivo
de tempestades em folhas

alimento do amor
planta em mim
as ondas da Terra




ROSANE CARNEIRO
in Corpo Estranho, Editora da Palavra
Rio de Janeiro, 2009

2 de janeiro de 2010

QUANDO A MULHER É O DIABO

15


(...) Mas eu não sei o motivo, não sei porquê ela fez isso comigo. Eu achava que ela me amava. Desde sempre. Mas quando começou a falar em filho, em trabalho melhor e em religião da terra, fiquei com medo. Muito medo. É isso que eu proporciono pra ela? Dinheiro, esperma, fé? Eu, hein. Fico aqui mesmo, deixa ela se foder do jeito que achar melhor. Sei que não tem outro na jogada, o lance é comigo. O problema sou eu. Mas ela é que é o inferno em pessoa. Colocava as botas, saia curtinha e vestido - tudo preto, tudo novo. Me dava um beijo de língua, me empurrava e falava pra fazer miojo na janta. Eu fazia. Esperava ela voltar enquanto o maço ia esvaziando. Nunca notei nada. Mas sei que a mulher é o diabo. E mais underground que a minha, impossível.


Leonardo Chioda
QUANDO A MULHER É O DIABO, conto inédito.

Imagem do blog Hail Satin!
encontrada no Kaliyuga Blues, blog do escritor Daniel Pelizzari.

28 de dezembro de 2009

PÍLULAS DA BEM-AVENTURANÇA

ou A Saga do Herói no Tarô


O herói é alguém que deu a própria vida por algo maior que ele mesmo.




Há dois tipos de proeza do/para o herói. Uma é a proeza física, em que ele pratica um ato de coragem, durante a batalha, ou salva uma vida. O outro tipo é a proeza espiritual, na qual o herói aprende a lidar com o nível superior da vida espiritual e retorna com uma mensagem. O herói evolui à medida que a cultura evolui. É o feito típico do herói - partida, realização, retorno.



Na Idade Média, uma imagem predileta, que ocorre em muitos, muitos contextos, é a da roda da fortuna. Existe o eixo da roda e existe a borda da roda. Por exemplo, se você estiver preso à borda da roda da fortuna, você estará ou acima, no caminho descendente, ou abaixo, no caminho ascendente. Mas se estiver no eixo, você estará no mesmo lugar o tempo todo, no centro. Este é o sentido do voto de casamento - eu a aceito na saúde ou nada doença, na riqueza ou na pobreza: no caminho ascendente ou no descendente. Se eu a tomo como o meu centro, minha esposa é a minha bem-aventurança, não a riqueza que possa trazer-me, não o prestígio social, mas ela, em si. Isso é que é perseguir a bem-aventurança. Estamos vivendo, o tempo todo, experiências que podem, ocasionalmente, conduzir a isso, uma breve intuição de onde está nossa bem-aventurança. Agarre-a. Ninguém pode dizer-lhe o que será. Você precisa aprender a reconhecer a sua própria profundidade.



Nossa vida desperta o nosso caráter. Você descobre mais a respeito de você mesmo à medida que vai em frente. Por isso é bom estar apto a se colocar em situações que despertem o mais elevado e não o mais baixo da sua natureza. Chamar alguém de herói ou monstro depende de onde se localiza o foco da sua consciência.


Joseph Campbell
O PODER DO MITO

23 de dezembro de 2009

ARCANO INCONFIDÊNCIA

Estudo atribuído a Aleijadinho para a fachada da
Igreja de São Francisco de Assis.


ROMANCE XLVIII
OU DO JOGO DE CARTAS

Grandes jogos são jogados
entre a terra e o firmamento:
longas partidas sombrias,
por anos, meses e dias,
independentes do tempo...

Soldados e marinheiros,
camponeses e fidalgos,
ministros, gente da Igreja,
não há mais ninguém que esteja
fora dos vastos baralhos.

Batem as cartas na mesa,
na curva mesa da terra.
Partida sobre partida,
perde-se renome ou vida:
mas a perdição é certa.

Lá vêm corações em sangue,
lá vêm tenebrosos chuços:
defrontam-se ouros e espadas,
saltam coroas quebradas,
morrem culpados e justos.

