28 de janeiro de 2012

DESCOBRINDO E ENCARANDO A SUA NÊMESIS

Eu tenho a intuição, Aramis, de que os monstros
são as tentativas mais puras do Universo.
«Olha-os, e não os mates.»

Maria Gabriela Llansol



Galeria Real: de quem você mais gosta?
E de quem não gosta nadinha?


Bom, jogo rápido. Ando aprimorando um exercício que considero absolutamente importante para lidar com as cartas da Corte e também para traduzi-las em nós mesmos: a escolha do Arcano Significante. Vi pela primeira vez a menção há alguns anos no livro Understanding the Tarot Court*, assinado por Mary Greer e Tom Little, publicado pela Llewellyn. Embora seja apenas incentivada a escolha do Arcano Sombra, decidi ir mais a fundo na ideia de perseguição desse arcano indesejado e confesso que tem sido revigorante entrar em contato com o melhor e, principalmente, com o pior de mim. Incorporar o mais inofensivo ou insignificante [termo inevitável] integrante da realeza é um exercício de reflexão e transformação quase instantâneo. Bem apropriado para leigos e tarólogos.

Pegue o tarô que você mais gosta e retire as 16 cartas reais do resto do maço. Disponha e organize todas elas com as faces para cima, de modo que você possa ter um panorama bem nítido do mosaico de personalidades.

Esqueça as posições, os cargos, as nomenclaturas e até mesmo o gênero. Escolha a pessoa que mais lhe atrai, a carta que mais lhe "chama" neste momento. Este é o seu Significante, ou seja, o arcano que muitos usam em leituras para representar o consulente. Mas por que este arcano específico? Pronuncie suas qualidades e o motivo por tê-lo escolhido.

Agora escolha a carta que você MENOS gosta, a mais desinteressante, sem graça. Feia, até. E atenção aos motivos. Profira a razão por tê-la escolhido. Pronto? Esta carta é sua Nêmesis.


Nêmesis, pintura do romeno Georghe Tattarescu (1820-1894).

Nêmesis? Sim, a deusa grega da indignação, famosa por atributos mal dignificados. Apesar de vir da estirpe dos deuses trevosos, vive no Olimpo figurando a vingança divina. Filha de Gaia e irmã de Têmis, foi criada e educada por Cloto, Láquesis e Átropos, as famosas Moiras. Enquanto Têmis vem a ser a personificação da ética, Nêmesis acaba sendo a da vingança. Em outras versões do mito, difundidas por publicações neopagãs, por exemplo, Nêmesis surge como Adrasteia, a inevitável, por ser a divindade da retribuição.

Na obra O Livro e o Baralho Wicca*, de Sally Morningstar, a deusa aparece retratada como a portadora das lições, cuja visita (o surgimento da carta em alguma leitura) sugere que o leitor está tendo suas atitudes e intenções observadas por ela. A representação é agradável e até serve ao propósito: Nêmesis é o arcano que lhe persegue. O que você evita ver no espelho e jura de pés juntos que não tem nada a ver com você. As baixarias do show, as manchas no seu currículo interno.


Nêmesis pintada por Danuta Mayer
integrante do Baralho Wicca, de Sally Morningstar.


Face your fear! Fazendo uma menção bastante digna [pelo menos para quem gosta de videogames e filmes de monstros], Nêmesis é a máquina mortífera que persegue a policial Jill Valentine por Raccoon City que por sua vez persegue zumbis. Não há escapatória a menos que a moça encare de vez a criatura programada para destrui-la. A referência a Resident Evil foi inevitável também. Até porque jogos eletrônicos reconfiguram alegorias e instauram mitologias entre gráficos renderizados e o deleite constante do expectador.

Na verdade, esse sério trabalho com a sua personalidade ilustrada pela Nêmesis demonstra responsabilidade para com sua própria sombra. Bem-aventurado o que enfrenta a horta de desagrados internos, não? O modo como você aborda esta carta é crucial para reconhecer comportamentos absurdamente perversos e também algumas atitudes ridículas que podem ser transmutadas por meio de uma postura cada vez mais coerente com o seu autoconhecimento. Conviva um pouco com a sua Nêmesis. Indo além da ignorância você pode achar o antivírus para os padrões mais nocivos de existência. Refletir é a matéria e o ofício principal dos arcanos. Ainda mais quando é a sua imagem nesses espelhos.

Enfrente[-se].
E bons sustos,


L.





*
GREER, Mary K. LITTLE, Tom. Understanding the Tarot Court.
Special Topics in Tarot. Llewellyn, 2004.

MORNINGSTAR, Sally. O Livro e o Baralho Wicca. Ilustrações de Danuta Mayer.
São Paulo: Editora Pensamento, 2002.

25 de janeiro de 2012

ARCANO SAMPA


O Mundo | Visconti-Sforza | Lo Scarabeo
.

São Paulo é um mundo.
Por suas ruas, quando saio sozinho, percebo cada ponto de vista como um organismo vivo, pulsando em suas desgraças e delícias.

São Paulo me fez descobrir a fome que tanto tenho por cidades. Foi ela, tenho certeza. Desde criança me vejo penetrado em suas ruas, nos tons cinzentos da realidade. Nas compras, nos cafés, nos passeios de pedra e grama. Foi nela que me percebi leitor de imagens. Descobri a maturidade, o dinheiro e o amor. Não à toa que os profetas da Semana de 22 registraram os augúrios de arte sobre a capital cultural do país. Digna, firme, imbatível. Com seus preconceitos e motores, a cidade é um símbolo negro das transformações. Efeito borboleta, afeta a todos que pronunciam o seu nome. Como uma praga verbal, um encantamento espreitando o nome de um santo.

Não sei, alguma coisa acontece no meu coração.
Até bate mais forte quando calculo o Arcano do Ano (2+5+1+2+0+1+2=2038 e então 2+0+3+8 = 13). A Morte, a Inominável. E também a Indomável, tal qual São Paulo. NON DVCOR DVCO. Tradução? Um ano de sustos, de medos, de baques. Transformações estruturais no maquinário social gerando novos jeitos de se enveredar pelo caos da vida. Borboleta criada, bloqueios dissolvidos e uns novos garantidos. Nada muda, então? Muda, pessimistas. Muda sempre. Confiança na caveira a galope. Semelhanças são meras armaduras [de sincronicidades consideráveis].



O brasão e o arcano que rege São Paulo em 2012.
Waite~Smith Tarot | U.S. Games Inc.



Esse Mundo me atravessa.
E a
dura poesia concreta das suas esquinas é que determina a vibração dessas minhas cartas. Parabéns, Sampa. Que brotem das tuas calçadas outras canções como a do Caetano pra poluir o peito de quem te ama.


L.

26 de dezembro de 2011

ANIVERSÁRIO: TEORIA E PRÁTICA

Esse adubar do instante vivo
em pequenos vislumbres de memórias,
as siglas pessoais da arte,
mnemónicas para reconhecer-me.

Fiama Hasse Pais Brandão


Wooden Jigsaw Puzzle 
da mostra 'Ciencias Naturales' de Juan Gatti,
o artista dos cartazes de Pedro Almodóvar

Mais importante que o 31 de dezembro e o 1 de janeiro é o dia do Aniversário. O Retorno Solar é auspicioso. Um encontro e tanto. Tanto quanto as tradicionais festanças em torno da virada do ano, quando a maioria mantém a hipocrisia geral de prometer mudar e ser cada vez melhor e não cumprir nem metade do que se propagou durante o ano desgastado. Mas o durante o Aniversário não é bem assim. Não deveria. O lance pertinente é reavaliar as situações e as atitudes. Deixo de lado a maioria das superstições. Por isso, no dia de hoje, retorno aos rituais que brotam de mim.

Quando faço aniversário, penso um tanto no arcano 13, A Morte. A parteira negra acenando para mim. Mas não é um conceito grotesco, mas uma presença cujo intuito é fazer com que a cada ano me prepare em relação a tudo, Morte é regeneração. E sim, há muita vida na morte. A pele enrijece (se você cuida dela). Os músculos pesam. A coluna pede cada vez mais postura. A vista exige cuidados. E a beleza (podem me chamar de grotesco, agora) também está n'A Morte. Com o passar dos anos há melhorias pessoais. E negligências, para a festa ficar completa.

Death | Crowley-Harris Thoth Tarot.
AGMüller, 1986

E realmente há uma linguagem secreta dos aniversários, não? Sim, e muito proveitosa. 26 de Dezembro é o DIA DO INDOMÁVEL, segundo o livro de Gary Goldschneider e Joost Elffers*. Dia em que o truque de espelhos é tão bem realizado que pode passar em vão se não houver uma conduta simbólica, digamos, para perceber até que ponto sigo a nossa bem-aventurança. O meu aniversário é um fato isolado, costumo dizer. Um dia fora do calendário. Não é nada mole celebrar logo depois do Natal, com a correria das festas e das viagens na pauta.

Calor demais. Saturno, meu velho, rindo da minha cara por me fazer ficar entre poucos: como planejar uma (outra!) festa numa época tão conturbada? Não dá, desde sempre é complicado. E nem sei se eu me dedicaria a algo do tipo, sabe? Tem sido o momento em que me retiro um tanto e reflito sobre o ano que passou. Mas reflito MESMO. Sobretudo em relação ao que não passou. Ou eu engulo nesse limiar de transformação ou eu trato, aquiagora, sem papas na língua e no coração. Um dia de poder pessoal. Sobre mim e sobre o mundo.


Der Stern | Haindl Tarot
U.S. Games, 1988

Sou adepto das Constelações do Tarô. Temos um arcano na soma de nossa data de nascimento. O meu é o 8, A Justiça. O fator oculto dessa lâmina, que é outra, é a 17, A Estrela. Minhas lições de vida, digamos. Além de uma miríade de Menores que também ensinam, jogam na cara e fazem gozar. 


O TAROT, UM DIÁRIO

Tarot Journal | Traci Bunkers, 2007


Deixei os cadernos pautados há anos. Não registro quase mais nada. Só os arcanos. E os arcanos servem, sim, como páginas de um diário. Começo básico: tire uma carta por dia. Conselho com duração de 24 horas, ou menos. Registrá-lo tende a ser importante para avaliar, no final do dia ou do mês ( ou no aniversário!) o quanto você respeitou aqueles símbolos e, ainda mais, como eles se fizeram presentes naquele período. Páginas da vida. Mecanismos de papel encerado para tonificar a alma. O Tarô aceita o papel de ossatura das crônicas de todos nós.