Batem as cartas na mesa...
Cruzam-se naipes e pontos:
não se avista quem baralha
esta confusa batalha
de enigmas, quedas e assombros.

Grandes jogos são jogados.
E os silenciosos parceiros
não sabem, a cada lance,
que o jogo, fora de alcance,
pertence a dedos alheios.

Mesas de Queluz cobertas
de ouros, paus, espadas, copas...
(Minas, sangue, sofrimento... )
No baralho bate o vento
e o jogo segue outras voltas.


Cecília Meireles
Romanceiro da Inconfidência

1 de dezembro de 2009

PÉROLA DA PRUDÊNCIA


REI DE ESPADAS
Paulina Tarot


"Esteja sempre ao lado da razão e com tal firmeza de propósito que nem a paixão comum, nem a tirania o desviem dela. Poucos cultivam a integridade, muitos a louvam, mas poucos a visitam. Alguns a seguem até que a situação se torne perigosa. Em perigo, os falsos a renegam e políticos a simulam. A razão não teme contrariar a amizade, o poder e mesmo o seu próprio bem, e é nessa hora que é repudiada. Os astutos elaboram sofismas sutis e falam de louváveis motivos superiores ou de razões de Estado. Mas o homem realmente leal considera a dissimulação uma espécie de traição e preza mais ser firme do que ser sagaz. E se encontra sempre ao lado da verdade. Se diverge dos outros, não é devido à sua inconstância, mas porque os outros abandonaram a verdade."

Baltasar Gracián
A ARTE DA PRUDÊNCIA

21 de novembro de 2009

OS 100 ANOS DE RIDER-WAITE E AS JÓIAS DE PAMELA SMITH


Stuart Kaplan conseguiu. Depois de anos de dedicação à obra de Waite e fixação pela artista que concebeu o seu baralho, o dono da U.S. Games acabou de lançar uma caixa de jóias contendo o original do tarô mais copiado que existe. E não é pra menos, pois foi feito um estojo de luxo recheado de raridades para os colecionadores e fãs dessas cartas tão difundidas em todo o mundo, com direito a postais, retratos e livros.

O box comemora o centenário do tarô idealizado por Arthur Edward Waite e desenhado por Pamela Smith que aqui é rebatizado, com justeza, de Smith-Waite. A versão que consta é a mais antiga, com suas cores originais. Um livro de arte foi criado para registrar as contribuições de Smith ao mundo das artes gráficas por meio de revistas, cartazes, telas e pôsteres coletados ao longo de décadas. Sua notícia biográfica, também garimpada com esforço por Kaplan, assume o interesse de Smith pelo ocultismo, pelo folclore e pelas evoluções artísticas do seu tempo.

O dedicado colecionador também reserva espaço suficiente para o Waite relançando o seu dispensável The Pictorial Key to the Tarot, uma edição bem fiel à original. Um tarô e dois livros numa caixa de luxo. Uau!


Mas não, ainda não acabou. Se um livro de arte exclusivo de Lady Smith não é suficiente, há também seis cartões postais de suas magníficas pinturas, muitas delas para divulgar peças inspiradas em Shakespeare; três cartões maiores com outras telas, um retrato emoldurado da foto mais famosa que se conhece de Smith e um encarte com três métodos de leitura tradicionais.

O que mais me atraiu na "nova" versão do deck, no entanto, foi o aspecto de sujo ou manuseado por muitos, que deixa nítidos os verdadeiros traços da artista sem cores muito chamativas. O cinza, o amarelo e o verde que predominam em todos os naipes e o tom de azul que se destaca n'O Eremita lembram as composições de velhos gibis, como destacou muito bem a taróloga Solandia do Aeclectic Tarot em sua resenha. O verso das cartas traz esse azul antigo tão gradável aos olhos, a assinatura de Smith nas extremidades e a rosa que A Morte carrega em sua bandeira negra. Ah, ainda um outro presente: um saco de organdi na cor azul clara combinando com o verso do baralho que, finalmente, a editora considerou digno para um projeto desse porte.


Eu diria que é um belo presente para quem gosta de tarô ou de arte ou de ambos.
Na minha avaliação, nota 10. Vale a pena adquirir um registro tão importante e tão bem feito. Aliás, como sempre digo, tarô é arte.
E vice-versa, né?