O aniversário, portanto, não é um dia triste ou preocupante. Sei d'As Moiras apalpando a textura do fio, claro que sei. Compactuo com Elas. Uma marcação temporal para o fatídico. Até porque o inefável dança entre nós. Aniversário é a data em que vale trazer à consciência o peso das experiências — jamais negar a vida, mas senti-la. De verdade. E afirmo, agora, que ninguém 'faz' aniversário. Ele é que faz a criatura. Instiga, entristece, encoraja, envelhece, enrola. Mas também enriquece. De sabedoria e de algum sabor que o pomo do tempo carrega.

Sei dizer que encarar a Ceifadora como a Parteira pode ser útil, pelo menos a nível pessoal. Não por conformismo de que tudo acaba. Essa noção pouco conforta, mas é uma verdade nua-dura-crua e necessária a ser assimilada todos os dias. Mas justamente por ser possível administrar a existência com várias cores diferentes. As responsabilidades e os significados estão aqui, por enquanto. Passar incólume ou inteiro por essa vida é um baita sintoma de preguiça e descaso. Há de se ter um gosto pelas próprias cicatrizes.

Presente? A capacidade de assumir as tolices, reconhecer as boas sacadas e saber o meu tamanho. 'Nem pra mais nem pra menos', como diz Bethânia. 'O meu tamanho.'


Drink your Bliss 
Instagram @leochioda

Agora vou lá renascer um pouco — ler e escrever vertiginosamente, obrigado — e dar atenção aos telefonemas, e-mails, à campainha e às cartas. Ah, as cartas. Aproveito para fazer os votos de que você, que me lê e estuda o Tarô com paixão, se comprometa ainda mais com ele. De verdade. E que o necessário, só o necessário, seja sinônimo de excelência. Sim. 


Soul making. 
Always.


L.


*A Linguagem Secreta dos Aniversários

Editora Campus, 1999.

15 de dezembro de 2011

SETE NAIPES


2008


Minha amiga Ana Maria, do blog Psiulândia, deu continuidade a uma proposta interessante de uma blogueira: ela deveria indicar 7 links de seu próprio blog e depois mais 7 blogueiros para fazerem o mesmo, de forma a alcançar um número cada vez maior de pessoas. Achei interessante a ideia e decidi lançá-la entre os tarólogos. Por isso, aí vão meus 7 links e a minha lista de 7 autores indicados pra levar o projeto adiante. Uma blogagem coletiva que ajuda a revisitar nossa própria obra. Valeu pela indicação, Ana!


1. Meu post mais bonito:
Creio que foi um dos mais recentes: "O ORÁCULO EM DELFOS", aquele sobre a minha peregrinação por Delphos, uns dos santuários mais importantes da Grécia em termos de profecia. Foi ali que consagrei a Apollo o meu tarot e pedi coerência, responsabilidade e criatividade a todos os que se dedicam aos oráculos.

2. Meu post mais popular:
Certamente é "O FABULOSO TARÔ DE AMÉLIE POULAIN" que rendeu até uma palestra e um bate-papo na Livraria Cultura ao lado de Constantino Riemma (do Clube do Tarô) por conta do 'Ano da França no Brasil', em 2009.

3. Meu post que gerou mais controvérsia:
Creio que alguma das traduções que fiz da obra de Alejandro Jodorowsky. O cara sabe do assunto, mas parece sempre agir sozinho, gerando dúvidas e questionamentos por parte de profissionais que estudam a sério a estrutura e a história do tarô. Gosto da visão dele, mas discordo de muita coisa também.

4. Meu post que ajudou mais gente:
Creio que foi "O TARÔ EM PESSOA", em que analiso uma nota do grande poeta português. Recebi vários elogios por ter facilitado a aproximação entre o oráculo e outros saberes, como a Literatura. Tenho recebido muitos e-mails de leitores absolutamente satisfeitos com o que ando publicando e outros me cobrando por maior frequência de postagens. Prometo trabalhar nisso.

5. Meu post cujo sucesso me surpreendeu:

Certamente o da Amélie, que foi acessado em vários cantos do mundo.

6. Meu post que não recebeu a atenção que deveria:
Creio que o mais recente, "A IMAGEM E O ENCANTAMENTO". Ali esbocei algumas ideias para o leitor de imagens refletirem sobre sua própria condição de encantador de histórias e vidas. Um tarólogo é sempre plural. Um ser de poesia, antes e depois de tudo.

7. Meu post que mais me dá orgulho:
Creio que "O SILÊNCIO ENTRE AS DUAS LÂMINAS" sobre o Dois de Espadas, que quando publiquei senti que já havia atingindo alguma maturidade simbólico-literária.


Bom, espero que goste de rever esses textos todos, assim como tem sido importante pra mim revisitá-los. Então, pra terminar, deixo aqui 7 blogueiros que gosto muito e seus respectivos filhotes. Naipes que valem a pena o clique, pela pluralidade de ideias e, principalmente, pela seriedade que o leitor percebe a partir do visual e da atmosfera que os respectivos autores-tarólogos consolidaram como suas marcas. E que não venha alguém me dizer que isso não é importante.

Boa leitura,
boa viagem.


1. Zoe de Camaris do Zoe Tarot.
2. Giancarlo Schmid, do Alpha Symbolon.
3. Euclydes Cardoso, do TarotCabala.
4. Marcelo Bueno, do Zephyrus.
5. Ricardo Pereira, do Substractum Tarot.
6. Arierom Salik, do Blog de Tarô.
7. Giane Portal, do Astrologia & Tarot.

.

31 de outubro de 2011

O ENCANTAMENTO DA IMAGEM


F.W.Guerin | Young Woman, 1902.

Nós costuramos
com a ponta da língua as flores no corpo

Os vértices dos ventos

Os cardos, as silvas
Os crespos sulcos do tempo


Turvamos os mares e as minas de água

as névoas secretas

onde as essências se afastam


À nossa passagem


Nós rojamos o tojo

Nós vergamos o luto
Nós plantamos as rosas selvagens


No vaticínio da aragem


SABAT
Maria Teresa Horta, 2006



'La Force', de Jean Noblet e 'Fuerza', de Salvador Dalí: arcanos do movimento sublime.

A imagem já me é viciada: a mulher que domina o leão é uma feiticeira. Lia esse poema de uma amiga [e uma das mais importantes feiticeiras de toda a poesia portuguesa] na varanda enquanto caía uma chuva fina. Fiquei pensando nas encantadoras, nas sibilas que compõem o oráculo. Na correlação do composto "mulher com leão". 

Hajo Banzhaf trouxe a ideia no Tarô e a Viagem do Herói, se não me engano. E desde então a vejo assim. Difícil encontrá-la sem flores trançadas pelo corpo. Quando abandona o chapéu lemniscata emprestado d'O Mago, assume a feminilidade e a felinização. O templo natural é o seu entorno. Manipula boca e juba como cordas de uma harpa. A dama escarlate de Crowley, pelas tintas e mãos serpentinas de Lady Harris, também dá conta do recado. Estrela, prostituta e sagrada. Aquela que manejava colunas é a que hoje sorri de leve com um felino em mãos. Da Fortitude ao Encantamento.

Claro que as outras mulheres arcanas são feiticeiras também. Todas, dependendo do momento e dos olhos do intérprete. Mas se temos a bruxa como a fêmea transgressora, é a da Força que se sobressai. A amante que conhece o próprio corpo, a que menstrua e prova do líquido desentranhado. A que dá um salto na fronteira entre os bons e desprezíveis constumes. A que gargalha na cara lavada dos fervorosos e que goza. A que corre com lobos. Com leões, naturalmente, emulados em cada casa de bruxa na figura majestosa do gato. E não cabe falar aqui sobre as problemáticas históricas da imagética feminina junto aos sortilégios. Cabe falar da poesia. E me perguntam alguns, maravilhados, que diabos tem a ver tarô com poesia. Ora, isso não se responde. Se sente. A compreensão de uma imagem por meio de palavras é tão extasiante quanto a via inversa, repare. Quando é que uma leitura lhe trouxe prazer, você se lembra? Então já existe um vislumbre da resposta. E não tem nada a ver com rimas e regras, só com a capacidade de conferir ou perceber beleza no grotesco, no selvagem e no vice-versa. Me lembrei da
Rainha das Fadas, poema de Edmund Spenser. Una, a famosa "The Fairy Queene" do autor, pode ser familiar pela tela enfeitiçante de Briton Rivière. Referência poética paralela à de Hércules ou Sansão com seus respectivos animais, tão válida quanto.

The Strength | detalhe do Morgan-Greer Tarot. U.S. Games, 1986.


Meu maior apelo tem sido ao processo contínuo de aculturação do dito tarólogo. E tenho até receio dessas terminologias todas, porque particularmente me valho de leitura de imagens e realizo leituras de tarô. Logo, sou um leitor de imagens, algo que vai bem além da mesa de consultas. Passa pelo jardim e pelo cinema, impera na biblioteca e segue pela rua. Cruza com as músicas, vai pelo café da manhã, pelo teatro e ainda pelo cemitério. Flerta com as fotografias e as madrugadas. Aprender a ver vai além de esboçar os arcanos numa folha em branco, rasgá-la e proferir os significados tradicionais no cúmulo do improviso. Não é só isso. Não, não e não. O leitor realmente interessado no seu ofício transgride as próprias imagens, sempre se valendo delas. E se não transgride a si próprio, não arrisca a previsão, não consegue orientar e não encanta o consulente com as lâminas
seus próprios reflexos. O leão, veja bem, é um convite ao além do convencional.


Una and the Lion | Briton Rivière, 1860.

Letrar-se iconograficamente é mergulhar na sua própria cultura. Eis um feitiço possível: a sua mitologia pessoal, a sua bem-aventurança, o seu espaço determinam a leitura de mundo. Domar leões atemporais sempre nítidos. E também cavalgá-los rumo ao presente, de olho no passado e organizando o futuro. A poesia, portanto, transgride. Tal como a imagem, a língua das antigas crenças, segundo a ativista pagã Starhawk, é a poesia: um discurso mágico por excelência. Por isso o link. O caráter caleidoscópico da analogia é tão válido e tão forte quanto a mandíbula do rei da selva.


Dandy-Lion | silhouettemasterpiecetheatre.com

E a tal dama é desde sempre a encantadora de reis. Também de plantas, pássaros, sombras e lugares. Alegoria generosa à mulher moderna e à mulher antiga, com todas as ressalvas patriarcais. Roupagem de sacerdotisa e espelho da própria deusa, universal e plural. Até mesmo um tanto frágil na aparência, mas estrondosamente destemida: uma ode apaixonada aos desejos. É do grande Oswald Wirth a afirmação de que A Força não glorifica o vigor físico dos músculos, mas o exercício do potencial feminino, irresistível na sua doçura e na sutileza em vez das explosões da cólera e da brutalidade vista na lâmina do Visconti-Sforza, por exemplo. 

Daí penso nas encenações simbólicas: a mulher casta do arcano II, a tal Papisa, deixa o seu posto [passivo, naturalmente] e vai brincar com o seu leão na clareira da floresta. Troca as páginas pela pelagem. A Imperatriz que alimenta o bichano e vai correndo brindar no Três de Copas, talvez? Bom, as possibilidades são inúmeras, porque as mulheres do tarô conversam entre si, furtivas. Cada uma como um livro aberto. Compêndio [infinito] de artifícios e charmes.



Fearless | Anahata Katkin.

Tenha um longo e perfeito Dia de Bruxas. Eu permaneço em casa, trabalhando. Depois paro, bato um papo com o gato, rego o jardim e medito ao longo do corredor intransitável de heras e flores. Seco os pés, volto pra dentro e trabalho mais um tempo ouvindo alguma feiticeira proferindo suas graças. Billie Holiday, Nina Simone. Ou Monica Salmaso, que descobri há pouco, graças aos orixás. Talvez Calcanhotto ou ainda Loreena Mckennitt. Ah, Bethânia e Madeleine Peyroux não podem faltar. Cada uma um mundo. Um feitiço. Como a imagem e o seu potencial de talismã.

A propósito, reúna as damas de todos os seus baralhos. Disponha todas elas em círculo, contando com você. Pronto, há um sabá acontecendo. Nessa arena de rituais que é o tarô, a dança espiral das metáforas não terá fim. Serão essas musas, silenciosas, no corpo dos seus enigmas.


Celebremos.




Detalhe do oitavo Arcano Maior de A. E. Waite por Pamela Colman Smith (1910)
e foto de Sibyl Anikeeff por Edward Weston (1921
).


11 de outubro de 2011

SOB O SOL DA INFÂNCIA


A Criança Divina de Pamela Smith e Arthur E. Waite.


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O artigo seguinte, tira-gosto de um extenso capítulo de livro em já produção [e que você não perde por esperar], veio logo depois da publicação do ILUMINANDO SUA CRIANÇA INTERIOR, na Revista Personare. Clicando AQUI você o lê na íntegra para entender melhor essa postagem. Ou, se você já foi até lá, encare esta postagem como práticas e reflexões complementares. Boa jornada!
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Numa recente entrevista, me perguntaram quando é que eu comecei com o Tarô. Respondi que não comecei com ele, que ele é que começou comigo, há muitos e muitos anos. Minha avó tinha uma amiga cartomante que vinha em casa destrinchar o destino dela com aquelas velhas cartas coloridas. Fazendeiros ricos e mulheres de cabelo preto saíam bem costurados nas predições daquela mulher. Hoje, nem a minha avó nem a cartomante e nem as figuras [suponho] existem mais. Ou melhor, existem. Dentro de mim, como num filme encontrado pela metade, que termina justamente quando a reunião de mulheres me expulsava do cômodo da leitura. E até mesmo essa criança que eu fui, cujas lembranças já se parecem com um sonho de duas semanas atrás, existe aqui dentro de mim. Teve uma vez em que decidi me reencontrar com ela. E foi absolutamente mágico. Se há alguma verdade nas técnicas de visualização e projeção, é essa: você é a chave para você mesmo. E o que encontrar aí dentro é tão novo como se nunca tivesse acontecido. Mas também pode ser dolorosamente repetitivo, triste e carregado como uma situação ruim. 

Resgatar a infância é possível e nos faz crer que o que somos é uma construção contínua: paredes de traumas, pisos e tetos de alegrias e risadas e também escadarias milimetricamente feitas de medo. Você já abraçou uma criança? Essa experiência é única na vida, ainda mais quando ela é você mesmo. Acredite, é possível.


SEUS ÁLBUNS, SEU ORÁCULO

E se eu dissesse que existe um arcano esquecido dentro de você? Pois é, existe. E você pode encontrá-lo. E mais de um até, se você tiver atenção e olhos firmes às lembranças. Fotografias antigas funcionam como cartas de Tarô: são imantadas de poder por retratarem nada mais do que nós mesmos. Reveja alguns dos seus álbuns. Certamente existem fotos arcanas dentro deles. Seus próprios mitos, portanto, que você nem se dá conta de que existem e vigoram.



O Mago, desde pequeno remexendo a imaginação na terra. Promessa de Ouros
Tarot de Marseille - Grimaud



Dialogar com essas imagens é mais do que terapêutico. Proporciona um encontro genuíno com o que foi deixado para trás. Negligenciar a saúde emocional de uma criança é triste, mas perdoável quando tomamos responsabilidade pelo que fomos um dia. É como tirar o próprio Pinocchio de cena quando se lê o livro. Não seria mais Pinocchio, já que a fábula não procede sem ele. Temos essa oportunidade de revalorizar nossa própria história e nem nos damos conta! O que sempre vale é a vergonha das roupas, das poses e dos momentos em família que lutamos para esquecer, não é mesmo? Grande engano nosso. O passado é mais vivo do que nunca, tão mutável quanto o presente e o futuro. Sem ele, dificilmente uma leitura de Tarô procede. A narrativa da vida é passível de revisão assim como o futuro pode ser vislumbrado e programado, até certo ponto.



Galopando com o destino no carrossel de estrelas.
Tarot de Marseille - Camoin Jodorowsky


O Tarô é um brinquedo. Antes e depois de tudo. Serve para brincar, como diz Johann Heyss no livro O Tarô de Thoth. Sua natureza lúdica serve de engrenagem ao imaginário, ressaltando que as 78 cenas nasceram e se valem dele. Fazer de conta que cada figura humana que elenca as cartas é uma criança num mágico parque de diversões, com cavalos, esfinges e outros seres fantásticos que povoam a nossa imaginação é também uma metáfora poderosa para a nossa condição de leitores de imagens e consulentes, por consequência. O estudo dos símbolos, aliado à nossa criatividade, tonifica o poder de reflexão e transformação do oráculo. Por quê misturar os fluidos das ânforas n'A Temperança? O que tem dentro do cálice maravilhoso d'A Rainha de Copas? E o livro no colo d'A Sacerdotisa, qual é? Tem figuras? Mostre o Tarô a uma criança e faça essas perguntas. A ingenuidade simbólica é também um caminho para a maestria. D'O Louco aos quatro Reis de si mesmo, conferindo sabedoria e intuição cada vez mais notáveis.


A Criança Divina do Druidcraft Tarot, de Philip Carr-Gomm
Arte de Will Worthington


O exercício que propus no artigo da Revista Personare tem como base o décimo-nono arcano marselhês. Mas em todo e qualquer Tarô [que se preze], O Sol corresponde a esse portal que possibilita o contato e a narrativa constante com a sua criança interna.

Aliás, qual é a história da sua infância?
Pergunte ao Tarô, esse mapa colorido que você tem em mãos. Tire três cartas (a clássica configuração das infinitas combinatórias) e analise o que você vê. Experimente, não tenha medo. Mas se tiver, não pare. O escuro pode sempre receber alguma luz vinda de você.


E eu sei que vai ser radiante.



Leo

8 de outubro de 2011

O MAGO DA MAÇÃ



A matéria de Arnaldo Bloch n'O Globo me deixou mais aliviado diante do genuíno endeusamento que Steve Jobs tem sofrido desde quarta-feira com a notícia de sua morte. O mundo virtual desabou em lágrimas. Mas o endeusamento é sempre traiçoeiro. Importa que cara era bom. Mexeu de jeito na máquina do mundo. No cotidiano do homem. E só quem tem um Apple, por menor que seja, é que sabe do milagre que existe ali. Mesmo assim, todo o cuidado com o burburinho paga-pau. Menos, né? Menos.


O Mago Jobs elevando um dos seus trunfos (!): o iPhone.

Pensando nas analogias possíveis com o oráculo, o fato é que Jobs foi o verdadeiro Papa da revolução tecnológica. No tarot, a verdade é que ele se enquadra no frame do O Mago. Sim, porque quem inova primeiro é justamente o primeiro arcano. E a partir disso, da criatividade que ultrapassa o verbo é que ele se distingue do quinto elemento Maior, o eleito e amado pelo povo sob diferentes primas e circunstâncias. Não agrada a todos. Aliás, quem agrada? Os elementos do grande batelleur são combinados ritualisticamente para alcançar o topo d'O Mundo. E isso, inegavelmente, Steve Jobs conseguiu com todo o trabalho possível e impossível digno de qualquer alquimista sério e empenhado na busca pela sua pedra filosofal, lindamente personificada numa maçã. A menina dos olhos da tecnologia contemporânea. Que tal? Magia maior não há.


E o Mago Smith-Waite com o símbolo máximo do bendito fruto.

Nascido em 24 de fevereiro de 1955, o Arcano da Vida desse pisciano foi a Roda da Fortuna, que ajuda a vislumbrar a rapidez com que criava e inovava. E também com que partiu dessa existência. A Unidade face à Diversidade. O eixo responsável pelo movimento. Agente imbatível de expansão e consolidação das ideias. Uma mente privilegiada ou um aplicativo sempre atualizado. Teve a seu favor, de acordo com a configuração da sua constelação tarológica, os quatro Ases e os quatro 10 dos Arcanos Menores. Viu brotar, ao lado das janelas de Bill Gates, as suas próprias sementes. E recentemente sofreu na pele o próprio fim. Triste. Mas nem por isso deve vir a ser martirizado, como todo bom ser humano costuma fazer tanto com quem morre cedo quanto com quem se destaca além do imaginado. Ou as duas coisas, neste caso.


Montagem disseminada pelos usuários do Facebook.

Não existe uma religião da maçã. Não e não. O high tech existiria normalmente sem Steve, que se foi tão cedo. Recebidos os devidos méritos, eu o mantenho próximo ao prestidigitador. O fruto evolui. E diante das críticas ao capitalismo violento, Jobs também tem seu pedestal reservado. É criticado e massacrado pela produção e necessidade que os golpes de marketing da marca desferem nos clientes quase que na mesma proporção em que é amado, reconhecido e divinizado devido à facilidade e à beleza dos seus inventos e à sua filosofia de vida, cujas frases bonitas pululam hoje pelo facebook. Par a par com os axiomas de Sócrates e de Da Vinci. Excelência no engajamento criativo. Mas endeusamento pra quem é morto já é um golpe baixo. Como se defender?

Bom é manter a atenção no que ele fez, ponto final. Quem passa imune? Não, nem mesmo você que nunca tocou num iPod. Olhos no palpável, com os devidos cuidados. Cada um faz o melhor que pode e alguns vão além. As maçãs não vão parar de brotar.




Think different,


L.

5 de outubro de 2011

SOBRE A NATUREZA DA LEITURA

“Everyone probably thinks that I’m a raving nymphomanic,
that I have an insatiable sexual appetite, when the truth is I’d rather read a book.”


Madonna


'Madonna reading books' em montagem minha sobre moldura do Thoth Tarot, AGMuller, 1986.


De um e-mail recebido ontem:
"Quero MUITO aprender tarot. Mas tenho que ler muita coisa?"

Sim, tem MUITA. E vai ter sempre. Mas se você tem preguiça de ler, não se aproxime do tarô. Feche esse blog, inclusive. O maquinário do Tarot é a leitura, não um raio divino sobre as figuras que lhe concede a honra de falar sobre o passado e o futuro das nações ou sobre os rumos da vida alheia. Quando consultamos, lemos os movimentos dos arcanos, o que se pode fazer, para onde se pode ir e como se posicionar frente a essas possibilidades. A combinatória é articulada porque a leitura é crucial, justamente. Eis o alimento da metáfora. O primeiro passo para qualquer leitor (!) de tarô.

Aliás, decorar um livro ou apenas esquematizar um quadro com os atributos-chave de cada arcano não faz de ninguém um leitor. Quem memoriza alguns poucos significados não possui habilidade o suficiente para realizar uma leitura profissional. Aliás, só na posição de consulente é que se sabe do poder do tarólogo, como bem disse minha amiga Zoe de Camaris outro dia, durante uma inspirada conversa sobre livros. É ali, diante dos espelhos que são as cartas, que a leitura se dá. Eterna arena. As provas de sucesso ou fracasso são do cliente, daí.


Statue reading - tumblr

Enquanto você encarar a leitura dos livros como algo tediante, chato, cansativo, difícil ou mesmo dispensável, lhe peço: não se aproxime do tarô. Pelo menos por ora. Há bastante a se fazer por esses mares virtuais. Só lembre que para falar com propriedade você precisará da leitura. Certo refinamento é preciso. Mas antes o letramento simbólico, por favor.


Né?

E esse é só um começo sobre uma série de reflexões sobre o poder da leitura - a primeira e eterna premissa para toda e qualquer resposta que você deseja obter por meio das cartas. O gozo da analogia. Até porque o oráculo não tolera o leitor perverso, sedento de um poder tal sobre a narrativa que se tece a cada lâmina virada, mas que no fundo nunca pensa no mecanismo dos signos. Insignificante. Esse sempre cai na breguice. Naquele esquisoterismo que paga de fino. Sai um patchwork de auto-ajuda infalível e logo desaparece, thank Gods. Quem não se rende à palavra não se liberta na imagem.

Tarô, ou tarot, ou tarocchi, é uma biblioteca que é um labirinto de espelhos que é infinito. Em possibilidades e em significados. A educação pelos olhos é que configura o homo ludens. Apreensão, interpretação e reflexão compondo um equilátero, talvez. Fiquemos então com essa ideia: a da Mãe dos Livros, a soberana das páginas. Paredes projetadas de dentro pra fora.


Jean Noblet

Já volto com os patronos.
Boas leituras por aí,


L.

17 de setembro de 2011

TARÔ NA COZINHA

Tenho uma relação mais que afetiva e acadêmica com a Itália. É genealógica, espiritual. A stregoneria, o malocchio, os benandanti e as peregrinazioni daquela terra são mais que elementos culturais. São ingredientes que aprendi a pesquisar e a questionar com mais afinco a partir do contato que tive com Ludovica, no tempo em que morei na Úmbria. Mas também, de certo modo, sempre evitei falar. Uma postura bastante solitária, confesso, mas essencial para não perde il filo, a conexão primordial, digamos assim, com o meu reino ancestral. Até porque, chi cucina ha regole, misteri e segreti che non svelerà mai*. Ocorre o mesmo com as práticas do espírito.

O tarô, peça-chave do altar que carrego no peito, são os chamados tarocchi (se lê "tarôqui", assim como o meu sobrenome, Chioda, que equivale a "Quioda"). Esse termo em italiano ressoa mais forte quando pronunciado, percebe? Talvez sejam as raízes vibrando no alto dos montes do centro da bota, onde tudo começou. Pois então, são esses mesmos ingredientes - esses símbolos - compõem a távola das matronas, que empunham tal qual o Mago la pasta que inspira o divino no paladar dos mortais.

Morena Poltronieri, Stefano Biolcati e Antonella Melandri, três estudiosos da cozinha e dos tarocchi, criaram um verdadeiro livro de receitas arcanas. La Cucina dei Tarocchi é uma publicação apetitosa para quem aprecia um bom prato, um bom vinho, um bom livro e, obviamente, uma bela leitura de cartas.



Que tal um filé para honrar O Imperador?
Ou uma massa d'A Estrela, com direito a creme? Vão nove ovos e o suco de um limão, anotem.
A arte da cozinha é a arte mágica por excelência. É por entre as panelas que os deuses nos espreitam.

Va bene, lavoriamo. Enquanto tomo meu café reviro o maço
pensando em qual carta virá trazendo uma receita.

Qual o sabor e o aroma dos arcanos?
Bacio a tutti,


L.

Questo è per te, Ludo.
Non avevo trovato questo libro a Perugia, ma ora è qui con noi.

La nostra magia è propriamente la nostra magia, vero?
Andiamo sempre. Caminare è potere.
Un bacio sulla tua eternità.


* quem cozinha tem regras, mistérios e segredos que não se revelarão nunca.
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13 de setembro de 2011

ÁS DE COPAS




a formação dos desejos
ato de respeitar as escolhas do peito

coerência afetiva

se não amas tudo,
como podes sentir amor?

ser afetivamente coerente:
saber a cada gole do êxtase
o vinho da vida



Ace of Cups - Thoth Tarot
taroteca.multiply.com

10 de setembro de 2011

LEMOS MAL O MUNDO




Lemos mal o mundo
e logo dizemos que ele nos engana.

Quantas barricadas o pensamento
do homem ergue contra si próprio!

Se lanço minha própria sombra no caminho
é porque há uma lâmpada em mim
que ainda não se acendeu.




Rabindranath Tagore
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8 de setembro de 2011

VIRTUDE XIV



A temperança é essa moderação pela qual permanecemos senhores de nossos prazeres, em vez de seus escravos. É o desfrutar livre, e que, por isso, desfruta melhor ainda, pois desfruta também sua própria liberdade. Que prazer é fumar, quando podemos prescindir de fumar! Beber, quando não somos prisioneiros do álcool! Fazer amor, quando não somos prisioneiros do desejo! Prazeres mais puros, porque mais livres. Mais alegres, porque mais bem controlados. Mais serenos, porque menos dependentes. É fácil? Claro que não. É possível? Nem sempre, sei do que estou falando, nem para qualquer um.É nisso que a temperança é uma virtude, isto é, uma excelência: ela é aquela cumeada, dizia Aristóteles, entre os dois abismos opostos da intemperança e da insensibilidade, entre a tristeza do desregrado e a do incapaz de gozar, entre o fastio do glutão e o do anoréxico.



A temperança pertence, pois, à arte de desfrutar; é um trabalho do desejo sobre si mesmo, do vivo sobre si mesmo. Ela não visa superar nossos limites, mas respeitá-los. Ela é uma regulação voluntária da pulsão de vida, uma afirmação sadia de nossos poder de existir, em especial do poder de nossa alma sobre os impulsos irracionais de nossos afetos ou de nossos apetites.


A temperança não é um sentimento, é um poder,
isto é, uma virtude.

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André Comte-Sponville | Petit Traité des Grandes Vertus.
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6 de setembro de 2011

O CAMINHO DA AUTOCONFIANÇA

Ontem a minha querida editora do Personare escreveu aos colunistas da Revista pedindo sugestões de artigos sobre autoconfiança. Fiquei pensando no meu instrumento de trabalho, nessa parte indivisível que me é o tarô e matutei sobre o tal conceito. Autoconfiança? De onde vem? Embaralhei os 78 arcanos e pedi, com toda a clareza possível, que o arcano MAIOR que a representa emergisse do leque. Veio O LOUCO, para o espanto de muitos e para o meu sorriso interno. Em dois tempos redigi o artigo e ele já está publicado AQUI. Depois, passeando pela minha biblioteca, me deparei com a Rachel Pollack no seu maravilhoso Tarot Wisdom - Spiritual Teachings and Deeper Meanings, editado pela Llewellyn. Nele ela propõe um rápido método de leitura especialmente baseado no famoso Arcano Sem Número, bem eficaz para elucidar os pontos em que ele surge em nosso caminho. Vamos jogar? Sugiro manter o arcano em questão acima, como se fosse a posição 0 do jogo. Embaralhe os 21 ou os 77 restantes. Ou então permita que o Louco esteja no maço para que ela possa surgir em alguma das posições e ressaltar o seu poder de reflexão. Você escolhe. Disponha os arcanos na ordem numérica [naturalmente] em coluna, de modo que a última casa seja o caminho, os pés do Louco: as dádivas que as andanças proporcionam.


1. Como tenho sido um Louco na minha vida?


2. Como é que isso me ajudou?


3. Como é que isso me machuca?


4. Em que área da minha vida eu preciso ser mais Louco?


5. Onde é que o Louco não me serve?


6. Onde é que eu posso encontrar o Louco fora de mim?


7. Que presentes ele me traz?


O tarô, enquanto extensão do tarólogo e do consulente, é também o próprio caminho caleidoscópico que ele propõe. Variado, polissêmico. Um verdadeiro RPG. E quem o ministra firmemente, creiam, é o Louco. Íntegro em sua sabedoria maltrapilha, fiel às suas capacidades. Lembrei de Joseph Campbell, sempre maravilhoso, que afirmava aos seus estudantes: Follow your bliss. Seguir a nossa bem-aventurança é o único caminho que, além de ininterrupto, nos leva aonde temos que chegar, de verdade.

Aproveitem esses presságios.
Eles são fantásticos para o próprio crescimento até chegarmos a mestres de nós mesmos.



Uma grande jornada,



L.



* o artigo na REVISTA PERSONARE
TAROT E O CAMINHO DA AUTOCONFIANÇA - Exercite sua capacidade de conseguir o que deseja com o arcano O Louco


* crédito das IMAGENS
The Fool - Morgan-Greer Tarot - www.taroteca.multiply.com
The Wanderer - The Wildwood Tarot - the wildwoodtarot.com

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